7 de dezembro de 2017

Capítulo 26

Aquela noite a nave colidiu com um planetinha azul-esverdeado completamente insignificante que dava voltas em torno de um pequeno sol amarelo nos confins inexplorados da extremidade do braço espiral ocidental da Galáxia.
Nas horas que antecederam a colisão Ford Prefect tinha lutado furiosamente, mas em vão, para destravar os controles da nave e tirá-la de sua rota preestabelecida. Tornara-se rapidamente aparente para ele que a nave tinha sido programada para entregar a carga em segurança, ainda que sem muito conforto, ao seu novo lar, mas estraçalhar-se irreparavelmente no processo.
Sua descida em chamas através da atmosfera destruíra a maior parte da superestrutura e da blindagem exterior, e o inglório mergulho de barriga num pântano lodacento deixou à população apenas algumas horas de escuridão para reviver e desembarcar a carga congelada e indesejada, pois a nave começava a afundar, enrijecendo seu corpo vagarosamente na lama estagnada. De vez em quando, durante a noite, sua silhueta aparecia recortada quando meteoros flamejantes — detritos de sua queda — riscavam o céu.
Na luz cinzenta antes do alvorecer, com um ruído obsceno, a nave afundou para sempre nas malcheirosas profundezas.
Quando o sol se levantou aquela manhã, lançou sua luz aguada e rarefeita sobre uma vasta área tomada por cabeleireiros, executivos de relações públicas, pesquisadores de opinião e os demais, todos gemendo e arrastando-se desesperadamente para a terra seca.
Um sol menos decidido teria provavelmente voltado direto para trás, mas este continuou seu caminho céu acima e após um tempo a influência de seus raios quentes começou a ter um efeito restaurador naquelas criaturas rastejantes.
Como não é de surpreender, um número incontável deles perdera-se no pântano durante a noite, e milhões de outros foram engolidos juntos com a nave, mas os que sobreviveram ainda se contavam às centenas de milhares e conforme o dia avançava, arrastavam-se para as terras dos arredores à procura de alguns metros quadrados de chão firme onde cair e se recuperar do pesadelo.
Duas figuras moveram-se mais para diante. De uma colina próxima Ford Prefect e Arthur Dent assistiram ao horror do qual não se sentiam parte.
— Que golpe imundo de se aplicar — murmurou Arthur.
Ford riscava o chão com uma vareta e sacudiu os ombros.
— Uma solução criativa para um problema, eu diria.
— Por que as pessoas não podem simplesmente aprender a viver juntas em paz e harmonia? — disse Arthur.
Ford deu uma gargalhada muito alta.
— Quarenta e dois! — disse, com um sorriso malicioso. — Não, não serve. Deixa pra lá.
Arthur olhou para ele como se ele tivesse enlouquecido e, não vendo nada que indicasse o contrário, concluiu que seria perfeitamente razoável assumir que isto tinha de fato ocorrido.
— O que você acha que vai acontecer com eles? — disse, depois de um instante.
— Num Universo infinito tudo pode acontecer — disse Ford. — Até a sobrevivência. Estranho, mas verdadeiro.
Um olhar curioso apareceu em seus olhos ao passarem pela paisagem e retornarem à cena de miséria abaixo deles.
— Acho que eles vão se dar bem por um tempo — disse.
Arthur dirigiu-lhe um olhar aguçado.
— Por que você diz isso? — perguntou.
Ford sacudiu os ombros.
— Só um palpite — disse, recusando-se a ser levado por outras perguntas.
— Olhe — disse ele de repente.
Arthur seguiu seu dedo indicador. Lá embaixo, entre as massas escarrapachadas, uma figura se movimentava — ou cambaleava talvez fosse uma expressão mais exata. Parecia estar carregando algo sobre os ombros. Conforme cambaleava de uma forma prostrada para outra, parecia acenar com o que quer que estivesse carregando, como um bêbado. Após um tempo, desistiu do esforço e desmaiou num tombo.
Arthur não tinha ideia do que isso queria dizer.
— Câmera de filmar — disse Ford. — Registrando o momento histórico.
— Bom, não sei quanto a você — disse Ford mais uma vez, após um instante — mas eu estou perdido.
Ficou em silêncio por um tempo. Depois de um tempo, isso parecia requerer um comentário.
— Ahn, quando você diz que está perdido, o que quer dizer exatamente? — disse Arthur.
— Boa pergunta — disse Ford. — Estou captando silêncio total.
Olhando por cima dos ombros Arthur viu que ele estava mexendo nos botões de uma caixa preta. Ford já tinha apresentado a caixa para Arthur como um Receptor Sensomático de Subéter, mas Arthur tinha meramente balançado a cabeça, absorto, e não tinha ligado para o assunto. Na sua mente o Universo ainda se dividia em duas partes — a Terra, e todo o resto. Como a Terra tinha sido demolida para dar lugar a uma via expressa hiperespacial, sua visão das coisas estava um pouco desequilibrada, mas Arthur tendia a agarrar-se a esse desequilíbrio como o último contato restante com o lar. O Receptor Sensomático de Subéter pertencia firmemente à categoria de “todo o resto”.
— Nada, nem uma salsicha — disse a Arthur, sacudindo o aparelho.
Salsicha, pensou Arthur enquanto contemplava indiferentemente o mundo primitivo à sua volta, o que não daria por uma boa salsicha da Terra.
— Você acredita — disse Ford, exasperado — que não há nenhuma transmissão de nenhum tipo a anos-luz deste lugar obscuro? Você está me ouvindo?
— O quê? — disse Arthur.
— Estamos com problemas — disse Ford.
— Ah — disse Arthur. Isso parecia notícia velha de um mês para ele.
— Até a gente captar alguma coisa neste aparelho — disse Ford — nossas chances de sairmos deste planeta são nulas. Pode ser algum efeito de interferência no campo magnético do planeta e, nesse caso, é só a gente viajar e viajar até encontrar uma área de boa recepção. Vamos?
Apanhou o aparelho e se levantou.
Arthur olhou colina abaixo. O homem com a filmadora tinha acabado de erguer-se num esforço a tempo de filmar um de seus colegas desmaiando.
Arthur arrancou uma folha de capim e levantou-se atrás de Ford.

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Boa leitura :)