17 de dezembro de 2017

Capítulo 27

— Isso tudo é maravilhoso — disse Fenchurch alguns dias depois. — Mas eu realmente preciso saber o que aconteceu comigo. Sabe, essa é a diferença entre nós dois. Você perdeu alguma coisa e encontrou novamente e eu encontrei alguma coisa e depois a perdi. Preciso encontrá-la novamente.
Ela teve de sair o dia todo, então Arthur se programou para passar o dia pendurado no telefone.
Murray Bost Henson era um jornalista que trabalhava em um daqueles jornais com páginas pequenas e letras grandes. Seria bom poder dizer que aquilo não o afetava, porém, infelizmente, não era o caso. Como era o único jornalista que Arthur conhecia, decidiu telefonar para ele mesmo.
— Arthur, minha velha colher de sopa, minha velha sopeira de prata, que maravilha ouvir a sua voz. Alguém me disse que você tinha ido para o espaço ou algo assim.
Murray tinha um jeito peculiar de falar, que ele inventara para o seu próprio uso e que ninguém mais conseguia imitar. Sequer entender. A maior parte não significava absolutamente nada mesmo. E as partes que de fato tinham algum significado estavam tão incrivelmente soterradas em uma avalanche de absurdos que ninguém conseguia identificá-las no meio daquilo. Quando você finalmente percebia, bem mais tarde, quais eram as partes importantes, normalmente já era tarde demais para todos os envolvidos.
— O quê? — perguntou Arthur.
— Só um boato, minha velha presa de elefante, minha mesinha de cartas de baeta verde, só um boato. Provavelmente não quer dizer nada, mas eu posso precisar de uma declaração sua a respeito.
— Não tenho nada a declarar, isso é conversa de botequim
— Nós vivemos disso, meu velho membro protético, nós vivemos disso. E, depois, isso se encaixaria perfeitamente de alguma forma com uma das outras coisas nas histórias dessa semana; portanto, se você negasse tudo, estaria ótimo. Com licença, acabou de cair alguma coisa do meu ouvido.
Houve uma ligeira pausa e logo depois Murray Bost Henson voltou ao telefone, com a voz genuinamente abalada.
— Acabei de me lembrar — disse ele — que noite estranha eu tive ontem. De qualquer forma, meu velho, não vou contar. Como foi andar no Cometa de Halley?
— Eu não andei no Cometa de Halley — respondeu Arthur, contendo um suspiro.
— O.k., como foi não ter andado no Cometa de Halley?
— Bastante confortável, Murray.
Houve uma pausa, enquanto Murray anotava.
— Bom para mim, Arthur, bom para Ethel, para mim e para as galinhas. E se encaixa bem com o surrealismo geral da semana. Semana Surreal, estamos pensando em chamá-la assim. Bom, né?
— Muito bom.
— Soa bem. Primeiro, tivemos esse cara que atrai a chuva
— O quê?
— É a mais pura verdade. Tudo documentado no caderninho preto, tudo comprovado em cada detalne delicioso. O Serviço de Meteorologia está como um manequim azombado subindo pelas paredes e homenzinhos esquisitos vestindo jalecos brancos estão pegando aviões nos quatro cantos do mundo, com as suas pequenas réguas e caixas e refeições rápidas. Esse cara é o joelho da abelha, Arthur, é o mamilo da vespa. Ele é, eu chegaria ao ponto de dizer, o conjunto completo das zonas erógenas de todos os insetos do mundo ocidental. Nós o estamos chamando de Deus da Chuva. Legal, né?
— Acho que conheci ele.
— Isso me soa bem. O que você disse?
— É possível que eu o tenha conhecido. Reclama o tempo todo, não é?
— Incrível! Você conhece o Deus da Chuva?
— Se for o mesmo cara. Eu disse a ele para parar de reclamar e mostrar o caderninho dele para alguém.
Murray Bost Henson fez uma pausa impressionada do outro lado da linha.
— Bom, você gerou fortunas. Você gerou grandes fortunas. Escuta, sabe quanto um agente de turismo está pagando para esse sujeito não ir a Málaga esse ano? Quero dizer, esqueça a parte de irrigar o Saara e outras coisas sem graça, esse sujeito tem uma carreira inteiramente nova à sua frente, simplesmente evitando ir aos lugares e sendo pago por isso. O cara esta virando um fenômeno, Arthur, talvez até tenhamos que fazê-lo ganhar na loteria. Escuta, é possível que a gente queira fazer uma matéria com você: Arthur, O Homem que Fez o Deus da Chuva Chover. Soa bem não é?
— É, mas...
— Talvez tenhamos que fotografar você debaixo de uma mangueira de jardim, mas vai ficar bom. Onde você está?
— Ah estou em Islington. Escuta, Murray...
— Isligton!
— É... Isligton!
— Bom, e sobre o acontecimento realmente mais surreal da semana, a verdadeira maluquice absoluta. Você sabe alguma coisa sobre essas pessoas voadoras?
— Não.
— Você deve saber. Essa é a viagem mais pancada de todos os tempos. É a verdadeira azeitona na empada. Os moradores não param de ligar para cá para dizer que tem um casal que passa as noites voando. Já colocamos uns fotógrafos trabalhando sem parar nos nossos laboratórios para conseguirem uma foto decente. Você deve ter ouvido.
— Não.
— Arthur, por onde você andou? Ah, é, no espaço, já peguei a sua declaração. Mas isso foi há meses. Escuta, isso foi noite após noite nesta semana, meu velho ralador de queijo, bem aí na sua área. O casal
fica voando por aí, fazendo de tudo o que você puder imaginar. E não estou falando de espiar pelas paredes ou fingir que são pontes de viga. Você está realmente por fora?
— Sim.
— Arthur, foi quase inexprimivelmente delicioso conversar com você, chumbum, mas tenho que desligar. Eu vou mandar um cara com a câmera e a mangueira. Me passa o endereço, estou com papel e caneta na mão.
— Escuta, Murray, eu liguei para te pedir uma coisa.
— Estou cheio de coisas para fazer, Arthur.
— Eu só queria saber uma coisa sobre os golfinhos.
— Notícia velha. Ano passado. Esqueça os golfinhos. Eles se foram.
— É importante.
— Escuta, ninguém vai falar sobre isso. Vê se me entende, não dá para sustentar uma história quando a única notícia é a contínua ausência do assunto da história, sabe? Está fora da nossa praia, de qualquer maneira. Tente o Sundays. Talvez eles façam uma matéria no gênero “Que Fim Levou. Que Fim Levaram os Golfinhos'“ daqui a uns dois anos, lá para agosto. Mas... agora? Fazer o quê? “Os Golfinhos Continuam Sumidos”? “A Ausência dos Golfinhos Continua”? “Golfinhos — Mais Dias sem Eles”? A história morre, Arthur. Ela tomba no chão e sacode os seus pezinhos para cima e logo, logo vai para a grande espiga dourada no céu, meu velho morcego.
— Murray, eu não estou interessado se existe ou não uma história. Só quero saber como faço para entrar em contato com aquele cara na Califórnia, que diz saber alguma coisa sobre o assunto. Pensei que você pudesse me ajudar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!