14 de dezembro de 2017

Capítulo 21

A mais longa e destrutiva festa já realizada está agora em sua quarta geração e, ainda assim, ninguém dá sinais de querer sair. Certa vez alguém olhou para o relógio, mas isso foi há 11 anos e a coisa parou por aí.
A bagunça é extraordinária, algo em que você só acreditaria vendo, mas, se você não tiver nenhuma necessidade específica de acreditar, melhor não ir, porque você não vai gostar de lá.
Recentemente houve alguns estrondos e luzes em meio às nuvens e surgiu uma teoria de que fosse uma batalha em andamento entre frotas de diversas empresas rivais de limpeza de carpetes que sobrevoam a coisa como se fossem urubus, mas não se deve acreditar em tudo que se escuta em festas, sobretudo não nas coisas que se ouve nessa festa.
Um dos problemas — e um que obviamente só vai piorar — é que todas as pessoas na festa são filhos, netos ou bisnetos das pessoas que não saíram de lá no início de tudo e, por conta de todas aquelas baboseiras sobre seleção natural e genes recessivos, isso significa que todas as pessoas que estão agora na festa ou são fanáticos por festas ou completos imbecis ou — o que é cada vez mais frequente — ambas as coisas.
De qualquer forma isso significa que, geneticamente falando cada nova geração está menos propensa a sair do que a anterior.
Há outros fatores que entram em cena, tal como, por exemplo, quando é que a bebida vai acabar.
Bem, por conta de algumas coisas que ocorreram e que pareciam uma boa ideia na época (e um dos problemas com festa que nunca terminam é que todas aquelas coisas que só parecem ser uma boa ideia durante a festa continuam parecendo ser boas ideias), esse ponto parece estar ainda muito distante.
Uma das coisas que pareciam uma boa ideia na época era que a festa deveria decolar não no sentido comum em que dizemos que as festas devem decolar, mas no sentido literal.
Certa noite, tempos atrás, um bando de astroengenheiros da primeira geração, bêbados, construiu o prédio de um lado para o outro, cavando isso, instalando aquilo, batendo fortemente naquilo outro e, quando o sol se levantou na manhã seguinte, ficou surpreso ao se descobrir brilhando sobre um prédio cheio de pessoas bêbadas e felizes que estava, naquele momento, flutuando como um pássaro jovem e incerto sobre as árvores. Não apenas isso, mas a festa voadora também tinha conseguido se armar fortemente. Se por acaso se metessem em discussões mesquinhas com vendedores de vinho, queriam ter certeza de que a força estaria do lado deles.
A transição entre uma festa em tempo integral para uma festa de pilhagens em tempo parcial foi algo natural e ajudou bastante a acrescentar um pouco de emoção e aventura à coisa toda, o que era importante naquele momento por conta das infindáveis vezes que a banda já tinha tocado todo o seu repertório ao longo dos anos. Eles saqueavam, eles pilhavam, eles mantinham cidade inteiras como reféns em troca de um novo estoque de biscoitinhos de queijo, pastas para os biscoitinhos, costeletas porco, vinho e outras bebidas alcoólicas, que agora eram bombeadas a bordo vindas de tanques flutuantes.
O problema de quando é que a bebida vai acabar terá, contudo, que ser abordado algum dia.
O planeta sobre o qual estão flutuando já não é mais o que era quando começaram a flutuar sobre ele. Está em péssimo estado. A festa já tinha atacado e saqueado quase tudo nele, e ninguém ainda tinha sido capaz de atacá-la de volta por conta da forma aleatória e imprevisível com que ela se movimenta no céu.
É uma festa do cacete.
Também é uma cacetada ser atingido por ela no cóccix.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!