26 de dezembro de 2017

Capítulo 25

— Aqui, número quarenta e dois — berrou Ford Prefect para o motorista de táxi. — É aqui!
O táxi freou bruscamente e Ford e Arthur desceram apressados. Haviam parado em vários caixas automáticos pelo caminho. Ford jogou um punhado de notas em cima do motorista pela janela.
A entrada do clube era escura, elegante e sóbria. O seu nome estava escrito em uma placa minúscula. Os sócios sabiam o endereço e os não sócios não precisavam saber.
Ford Prefect não era sócio do Stavro’s, apesar de ter ido uma vez ao seu outro clube em Nova York. Tinha um método bem simples para lidar com lugares dos quais não era sócio. Simplesmente adentrava o local assim que a porta abria, apontava para Arthur e dizia: “Tudo bem, ele está comigo.”
Desceu as escadas escuras e polidas aos saltos, sentindo-se o máximo com seus sapatos novos. Eram de camurça azul e Ford estava satisfeito porque, apesar de tudo o que estava acontecendo, tivera olhos de lince para notá-los na vitrine da loja, do banco de trás de um táxi em alta velocidade.
— Eu não te disse para não vir aqui?
— O quê? — perguntou Ford.
Um homem magro, com aparência de doente, usando trajes largos e italianos e acendendo um cigarro, cruzou com eles subindo a escada e parou, bruscamente.
— Você, não — respondeu o sujeito. — Ele.
Olhou para Arthur, depois ficou um pouco confuso.
— Desculpe — disse, então. — Acho que o confundi com outra pessoa. — Começou a subir as escadas novamente, mas mal deu outro passo. Virou-se para trás, ainda mais intrigado. Olhou fixamente para Arthur.
— O que foi agora? — perguntou Ford.
— O que você disse?
— Eu disse “o que foi agora?” — repetiu Ford, irritado.
— É, acho que sim — disse o homem, cambaleando e deixando cair a caixa de fósforos que carregava.
Moveu os lábios vagarosamente e passou a mão pela testa.
— Desculpe — repetiu ele. — Estou tentando desesperadamente me lembrar qual foi a droga que eu tomei, mas deve ter sido uma daquelas que embaralham a memória. — Balançou a cabeça, virou-se novamente e subiu para o banheiro masculino.
— Vamos — disse Ford. Desceu as escadas correndo, com Arthur nervosamente na sua cola. Aquele encontro havia mexido muito com ele, mas não sabia dizer o motivo.
Não gostava de lugares como aquele. Apesar de todos os sonhos de voltar para a Terra e para casa durante tantos anos, agora sentia uma saudade louca da sua cabana em Lamuella, das suas facas e dos seus sanduíches. Sentia saudades até mesmo do Velho Thrashbarg.
— Arthur!
Era um efeito impressionante. Alguém acaba de gritar o seu nome em estéreo.
Virou-se para trás. No alto da escada, vindo em sua direção, estava Trillian, usando a sua lindamente amarrotada Rymplom TM. Parecia subitamente chocada.
Arthur virou-se para trás para ver o que a estava deixando chocada.
No alto da escada estava Trillian, usando... Não, essa é Tricia. A Tricia que Arthur tinha acabado de ver, histérica e confusa, na televisão. E atrás dela estava Random, parecendo estar mais desvairada do que nunca. Mais atrás, nos fundos do clube parcamente iluminado e chique, os outros clientes compunham um quadro estático, contemplando, tensos, o confronto na escadaria. Por alguns segundos, todos permaneceram parados, imóveis. Apenas a música que vinha de trás do bar não sabia como parar.
— Essa arma na mão dela — disse Ford em voz baixa, fazendo um gesto contido na direção de Random — é uma Wabanatta 3. Estava na nave que ela roubou de mim. É bastante perigosa, para falar a verdade. Não se mexa por enquanto. Vamos ficar calmos e descobrir o que está chateando a menina.
— Onde é que eu me encaixo? — gritou Random, de repente. A mão que segurava a arma tremia loucamente. A mão livre vasculhou o bolso e apanhou o que sobrara do relógio de Arthur. Sacudiu na frente deles.
— Achei que me encaixasse aqui — gritou Random — no mundo em que fui feita! Mas acontece que nem a minha mãe sabe quem eu sou! — Ela jogou o relógio longe, violentamente, e ele se despedaçou contra os copos atrás do bar, as peças voando para todos os lados.
Todos ficaram quietos por mais alguns momentos.
— Random — disse Trillian, calmamente, do alto da escada.
— Cala a boca! — berrou Random. — Você me abandonou!
— Random, é importante que você preste atenção no que eu vou dizer e entenda — insistiu Trillian, calma. — Não temos muito tempo. Temos que partir. Temos todos que ir embora.
— Do que você está falando? Estamos sempre partindo! — Agora estava segurando a arma com as duas mãos e ambas tremiam. Não estava apontando para ninguém específico. Estava apontando para o mundo em geral.
— Escuta — tentou Trillian novamente. — Eu te deixei porque fui cobrir uma guerra para a emissora. Era extremamente perigoso. Pelo menos, eu pensei que fosse ser. Eu cheguei lá e a guerra havia subitamente deixado de acontecer. Houve uma anomalia temporal e... escuta! Por favor, escuta! Uma nave de guerra responsável pelo reconhecimento não apareceu, o resto da frota se dispersou em uma bagunça patética. Acontece o tempo todo agora.
— Não me interessa! Não quero saber do seu maldito trabalho! — berrou Random. — Eu quero um lar! Quero pertencer a algum lugar!
— Este não é o seu lar — disse Trillian, ainda mantendo a sua voz calma. — Você não tem lar. Nenhum de nós tem. Praticamente ninguém mais tem. A nave desaparecida de que eu estava falando, as pessoas dessa nave não têm um lar. Não sabem de onde vieram. Sequer lembram quem são ou o que devem fazer. Estão completamente perdidas, confusas, assustadas. Estão aqui neste sistema solar e estão prestes a fazer algo muito... equivocado, porque estão perdidas e confusas. Temos... que... partir... agora. Não sei dizer para onde. Talvez não haja lugar nenhum. Mas não podemos ficar aqui. Por favor. Só mais uma vez. Podemos ir?
Random estava tremendo, em pânico e confusa.
— Está tudo bem — disse Arthur, delicadamente. — Se eu estou aqui, estamos seguros. Não me peçam para explicar agora, mas eu estou seguro, então vocês também estão. Está bem?
— Como assim? — perguntou Trillian.
— Vamos relaxar, pessoal — disse Arthur. Estava muito tranquilo. A sua vida era encantada e nada daquilo parecia real.
Devagarzinho, aos poucos, Random começou a relaxar e abaixou a arma, lentamente.
Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
A porta do banheiro masculino no alto das escadas se abriu e o homem que abordara Arthur saiu de lá, fungando.
Assustada com aquele movimento brusco, Random levantou a arma novamente justo na hora em que um homem, parado atrás dela, tentou apanhá-la.
Arthur se jogou na frente. Houve uma explosão ensurdecedora. Caiu de mau jeito quando Trillian arremessou-se sobre ele. O barulho cessou. Arthur suspendeu a cabeça a tempo de ver o homem parado no alto da escada olhando para ele absolutamente estupefato.
— Você... — disse ele. Então, lentamente, terrivelmente, ele tombou.
Random largou a arma e caiu no chão de joelhos, chorando.
— Sinto muito! — disse ela. — Sinto muito! Sinto tanto...
Tricia foi até ela. Trillian foi até ela.
Arthur estava sentado na escada, com a cabeça entre as mãos e não fazia a menor ideia do que fazer.
Ford estava sentado atrás dele. Apanhou uma coisa do chão, olhou com interesse e passou para Arthur.
— Isto aqui significa alguma coisa para você? — perguntou ele.
Arthur apanhou. Era a caixinha de fósforos que o morto deixara cair. O nome do clube estava escrito nela. E o nome do proprietário também. Estava escrito assim: STAVRO MUELLER BETA
Contemplou a caixa de fósforos por algum tempo, enquanto as coisas começavam a se encaixar na sua cabeça. Não sabia o que deveria fazer, mas isso não tinha mais importância. À sua volta, as pessoas estavam começando a correr e a gritar, mas de repente percebeu que não havia mais nada a ser feito, nem agora nem nunca. Perante aquela novidade de sons e luzes, ele só conseguia distinguir a silhueta de Ford Prefect jogando a cabeça para trás e rindo loucamente.
Uma incrível sensação de paz o inundou. Sabia que, finalmente, pela primeira e última vez, tudo estava definitivamente acabado.
Na escuridão da ponte de comando, no coração da nave vogon, Prostetnic Vogon Jeltz estava sentado, sozinho. Luzes piscavam nas telas de monitoria externa que cobriam uma parede inteira. Acima dele, no ar, as descontinuidades em formato de salsicha azul e verde haviam sumido. Opções caíam por terra, possibilidades se dobravam umas dentro das outras e todo o resto finalmente deixou de existir.
Uma escuridão incrivelmente profunda caiu sobre a nave. O capitão vogon permaneceu sentado, imerso no breu, por alguns segundos.
— Luz — disse ele.
Não teve nenhuma resposta. O pássaro também deixara de existir.
O vogon acendeu a luz por conta própria. Apanhou o pedaço de papel novamente e deu um pequeno tique no quadradinho.
Bom, missão cumprida. A sua nave desapareceu furtiva no vazio negro.
Apesar de ter tomado o que ele considerava uma atitude extremamente positiva, o líder grebulon acabou tendo um péssimo mês de qualquer jeito. Foi basicamente igual aos meses anteriores, exceto que agora não havia mais nada na televisão. Para substituí-la.

3 comentários:

  1. TODO MUNDO MORREU, E ACABOU!

    Não, não tem uma continuação (oficial), acaba aqui mesmo, você não leu na ordem errada, este é o quinto e último livro da triologia (entendedores entenderão)!
    Seis vezes sete é igual a quarenta e dois. Terra: Praticamente inofenciva. Até mais e obrigado pelos peixes. Nos desculpamos pelo inconveniente. NÃO ENTRE EM PÂNICO.

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    1. Pois é, não acreditei nesse final! Deu vontade de bater do autor. Voltar a escrever pra um final desses?

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  2. Olha vou te contar, adoro finais assim kkkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!