26 de dezembro de 2017

Capítulo 23

As emissoras de televisão detestavam coisas assim. Consideravam um desperdício.
Uma incontestável nave espacial aterrissa, do nada, no meio de Londres e vira uma notícia sensacional, da maior importância. Então outra nave completamente diferente aparece, três horas e meia depois, e ninguém dá bola. OUTRA NAVE ESPACIAL!, anunciaram as manchetes e os cartazes na banca de jornais. ESTA É COR-DE-ROSA. Se fosse alguns meses depois, poderiam ter aproveitado mais a notícia. A terceira, uma pequena nave Hrundi com quatro leitos que chegou meia hora depois da segunda, só foi destaque no noticiário local.
Ford e Arthur desceram a toda da estratosfera e estacionaram direitinho em Portland Place. Era um pouco mais de seis e meia da noite e havia vaga. Misturaram-se brevemente com a multidão que estava reunida, babando, disseram em voz alta que, se ninguém mais pretendia chamar a polícia, eles chamariam, e conseguiram fugir tranquilamente.
— Meu lar... — disse Arthur, com a voz levemente embargada, olhando ao redor com os olhos rasos d’água.
— Ah, não começa com sentimentalismo pro meu lado, não — cortou logo Ford. — Temos que encontrar a sua filha e aquela criatura-pássaro.
— Como? — perguntou Arthur. — Existem seis bilhões de pessoas neste planeta e...
— Tudo bem, — interrompeu Ford. — Mas apenas uma delas acabou de chegar do espaço sideral em uma nave prateada gigantesca, acompanhada de um pássaro mecânico. Acho que temos que procurar uma televisão e alguma coisa para ficar bebendo enquanto a gente assiste ao noticiário. Precisamos de um serviço de quarto decente.
Hospedaram-se em uma suíte dupla no Langham. Misteriosamente, o Jant-O-Card de Ford, expedido em um planeta que ficava a mais de quinhentos anos-luz de distância, foi aceito pelo computador do hotel sem problemas.
Ford correu para o telefone, enquanto Arthur tentava localizar a tevê.
— Vamos lá — disse Ford. — Eu vou querer umas margaritas, por favor. Dois jarros. Duas saladas do chef. E o máximo de fois gras que vocês tiverem aí. Ah, e o zoológico de Londres.
— Ela está no noticiário! — berrou Arthur do outro quarto.
— Isso mesmo — disse Ford ao telefone. — O zoológico de Londres. Pode colocar na minha conta.
— Ela está... Meu Deus! — gritou Arthur. — Sabe quem está entrevistando ela?
— O senhor está tendo dificuldade de compreender a sua própria língua? — continuou Ford. — É o zoológico que fica logo ali na esquina. Não me interessa se estão fechados hoje. Não quero um ingresso, só quero comprar o zoológico. Não me interessa se você está ocupado. Aí é o serviço de quarto, eu estou em um quarto e quero um serviço. Está com um papel aí? Ótimo. Anota o que eu quero que você faça. Todos os animais que possam ser devolvidos em segurança para a vida selvagem devem ser devolvidos. Arrume algumas equipes legais para monitorar o progresso deles na natureza, para ver se estão indo bem.
— É a Trillian! — gritou Arthur. — Ou é... ahn... Cara, eu não aguento mais essa história de universo paralelo. É tão confuso, droga. Parece que é uma Trillian diferente. É a Tricia McMillan, que era como Trillian costumava se chamar antes de... ahn... Por que você não vem assistir, ver se consegue descobrir alguma coisa?
— Só um segundo — gritou Ford, voltando às suas negociações com o serviço de quarto. — Então vamos precisar de algumas reservas naturais para os animais que não conseguirem se adaptar à vida selvagem novamente — disse ele. — Arrume uma equipe para descobrir os melhores lugares para isso. Talvez tenhamos que comprar algum lugar como o Zaire ou talvez algumas ilhas. Madagascar. Baffin. Sumatra. Lugares assim. Precisamos de uma boa variedade de habitats. Olha, não estou entendendo por que você está criando problemas com isso. Aprenda a delegar. Contrate quem quiser. Vá em frente, você vai ver que eu tenho crédito na praça. Ah, e queijo Roquefort para as saladas, tá? Obrigado.
Desligou o telefone e foi até Arthur, que estava sentado na beira da cama, vendo televisão.
— Pedi foie gras para a gente — disse Ford.
— O quê? — perguntou Arthur, que estava concentrado na tevê.
— Pedi foie gras para a gente.
— Ah, tá — respondeu Arthur, vagamente. — Humm, nunca me senti muito bem em relação ao foie gras. É meio cruel com os gansos, não é?
— Que se danem os gansos — respondeu Ford, jogando-se na cama. — Não dá para se preocupar com todos os bichos.
— Bom, isso é fácil para você dizer, mas...
— Ai, chega! — interrompeu Ford. — Se você não quer, eu como o seu. O que está havendo, hein?
— Caos! — disse Arthur. — Caos total! Random está na tevê gritando para Trillian, Tricia, seja lá quem for, que ela a abandonou, e exigindo ir para uma boate decente. Tricia está aos prantos, dizendo que sequer chegou a conhecer Random, muito menos a pariu. Então ela começou a berrar sobre alguém chamado Rupert e disse que ele perdeu a mente, algo assim. Não entendi direito essa parte, pra ser sincero. Então Random começou a jogar coisas e eles cortaram para o comercial, enquanto tentavam dar um jeito na situação. Ah! Voltaram para o estúdio! Cala a boca e assiste.
Um apresentador levemente perturbado apareceu na tela e pediu desculpas aos telespectadores pelo corte da matéria. Disse que não tinha nenhuma notícia concreta para apresentar, apenas que a garota misteriosa, que se apresentou como Random Frequent Flyer Dent, abandonara o estúdio para, ah, descansar. Tricia McMillan voltaria, esperava ele, no dia seguinte. Enquanto isso, novas notícias sobre a atividade dos óvnis estavam chegando...
Ford levantou da cama em um salto, apanhou o telefone mais próximo e digitou um número às pressas.
— Recepção? Você quer ser dono do hotel? Ele será seu se você conseguir descobrir em cinco minutos a quais clubes Tricia McMillan pertence. Coloque tudo aí na minha conta.

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Boa leitura :)