7 de dezembro de 2017

Capítulo 29

Num pequeno mundo obscuro em algum lugar no meio de nenhum lugar em particular — ou seja, nenhum lugar que pudesse ser encontrado, já que estava protegido por um vasto campo de improbabilidade para o qual apenas seis homens na Galáxia tinham a chave — estava chovendo.
Chovia aos baldes, e já fazia horas. A chuva formava uma névoa sobre a superfície do mar, castigava as árvores, revolvia e chafurdava a faixa de terra junto ao mar transformando-a num lodaçal.
A chuva dançava e crivava o teto de zinco de uma pequena choupana que ficava no meio dessa faixa de terra. Destruiu o caminho rústico que levava da cabana à beira do mar, levando as caprichadas pilhas de conchas interessantes que tinham sido postas ali.
O barulho da chuva no telhado da choupana era ensurdecedor do lado de dentro, mas passava despercebido por seu ocupante, cuja atenção estava ocupada com outra coisa. Era um homem alto e desajeitado de cabelos cor de palha, úmidos por causa das goteiras. Tinha roupas surradas, as costas arqueadas, e seus olhos, embora abertos, pareciam estar fechados.
Em sua choupana havia uma velha poltrona gasta, uma velha mesa riscada, um colchão velho, algumas almofadas e um aquecedor pequeno, mas quente.
Havia também um gato velho e mais ou menos surrado, e era ele no momento o foco de atenção do homem. Inclinou seu corpo desajeitado sobre ele.
— Bichano, bichano, bichano — disse —, cutchicutchicutchicutchicu... o bichano quer peixe? Um pedacinho gostoso de peixe... o bichano quer?
O gato parecia indeciso sobre o assunto. Estendeu a pata com certa condescendência para o pedaço de peixe que o homem estava segurando, e então distraiu-se com um chumaço de poeira no chão.
— Se o bichano não come peixe, o bichano fica magrinho e desaparece, eu acho — disse o homem. Transparecia dúvida em sua voz.
— Imagino que seja isso o que acontece — disse —, mas como posso saber?
Ofereceu o peixe outra vez.
— O bichano pensa — disse — se come o peixe ou se não come o peixe. Acho que é melhor se eu não me envolver — suspirou.
— Eu acho que peixe é bom, mas acho também que a chuva é molhada, então quem sou eu para julgar?
Deixou o peixe no chão para o gato, e voltou para seu assento.
— Ah, parece que estou vendo você comer — disse, por fim, quando o gato exauriu as possibilidades de entretenimento do chumaço de poeira e lançou-se sobre o peixe.
— Gosto de ver você comendo peixe — disse o homem — porque na minha mente você vai desaparecer se não comer.
Apanhou na mesa um pedaço de papel e um toco de lápis. Segurou um numa mão e o outro na outra e experimentou os diferentes modos de colocá-los juntos. Tentou segurar o lápis embaixo do papel, e depois em cima, e então do lado. Experimentou embrulhar o lápis com o papel, experimentou esfregar o lado rombudo do lápis contra o papel e então experimentou esfregar o lado pontudo do lápis contra o papel. Fez uma marca, e ele ficou maravilhado com a descoberta, como ficava todo dia. Apanhou outro pedaço de papel na mesa. Este tinha um jogo de palavras-cruzadas. Estudou-o brevemente, preencheu alguns quadrinhos até perder o interesse.
Experimentou sentar sobre uma de suas mãos e ficou intrigado ao sentir os ossos do quadril.
— O peixe vem de longe — disse — ou é o que me dizem. Ou é o que imagino que me dizem. Quando os homens vêm, ou quando em minha mente os homens vêm em suas seis naves negras reluzentes, eles vêm em sua mente também? O que você vê, bichano?
Olhou para o gato, que estava mais preocupado em engolir o peixe o mais rápido que pudesse do que com estas especulações.
— E quando ouço as perguntas, você ouve as perguntas? O que significam as vozes deles para você? Talvez você só pense que estão cantando cantigas para você. — Refletiu sobre isso e viu a falha da suposição.
— Talvez eles estejam cantando cantigas para você — disse — e eu só penso que eles estão me fazendo perguntas.
Fez uma outra pausa. Às vezes fazia uma pausa que durava dias, só para ver como seria.
— Você acha que eles vieram hoje? — disse. — Eu acho. Tem barro no chão, cigarros e uísque em cima da mesa, peixe num prato para você e uma lembrança deles na minha mente. Evidências não muito conclusivas, eu sei, mas toda evidência é circunstancial. E olhe o que mais eles me deixaram.
Alcançou algumas coisas sobre a mesa.
— Palavras-cruzadas, dicionários e uma calculadora.
Brincou com a calculadora durante uma hora, enquanto o gato foi dormir e a chuva lá fora continuava a cair. A uma certa altura pôs a calculadora de lado.
— Acho que devo estar certo em achar que eles me fazem perguntas — disse. — Vir até aqui e trazer todas estas coisas só pelo privilégio de cantar cantigas para você seria um comportamento muito estranho. Ou assim me parece. Quem pode saber, quem pode saber?
Pegou um cigarro de cima da mesa e acendeu com uma brasa do aquecedor. Deu uma tragada profunda e recostou-se na poltrona.
— Acho que vi outra nave no céu hoje — disse por fim. — Uma nave grande. Eu nunca vi uma nave grande branca, só as seis pretas. E as seis verdes. E as outras que dizem que vêm de muito longe. Nunca uma grande e branca. Talvez seis pretas pequenas possam parecer uma grande branca em certas ocasiões. Talvez eu queira um copo de uísque. É, parece mais provável.
Levantou-se e achou um copo que estava no chão ao lado de seu colchão. Serviu uma dose da garrafa. Sentou-se de novo.
— Talvez outras pessoas estejam vindo me ver — disse.
A cento e cinquenta metros dali, golpeada pela chuva torrencial, encontrava-se a nave Coração de Ouro.
Ao abrir-se a escotilha emergiram três figuras, agarrados um ao outro para protegerem seus rostos da chuva.
— Ali? — gritou Trillian por sobre o barulho da chuva.
— É — disse Zarniwoop.
— Naquela choupana?
— É.
— Que esquisito — disse Zaphod.
— Mas fica no meio do nada — disse Trillian. — A gente deve ter vindo ao lugar errado. Não dá para reger o Universo de uma choupana.
Correram pela chuva que caía e chegaram, completamente ensopados, à porta. Bateram. Estavam tremendo. A porta se abriu.
— Olá? — disse o homem.
— Ah, desculpe — disse Zarniwoop —, tenho motivos para acreditar...
— Você rege o Universo? — disse Zaphod.
O homem sorriu para ele.
— Tento não reger — disse. — Vocês estão molhados?
Zaphod olhou para ele assombrado.
— Molhados? — gritou. — Não parece que estamos molhados?
— É o que me parece — disse o homem —, mas como vocês se sentem a esse respeito poderia ser uma questão completamente diferente. Se acharem que o calor os secará, é melhor entrarem.
Entraram.
Espiaram a cabana por dentro, Zarniwoop com aversão, Trillian com interesse, Zaphod deliciado.
— Ei, ahn... — disse Zaphod — qual é seu nome?
O homem olhou para eles em dúvida.
— Não sei. Por que vocês acham que eu haveria de ter um? Parece-me muito estranho dar um nome a um amontoado de vagas percepções sensoriais.
Convidou Trillian a sentar-se na poltrona. Ele se sentou na beirada, Zarniwoop recostou-se rigidamente contra a mesa e Zaphod estendeu-se no colchão.
— Uauí! — disse Zaphod. — O assento do poder! — Fez cócegas no gato.
— Ouça — disse Zarniwoop —, tenho que lhe fazer algumas perguntas.
— Está bem — disse gentilmente o homem. — Pode cantar para meu gato se quiser.
— Ele gostaria? — perguntou Zaphod.
— É melhor perguntar para ele — disse o homem.
— Ele fala? — perguntou Zaphod.
— Não tenho lembrança dele falando — disse o homem —, mas sou bastante falível.
Zarniwoop tirou algumas anotações do bolso.
— Agora — disse ele —, o senhor rege o Universo, não rege?
— Como posso saber? — disse o homem.
Zarniwoop fez um sinal diante de uma anotação no papel.
— Há quanto tempo o senhor faz isso?
— Ah — disse o homem —, essa é uma pergunta sobre o passado, não?
Zarniwoop olhou para ele, confuso. Não era isso exatamente o que esperava.
— Ê — disse.
— Como posso saber — disse o homem —, se o passado não é uma ficção projetada para explicar a discrepância entre minhas sensações físicas imediatas e meu estado de espírito?
Zarniwoop cravou os olhos nele. O vapor começava a subir de suas roupas encharcadas.
— Então você responde todas as perguntas desse jeito? — perguntou.
O homem respondeu rápido.
— Digo o que me ocorre dizer quando acho que ouço as pessoas dizerem coisas. Mas eu não posso dizer.
Zaphod riu alegremente.
— Vou beber isso — disse, e pegou a garrafa de aguardente Janx. Levantou-se de um salto e ofereceu a garrafa ao homem que rege o Universo, que a pegou com prazer.
— Muito bem, grande regente — disse. — Conte as coisas como as coisas são!
— Não, escute-me — disse Zarniwoop —, vêm pessoas ver você, não? Em naves...
— Acho que sim — disse o homem. Entregou a garrafa a Trillian.
— E eles lhe pedem — disse Zarniwoop — para tomar decisões para eles? Sobre as vidas das pessoas, sobre os mundos, sobre economia, sobre guerras, sobre tudo o que se passa no Universo lá fora?
— Lá fora? — disse o homem. — Onde?
— Lá fora! — disse Zarniwoop apontando para a porta.
— Como você sabe que tem alguma coisa lá fora? — disse o homem educadamente. — A porta está fechada.
A chuva continuava a golpear o teto. Dentro da choupana estava quente.
— Mas você sabe que existe um Universo inteiro lá fora! — gritou Zarniwoop. — Você não pode esquivar-se de suas responsabilidades dizendo que elas não existem!
O homem que rege o Universo pensou por um longo tempo enquanto Zarniwoop trepidava de raiva.
— Você tem muita certeza de seus fatos — disse por fim. — Eu não confiaria num homem que conta com o Universo, se é que existe um, como algo certo.
Zarniwoop ainda trepidava, mas estava em silêncio.
— Eu apenas decido sobre o meu Universo — prosseguiu o homem calmamente. — Meu Universo são meus olhos e meus ouvidos. Qualquer coisa fora disso é boato.
— Mas você não crê em nada?
O homem sacudiu os ombros e apanhou seu gato.
— Não entendo o que você quer dizer — disse.
— Você não entende que o que decide nesta choupana afeta as vidas e os destinos de milhões de pessoas? Isto tudo está monstruosamente errado!
— Não sei. Nunca vi essas pessoas todas de que você fala. E nem você, suspeito. Elas existem apenas nas palavras que ouvimos. É loucura você dizer que sabe o que está acontecendo com as outras pessoas. Só elas sabem, se existirem. Elas têm seus próprios Universos de seus olhos e seus ouvidos.
Trillian disse:
— Acho que vou dar uma saída lá fora por um momento.
Saiu e foi andar na chuva.
— Você acredita que existem outras pessoas? — insistiu Zarniwoop.
— Não tenho opinião. Como posso saber?
— É melhor eu ir ver o que há com Trillian — disse Zaphod, e saiu.
Lá fora ele disse para ela:
— Acho que o Universo está em boas mãos, ehn?
— Muito boas — disse Trillian. Foram andando pela chuva.
Lá dentro, Zarniwoop continuava.
— Mas você não entende que as pessoas vivem ou morrem pela sua palavra?
O homem que rege o Universo esperou o quanto pôde. Quando ouviu o som débil dos motores da nave sendo ligados, falou para encobri-lo.
— Não tem nada a ver comigo — disse —, não estou envolvido com as pessoas. Deus sabe que não sou um homem cruel.
— Ah — vociferou Zarniwoop —, você diz “Deus”. Você acredita em alguma coisa!
— Meu gato — disse o homem benignamente, pegando-o e acariciando-o. — Eu o chamo de Deus. Sou bom para ele.
— Muito bem — disse Zarniwoop, pressionando. — Como você sabe que ele existe? Como você sabe que ele sabe que você é bom, ou que ele gosta daquilo que ele acha que é sua bondade?
— Eu não sei — disse o homem com um sorriso —, não tenho ideia. Simplesmente me agrada agir de uma certa maneira com o que me parece ser um gato. Você se comporta de outro jeito? Por favor, acho que estou cansado.
Zarniwoop suspirou completamente insatisfeito e olhou à sua volta.
— Onde estão os outros dois? — disse de repente.
— Que outros dois? — disse o homem que rege o Universo, recostando-se na poltrona e enchendo o copo de uísque.
— Beeblebrox e a garota! Os dois estavam aqui!
— Não me lembro de ninguém. O passado é uma ficção para explicar...
— Esqueça — rosnou Zarniwoop e saiu correndo na chuva. Não havia nave. A chuva continuava a revolver a lama. Não havia sinal que mostrasse onde tinha estado a nave. Ele gritou na chuva. Virou-se e correu de volta para a choupana e a encontrou trancada.
O homem que rege o Universo cochilava em sua poltrona. Depois de um tempo brincou com o lápis e o papel outra vez e ficou encantado ao descobrir como fazer uma marca com um no outro. Havia vários barulhos vindos do lado de fora mas ele não sabia se eram reais ou não. Ficou então falando com a mesa durante uma semana para ver como ela reagiria.

Um comentário:

  1. Alguém sem opinião e crenças rege o universo? Ou a crença de que não possuí crenças é uma crença que anula a não crença e uma opinião que anula a não opinião?
    .-.

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Boa leitura :)