7 de dezembro de 2017

Capítulo 23

A câmara mortuária tinha o teto baixo, era mal iluminada e gigantesca. No fundo distante, a uns quinhentos metros, uma passagem em arco parecia levar a uma câmara similar, similarmente ocupada.
Ford Prefect deixou escapar um alto assobio quando pisou no chão da câmara.
— Bárbaro — disse.
— O que há de tão formidável em pessoas mortas? — perguntou Arthur Dent, que entrava nervoso atrás dele.
— Sei lá — disse Ford. — Vamos descobrir?
Numa inspeção mais detalhada, os caixões pareciam mais propriamente ser sarcófagos. Ficavam suspensos em lugares altos e eram construídos do que parecia ser mármore branco, e é quase certo que fosse exatamente isso — algo que apenas parecia ser mármore branco. Os tampos eram semitranslúcidos, e através deles podiam-se ver vagamente as feições de seus falecidos e presumivelmente lamentados ocupantes. Eram humanoides, e tinham claramente deixado os problemas de seja lá que mundo viessem muito para trás, mas além disso muito pouco podia ser discernido.
Rolava lentamente pelo chão entre os sarcófagos um gás pesado e viscoso que Arthur a princípio achou que estava lá para dar um pouco de atmosfera ao lugar até que descobriu que também gelava seus tornozelos. Os sarcófagos também eram intensamente frios ao tocar.
Ford agachou de repente ao lado de um deles. Puxou um canto de sua toalha para fora da mochila e começou a esfregar alguma coisa furiosamente.
— Olhe, tem uma placa neste aqui — explicou a Arthur. — Está coberta de gelo.
Esfregou até tirar todo o gelo e examinou os caracteres inscritos. Para Arthur pareciam pegadas de alguma aranha que tivesse tomado umas doses a mais de seja lá o que for que as aranhas tomam quando saem à noite, mas Ford instantaneamente reconheceu uma antiga forma de alfabeto galáctico.
— Diz “Frota de Arcas de Golgafrincham, Nave B, Compartimento Sete, limpador de telefones, Segunda Classe” e um número de série.
— Limpador de telefones? — disse Arthur. — Um limpador de telefones morto?
— Da melhor espécie.
— Mas o que ele está fazendo aqui?
Ford espiou pela tampa para ver a figura ali dentro.
— Não muita coisa — disse, arreganhando um daqueles seus sorrisos que faziam as pessoas acharem que ele andava muito ocupado ultimamente e devia procurar repousar.
Disparou para um outro sarcófago. Um momento esfregando a toalha e anunciou:
— Este é um cabeleireiro morto. Opa!
O sarcófago seguinte revelou-se como o último lugar de descanso de um executivo de publicidade; o outro continha um vendedor de carros de segunda mão, terceira classe.
Uma portinhola de inspeção no assoalho chamou subitamente a atenção de Ford, e ele abaixou-se para tentar abri-la, afastando as nuvens de gás gelado que ameaçavam envolvê-lo.
Uma ideia ocorreu a Arthur.
— Se são apenas caixões — disse — por que são guardados tão frios?
— Ou, de qualquer modo, por que são guardados? — disse Ford, que acabava de conseguir abrir a portinhola. O gás desceu por ela. — Por que alguém se daria todo esse trabalho e despesa para carregar cinco mil cadáveres pelo espaço afora?
— Dez mil — disse Arthur, apontando a passagem em arco, através da qual a outra câmara era obscuramente visível.
Ford enfiou a cabeça na portinhola do chão. Olhou para cima novamente.
— Quinze mil — disse —, tem outro lote ali embaixo.
— Quinze milhões — disse uma voz.
— Isso é muito — disse Ford —, muito muito.
— Virem-se devagar — disse a voz — e ponham as mãos para cima. Qualquer outro movimento e eu os estouro em pedacinhos.
— Alô? — disse Ford, virando-se lentamente, pondo as mãos para cima e não fazendo qualquer outro movimento.
— Por que — disse Arthur — ninguém nunca fica contente em nos ver?
De pé, com a silhueta recortada na porta por onde tinham entrado na câmara mortuária, estava o homem que não tinha ficado contente em vê-los. Seu desprazer era em parte comunicado pela qualidade de latidos valentões de sua voz e em parte pelo modo depravado com que apontava sua longa Matazap prateada para eles. A pessoa que projetara esta arma tinha claramente sido instruída para não usar de rodeios.
— Faça-a cruel — lhe teriam dito. — Deixe totalmente claro que esta arma tem um lado certo e um lado errado. Deixe totalmente claro para qualquer um que esteja do lado errado que as coisas vão indo mal para ele. Se for preciso pregar todo tipo de ferrões e dentes à sua volta, que seja assim.
Esta não é uma arma para ser pendurada em cima da lareira ou enfiar no balde de guarda-chuvas, é uma arma para sair e fazer as pessoas miseráveis.
Ford e Arthur olharam infelizes para a arma.
O homem armado saiu da porta e deu uma volta ao redor deles. Quando ele apareceu na luz, puderam ver seu uniforme preto e dourado cujos botões brilhavam com tal intensidade que teriam feito um motorista que se aproximasse piscar o farol alto, irritado.
Fez um gesto em direção à porta.
— Para fora — disse. Pessoas que dispõem daquele poder de fogo não precisam dispor de verbos. Ford e Arthur foram para fora, seguidos de perto pelo lado errado da Matazap e dos botões.
Ao virar o corredor esbarraram em vinte e quatro joggers que vinham vindo, agora de banho tomado e roupa trocada, e que passaram por eles e entraram na câmara. Arthur virou-se para olhar para eles, confuso.
— Andando — gritou seu capturador. Arthur andou.
Ford mexeu os ombros e andou.
Na câmara, os joggers foram a vinte e quatro sarcófagos vazios ao longo da parede lateral, abriram, subiram para dentro deles e mergulharam em vinte e quatro sonos sem sonhos.

Um comentário:

  1. Um cemitério criogênico em uma nave alienígena com esportistas.
    .-.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)