14 de dezembro de 2017

Capítulo 29

— Olhem — disse o krikkitiano magro e pálido que tinha dado um passo à frente dos outros e estava agora parado, hesitante, no centro do círculo formado pelas lanternas, segurando sua arma como se estivesse apenas segurando-a para uma outra pessoa que tivesse acabado de dar uma saidinha rápida e já fosse voltar —, vocês sabem algo a respeito de uma coisa chamada Equilíbrio da Natureza?
Os prisioneiros não responderam ou pelo menos não responderam nada além de alguns resmungos e murmúrios confusos. As lanternas continuavam balançando em torno deles. Lá em cima, no céu, uma atividade sinistra prosseguia nas Zonas dos Robôs.
— É só — continuou o krikkitiano meio sem jeito — uma coisa da qual ouvimos falar, talvez nem seja importante. Bem, suponho que seja melhor matá-los, então.
Olhou para sua arma como se estivesse procurando o que apertar.
— Quero dizer — continuou, olhando para eles novamente —, a menos que vocês queiram bater papo?
Um assombro lento e dormente subiu pelos corpos de Slartibartfast, Ford e Arthur. Em pouco tempo atingiria seus cérebros, que, no momento, estavam inteiramente ocupados com a atividade de mover seus maxilares para cima e para baixo. Trillian sacudia a cabeça, como se tentasse concluir um quebra-cabeça sacudindo a caixa.
— Estamos preocupados, sabe — disse um outro homem que estava em um dos grupos —, com esse plano de destruição universal.
— Sim — disse um terceiro —, e com o equilíbrio natural. É que nos parece que, se todo o restante do Universo for destruído, de alguma forma vai atrapalhar o equilíbrio da natureza. Nós gostamos muito de ecologia, sabe? — Sua voz morreu, com um tom de tristeza.
— E esportes — disse um outro, alto. Isso fez com que os demais dessem vivas.
— Isso — concordou o primeiro — e esportes... — Ele olhou para trás, para seus amigos, hesitante, e cocou o queixo, pensativo. Parecia estar se debatendo com uma grande confusão interior, como se tudo que ele quisesse dizer e tudo que ele pensasse de fato fossem coisas completamente diferentes, entre as quais não conseguia ver uma conexão.
— Bem — murmurou ele —, alguns de nós... — olhou em volta, procurando sinais de apoio. Os outros o encorajaram a continuar. — Alguns de nós gostariam muito de manter relações desportivas com o restante da Galáxia e, embora eu entenda o argumento a favor de manter esporte e política bem separados, acho que, se queremos ter relações desportivas com o restante da Galáxia, provavelmente seria um erro destruí-la. E também o restante do Universo... — sua voz baixou de volume — ... o que parece ser a ideia geral agora...
— O qqq — disse Slartibartfast. — Oooo...
— Ahhhhh...? — disse Arthur.
— Ehhhh... — disse Ford.
— O.k. — disse Trillian. — Vamos conversar a respeito. — Ela se aproximou e pegou o pobre e confuso krikkitiano pelo braço. Ele parecia ter uns 25 anos, o que significava, por conta das confusões peculiares com o tempo que haviam acontecido naquela área, que ele teria cerca de 20 anos quando as Guerras de Krikkit terminaram, há dez bilhões de anos.
Trillian andou com ele por um curto trecho, passando pelas lanternas, antes de dizer mais alguma coisa. Ele andava com ela, meio confuso. Os fachos de luz em volta estavam agora se inclinando ligeiramente para baixo, como se estivessem se rendendo àquela garota calma e estranha que, sozinha em um Universo de obscura confusão, parecia saber o que estava fazendo.
Ela se virou e olhou para ele, segurando levemente suas duas mãos. Ele era a própria figura da miséria e perplexidade.
— Conte-me — disse ela.
A princípio ele nada disse, enquanto seu olhar passava de um para outro dos olhos dela.
— Nós... — disse ele — nós temos que estar sós... eu acho. — Ele entortou a cara e depois deixou cair sua cabeça para a frente, balançando-a como alguém que estivesse tentando extrair uma moeda de um cofre. Ele olhou para ela novamente.
— Agora nós temos uma bomba, sabe — disse ele —, que é bem pequena.
— Eu sei — disse ela.
Olhou para ela muito espantado, como se ela tivesse dito algo muito estranho sobre beterrabas.
— Sério — disse ele —, ela é muito, muito pequena.
— Eu sei — disse ela novamente.
— Mas eles dizem... — sua voz soava arrastada — dizem que ela é capaz de destruir tudo o que existe. E nós temos que fazer isso, eu acho. Será que ficaremos solitários? Não sei. Mas parece ser a nossa função — disse ele, e abaixou a cabeça novamente.
— Seja lá o que for — disse alguém em um dos grupos.
Trillian lentamente colocou seus braços em volta do pobre e confuso jovem krikkitiano, depois botou sua cabeça trêmula em seu ombro.
— Está tudo bem — disse ela, docemente mas alto o bastante para todos os que estavam em volta ouvirem —, vocês não precisam fazer isso.
Balançou-o levemente em seu ombro.
— Não precisam fazer isso — repetiu. Ela deixou que ele se fosse. — Quero que façam uma coisa por mim — disse ela, soltando uma risada inesperada. — Eu quero — disse e riu novamente. Colocou a mão sobre a boca e depois disse de novo, com uma cara séria: — Quero que me levem a seu líder — e apontou na direção das Zonas de Guerra no céu. De alguma forma ela sabia que o líder deles estaria lá.
Sua risada pareceu descarregar algo na atmosfera. Em algum lugar, lá atrás na multidão, uma única voz começou a cantar uma música que, se tivesse sido composta por Paul McCartney, lhe teria permitido comprar o mundo inteiro.

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