26 de dezembro de 2017

Capítulo 21

Edifícios cinzentos enevoados surgiam e desapareciam.
Balançavam para cima e para baixo de maneira altamente constrangedora.
Que edifícios eram aqueles? Qual a sua finalidade? O que eles a lembravam?
É muito difícil entender as coisas quando somos inesperadamente transportados para um mundo diferente, com uma cultura diferente, com um conjunto diferente de pressupostos básicos sobre a vida e, além de tudo isso, com uma arquitetura incrivelmente sem graça e sem sentido. O céu sobre os prédios era de um negrume frio e hostil. As estrelas, que àquela distância do sol deveriam ser pontos de luz insuportavelmente brilhantes, ficavam embaçadas e foscas por causa da grossura da enorme bolha de proteção. Feita de perspex ou qualquer coisa assim. Algo fosco e grosso.
Tricia rebobinou a fita até o início. Sabia que havia alguma coisa estranha ali.
Bem, na verdade, havia um milhão de coisas estranhas ali, mas uma em particular a incomodava e ela não sabia dizer qual era.
Suspirou e abriu a boca em um bocejo.
Enquanto esperava a fita rebobinar, jogou na lixeira alguns dos copinhos plásticos sujos de café que se acumularam sobre a mesa. Estava sentada numa pequena ilha de edição numa produtora de vídeo no Soho. Tinha colocado vários cartazes de NÃO PERTURBE na porta e bloqueado todas as ligações para o seu ramal. Originalmente, tudo isso era para proteger o seu incrível furo de reportagem, mas agora era para protegê-la do constrangimento.
Resolveu assistir à fita toda novamente desde o começo. Se conseguisse aguentar. Talvez desse uma adiantada aqui e ali. Eram cerca de quatro da tarde de segunda-feira e ela estava com uma sensação ruim. Estava tentando descobrir qual o motivo da sensação ruim, e a lista de suspeitos não era nada pequena.
Tudo começou com aquele voo noturno vindo de Nova York. O corujão. De matar qualquer um. Depois foi abordada em seu jardim e partiu para o planeta Rupert. Não tinha experiência suficiente naquele tipo de coisa para poder dizer com certeza que também era de matar qualquer um, mas podia apostar que as pessoas que passavam por aquilo regularmente deviam ter lá as suas reclamações. As revistas viviam publicando tabelas de estresse. Cinquenta pontos de estresse se você perdeu o seu emprego. Setenta e cinco para um divórcio ou um visual novo nos cabelos, e por aí vai. Nenhuma dessas tabelas jamais mencionou ser abordada em seu jardim por alienígenas e levada para o planeta Rupert, mas ela estava certa de que devia valer algumas dezenas de pontos.
Não que a viagem em si tivesse sido particularmente estressante. Na verdade, fora extremamente chata. Com certeza não ultrapassava o estresse da travessia sobre o Atlântico que tinha acabado de fazer e durou mais ou menos o mesmo tempo: quase sete horas. Aquilo era impressionante, não? Viajar para os limites extremos do sistema solar no mesmo tempo de um voo entre Londres e Nova York significava que eles deviam ter uma forma de propulsão fantástica e desconhecida na nave. Interrogou os seus anfitriões a respeito e eles concordaram que era mesmo incrível.
— Mas como é que funciona? — perguntara ela, animada. Ainda estava bem animada no inicio da viagem.
Localizou aquele trecho da fita e decidiu rever. Os grebulons, que era como eles se chamavam, estavam educadamente mostrando a ela quais botões apertavam para controlar a nave.
— Sim, mas qual é o princípio de funcionamento? — ouviu a sua voz perguntar, por trás da câmera.
— Ah, você quer saber se é um motor de dobra ou algo assim? — perguntaram eles.
— Sim — insistiu Tricia. — O que é?
— Deve ser algo assim — disseram eles.
— Assim como?
— Um motor de dobra, propulsor fotônico, algo assim. É melhor perguntar ao Engenheiro de Voo.
— E quem é ele?
— Não sabemos. Perdemos nossas mentes.
— Ah, é — disse Tricia, um pouco desanimada. — É o que vocês dizem. E como foi exatamente que vocês perderam a mente?
— Não sabemos — responderam, pacientemente.
— Porque perderam a mente — repetiu Tricia, abatida.
— Você quer ver televisão? É um longo voo. Nós assistimos televisão. Gostamos disso.
Toda essa cena imperdível estava gravada na fita, e que belo entretenimento ela proporcionava. Para começar, a qualidade da imagem estava péssima. Tricia não sabia dizer exatamente o porquê. Tinha a impressão de que os grebulons eram sensíveis a uma gama de frequências de luz um pouco diferente e de que havia muito ultravioleta por lá, o que estava entulhando a câmera de vídeo. Havia diversos padrões de interferência e chuviscos. Talvez estivesse relacionado com o motor de dobra a respeito do qual nenhum deles sabia nada.
O que ela tinha em fita, basicamente, era um bando de pessoas magrinhas e descoloridas sentadas, vendo noticiários em suas televisões. Apontara a câmera para fora, através da minúscula escotilha ao lado do seu assento, e conseguira captar um efeito levemente listrado das estrelas. Ela sabia que era real, mas teria levado apenas três ou quatro minutos para falsificar aquela imagem.
No final, tinha decidido poupar a sua preciosa fita de vídeo para usar quando chegasse a Rupert e reclinou-se em seu assento para ficar assistindo televisão com eles. Chegou até a cochilar um pouco.
Parte da sua sensação ruim, portanto, vinha da impressão de que tinha passado um tempo enorme em uma espaçonave extraterrestre, dotada de um impressionante projeto tecnológico, mas, ainda assim, gastara a maior parte do tempo cochilando diante de reprises de M*A*S*H e Cagney & Lacey. O que mais havia para se fazer lá?
Tirara algumas fotos também, é claro, mas voltaram do laboratório pavorosamente embaçadas.
Outra parte de sua sensação ruim provavelmente vinha da chegada em Rupert. Aquilo, pelo menos, fora dramático e de arrepiar os cabelos. A nave veio sobrevoando uma paisagem negra e sombria, um terreno tão desesperadamente isolado do calor e da luz de seu sol que mais parecia um mapa das cicatrizes psicológicas na mente de uma criança abandonada. Luzes ardiam através da escuridão congelada e guiavam a nave até a entrada de uma espécie de caverna que parecia ter se curvado para recebê-la.
Infelizmente, por causa do ângulo de aproximação da nave e da profundidade em que a pequena e grossa escotilha estava inserida em seu revestimento, não foi possível posicionar a câmera de vídeo para captar essas imagens. Estava vendo aquele trecho da fita. A câmera estava apontada direto para o sol.
Isso, normalmente, é péssimo para uma câmera de vídeo. Mas, quando o sol está aproximadamente a quinhentos milhões de quilômetros de distância, não causa nenhum dano. Na verdade, quase não aparece. É apenas um pontinho de luz bem no meio do enquadramento, que poderia ser qualquer outra coisa. Era apenas uma estrela em meio a tantas outras.
Tricia avançou a fita.
Ah. O próximo trecho parecia bastante promissor. Saíram da nave dentro de uma estrutura enorme e cinzenta, parecida com um hangar. Aquilo era definitivamente tecnologia extraterrestre em uma escala impressionante. Imensos prédios cinzentos sob a abóbada escura da bolha de perspex. Eram os mesmos prédios que vira no início da fita. Conseguira filmá-los mais um pouco quando saíra de Rupert, algumas horas depois, antes de entrar na espaçonave que a levaria de volta para casa. O que eles lembravam?
Bom, mais do que qualquer outra coisa, lembravam o cenário de qualquer filme de ficção científica de quinta categoria dos últimos vinte anos. Eram muito maiores, é claro, mas pareciam igualmente improvisados e pouco realistas na tela do vídeo. Além da péssima qualidade da imagem, ela teve que lidar com efeitos inesperados da gravidade, consideravelmente menor do que na Terra, e tivera dificuldades para manter a câmera firme, sem ficar sacudindo para cima e para baixo de uma maneira constrangedoramente amadora. No final das contas era impossível distinguir detalhes na fita.
E lá estava o Líder se aproximando para cumprimentá-la, sorrindo e esticando a mão em sua direção.
Era assim que o chamavam. O Líder.
Nenhum dos grebulons tinha nome, em grande parte porque não conseguiam imaginar um. Tricia descobrira que alguns deles chegaram a pensar em adotar nomes de personagens dos programas de tevê que captavam da Terra, mas, por mais que tivessem se esforçado para se chamar Wayne, Bobby ou Chuck, algum vestígio de algo profundamente enraizado no subconsciente cultural que haviam trazido consigo das estrelas distantes de onde vieram deve ter dito a eles que aquilo não era certo e que não ia funcionar.
O Líder se parecia com todos os outros. Talvez um pouco menos magro. Ele disse o quanto gostava dos programas dela na tevê, disse que era o seu fã número um, que estava muito contente por ela ter vindo visitá-los em Rupert, falou que todos estavam ansiosos com a sua visita e disse ainda que ele esperava que o voo tivesse sido confortável, etc. e tal. Não havia nada que denunciasse que era uma espécie de emissária dos astros ou algo assim.
Revendo a cena agora em vídeo, ele parecia um sujeito comum fantasiado e maquiado, parado diante de um cenário que dava a impressão que ia desabar assim que alguém se encostasse nele.
E lá estava ela, sentada diante do monitor com o rosto entre as mãos, balançando a cabeça em lenta perplexidade.
Aquilo era horrível.
Não só aquele trecho era horrível, como ela sabia o que viria em seguida. Era a parte em que o Líder perguntava se ela estava com fome após o voo e se não gostaria de comer algo. Aproveitariam para conversar enquanto jantassem.
Lembrava perfeitamente o que havia passado pela sua cabeça naquela hora.
Comida de ET. Como se livrar daquela? Será que realmente ia ter que comer? Ou teria acesso a algum guardanapo de papel onde poderia cuspir? Não haveria dezenas de problemas de imunidade diferencial?
Acabou que eram hambúrgueres.
Não só eram hambúrgueres como também os hambúrgueres eram clara e obviamente do McDonald’s, requentados no micro-ondas. Não reconhecera apenas pela aparência. Nem pelo cheiro. É que, nas embalagens de poliestireno em formato de concha nas quais vinham os hambúrgueres, “McDonald’s” estava impresso em todos os cantos.
— Coma! Aproveite! — disse o Líder. — Nada é bom o bastante para a nossa convidada de honra!
Estava no apartamento particular do Líder. Tricia olhou à sua volta com um espanto que estava a um passo de se transformar em terror, mas não deixou de continuar filmando. O apartamento tinha uma cama com colchão d’água. E um Midi hifí. E um daqueles troços de vidro iluminados que ficam sobre os tampos das mesas e parecem ter glóbulos de esperma flutuando dentro deles. As paredes eram revestidas de veludo.
O Líder estava refestelado em um pufe de veludo cotelê marrom e esguichou um spray refrescante na boca.
De repente, Tricia começou a ficar muito assustada. Até onde sabia, estava mais distante da Terra do que qualquer outro ser humano jamais esteve, e em companhia de uma criatura alienígena refestelada em um pufe de veludo cotelê, esguichando spray refrescante na boca.
Não queria tomar atitudes precipitadas. Não queria assustá-lo. Mas tinha algumas coisas que ela precisava saber.
— Como foi que você... onde foi que arrumou... essas coisas? — perguntou ela, gesticulando em volta, nervosamente.
— A decoração? — perguntou o Líder. — Você gostou? É muito sofisticado. Somos um povo sofisticado, nós, os grebulons. Compramos bens de consumo sofisticados e duráveis... pelo correio.
Tricia concordara com a cabeça, tremendamente devagar.
— Pelo correio... — dissera ela.
O Líder deu uma risadinha. Era uma daquelas risadinhas sedosas e tranquilizadoras de chocolate amargo.
— Acho que você está pensando que eles fazem as entregas aqui. Não! Há há! Arranjamos uma caixa postal em New Hampshire. Fazemos visitas regulares para apanhar as encomendas. Há há! — Recostou-se, relaxado, em seu pufe, apanhou uma batata frita requentada e mordiscou a pontinha, com um sorriso divertido nos lábios.
Tricia podia sentir o seu cérebro começando a fritar aos poucos. Manteve a câmera rodando.
— Como é que vocês, bem, ah, como é que pagam por essas... coisas maravilhosas?
O Líder deu outra risadinha.
— American Express — disse ele, sacudindo os ombros de maneira indiferente.
Tricia concordou novamente com a cabeça, devagar. Sabia que mandavam cartões de crédito exclusivamente para quase todo mundo.
— E esses? — perguntou ela, segurando o hambúrguer que haviam lhe dado de presente.
— Isso é fácil — disse o Líder. — Ficamos na fila.
Novamente, com uma sensação gélida e formigante na espinha, Tricia percebeu que aquilo explicava muita coisa.
Apertou o botão de FF novamente. Não havia nada ali que pudesse ser usado.
Era tudo uma loucura, um pesadelo. Poderia ter forjado algo que parecesse mais convincente. Outra sensação ruim começou a invadi-la enquanto assistia àquela fita inútil e horrorosa, e ela começou a perceber, com um pavor gradual, que aquela devia ser a resposta.
Ela devia estar...
Sacudiu a cabeça e tentou manter a calma.
Um voo noturno para o Leste... Os remédios para dormir que tomou para aguentar a viagem. A vodca que bebeu para fazer os remédios funcionarem.
O que mais? Bem. Dezessete anos obcecada por um sujeito glamouroso que tinha duas cabeças — sendo que uma estava disfarçada de um papagaio preso em uma gaiola — e lhe passara uma cantada em uma festa mas se mandara, impaciente, para um outro planeta em um disco voador. De repente essa ideia parecia ter uma série de aspectos inconvenientes que jamais lhe ocorreram. Jamais. Em dezessete anos.
Enfiou o punho dentro da boca.
Precisava de ajuda.
Depois, Eric Bartlett perturbando-a com aquele papo de espaçonaves alienígenas pousando no seu jardim. E antes disso... Nova York fora... muito quente e estressante. As grandes esperanças e a amarga frustração. A história toda da astrologia.
Deve ter tido um colapso nervoso. Era isso. Estava exausta, tivera um colapso nervoso e começara a ter alucinações um pouco depois de chegar em casa. Sonhara aquela história toda. Uma raça alienígena de pessoas desprovidas das suas próprias vidas e histórias, encalhadas em uma base remota do nosso sistema solar, preenchendo o seu vácuo intelectual com o nosso lixo cultural. Ahá! Era a maneira da natureza lhe dizer que precisava se internar em uma clínica muito cara o mais rápido possível.
Estava muito, mas muito doente.
Olhou quantas doses duplas de café já havia bebido e percebeu como sua respiração estava ofegante e acelerada.
Perceber a doença, disse ela para si mesma, era meio caminho andado para a cura. Começou a controlar a respiração. Havia entendido tudo a tempo. Percebeu onde estava. Estava conseguindo voltar do precipício psicológico de onde quase despencou. Começou a se acalmar, se acalmar, se acalmar. Recostou na cadeira e fechou os olhos.
Após alguns minutos, agora que estava respirando normalmente de novo, abriu os olhos.
Mas então, de onde saíra aquela fita?
Ainda estava rodando.
Tudo bem. Era falsificada.
Ela própria a falsificara, era isso. Devia ter sido ela mesma quem a falsificara, pois sua voz podia ser ouvida em off o tempo todo, fazendo perguntas. De vez em quando, a câmera apontava para baixo no final de uma tomada e ela via os seus próprios pés, calçados nos seus próprios sapatos. Falsificara a fita e não conseguia se lembrar de tê-la falsificado nem sabia o porquê daquilo.
A sua respiração estava ficando agitada novamente, enquanto observava as imagens tremidas, cheias de chuvisco.
Vai ver que ainda estava tendo alucinações.
Sacudiu a cabeça, tentando espantar aquelas ideias. Não se lembrava de ter falsificado nenhuma parte daquela fita tão obviamente falsa. Por outro lado, conseguia se lembrar de coisas que se pareciam bastante com as falsas. Continuou assistindo, em transe, perplexa.
A pessoa que ela tinha imaginado se chamar o Líder estava lhe fazendo algumas perguntas sobre astrologia e ela estava respondendo tranquilamente. Somente ela própria era capaz de detectar o pânico crescente e bem disfarçado em sua voz.
O Líder apertou um botão e uma parede de veludo marrom deslizou para cima, revelando uma enorme bancada de monitores de tevê com tela plana. Cada um dos monitores estava exibindo um caleidoscópio de imagens diferentes: alguns segundos de um programa de auditório, alguns segundos de um seriado policial, alguns segundos do sistema de segurança do depósito de um supermercado, alguns segundos do filme caseiro das férias de alguém, alguns segundos de sexo, alguns segundos do noticiário, alguns segundos de comédia. Estava claro que o Líder tinha bastante orgulho de tudo aquilo e ficava movimentando as mãos como um maestro, enquanto continuava a tagarelar enormes besteiras.
Mais um movimento com as mãos e todas as telas ficaram brancas, formando uma única tela de computador gigante, mostrando em forma diagramática todos os planetas do sistema solar, mapeados sobre um pano de fundo das estrelas em suas constelações. A tela estava completamente estática.
— Temos grandes habilidades — estava dizendo o Líder. — Grandes habilidades em computação, em trigonometria cosmológica, em cálculo navegacional tridimensional. Grandes habilidades. Grandes, grandes habilidades. Só que nos esquecemos de tudo. É horrível. Gostávamos de ter habilidades, mas elas se foram. Estão por aí, em algum lugar do espaço, sem rumo. Assim como os nossos nomes e os detalhes sobre os nossos lares e entes queridos. Por favor — pediu ele, fazendo um gesto para que ela se sentasse diante do computador —, seja habilidosa para nós.
O que aconteceu em seguida, obviamente, foi que Tricia colocou a sua câmera no tripé para capturar toda a cena. Depois apareceu na filmagem e sentou-se calmamente diante da tela de computador gigante, passou alguns minutos se familiarizando com a interface e então começou, tranquila e competentemente, a fingir que tinha alguma ideia do que estava fazendo.
Na verdade, nem fora tão difícil assim.
Ela era, afinal, matemática e astrofísica por formação e apresentadora de tevê por experiência, e podia blefar sem problemas sobre toda a ciência que esquecera ao longo dos anos. O computador onde estava trabalhando era uma prova concreta de que os grebulons vinham de uma cultura muito mais avançada e sofisticada do que sugeria o seu atual estado de vácuo e, com a sua habilidade, ela conseguiu, em mais ou menos meia hora, improvisar um modelo grosseiro do sistema solar.
Não era incrivelmente preciso nem nada, mas ficara bonito. Os planetas estavam se movendo em simulações razoavelmente boas de suas órbitas e dava para observar o movimento de toda a engrenagem cosmológica virtual de qualquer ponto do sistema — embora muito grosseiramente. Dava para observar do ponto de vista da Terra, do ponto de vista de Marte, etc. Dava para observar da superfície do planeta Rupert. Tricia ficara bastante impressionada consigo mesma, mas igualmente impressionada com o sistema de computador no qual trabalhara. A tarefa talvez tivesse demorado um ano ou mais de programação usando computadores terrestres.
Quando terminou, o Líder surgiu atrás dela e contemplou seu trabalho. Estava muito satisfeito e encantado com o resultado.
— Ótimo — disse ele. — E agora, por favor, gostaria que você demonstrasse como usar o sistema que você acabou de criar para traduzir as informações desse livro aqui para mim.
Calmamente, colocou um livro diante dela.
Era Você e os seus planetas, de Gail Andrews.
Tricia parou a fita novamente.
Estava definitivamente se sentindo tonta. A sensação de que estava tendo alucinações passara, mas nada ficou mais fácil ou mais claro na sua cabeça.
Empurrou a cadeira para trás da mesa de edição e se perguntou o que fazer em seguida. Anos atrás abandonara o campo da pesquisa astronômica porque sabia, sem nenhuma dúvida, que havia conhecido um ser de outro planeta.
Em uma festa. E também sabia, sem nenhuma dúvida, que seria motivo de chacota se algum dia resolvesse falar sobre isso. Mas como podia estudar cosmologia e não contar justo o que sabia de mais importante a respeito? Fez a única coisa que podia fazer. Saiu fora.
Agora, ela trabalhava na televisão e a mesma coisa acontecera novamente.
Tinha uma fita gravada, uma fita gravada de verdade, da história mais incrível de toda história de, bem, qualquer coisa: uma base esquecida de uma civilização alienígena perdida no planeta mais afastado de nosso sistema solar.
Tinha a história.
Tinha estado lá.
Tinha visto tudo.
Tinha uma fita gravada, ora bolas.
E, se algum dia mostrasse para alguém, seria motivo de chacota.
Como podia provar aquilo? Nem valia a pena pensar a respeito. Tudo não passava de um pesadelo, de virtualmente qualquer ângulo que ela examinasse a situação. A sua cabeça estava começando a latejar.
Tinha uma aspirina na bolsa. Saiu da pequena ilha de edição em direção ao bebedouro no final do corredor. Tomou a aspirina e vários copos d’água.
O lugar parecia muito calmo.
Normalmente havia muitas pessoas zanzando apressadas por ali ou, pelo menos, algumas pessoas zanzando apressadas por ali. Esticou a cabeça para dentro da ilha de edição que ficava ao lado da sua, mas não havia ninguém lá dentro.
Exagerara um pouco no seu desespero de manter as pessoas longe da sua ilha de edição. NÃO PERTURBE estava escrito no cartaz. NEM PENSE EM ENTRAR. NÃO ME INTERESSA O QUE ESTÁ ACONTECENDO. VÁ EMBORA. ESTOU OCUPADA!
Quando voltou, percebeu que a luz de recados do seu telefone estava piscando e imaginou há quanto tempo já estaria assim.
— Alô? — disse ela para o recepcionista.
— Oh, Srta. McMillan, que bom que você ligou. Todo mundo está tentando falar com você. A sua rede de tevê. Estão desesperados para entrar em contato. Você pode ligar para eles?
— Por que você não transferiu a ligação? — perguntou Tricia.
— Você pediu para eu não transferir nada. Disse para eu até mesmo negar que a senhorita estava aqui. Eu não sabia o que fazer. Subi até aí para avisá-la, mas...
— Está bem — disse Tricia, xingando a si mesma. Ligou para o escritório.
— Tricia! Por onde diabos você andou?
— Na ilha de...
— Eles disseram...
— Eu sei. O que está acontecendo?
— O que está acontecendo? Só uma espaçonave extraterrestre!
— O quê? Aonde?
— No Regent’s Park. Grandona, prateada. Uma menina com um pássaro. Ela fala a nossa língua, joga pedra nas pessoas e quer alguém para consertar o seu relógio. Vá o mais rápido possível.
Tricia contemplava a cena. Não era uma nave grebulon. Não que ela tivesse subitamente se tornado uma especialista em embarcações extraterrestres, mas aquela era uma nave esguia e bonita, cinza e branca, do tamanho de um grande iate — aliás, era até mesmo parecida com um. Perto dela, as estruturas da imensa e semidesmantelada nave grebulon pareciam torres de canhão de um navio de guerra. Torres de canhão. Era com elas que os prédios cinzentos se pareciam. E o mais estranho é que, quando passara por elas antes de embarcar novamente na pequena nave grebulon, tinham se movido. Essas coisas passavam depressa pela sua cabeça enquanto ela corria do táxi até a equipe de filmagem.
— Onde está a garota? — gritou ela, por cima do barulho dos helicópteros e das sirenes da polícia.
— Ali! — gritou o produtor, enquanto o engenheiro de som corria para afixar um microfone nela. — Ela diz que sua mãe e seu pai vieram daqui em uma dimensão paralela ou algo assim e que está com o relógio do pai e... sei lá. O que mais posso dizer? Vai com tudo. Pergunte a ela como é ser de outro planeta.
— Valeu, Ted — murmurou Tricia.
Verificou se o seu microfone estava bem afixado, respirou fundo, jogou o cabelo para trás e incorporou o papel da repórter profissional, em território familiar, pronta para qualquer coisa. Pelo menos para praticamente qualquer coisa.
Virou-se para procurar a menina. Devia ser aquela ali, com cabelo despenteado e olhos raivosos. A menina virou-se para ela. E encarou-a fixamente.
— Mãe! — gritou ela, e começou a atirar pedras em Tricia.

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