17 de dezembro de 2017

Capítulo 24

Por sorte havia uma forte corrente de ar na travessa, porque há muito tempo Arthur não fazia aquele tipo de coisa ou, pelo menos, não deliberadamente, e deliberadamente era exatamente a maneira como a coisa não deve ser feita.
Lançou-se bruscamente para baixo, quase quebrando o queixo na soleira da porta, e saiu trôpego pelo ar, tão subitamente embasbacado com a coisa profundamente idiota que tinha acabado de fazer que esqueceu completamente daquela parte de cair no chão estatelado, e não caiu.
Um belo truque, pensou ele, se você é capaz de fazê-lo.
O chão estava ameaçadoramente pendurado sobre a sua cabeça.
Tentou não pensar no chão, em como ele era extraordinariamente grande e como iria machucá-lo caso decidisse parar de ficar dependurado ali e caísse sobre ele de repente. Tentou, em vez disso, ter pensamentos agradáveis sobre os lêmures, o que era uma boa ideia, porque não conseguia se lembrar exatamente o que era um lêmure: se era uma daquelas coisas que percorrem em grandes hordas majestosas as planícies de sei lá onde ou se esses eram os gnus, de modo que era uma daquelas coisas peculiares para se pensar sem ter de recorrer apenas a um tipo grudento de boa vontade generalizada em relação às coisas e tudo isso manteve a sua mente bem ocupada enquanto o seu corpo tentava se ajustar ao fato de que não estar tocando em nada.
Um papel de chocolate Mars flutuava pela travessa.
Após um aparente momento de dúvida e indecisão, permitiu finalmente que o vento deixasse as coisas fluírem, flutuantes, entre ele e o chão.
— Arthur...
O chão continuava ameaçadoramente pendurado sobre a sua cabeça e ele sentia que provavelmente já estava na hora de tomar alguma atitude a respeito, como descer em direção a ele, e foi o que fez. Devagar. Muito, muito devagar.
Enquanto descia devagar, muito, muito devagar, fechou os olhos, com cuidado, para não esbarrar em nada.
A sensação dos seus olhos se fechando percorreu todo o seu corpo. Quando ela chegou aos pés e o corpo todo já estava avisado do fato de que seus olhos estavam fechados e não entrara em pânico por causa disso, ele virou devagar, muito, muito devagar o seu corpo para um lado e a sua mente para o outro.
Isso deveria resolver a questão do chão.
Podia sentir o ar puro sobre ele, ventando à sua volta alegremente, sem se incomodar com a sua presença e devagar, muito, muito devagar, como se acordando de um sono profundo e distante, ele abriu os olhos.
Já havia voado antes, é claro. Voara várias vezes em Krikkit até que todo aquele passareado o deixasse de saco cheio, mas aquilo era diferente.
Lá estava ele em seu próprio mundo, calmo e sem confusões, a não ser uma ligeira tremedeira que poderia atribuída a diversas coisas, estando em pleno ar.
Uns quatro ou cinco metros abaixo dele estava o asfalto e um pouco depois, à direita, os postes de luz amarelos da Upper Street.
Felizmente a travessa estava escura, já que a luz que supostamente funcionaria à noite era regulada por um temporizador engenhoso, que acendia um pouco antes do meio-dia apagava novamente ao anoitecer. Estava, portanto, protegido por um manto de escuridão.
Devagar, muito, muito devagar, levantou a cabeça para Fenchurch, que estava parada em uma perplexidade muda, em contraluz na soleira do andar superior.
O seu rosto estava a alguns centímetros do dele.
— Eu ia te perguntar — disse ela em voz trêmula e sussurrada — o que você estava fazendo. Aí percebi que eu estava vendo o que você estava fazendo. Você estava voando. Então me pareceu — prosseguiu, após uma breve reflexão — um pouco idiota perguntar.
Arthur perguntou:
— Você consegue?
— Não.
— Não quer tentar?
Ela mordeu o lábio e balançou a cabeça, num gesto que era mais de espanto do que de negação. Estava tremendo da cabeça aos pés.
— É muito fácil — insistiu Arthur — se você não sabe como fazer. Essa é a parte mais importante. Ter absoluta certeza de não saber como está fazendo isso.
Para demonstrar como era fácil, ele flutuou pela travessa, subiu dramaticamente e voltou para o lado dela, como uma nota soprada pelo vento.
— Pergunte-me como foi que eu fiz isso.
— Como foi que... você fez isso?
— Não sei. Nem a menor ideia.
Ela deu de ombros, confusa.
— Então como é que eu posso...?
Arthur flutuou para baixo e estendeu a mão.
— Quero que você tente — disse ele — subir na minha mão. Só um pé.
— O quê?
— Tente.
Nervosa, hesitante, quase como, pensou consigo mesma estivesse tentando subir na mão de alguém que estava flutuando na sua frente em pleno ar, ela apoiou o pé na mão dele.
— Agora o outro.
— Como assim?
— Tira o peso do outro pé.
— Não consigo.
— Tenta.
— Assim?
— Isso.
Nervosa, hesitante, quase como, pensou ela, se estivesse... Parou de pensar no que estava fazendo porque tinha a impressão de que na verdade não estava muito interessada em saber.
Fixou o olhar muito, muito firmemente na calha do telhado de um armazém decrépito em frente à sua casa que a incomodava há semanas porque claramente estava prestes a desabar e ela estava pensando se alguém ia tomar alguma providência ou se devia falar com alguém sobre aquilo e nem por um segundo pensou no fato de que estava de pé sobre as mãos de alguém que não estava de pé sobre nada.
— Agora — disse Arthur -, tire o peso do pé esquerdo.
Achava que o armazém pertencia à companhia de carpetes que tinha um escritório na esquina e então provavelmente deveria ir até lá e falar com eles sobre a calha — tirou o peso do pé esquerdo.
— Agora — disse Arthur -, tire o peso do seu pé direito.
— Não consigo.
— Tenta.
Nunca tinha visto a calha daquele ângulo antes e parecia que, além da lama e da gosma, tinha um ninho de passarinhos lá em cima também. Se pudesse se inclinar um pouquinho mais tirando o peso do pé direito, possivelmente conseguiria ver melhor.
Arthur ficou preocupado ao notar que alguém lá embaixo estava tentando roubar a bicicleta dela. A última coisa que queria no momento era ter de criar caso com alguém, então torceu para o sujeito não fazer muito barulho e não olhar para cima.
Ele tinha o ar tranquilo e astuto de alguém que habitualmente rouba bicicletas em becos e habitualmente não encontra os donos das bicicletas flutuando alguns metros acima destas. Bem relaxado graças a esses dois hábitos, foi em frente com determinação e concentração, e, quando descobriu que a bicicleta estava indiscutivelmente presa por aros de carboneto de tungstênio a uma barra de ferro enterrada no concreto, ele entortou pacificamente as duas rodas e seguiu seu caminho.
Arthur deu um longo suspiro.
— Veja que pedaço de casca de ovo achei para você — disse Fenchurch no seu ouvido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!