17 de dezembro de 2017

Capítulo 23

A batalha prosseguia implacável sobre a estrela de Xaxis. Centenas de naves zirzlas, aterradoras e horrivelmente armadas, haviam sido esmagadas e reduzidas a átomos pelas forças devastadoras que a gigantesca nave xaxisiana prateada podia lançar.
Uma parte da lua também se fora, destruída pelas mesmas armas flamejantes que rasgaram o próprio tecido do espaço ao passarem por ele.
As naves zirzlas que haviam sobrado, embora temivelmente armadas, estavam, naquele momento, irremediavelmente sobrepujadas pelo poder devastador da nave xaxisiana e procuravam se esconder atrás da lua, que se desintegrava rapidamente, quando a nave xaxisiana, em uma perseguição ensandecida, anunciou de repente que precisava de férias e abandonou o campo de batalha.
Houve um momento de medo redobrado e consternação, mas a nave de fato foi embora.
Utilizando seus extraordinários poderes, afastou-se veloz pela vasta imensidão daquele espaço irracionalmente delineado, rapidamente, sem fazer esforço e, sobretudo, em silêncio.
Recolhido em seu leito ensebado e fedorento, improvisado em uma escotilha de manutenção, Ford Prefect dormia em meio às suas toalhas, sonhando com antigos refúgios. Em algum momento sonhou com Nova York.
No sonho, estava caminhando tarde da noite pelo East Side, ao longo do rio que se tornara tão extravagantemente poluído que novas formas de vida já surgiam dele espontaneamente, exigindo planos de aposentadoria e direito de voto.
Uma dessas formas de vida flutuou perto dele, acenando. Ford acenou de volta.
A coisa foi jogada na margem e esforçou-se para sair da água.
— Oi — disse ela. — Acabei de ser criada. Sou completamente ignorante em relação ao Universo, em todos os sentidos. Será que você pode me ensinar alguma coisa?
— Puxa — murmurou Ford, um tanto perplexo. — Bom, acho que posso te indicar uns bares.
— E sobre o amor e a felicidade? Sinto uma profunda necessidade de coisas assim — disse a criatura, balançando os tentáculos. — Alguma dica?
— Você pode encontrar algo próximo ao que procura na Sétima Avenida — disse Ford.
— Eu sinto, instintivamente — insistiu ela -, que preciso ser bonito. Sou?
— Você é bem direto, hein?
— Não faz sentido ficar enrolando. Sou ou não sou?
A criatura estava esvaindo-se pelo chão, chapinhando e debulhando-se em lágrimas. Um bebum nas proximidades começou a se interessar.
— Para mim? — perguntou Ford. — Não. Mas, escuta — acrescentou ele, após uma breve pausa -, a maioria das pessoas se dá bem, sabe? Têm outros como você lá embaixo?
Sei lá, cara — respondeu a criatura. — Como eu disse, sou novo por aqui. A vida é completamente estranha para mim. Como ela é?
Ali estava algo que Ford sentia que podia responder com autoridade.
— A vida — disse ele — é como um grapefruit.
— Tá, e como é isso?
— Bom, é meio amarelo-alaranjado, com uma casca dura do lado de fora, molhado e bem macio por dentro, onde tem uns caroços. Ah, e algumas pessoas comem metade no café-da-manhã.
— Tem mais alguém aqui com quem eu possa conversar?
— Acho que sim — respondeu Ford. — Pergunte a um policial.
Recolhido em seu leito, Ford Prefect se contorceu e virou para o outro lado. Aquele não era o seu tipo de sonho favorito, porque não tinha Eccentrica Gallumbits, a Prostituta de Três Seios de Eroticon VI, que estrelava vários dos seus sonhos. Mas pelo menos era um sonho. Pelo menos estava dormindo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!