14 de dezembro de 2017

Capítulo 22

Arthur estava deitado, se revirando de dor, em um pedaço de concreto armado rachado, golpeado levemente por tufos de nuvens passageiras e confundido pelos sons festivos vindos de algum lugar não discernível atrás dele.
Havia um som que ele não conseguiu identificar imediatamente, em parte por não conhecer a música I Left My Leg in Janglan Beta* (Deixei minha perna em Janglan Beta) e em parte porque a banda que a tocava já estava muito cansada, de maneira que alguns músicos tocavam em compasso 3/4, outros em 4/4 e outros em uma espécie de R2 bebum, de acordo com a quantidade de tempo que cada um havia dormido recentemente.
Ficou ali deitado, ofegando muito no ar úmido. Tentou tocar algumas partes do corpo para descobrir onde poderia ter se machucado. Onde quer que tocasse, doía. Acabou concluindo que era sua mão que estava doendo. Aparentemente havia torcido o pulso. Suas costas também pareciam estar doendo, mas logo percebeu que não estava seriamente machucado, apenas um pouco ralado e um pouco atordoado, mas quem não estaria? Não podia entender o que um prédio estava fazendo voando no meio das nuvens. Por outro lado, também teria sérias dificuldades em explicar, de forma coerente, o que estava fazendo ali, então decidiu que ele e o prédio teriam que se aceitar mutuamente.
Olhou para cima. Uma parede de revestimento de pedra clara mas manchada erguia-se atrás dele — era o prédio em si. Arthur parecia estar estatelado em algum tipo de borda ou beirada que se estendia para fora por cerca de um metro em volta de todo o prédio. Era um pedaço do solo no qual o prédio da festa um dia tivera suas fundações e que havia transportado consigo para se manter inteiro na parte inferior.
Levantou-se nervosamente e, olhando para além da borda, subitamente ficou com vertigem. Pressionou suas costas contra a parede, molhado de névoa e suor. Sua cabeça nadava em estilo livre, mas alguém em seu estômago estava nadando borboleta. Ainda que tivesse chegado até lá por conta própria, no momento não podia nem olhar para o tremendo abismo à sua frente. Não estava nem um pouco disposto a testar sua sorte pulando. Não iria chegar nem um centímetro mais perto da borda.
Agarrado à sua bolsa, foi andando junto à parede, na esperança de encontrar uma porta de entrada. A solidez do peso da lata de azeite era altamente reconfortante. Estava indo em direção ao canto mais próximo, na esperança de que a parede do outro lado apresentasse mais escolhas no quesito “portas” do que aquela, que não tinha nenhuma.
A instabilidade do voo do prédio o deixava em pânico e, após algum tempo, pegou a toalha que estava na bolsa e fez com ela algo que, mais uma vez, justificava sua posição suprema na lista de coisas úteis que devem ser levadas ao pegar carona pela Galáxia: vendou os olhos, pois assim não teria que ver o que estava fazendo.
Seus pés acompanhavam a borda do prédio. Seu braço estava completamente esticado e grudado à parede. Finalmente chegou ao canto e, quando sua mão o contornou, encontrou algo que lhe deu um susto tão grande que quase caiu. Era outra mão.
As duas mãos se seguraram.
Queria desesperadamente usar sua outra mão para tirar a toalha de seus olhos, mas ela estava segurando a bolsa com o azeite, a retsina e os cartões-postais de Santorini, e ele realmente não queria largar aquilo tudo.
Passou por um daqueles momentos de crise de identidade quando você subitamente se volta para dentro e começa a pensar: “Quem sou eu? O que eu desejo? Quais minhas realizações? Estou indo bem?” Ele soluçou baixinho.
Tentou liberar sua mão, mas não podia. A outra mão estava segurando a sua bem firme. Não tinha outro jeito senão andar em direção ao canto. Contornou-o e sacudiu a cabeça na tentativa de deslocar a toalha. Aparentemente isso teve como efeito provocar um grito agudo de alguma emoção fora de moda por parte do dono da outra mão.
Quando a toalha caiu de sua cabeça, descobriu que seus olhos estavam fixos nos de Ford Prefect. Atrás dele estava Slartibartfast e, mais para trás, ele podia ver claramente o portão do prédio e uma grande porta fechada.
Os outros dois também estavam de costas contra a parede, os olhos esbugalhados de terror toda vez que olhavam para dentro da densa nuvem cinza que os cercava, enquanto tentavam resistir aos balanços e sacudidelas do prédio.
— Por que zárquon de fóton você andou? — sussurrou Ford, em completo pânico.
— Ahn, bem... — gaguejou Arthur, meio sem saber como iria resumir tudo em poucas palavras. — Por aí. O que vocês estão fazendo aqui?
Ford virou seus olhos esbugalhados para Arthur novamente.
— Não querem nos deixar entrar sem uma garrafa!
A primeira coisa que Arthur notou, quando entraram na parte mais movimentada da festa, além do ruído, do calor sufocante, da profusão de cores selvagens que podia ser vista vagamente em meio ao ar cheio de fumaça, dos carpetes cobertos com uma grossa camada de caquinhos de vidro, cinzas e restos de pastinhas, além do pequeno grupo de criaturas pterodactiloides vestidas em lurex que vieram atracar-se com sua querida garrafa de retsina, grasnando “nova diversão, nova diversão”, foi Trillian levando uma cantada do Deus do Trovão.
— Não te conheço do Milliways? — disse ele.
— Você era o cara com o martelo?
— O próprio. Mas prefiro este lugar aqui. É tão menos respeitável, tão mais lotado.
Gritos de algum prazer indescritível ecoaram pela sala, cujas dimensões externas eram invisíveis através da multidão pulsante de criaturas alegres e barulhentas, animadamente gritando umas para as outras coisas que ninguém podia ouvir e ocasionalmente tendo chiliques.
— É, parece divertido — disse Trillian. — O que você disse, Arthur?
— Eu perguntei como você chegou aqui?
— Eu era uma fileira de pontinhos flutuando aleatoriamente pelo Universo. Você conhece Thor? Ele faz trovões.
— Oi — disse Arthur. — Deve ser bem legal.
— Oi — disse Thor. — É legal. Você já pegou uma bebida?
— Ahn, não, na verdade...
— Então por que você não vai procurar uma?
— Te vejo depois, Arthur — disse Trillian.
Alguma coisa passou pela mente de Arthur e ele olhou em volta, procurando alguém.
— Zaphod por acaso está aqui? — perguntou.
— Vejo você — repetiu Trillian com firmeza — mais tarde.
Thor lançou-lhe um olhar duro com seus olhos pretos com carvão; sua barba se eriçou e a pouca luz que havia no sala reagrupou suas forças para cintilar ameaçadoramente no chifres de seu capacete.
Pegou Trillian pelo ombro com sua enorme mão e os músculos de seu braço passaram uns pelos outros, como dois fuscas estacionando. Levou-a embora.
— Uma das coisas interessantes de ser imortal — disse ele — é que...
— Uma das coisas interessantes sobre o espaço — Arthur ouviu Slartibartfast dizer para uma criatura espaçosamente gorda, que se parecia com alguém que estivesse perdendo uma briga contra um edredom rosa e que estava hipnotizada pelos olhos profundos e pela barba prateada do velho — é quão monótono ele é.
— Monótono? — disse a criatura, piscando seus olhos bastante enrugados e também injetados.
— Sim — continuou Slartibartfast —, espantosamente monótono. Estonteantemente monótono. Sabe, o problema é que há muito espaço e pouca coisa dentro dele. Você quer que eu cite algumas estatísticas?
— Olha, bem...
— Ah, por favor, eu adoraria. Elas também são sensacionalmente monótonas.
— Claro, já volto para ouvir isso — disse a criatura, dando um tapinha no braço dele e depois levantando sua saia como um hovercraft e se perdendo em meio à multidão.
— Achei que ela não iria mais embora — resmungou o velho — venha, terráqueo...
— Arthur.
— Precisamos encontrar a Trave de Prata, ela está aqui e algum lugar.
— Não podemos relaxar um pouquinho? — disse Arthur. — Tive um dia difícil. Por coincidência, Trillian também está aqui, mas não disse como chegou. Suponho que não importe.
— Pense nos perigos que o Universo corre...
— O Universo — disse Arthur — já está bem grandinho e já tem idade para cuidar de si mesmo durante meia hora. Tudo bem, tudo bem — acrescentou, vendo que Slartibartfast estava ficando mais inquieto —, vou dar uma volta e descobrir se alguém viu a trave.
— Ótimo, ótimo — disse Slartibartfast. — Ótimo.
Depois ele também mergulhou na multidão e todos por quem passava lhe diziam que deveria relaxar um pouco.
— Você viu uma trave em algum lugar? — perguntou Arthur para um homenzinho que parecia estar de pé aguardando ansiosamente que alguém fosse falar com ele. — É feita de prata, vitalmente importante para a segurança futura do Universo e é mais ou menos deste tamanho.
— Não — respondeu o homenzinho entusiasticamente franzino —, mas vamos tomar um drinque enquanto você me conta todos os detalhes.
Ford Prefect passou, sacudindo-se, dançando de forma frenética, selvagem e um pouco obscena com alguém que parecia estar usando a Ópera de Sydney sobre a cabeça. Ele estava gritando uma conversa fiada para ela por cima da zoeira.
— Gosto deste chapéu! — berrou.
— O quê?
— Disse que gosto do chapéu.
— Mas eu não estou usando um chapéu.
— Bom, então eu gosto da cabeça.
— O quê?
— Eu disse que gosto da cabeça. É uma estrutura óssea interessante.
— O quê?
Ford incluiu um “deixa pra lá” com os ombros em complexa rotina de movimentos que estava executando.
— Disse que você dança bem — vociferou —, mas tente não sacudir tanto a cabeça.
— O quê?
— É só que, toda vez que você sacode a cabeça — disse Ford e acrescentou “ai!” quando sua parceira se inclinou novamente para dizer “o quê?” e, mais uma vez, enfiou a ponta afiada e protuberante de seu crânio na testa de Ford.
— Meu planeta foi destruído uma certa manhã — disse Arthur que, inesperadamente, se viu contando a história de sua vida para o homenzinho, ou pelo menos resumindo os melhores momentos —, e por isso estou vestido assim, com esse roupão. Meu planeta foi destruído com todas as minhas roupas dentro, entende? Não sabia que eu vinha para uma festa.
O homenzinho assentiu entusiasticamente.
— Mais tarde eu fui jogado para fora de uma espaçonave. Ainda em meu roupão. Normalmente seria bom estar usando um traje espacial nessa hora. Pouco depois descobri que meu planeta tinha sido construído originalmente para um punhado de camundongos. Você pode imaginar como isso me fez sentir. Então atiraram em mim algumas vezes e eu fui detonado. Na verdade, já fui detonado um número absurdo de vezes, já atiraram em mim, me insultaram, fui desintegrado várias vezes, privado de chá e, há pouco tempo, nossa nave caiu em um pântano e tive que passar cinco anos em uma caverna úmida.
— Ah! — disse o homenzinho alegremente. — Então você se divertiu muito?
Arthur se engasgou violentamente com seu drinque.
— Que tosse formidavelmente excitante — disse o homenzinho, bastante espantado com aquilo —, você se importa se o acompanhar?
Tendo dito isso, ele começou a ter um impressionante acesso de tosse que deixou Arthur tão surpreso que ele se engasgou violentamente, descobriu que já estava engasgado antes e ficou totalmente confuso.
Juntos fizeram um dueto de estourar os pulmões que durou uns dois minutos antes que Arthur conseguisse parar.
— Muito revigorante — disse o homenzinho, arquejante e enxugando lágrimas dos olhos. — Que vida excitante você deve ter. Muitíssimo obrigado.
Apertou calorosamente as mãos de Arthur e depois saiu andando, misturando-se à multidão.
Arthur apenas balançou a cabeça, surpreso.
Um jovem aproximou-se dele em seguida. Fazia o tipo agressivo, com uma boca torta como um gancho, um nariz de lanterna e ossos da maçã do rosto pequenos e brilhantes. Estava usando calças pretas, uma camisa de seda preta aberta até o que parecia ser seu umbigo — embora Arthur já tivesse aprendido a nunca presumir nada sobre as anatomias do tipo de gente que vinha encontrando ultimamente — e tinha diversos penduricalhos dourados esquisitos em volta do pescoço. Carregava alguma coisa em uma bolsa preta e claramente queria que as pessoas notassem que ele não queria que notassem a bolsa.
— E aí, não ouvi você dizer seu nome agora há pouco? — perguntou.
Essa foi uma das muitas coisas que Arthur contou ao homenzinho entusiasmado.
— Sim, é Arthur Dent.
O cara parecia estar dançando levemente em algum outro ritmo que não um dos muitos que a banda tocava sem cessar.
— Isso aí — disse o cara. — Tinha um sujeito numa montanha que estava querendo muito ver você.
— Já encontrei com ele.
— É, mas ele tava realmente ansioso com isso, sabe?
— Sei, encontrei com ele.
— É, bom, achei que era legal avisar.
— Já sei. Eu encontrei com ele.
O cara fez uma pausa para mastigar chiclete. Depois deu um tapinha nas costas de Arthur.
— Isso aí — ele disse —, manda ver. Só tava avisando, falo? Boa noite, boa sorte, ganhe prêmios.
— O quê? — disse Arthur, que estava começando a se atrapalhar seriamente àquela altura.
— Sei lá. Faça o que quiser. Faça bem-feito — ele fez um ruído parecido com um clique usando seja lá o que for que estivesse mascando, depois fez uns gestos vagos.
— Por quê? — disse Arthur.
— Faça mal, então — disse o cara. — E quem se importa? Ninguém tá nem aí, não é? — O sangue parecia ter subido à cabeça do sujeito, que começou a gritar. — Ei, por que não pirar? — disse. — Sai fora, me deixa em paz, cara. Zarca fora!
— Tudo bem, tô saindo — disse Arthur apressadamente.
— Foi pra valer — o cara acenou bruscamente e desapareceu na massa.
— Que diabos foi isso? — perguntou Arthur para uma garota que estava ao lado dele. — Por que ele me disse para ganhar prêmios?
— Maluquice de artista — disse a garota. — Ele acabou de ganhar um prêmio na Cerimônia Anual de Premiação do Instituto de Ilusões Recreativas de Alfa da Ursa Menor e estava querendo comentar com você como se não fosse nada, mas como você não perguntou, ele não pôde dizer nada.
— Ah — disse Arthur —, ah, puxa, lamento. Qual foi o prêmio?
— Uso Mais Desnecessário da Palavra “Foda-se” em um Roteiro Sério. É um prêmio muito importante.
— Sei — disse Arthur —, e como se chama o prêmio?
— Um Rory. É só uma pequena coisa de prata enfiada em um grande pedestal preto. O que você disse?
— Não disse nada. Eu ia perguntar o que a coisa de prata...
— Ah, achei que você tinha dito “uop”.
— O quê?
— Uop.
Há anos as pessoas estavam entrando e saindo da festa, penetras famosos de outros mundos, e já fazia algum tempo que os participantes da festa tinham notado, quando olhavam para seu próprio mundo abaixo deles, com suas cidades destroçadas, as fazendas de abacate destroçadas e os vinhedos destruídos por pragas, suas vastas extensões de terras transformadas em desertos, seus oceanos cheios de migalhas de biscoitos e coisas muito piores, enfim, haviam notado que, de formas mínimas, quase imperceptíveis, seu mundo já não era tão agradável quanto antes. Alguns deles tinham começado a pensar se poderiam ficar sóbrios tempo suficiente para tornar a festa inteira capaz de viajar no espaço e, então, decolar para planetas de outras pessoas, onde o ar fosse mais puro e lhes desse menos dores de cabeça.
Os poucos e malnutridos fazendeiros que ainda conseguiam extrair um miserável sustento do solo árido da superfície do planeta teriam ficado extremamente felizes em saber disso tudo, mas, naquele dia, quando a festa rasgou as nuvens com um som gritante e os fazendeiros olharam para cima temendo um outro saque de queijos e vinhos, ficou claro que a festa não iria para lugar nenhum durante um bom tempo. Na verdade, em breve a festa estaria acabada. Muito em breve seria hora de pegar os chapéus e casacos e cambalear para fora procurando saber qual era a hora, que dia era aquele e onde, naquela terra devastada, seria possível encontrar um táxi.
A festa estava presa num terrível abraço com uma estranha nave branca, que parecia estar meio enfiada nela. Juntas, estavam balançando, oscilando e girando pesadamente no céu, em um grotesco desdém por seu próprio peso.
As nuvens se abriram. O ar rugia e abria caminho.
A festa e a nave de Krikkit, em suas manobras, de certa forma se pareciam com dois patos, um dos quais está tentando fazer um terceiro pato dentro do segundo pato, enquanto este segundo pato está tentando explicar, de forma veemente, que não se sente pronto para um terceiro pato naquele exato momento, que não tem muita certeza de sequer querer que um suposto terceiro pato seja feito por aquele primeiro pato para início de conversa e certamente não enquanto ele, o segundo pato, estiver ocupado voando.
O céu gritava e gemia em meio à fúria daquilo tudo, esbofeteando o chão com ondas de choque.
E, subitamente, com um “fuop”, a nave de Krikkit se foi.
A festa vagou trôpega pelo céu, como um homem encostado numa porta inesperadamente aberta. Ela girou e sacolejou sobre seus jatos flutuadores. Tentou endireitar-se, mas conseguiu apenas ficar mais torta. Cambaleou novamente pelo céu.
Durante algum tempo esses tropeços continuaram, mas estava claro que não iriam durar muito. A festa era, agora, uma festa mortalmente ferida. Toda a diversão havia se perdido, fato que as eventuais piruetas alquebradas não podiam disfarçar. Nesse ponto, quanto mais tempo ela evitasse a queda, pior seria o choque quando finalmente caísse.
Lá dentro, as coisas também não estavam indo muito bem. Na verdade, estavam indo monstruosamente mal, as pessoas estavam odiando aquilo e dizendo isso em alto e bom som:
— Os robôs de Krikkit estragaram a festa.
Tinham levado o Prêmio pelo Uso Mais Desnecessário da Palavra “Foda-se” em um Roteiro Sério e, em seu lugar, deixaram uma cena de devastação que fez com que Arthur se sentisse quase tão enjoado quanto um candidato a um Rory.
— Gostaríamos muito de poder ficar e ajudar — gritou Ford, abrindo caminho através dos destroços —, mas não vamos.
A festa sacolejou novamente, gerando gritos e gemidos exaltados dentre os destroços chamuscados.
— Sabe, é que temos que sair para salvar o Universo — prosseguiu Ford. — E se isso parece uma bela desculpa esfarrapada, pode até ser. De qualquer forma, estamos fora.
Deparou-se subitamente com uma garrafa fechada, miraculosamente inteira e de pé sobre o chão.
— Vocês se importam se levarmos isso? — disse. — Não vão mais precisar, não é?
Pegou um pacote de batatas fritas também.
— Trillian? — gritou Arthur, com uma voz enfraquecida e abalada. Não conseguia ver nada naquela confusão, em meio à fumaça.
— Terráqueo, temos que ir — disse Slartibartfast, nervoso.
— Trillian? — gritou Arthur novamente.
Pouco depois surgiu Trillian, chocada e trêmula, apoiando-se em seu novo amigo, o Deus do Trovão.
— A garota vai ficar comigo — disse Thor. — Estão dando uma grande festa no Valhala, vamos voar até lá...
— Onde estava você quando tudo aconteceu? — disse Arthur.
— Lá em cima — respondeu Thor. — Estava vendo o peso dela. Voar é uma coisa complicada, sabe? É preciso calcular a velocidade dos...
— Ela vem conosco — disse Arthur.
— Ei!. — disse Trillian. — Será que eu não...
— Não — disse Arthur —, você vem conosco.
Thor olhou para ele com um olhar que ardia lentamente. Ele estava deixando bem claro um determinado ponto sobre sua divindade e não tinha nada a ver com ser honesto.
— Ela vem comigo — disse baixinho.
— Vamos, terráqueo — disse Slartibartfast nervosamente, puxando Arthur pela manga.
— Vamos, Slartibartfast — disse Ford, puxando o velho pela manga. O dispositivo de teleporte estava com Slartibartfast.
A festa inclinou-se e balançou, fazendo com que todos cambaleassem, exceto Thor e exceto Arthur, que olhava, tremendo, dentro dos olhos negros do Deus do Trovão. Lentamente, inacreditavelmente, Arthur levantou o que pareciam ser seus pequenos punhos magrelos.
— Vai encarar? — disse ele.
— O que disse, seu inseto nanico? — trovejou Thor.
— Eu perguntei — repetiu Arthur, incapaz de manter a firmeza na voz — se você vai encarar? — Moveu ridiculamente seus punhos.
Thor olhou para ele com total incredulidade. Então uma pequena nesga de fumaça subiu, saindo de sua narina. Havia uma chama bem pequena lá dentro também. Colocou as mãos no cinturão. Encheu o peito, só para deixar bem claro que aquele era um homem cujo caminho você só ousaria cruzar se estivesse acompanhado por uma boa equipe de Sherpas. Desprendeu o cabo de seu martelo do cinturão. Segurou-o em suas mãos, deixando à mostra a maciça marreta de ferro. Dessa forma eliminou qualquer dúvida eventual de que estivesse apenas carregando um poste por aí.
— Se eu vou — disse ele, sibilando como um rio correndo pelo alto-forno de uma refinaria — encarar?
— Sim — disse Arthur, com a voz súbita e extraordinariamente forte e belicosa. Sacudiu os punhos novamente, dessa vez com firmeza. — Vamos resolver isso lá fora? — rosnou para Thor.
— Tudo bem! — tonitruou Thor, como um touro enfurecia (ou, na verdade, como um Deus do Trovão enfurecido, o que bem mais impressionante), e saiu.
— Ótimo — disse Arthur — ficamos livres dele. Slarty, nos tire daqui.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!