17 de dezembro de 2017

Capítulo 22

A noite em Islington estava doce e perfumada.
Claro que não havia Dragões de Fogo Fuolornis por perto, mas, se eles por acaso tivessem dado as caras, podiam muito bem dar uma parada na estrada e comer uma pizza, pois não seriam necessários.
Caso surgisse uma emergência enquanto ainda estavam no meio da sua fatia de pepperoni com porção extra de anchova, podiam tranquilamente mandar um recado para colocarem Dire Straits no som, coisa que, como hoje é conhecido, tem o mesmo efeito.
— Não — disse Fenchurch -, ainda não.
Arthur colocou o disco do Dire Straits no som. Fenchurch deixou a porta da frente do andar de cima entreaberta, para que o ar doce e perfumado da noite encontrasse o seu carminho.
Sentaram-se em algum móvel feito de almofadas, próximos da garrafa de champanhe aberta.
— Não — repetiu Fenchurch -, não até você descobrir o que há de errado comigo, com qual parte do meu corpo. Mas acho que — acrescentou ela, muito, muito, muito baixinho — podemos começar por onde a sua mão está agora.
Arthur disse:
— Então para que lado eu vou?
— Para baixo — respondeu Fenchurch -, nesse caso.
Ele mexeu a mão.
— Para baixo — disse ela -, é do outro lado.
— Ah, tá.
Mark Knopfler tem um talento extraordinário para fazer a guitarra Schecter Custom Stratocaster cantar e uivar como anjos no sábado à noite, exaustos de serem bonzinhos a semana toda e precisando de uma cerveja bem forte — o que não é estritamente relevante agora, já que o disco ainda não chegou nessa parte, mas vai estar rolando muita coisa quando chegar lá e, além do mais, o autor não tem a menor intenção de ficar aqui sentado com uma lista com os nomes das faixas e um cronômetro, então é melhor comentar isso logo, enquanto as coisas ainda estão indo devagar.
— Então chegamos — disse Arthur — ao seu joelho. Há uma coisa terrível e tragicamente errada com o seu joelho esquerdo.
— O meu joelho esquerdo — disse Fenchurch — vai bem, obrigada.
— Certamente.
— Você sabia que...
— O quê?
— Ah, tudo bem, dá para ver que você sabe. Não, continue.
— Então deve ser alguma coisa com os seus pés...
Ela sorriu à luz suave e aconchegou seus ombros nas almofadas com um movimento sutil.
Já que existem almofadas no Universo, especificamente em Squornshellous Beta, dois mundos depois do pantanal dos colchões, que têm um prazer ativo em ser roçadas, especialmente de maneira sutil, devido ao movimento sincopado dos ombros, foi uma pena que elas não estivessem lá. Não estavam, mas a vida é assim mesmo.
Arthur apoiou o pé esquerdo de Fenchurch no colo e examinou-o minuciosamente. Várias coisas relacionadas ao modo como o vestido dela caía por entre as pernas tornavam difícil para ele pensar com clareza naquele instante.
— Tenho que admitir — disse ele — que não faço a ideia do que estou procurando.
— Você vai saber quando encontrar — respondeu ela — Tenho certeza. — A sua voz estava levemente embargada. — Não é esse pé.
Sentindo-se cada vez mais confuso, Arthur colocou o pé esquerdo dela no chão e mudou de lugar para poder observar o pé direito. Ela se inclinou um pouco, abraçando Arthur e o beijou, porque o disco tinha chegado naquele momento em que, se você conhece o disco, sabe que seria impossível não fazer isso.
Depois, ela lhe estendeu o pé direito.
Arthur o afagou, deslizou os dedos em torno do calcanhar debaixo dos dedos, ao longo do peito do pé e não viu nada de errado com ele.
Ela o observou, achando muita graça, deu uma risada e balançou a cabeça.
— Não, não pára — pediu ela -, mas agora não é esse.
Arthur parou e olhou curioso, com a testa franzida, para o seu pé esquerdo no chão.
— Não pára.
Ele acariciou o pé direito dela, deslizou os dedos em torno do calcanhar, por baixo dos dedos, pelo peito do pé e disse:
— Quer dizer que tem a ver com qual das pernas eu estou segurando...?
Ela fez mais um daqueles movimentos de ombros que teriam alegrado a vida de uma simples almofada em Squornshellous Beta.
Ele franziu a testa.
— Me pega no colo — disse ela, baixinho.
Ele pousou o pé direito dela no chão e se levantou, Ela também ficou de pé. Ele a segurou em seus braços e eles se beijaram novamente. Ficaram assim por alguns instantes, ela disse:
— Agora me coloque de volta no chão.
Ainda confuso, ele obedeceu.
— E aí?
Ela o olhou, quase desafiadora.
— Qual o problema com meus pés? — perguntou ela.
Arthur ainda não estava entendendo. Sentou-se no chão, depois ficou agachado examinando os pés dela in loco, em seu habitat natural. E, ao olhar bem de perto, algo estranho o surpreendeu. Agachou a cabeça rente ao chão e olhou. Houve uma longa pausa. Depois sentou-se de volta, pesadamente.
— Sim — ele disse -, entendi o problema com os seus pés. Eles não encostam no chão.
— E aí... o que você acha?
Arthur olhou para ela depressa e viu uma apreensão profunda tornando os olhos dela subitamente escuros. Ela mordeu o lábio; estava tremendo.
— O que... — gaguejou ela — ...você está...? — Ela jogou o cabelo sobre os olhos, carregados de lágrimas escuras de medo.
Ele levantou-se imediatamente, abraçou-a e lhe deu um beijo.
— Talvez você consiga fazer o que eu faço — disse ele, saindo pela porta da frente do segundo andar, noite adentro.
O disco chegou naquela parte boa. 

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Boa leitura, E SEM SPOILER!