26 de dezembro de 2017

Capítulo 22

A luz do dia explodiu em volta deles. Sol quente, forte. Uma planície deserta se estendia até o horizonte em uma névoa de calor. Saltaram trovejando sobre ela.
— Pula! — gritou Ford Prefect.
— O quê? — perguntou Arthur Dent, firmemente agarrado.
Ford não respondeu.
— O que foi que você disse? — gritou Arthur novamente, e então percebeu que Ford Prefect não estava mais lá. Olhou ao redor, em pânico, e começou a escorregar. Percebendo que não podia mais se segurar, arremessou-se para o lado o máximo que pôde e enroscou-se como uma bola ao atingir o chão, rolando, rolando para longe dos cascos esmagadores.
Que dia, pensou ele, tossindo furiosamente a poeira para fora de seus pulmões.
Não tinha um dia tão horrível quanto aquele desde que a Terra fora demolida. Ficou de joelhos, com dificuldade, depois em pé e, em seguida, começou a fugir. Não sabia de que nem para onde, mas fugir lhe parecia uma decisão prudente.
Deu de cara com Ford Prefect, que estava parado examinando os arredores.
— Olha lá — disse Ford. — É exatamente disso que nós precisamos.
Arthur tossiu mais um pouco de poeira e limpou mais poeira do cabelo e dos olhos. Ofegante, virou-se para ver o que Ford estava olhando.
Não parecia muito com o domínio de um Rei, ou do Rei, ou de qualquer tipo de Rei. Mas era bem convidativo.
Primeiro, o contexto. Aquele era um mundo deserto. A terra seca e batida havia machucado todas as partes de Arthur que não tivessem sido machucadas durante as festividades da noite anterior. Um pouco mais adiante havia penhascos imensos, que pareciam de arenito, desgastados pelo vento e pela mínima chuva que, presumivelmente, caía naquelas bandas produzindo formatos fantásticos que combinavam com os formatos fantásticos dos cactos gigantes que brotavam aqui e ali do solo árido e alaranjado.
Por um momento, Arthur ousou sonhar que haviam chegado inesperadamente no Arizona, ou no Novo México, ou até mesmo em Dakota do Sul, mas havia várias evidências em sentido contrário. Para começar, as Bestas Perfeitamente Normais continuavam trovejando e esmagando o chão. Elas emergiam aos milhares no horizonte mais longínquo, desapareciam completamente por mais ou menos um quilômetro e depois reapareciam, trovejando e esmagando o chão até o horizonte longínquo oposto.
Depois havia as naves espaciais estacionadas na entrada do Bar & Restaurante. Ah, Bar & Restaurante Domínio do Rei. Um certo anticlímax, pensou Arthur com os seus botões.
Na verdade, apenas uma nave espacial estava estacionada na porta do Bar & Restaurante Domínio do Rei. As outras três estavam em um estacionamento ao lado.
Mas era a que estava parada na porta que chamava a atenção. Um verdadeiro espetáculo. Estabilizadores maneiríssimos por todo lado e muito, mas muito cromo mesmo sobre os estabilizadores. A maior parte da fuselagem fora pintada de rosa-choque. Estava agachada, a postos, como um imenso inseto chocando ovos, e dava a impressão de que, a qualquer momento, iria pular em alguma coisa a dois quilômetros de distância.
O Bar & Restaurante Domínio do Rei ficava exatamente no meio do lugar para onde as Bestas Perfeitamente Normais estariam avançando se não fizessem um pequeno desvio transdimensional no caminho. Sozinho, impassível. Um bar & restaurante como outro qualquer. Uma parada de caminhoneiros. Em algum lugar no meio de lugar algum. Silencioso. O Domínio do Rei.
— Vou comprar aquela nave — disse Ford, baixinho.
— Comprar? — perguntou Arthur. — Isso não é do seu feitio. Pensei que você normalmente furtasse.
— Às vezes precisamos ter um mínimo de respeito — disse Ford.
— E, provavelmente, um mínimo de dinheiro também — rebateu Arthur. — Quanto será que custa um troço desses?
Com um movimento discreto, Ford sacou o seu cartão de crédito Jant-O-Card do bolso. Arthur notou que a mão dele tremia um pouco.
— Vou ensinar a eles no que dá me tornar crítico de restaurantes... — disse Ford, entre dentes.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Arthur.
— Vou te mostrar — respondeu Ford com um brilho maldoso nos olhos. — Vamos lá fazer algumas despesas, está bem?
— Duas cervejas — pediu Ford — e, deixa eu ver, dois enroladinhos de bacon, o que mais você tiver aí e, ah, a parada cor-de-rosa ali fora.
Colocou o cartão no balcão do bar e olhou em volta, casualmente.
Houve uma espécie de silêncio.
Para falar a verdade, não havia muito barulho antes, mas naquele momento havia definitivamente uma espécie de silêncio. Até mesmo o trovejar distante das Bestas Perfeitamente Normais evitando cuidadosamente o Domínio do Rei soava um tanto quanto abafado.
— Acabei de cavalgar na cidade — disse Ford, como se não houvesse nada de esquisito nisso ou no resto.
Estava inclinado sobre o balcão, em uma postura extravagantemente relaxada.
Havia mais uns três clientes no lugar, sentados às mesas, observando seus drinques. Uns três. Algumas pessoas diriam que eram exatamente três, mas não era um desses lugares em que você possa ser bem preciso. Havia um sujeito grandalhão arrumando alguma coisa sobre o pequeno palco. Uma velha bateria. Algumas guitarras. Coisas típicas de música country.
O barman não estava com muita pressa de atender o pedido de Ford.
Para falar a verdade, ele não moveu um músculo.
— Acho que a parada rosa não está à venda — disse ele, finalmente, com um daqueles sotaques que não saem dos ouvidos por um bom tempo.
— Óbvio que está — disse Ford. — Quando você quer por ela?
— Bem...
— Pense em um valor. E depois duplique.
— Não é minha, não posso vender — respondeu o barman.
— Então, de quem é?
O barman fez um gesto com a cabeça, apontando para o grandalhão que estava no palco. Um sujeito grande e gordo, movimentando-se devagar, ligeiramente careca.
Ford concordou com a cabeça e sorriu.
— Está bem — disse ele. — Traga as cervejas e os rolinhos. Mantenha a conta em aberto.
Arthur sentou-se no bar e descansou. Estava acostumado a não saber o que estava acontecendo. Sentia-se confortável com aquilo. A cerveja era ótima e o deixou com um pouco de sono, o que não tinha o menor problema. Os rolinhos de bacon não eram rolinhos de bacon. Eram rolinhos de Besta Perfeitamente Normal.
Trocou alguns comentários profissionais de fazedor de rolinhos com o barman e deixou que Ford fizesse o que queria fazer.
— Está bem — disse Ford, voltando para o seu banquinho. — Tudo certo. Conseguimos a parada rosa.
O barman pareceu bastante surpreso.
— Ele vai vender para você?
— Ele vai nos dar, de graça — respondeu Ford, dando uma mordida no seu rolinho. — Ei, não, não fecha a conta ainda não. Vamos acrescentar algumas coisas. Gostei do rolinho.
Tomou um longo gole de cerveja.
— E gostei da cerveja — acrescentou.
— Gostei da nave, também — disse ele, olhando a parada grande, rosa, cromada e insetiforme, que podia ser parcialmente vista pelas janelas do bar. — Gostei de tudo, de tudo mesmo. Sabe — disse ele, reclinando-se para trás, pensativo —, é em momentos como este que a gente se pergunta se vale mesmo a pena se preocupar com a tessitura do espaço-tempo e a integridade causal da matriz de probabilidade multidimensional e o potencial colapso de todas formas de onda na Mistureba Generalizada de Todas as Coisas e essas outras histórias que vêm me perturbando. Talvez eu sinta que o grandalhão tem razão. A gente tem mais é que deixar fluir. Se estressar pra quê? Deixa fluir.
— Que grandalhão? — perguntou Arthur.
Ford fez um sinal em direção ao placo. O grandalhão estava repetindo “Um, dois” no microfone. Apareceram uns outros sujeitos no palco. Bateria. Guitarra.
O barman, que estava calado nos últimos segundos, disse:
— Quer dizer que ele vai te dar a nave dele?
— Isso — respondeu Ford. — “Deixa rolar”, foi o que ele me disse. “Leve a nave. Com as minhas bênçãos. Cuide dela direitinho.” Eu vou cuidar dela direitinho.
Tomou mais um gole da cerveja.
— Como eu ia dizendo — continuou ele. — É em momentos como este que você meio que pensa, ah, deixa rolar geral. Mas aí você pensa em sujeitos como os da InfiniDim e depois pensa: eles não vão sair impunes dessa. Eles merecem sofrer. É o meu dever sagrado fazer com que eles sofram. Aqui, deixa eu acrescentar uma coisa na conta para o cantor. Fiz um pedido especial e chegamos a um acordo. Deve ser incluído na minha conta, o.k.?
— O.k. — respondeu o barman, desconfiado. Depois, deu de ombros. — Está bem, como o senhor quiser. Quanto?
Ford disse o valor. O barman caiu duro para trás, derrubando garrafas e copos.
Ford se debruçou prontamente sobre o balcão para checar se ele estava bem e para ajudá-lo a se levantar. Havia cortado o dedo e o cotovelo e estava se sentindo um pouco grogue mas, tirando isso, estava bem. O grandalhão começou a cantar. O barman saiu cambaleando e foi passar o cartão de Ford.
— Está acontecendo alguma coisa aqui que eu não estou sabendo? — perguntou Arthur para Ford.
— Não é sempre assim? — rebateu Ford.
— Não precisa falar assim — disse Arthur. Começou a acordar. — Não é melhor irmos embora logo? — perguntou ele, de repente. — Essa nave pode nos levar à Terra?
— Claro que sim — disse Ford.
— E para lá que Random está indo! — disse Arthur, sobressaltado. — Podemos ir atrás dela! Mas... ah...
Ford deixou Arthur raciocinando por conta própria e apanhou a sua velha edição do Guia do Mochileiro das Galáxias.
— Mas onde é que nós estamos no tal eixo de probabilidade? — perguntou Arthur. — A Terra vai ou não estar lá? Já passei tanto tempo procurando por ela. O máximo que encontrei foram planetas parecidos ou completamente diferentes dela, embora eu estivesse claramente no lugar certo, por causa dos continentes. A pior versão foi um lugar chamado EAgora, onde fui mordido por um animal desgraçado. É assim que eles se comunicavam, sabe, mordendo uns aos outros. Dói pra cacete. E na metade do tempo, é claro, a Terra sequer está lá, porque foi demolida pelos malditos vogons. Estou falando alguma bobagem?
Ford não disse nada. Estava ocupado, escutando alguma coisa.
Passou o Guia para Arthur e apontou para a tela. O verbete ativado dizia: “Terra. Praticamente inofensiva”.
— Quer dizer que está lá! — exclamou Arthur, eufórico. — A Terra está lá! É para lá que Random deve estar indo! O pássaro estava mostrando a Terra para ela na tempestade!
Ford fez um sinal para Arthur falar mais baixo. Queria escutar.
Arthur estava ficando impaciente. Já tinha ouvido cantores de bar cantando Love Me Tender antes. Estava um pouco surpreso de ouvir a música ali, no meio de sabe-se lá onde diabos estavam, certamente não na Terra, mas ultimamente as coisas não o espantavam mais como antes. O cantor até que era bom, em se tratando de cantores de bar, se você curte esse tipo de coisa, mas Arthur estava ficando aflito.
Deu uma olhadela no relógio.
Aquilo só serviu para lembrar-lhe de que não tinha mais relógio. Estava com Random, ou, pelo menos, o que sobrara do relógio.
— Você não acha que devíamos partir? — perguntou ele, insistente.
— Shhhh! — disse Ford. — Eu paguei para ouvir essa música. — Ele parecia estar com lágrimas nos olhos, o que deixou Arthur um tanto quanto desconcertado. Nunca vira Ford comovido por qualquer outra coisa que não fosse uma bebida muito, mas muito forte. Devia ser a poeira. Esperou, tamborilando os dedos irritado, fora do ritmo da música.
A música terminou. O cantor começou a cantar Heartbreak Hotel.
— De qualquer forma — sussurrou — ainda tenho que fazer uma crítica do restaurante.
— O quê?
— Preciso escrever uma crítica.
— Uma crítica? Desse lugar?
— Enviar uma crítica valida a cobertura das despesas. Dei um jeito para que isso acontecesse de maneira completamente automática e impossível de ser rastreada. E essa conta vai precisar de uma validação — acrescentou ele, baixinho, contemplando sua cerveja com um sorriso malvado.
— Umas cervejas e uns rolinhos?
— E uma gorjeta para o cantor da banda.
— Por que, quanto foi que você deu?
Ford repetiu o valor.
— Não sei quanto é isso — disse Arthur. — Quanto dá em libras esterlinas? O que dá para comprar com isso?
— Acho que dá para comprar, por alto... ah... — Ford apertou os olhos enquanto fazia os cálculos na cabeça. — A Suíça — disse ele finalmente. Apanhou o seu Guia e começou a digitar.
Arthur balançou a cabeça. Algumas vezes, gostaria de entender que diabos Ford estava falando, mas outras, como agora, sentia que talvez fosse mais seguro nem tentar.
Olhou por cima do ombro de Ford.
— Não vai demorar muito não, vai?
— Não — disse Ford. — Moleza. É só mencionar que os rolinhos estavam ótimos, a cerveja boa e gelada, que a vida selvagem local é agradavelmente excêntrica, o cantor da banda o melhor do universo e pronto. Não precisa de muita coisa, não. Só uma validação.
Tocou em uma parte da tela onde estava escrito ENTER e a mensagem desapareceu na rede subeta.
— Quer dizer que você gostou mesmo do cantor?
— Hum-hum — disse Ford. O barman estava voltando com um pedaço de papel, que parecia estar tremendo em sua mão.
Entregou o papel a Ford com uma espécie de espasmo nervoso e reverencioso.
— Engraçado — comentou o barman. — O sistema rejeitou o cartão algumas vezes. Não que isso tenha me surpreendido. — A sua testa estava coberta de gotículas de suor. — Então, do nada, tudo bem, está tudo certo e o sistema... ah, autorizou o cartão. Simples assim. O senhor pode... assinar?
Ford examinou o papel rapidamente. Deu um assobio leve.
— Isso vai dar uma bela dor de cabeça na InfiniDim — disse ele, fingindo preocupação. — Paciência — continuou ele, delicado. — Que se danem.
Assinou com um floreio e devolveu o papel ao barman.
— Mais dinheiro do que ele já ganhou em toda a sua carreira de filmes ruins e apresentações em cassinos. Apenas por fazer o que ele faz de melhor. Pegar o microfone e cantar em um bar. E ele próprio fez a negociação. Acho que é um momento de sorte para ele. Agradeça a ele por mim e lhe sirva uma bebida por minha conta. — Ford jogou umas moedas sobre o balcão.
O barman tentou devolver.
— Acho que isso não é necessário — disse ele, levemente rouco.
— Pra mim, é — respondeu Ford. — Beleza, vamos dar o fora daqui.
Ficaram parados no calor e na poeira, contemplando a nave imensa, rosa e cromada, pasmos e admirados. Ou pelo menos Ford a contemplava pasmo e admirado.
Arthur apenas a contemplava.
— Você não acha muito exagerada, não?
Repetiu a mesma coisa quando entraram na nave. Os assentos e uma boa parte dos controles eram revestidos de pele ou de camurça. Havia um imenso monograma dourado no painel de controle principal com as iniciais EP.
— Sabe — disse Ford, ligando os motores da nave —, eu perguntei a ele se era verdade que foi abduzido por alienígenas e sabe o que ele disse?
— Ele quem? — perguntou Arthur.
— O Rei.
— Que Rei? Ai, já conversamos sobre isso, não foi?
— Deixa pra lá — disse Ford. — O que importa é que ele disse não. Ele veio por vontade própria.
— Ainda não sei direito de quem estamos falando — disse Arthur.
Ford balançou a cabeça.
— Olha, tem umas fitas aí no compartimento à sua esquerda. Por que você não escolhe alguma música para a gente ouvir?
— Está bem — disse Arthur, vasculhando o compartimento. — Você gosta de Elvis Presley?
— Para falar a verdade, gosto, sim — disse Ford. — Só espero que essa máquina possa saltar pelo espaço tão bem quanto parece. — Acionou o propulsor principal. — Yeeehaah! — gritou Ford, enquanto levantavam voo a uma velocidade estonteante.
Ela podia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!