7 de dezembro de 2017

Capítulo 22

Arthur acordou e arrependeu-se imediatamente. Já tinha tido ressacas, mas nunca nada nessa escala. Essa era demais, a maior de todas, o fundo do poço. Raios de transferência de matéria não eram, decidiu, tão agradáveis como um bom chute na cabeça.
Indisposto a levantar-se devido a um desagradável latejo que estava sentindo, ficou deitado, pensando. O problema com a maioria das formas de transporte, pensou, é que basicamente não valem a pena. Na Terra — quando havia a Terra, antes de ser demolida para dar lugar a uma via expressa hiperespacial — o problema tinha sido com os carros. As desvantagens envolvidas em arrancar montes de lodo preto viscoso do subsolo onde tinha estado escondido em segurança longe de todo mal, transformá-lo em piche para cobrir o chão, fumaça para infestar o ar e espalhar o resto pelo mar, tudo isso parecia descompensar as vantagens aparentes de se poder chegar mais rápido a um outro lugar — especialmente quando o lugar a que se chegava tinha ficado, como resultado, muito parecido com o lugar de que se tinha saído, ou seja, coberto de piche, cheio de fumaça e sem peixe.
E os raios de transferência de matéria então! Qualquer meio de transporte que envolva dividir a pessoa em pedaços, átomo por átomo, lançar esses átomos no subéter, e então montá-los de novo logo quando estavam sentindo seu primeiro sabor de liberdade em anos, certamente não podia ser coisa boa.
Muitas pessoas tinham pensado exatamente a mesma coisa antes de Arthur Dent e tinham chegado até ao cúmulo de compor canções a respeito. Eis aqui uma que era entoada regularmente por grandes concentrações em frente à fábrica de Sistemas de Teleporte da Companhia Cibernética de Sírius, no Mundo-Alegre III:

Aldebaran é demais
Algol é o máximo,
OK As moças de Betelgeuse
São de enlouquecer, eu sei.
Me darão o que eu quiser
Me farão o que eu pedir
Mas se é preciso me desintegrar
Então prefiro não ir.

Todo mundo:
Desintegrar, desintegrar
Essa viagem me arrasa
E se é preciso me desintegrar
Prefiro ficar em casa.

Sírius tem ruas de ouro
Foi o que ouvi dizer
Dos que foram e voltaram:
“Ver Tau antes de morrer”
Irei feliz às estrelas,
Planetas, luas e sóis
Mas se é preciso me desintegrar
Eu fico nos meus lençóis.

Todo mundo:
Desintegrar, desintegrar
Acho que você pirou
E se é preciso me desintegrar
Então, meu caro, eu não vou.

... e por aí afora. Uma outra canção muito popular era bem mais curta:

Nos teleportamos juntos
Eu, Ronaldo, Laura e Zé
José roubou o coração de Laura
E o Ronei ficou com meu pé.

Arthur sentiu que as ondas de dor estavam recuando, embora o latejo desagradável continuasse. Devagar e com cuidado ele se levantou.
— Você está ouvindo um latejo desagradável? — disse Ford Prefect.
Arthur virou-se e cambaleou. Ford Prefect vinha vindo, de olhos vermelhos e abatido.
— Onde estamos? — perguntou Arthur, engolindo em seco.
Ford olhou ao redor. Estavam num longo corredor em curva que se estendia em ambas as direções até se perder de vista. A parede exterior de aço — pintada com aquele tom enjoativo de verde que usam nas escolas, nos hospitais e nos asilos psiquiátricos para manter os internos submissos — curvava-se sobre suas cabeças para ir de encontro à parede interior perpendicular que era esquisitamente coberta de lambris marrom-escuro.
Ford foi até um escuro painel transparente muito grosso instalado na parede externa. Tinha várias camadas, mas ainda assim era possível ver os pontinhos luminosos de estrelas distantes.
— Acho que estamos em algum tipo de nave espacial — disse.
Do corredor vinha o ruído de um latejo monótono e desagradável.
— Trillian? — chamou Arthur. — Zaphod?
Ford sacudiu os ombros.
— Não estão por aqui — disse —, eu procurei. Podem estar em qualquer lugar. Um teleporte sem programação pode mandar você a anos-luz de distância em qualquer direção. A julgar por como me sinto devemos ter viajado um bocado.
— Como você se sente?
— Mal.
— Você acha que eles...
— Onde estão, como estão, não temos como saber e não temos o que fazer a respeito. Faça como eu.
— Como?
— Não pense nisso.
Arthur trabalhou a ideia em sua cabeça, relutantemente viu a sabedoria que ela encerrava, e a assumiu. Respirou profundamente.
— Passos! — exclamou Ford de repente.
— Onde?
— Esse barulho. O latejo. Alguém andando pesadamente. Ouça!
Arthur ouviu. O ruído ecoava pelo corredor de uma distância indeterminada. Era o som abafado de passadas duras, e estava perceptivelmente ficando mais alto.
— Vamos sair daqui — disse Ford. Ambos saíram, cada um em uma direção.
— Por aí não — disse Ford —, é daqui que vêm vindo.
— Não é, não — disse Arthur. — Estão vindo daí.
— Não, estão...
Ambos pararam. Ambos se viraram. Ambos ouviram com atenção. Ambos concordaram um com o outro. Ambos saíram, cada um em uma direção novamente.
O medo os acometeu.
De ambas as direções o barulho ia ficando mais alto.
A poucos metros à sua esquerda um outro corredor entrava em ângulo reto pela parede interna. Correram para ele e seguiram correndo por ele. Era escuro, imensamente comprido, e, conforme iam passando, tinham a sensação de que ia ficando cada vez mais frio. Outros corredores desembocavam nele, à direita e à esquerda, todos muito escuros, e todos os sujeitando a baforadas de ar gelado quando passavam por eles.
Pararam um instante, alarmados. Quanto mais entravam corredor adentro, mais alto o som das passadas.
Apertaram-se contra a parede e tentaram desesperadamente ouvir. O frio, a escuridão e os passos de pés sem corpo lhes faziam mal. Ford tremia, em parte pelo frio, mas em parte pela lembrança das estórias que sua mãe predileta lhe contava quando ele não passava de um pingo de betelgeusiano: estórias de naves fantasmas, naves assombradas que percorriam sem descanso as mais obscuras regiões do espaço profundo infestadas de demônios ou de fantasmas de tripulações esquecidas; e também estórias de viajantes incautos que encontravam e entravam nessas naves; estórias de... — e aí Ford se lembrou dos lambris marrom-escuro no primeiro corredor e se recompôs. Mesmo que demônios e fantasmas resolvessem decorar suas naves assombradas, ele podia apostar o quanto fosse que não iriam escolher lambris marrons. Puxou Arthur pelo braço.
— Vamos voltar por onde viemos — disse com firmeza, e eles retomaram o caminho. Pouco depois, pularam como lagartos assustados para o corredor mais próximo quando viram os donos dos pés surgirem à vista diretamente à frente deles.
Escondidos no canto assistiram, espantados, a cerca de duas dúzias de homens e mulheres passarem pisando duro, vestindo abrigos e ofegando de uma tal maneira que excitaria um cardiologista.
Ford Prefect ficou olhando para eles.
— São praticantes de jogging! — cochichou, enquanto o som de seus passos ecoava na distância.
— Praticantes de jogging? — sussurrou Arthur.
— Praticantes de jogging — disse Ford Prefect sacudindo os ombros.
O corredor em que estavam escondidos não era como os outros. Era bem curto e terminava numa grande porta de aço. Ford a examinou, descobriu o mecanismo de abrir e empurrou.
A primeira coisa que viram foi o que se revelou ser um caixão.
E as quatro mil novecentas e noventa e nove coisas seguintes que viram também eram caixões.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)