14 de dezembro de 2017

Capítulo 25

Assim que a Espaçonave Bistromática tremeluziu de volta à existência objetiva no topo de um pequeno penhasco no asteroide de dois quilômetros de largura que descrevia uma eterna e solitária órbita em torno do sistema estelar trancafiado de Krikkit, sua tripulação soube que tinha chegado a tempo apenas de testemunhar um evento histórico que não poderiam impedir.
Não sabiam que iriam assistir a dois eventos.
Ficaram lá, gélidos, solitários e sem ação na borda do penhasco, olhando a atividade abaixo. Feixes de luz descreviam arcos sinistros contra o vazio, vindos de um ponto que estava apenas cerca de 100 metros abaixo e à frente deles.
Olharam para o evento ofuscante.
Uma extensão do campo da nave permitia que ficassem ali, de pé, mais uma vez explorando a predisposição da mente de aceitar que a enganassem: os problemas da baixa gravidade gerada pela pequena massa do asteroide ou o fato de não serem capazes de respirar passavam a ser de Outra Pessoa.
A nave de guerra de Krikkit estava parada entre os rochedos acinzentados do asteroide, alternadamente brilhando sob potentes holofotes ou desaparecendo nas sombras. A escuridão das sombras cortantes projetadas pelas rochas nuas dançava com a nave numa coreografia exótica enquanto os holofotes giravam em torno delas.
Onze robôs brancos estavam levando, em procissão, a Chave de Wikkit para o centro de um círculo de luzes oscilantes.
A Chave de Wikkit fora reconstruída. Seus componentes brilhavam e reluziam: o Pilar de Aço (ou perna de Marvin) da Força e Poder; o Pilar Dourado (ou Coração do Motor de Improbabilidade) da Prosperidade; o Pilar de Acrílico (ou Cetro da Justiça de Argabuthon] da Ciência e da Razão; a Trave de Prata (ou Troféu Rory pelo Uso Mais Desnecessário da Palavra “Foda-se” em um Roteiro Sério) e a Trave de Madeira, agora reconstruída (ou Cinzas de uma trave queimada significando a morte do críquete inglês), da Natureza e Espiritualidade.
— Suponho que não haja nada que possamos fazer agora? — perguntou Arthur, nervosamente.
— Não — lamentou Slartibartfast.
A expressão de desapontamento que cruzou o rosto de Arthur foi um completo fracasso e, como estava obscurecido pela sombra, deixou que se transformasse em uma expressão de alívio.
— Pena — disse ele.
— Não temos armas — disse Slartibartfast. — Uma estupidez.
— Droga — disse Arthur baixinho.
Ford não disse nada. Trillian também não disse nada, mas o fez de uma forma distinta e pensativa. Ela estava olhando para a escuridão do espaço para além do asteroide.
O asteroide orbitava a Nuvem de Poeira que cercava o envoltório de Tempolento que mantinha trancado o mundo no qual viviam o povo de Krikkit, os Mestres de Krikkit e seus robôs assassinos.
O grupo, desolado, não tinha como saber se os robôs de Krikkit sabiam ou não que eles estavam lá. Podiam presumir que sim, mas que os robôs provavelmente acreditavam — corretamente, dadas as circunstâncias — que nada tinham a temer. Tinham uma tarefa histórica a cumprir e sua audiência podia ser tratada com indiferença.
— Terrível essa sensação de impotência, não? — disse Arthur, mas os outros o ignoraram.
No centro da área iluminada da qual os robôs se aproximavam, uma fenda de formato quadrado surgiu no chão. A fenda podia ser vista de forma cada vez mais distinta, e logo ficou claro que um bloco de solo, tendo pouco mais que meio metro quadrado, estava lentamente se erguendo.
Ao mesmo tempo perceberam um outro movimento, quase subliminar, e, por alguns instantes, não estava exatamente claro o que estava se movendo.
Em seguida ficou claro.
Era o asteroide. Movia-se lentamente para dentro da Nuvem de Poeira, como se fosse inexoravelmente puxado por algum pescador celestial lá dentro das suas profundezas. Iriam fazer, na vida real, a jornada através da Nuvem que já haviam feito na Sala de Ilusões Informacionais. Permaneceram envolvidos por um silêncio gélido. Trillian franziu a testa.
Parecia que toda uma era se passara. Eventos pareciam transcorrer com uma lentidão estonteante, enquanto a extremidade do asteroide penetrava no vago e suave perímetro externo da Nuvem.
E logo foram envolvidos por uma obscuridade fina e oscilante. Passaram por ela, gradualmente, vagamente conscientes de formas e espirais impossíveis de distinguir na escuridão, exceto com o canto dos olhos.
A Nuvem de Poeira enfraquecia os focos de luz brilhante, que piscavam por entre a miríade de partículas de poeira.
Trillian, mais uma vez, observou essa passagem de dentro de seus próprios pensamentos franzidos.
Então a travessia terminou. Não havia como saber se tinham levado um minuto ou meia hora, mas atravessaram a Nuvem e se depararam com uma escuridão virgem, como o espaço tivesse sido puxado para fora da existência bem na frente deles.
Agora as coisas começaram a se mover com rapidez.
Um ofuscante poço de luz parecia quase explodir, vindo do bloco, que havia subido cerca de um metro do chão, e dele saía um bloco menor de acrílico, formando um fascinante bale de cores em seu interior.
O bloco possuía ranhuras profundas, três na vertical e duas na transversal, claramente projetadas para aceitar a Chave de Wikkit.
Os robôs se aproximaram da Fechadura, introduziram a Chave e se afastaram novamente. O bloco começou a girar e o espaço começou a se alterar.
Enquanto o espaço se desdobrava, dava a agonizante sensação de retorcer os olhos dos observadores em suas órbitas. Encontraram-se olhando, cegos, para um sol desemaranhado que agora estava diante deles, lá onde, segundos antes, parecia não haver nem mesmo espaço vazio. Passaram-se um ou dois segundos antes que pelo menos tomassem consciência do que acontecera e pudessem cobrir com as mãos seus olhos horrivelmente ofuscados. Naqueles poucos segundos perceberam um minúsculo ponto movendo-se lentamente pelo centro daquele sol.
Cambalearam para trás e ouviram, ressoando em seus ouvidos, o inesperado canto dos robôs gritando em uníssono com suas vozes finas.
— Krikkit! Krikkit! Krikkit! Krikkit!
O som era de arrepiar. Era duro, era frio, era vazio, era mecanicamente sombrio. Era também triunfante.
Ficaram tão atordoados por esses dois choques sensoriais que quase perderam o segundo evento histórico.
Zaphod Beeblebrox, o único homem em toda a história a ter sobrevivido a um ataque direto dos robôs de Krikkit, saiu correndo da nave de Krikkit brandindo uma arma Zapogun.
— Tudo bem — gritou —, a situação está totalmente sob controle a partir de agora.
O robô que estava de guarda próximo à escotilha da nave silenciosamente girou seu bastão de batalha e conectou-o à parte de trás da cabeça esquerda de Zaphod.
— Mas quem foi o zark que fez isso? — disse a cabeça esquerda, caindo em seguida para a frente.
Sua cabeça direita olhou em volta.
— Quem fez o quê? — perguntou.
O bastão conectou-se com a parte de trás da cabeça direita.
Zaphod estatelou-se no chão.
Em poucos segundos, tudo estava terminado. Alguns disparos dos robôs fora suficientes para destruir a Fechadura para sempre. Ela se quebrou e derreteu e espalhou seu conteúdo despedaçado. Os robôs marcharam de forma impiedosa e, de uma forma peculiar, ligeiramente desalentados de volta à nave de guerra, que partiu com um “fuop”.
Trillian e Ford correram alucinadamente pela rocha inclinada até o corpo escuro e imóvel de Zaphod Beeblebrox.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)