14 de dezembro de 2017

Capítulo 26

— Não sei — disse Zaphod, pensando que devia ser a trigésima sétima vez que dizia aquilo —, eles podiam ter me matado, mas não mataram. Talvez tenham pensado que eu era um cara incrível ou algo assim. É algo que posso entender.
Os outros registraram mentalmente suas opiniões sobre essa teoria.
Zaphod estava deitado no chão frio da cabine de comando. Suas costas pareciam estar brigando com o chão, porque sentia uma dor percorrendo seu corpo e batendo em suas cabeças.
— Acho — murmurou — que tem algo de errado com esses carinhas anodizados, algo fundamentalmente estranho.
— Eles foram programados para matar todo mundo — afirmou Slartibartfast.
— Este — disse Zaphod, arquejante — pode mesmo ser o problema.
Ainda assim, não parecia totalmente convencido.
— Alô, querida — disse para Trillian, esperando que isso servisse como desculpa para seu comportamento anterior.
— Você está bem? — disse ela, gentilmente.
— Sim — respondeu —, tudo bem.
— Ótimo — disse ela e se afastou para pensar. Olhou para a enorme tela de visualização acima dos assentos de voo e, girando um botão, mudou as imagens locais que estavam sendo exibidas. Uma imagem era da escuridão da Nuvem de Poeira. Outra era do sol de Krikkit. Uma terceira era de Krikkit em si. Ficava passando de uma para a outra rapidamente.
— Bem, melhor dizermos adeus à Galáxia, então — disse Arthur, batendo nos joelhos e levantando-se.
— Não — disse Slartibartfast gravemente. — Nosso rumo está claro. — Franziu a testa a tal ponto que seria possível cultivar alguns vegetais pequenos em seus sulcos. Levantou-se, andou de um lado para o outro. Quando falou outra vez, aquilo que disse o deixou tão assustado que teve que se sentar de novo. — Devemos descer em Krikkit — disse. Um suspiro profundo sacudiu seu velho esqueleto e seus olhos pareceram tremer nas órbitas. — Mais uma vez — prosseguiu — falhamos pateticamente. Muito pateticamente.
— Isso — disse Ford, calmamente — é porque não nos importamos o bastante. Eu já lhe disse.
Colocou seus pés sobre o painel de instrumentos e ficou futucando algo em uma de suas unhas.
— No entanto, se não agirmos — disse o velho em tom de birra, como se lutasse com alguma coisa profundamente displicente em sua própria natureza —, então seremos todos destruídos, iremos todos morrer. Acho que nos importamos com isso, não?
— Não o suficiente para morrermos por isso — disse Ford. Abriu um sorriso vazio e lançou-o de um lado para o outro da sala, para quem quisesse vê-lo.
Slartibartfast claramente achou esse ponto de vista muito sedutor e lutou contra ele. Virou-se de novo para Zaphod, que estava rangendo os dentes e suando de dor.
— Você certamente tem alguma ideia — disse — sobre a razão de terem salvado a sua vida. Parece muito estranho e incomum.
— Acho que nem mesmo eles sabem — disse Zaphod, indiferente. — Já lhe disse. Me acertaram com o disparo mais fraco apenas para me deixar desacordado. Daí me arrastaram até a nave deles, me jogaram em um canto e me ignoraram completamente. Como se estivessem meio envergonhados por eu estar ali. Se dissesse qualquer coisa, me tiravam do ar de novo. Tivemos ótimas conversas. “Ei... ai! E aí... ui! Queria saber... argh!” Isso me manteve distraído durante várias horas, sabe — Fez outra careta de dor.
Estava brincando com um objeto entre seus dedos. Segurou-o. Era a Trave Dourada — o Coração de Ouro, o centro do Motor de Improbabilidade Infinita. Apenas aquilo e o Pilar de Madeira haviam permanecido intactos após a destruição da Fechadura.
— Me disseram que sua nave anda bem — disse Zaphod. — Então que tal me deixar na minha antes que você ...
— Você não vai nos ajudar? — disse Slartibartfast.
— Nós? — perguntou Ford, subitamente. — Nós quem, cara-pálida?
— Eu adoraria ficar e ajudá-lo a salvar a Galáxia — insistiu Zaphod, apoiando-se nos cotovelos —, mas tenho a maior dor de cabeça de todos os tempos e pressinto que há várias outras vindo por aí. Mas, da próxima vez que for preciso salvá-la, é comigo mesmo. E aí, Trillian?
Ela olhou para trás rapidamente.
— Sim?
— Quer vir? Coração de Ouro? Diversão e aventura e coisas exóticas?
— Vou descer em Krikkit — respondeu ela.

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