7 de dezembro de 2017

Capítulo 21

No planeta vermelho e seco de Kakrafoon, no meio do Deserto Escarlate, os técnicos de palco estavam testando o sistema de som.
Ou melhor, o sistema de som estava no deserto, não os técnicos. Eles estavam recolhidos na segurança da nave de controle gigante do Disaster Área, em órbita a uns quatrocentos quilômetros acima da superfície do planeta, e de lá estavam testando o som.
Qualquer pessoa situada a menos de dez quilômetros dos silos de som não teria sobrevivido à afinação.
Se Arthur Dent tivesse estado a menos de dez quilômetros dos silos de som, seu derradeiro pensamento teria sido de que tanto na forma quanto no tamanho, a aparelhagem de som se parecia muito com Manhattan. Erguidas sobre os silos, os postes das caixas de som neutronfásicas levantavam-se monstruosamente em direção ao céu, ocultando os reatores de plutônio e os amplificadores sísmicos atrás deles.
Enterrados em profundos bunkers de concreto sob a selva de caixas de som estavam os instrumentos que os músicos controlariam de sua nave, a poderosa guitarra de fótons, o baixo detonador e o complexo Megabang de percussão.
Ia ser um show barulhento.
A bordo da gigantesca nave de controle, tudo era atividade e correria. A limusine de Hotblack Desiato, um girino comparado com ela, já tinha chegado e atracado, e o finado cavalheiro estava sendo transportado pelos altos corredores abobadados para ir encontrar-se com o médium que interpretaria os impulsos psíquicos no transmissor da guitarra. Um médico, um filósofo e um oceanógrafo tinham também acabado de chegar. Tinham vindo, com uma despesa fenomenal, de Maximegalon, para tentar argumentar com o vocalista que se trancara no banheiro com um frasco de comprimidos e se recusava a sair até que alguém pudesse provar conclusivamente que ele não era um peixe. O baixista estava ocupado metralhando seu quarto de dormir e o baterista não se encontrava a bordo.
Frenéticos inquéritos levaram a descobrir que ele estava numa praia em Santraginus V a mais de cem anos-luz dali. Alegava que já fazia meia hora que estava feliz e que tinha descoberto uma pequena pedra que seria sua amiga.
O empresário da banda ficou profundamente aliviado. Significava que pela décima sétima vez nessa turnê a bateria seria tocada por um robô e que portanto o tempo dos pratos estaria correto.
O rádio subéter zunia com as comunicações dos técnicos de palco testando os canais de som, e era isso que estava sendo transmitido para o interior da nave negra. Seus ocupantes, aturdidos, espremiam-se na parede de trás da cabine e ouviam as vozes nos monitores.
— OK, canal nove funcionando — disse uma voz —, testando canal quinze...
Outro estrondo ecoou dentro da nave.
— Canal quinze OK — disse uma outra voz.
Uma terceira voz interrompeu.
— A nave dublê negra está em posição — disse. — Parece que está bem. Vai ser um grande mergulho solar. Computador de palco, mantendo contato?
Uma voz de computador respondeu.
— Mantendo contato — disse.
— Assuma o controle da nave negra.
— Nave negra fixa na trajetória programada, preparada.
— Testando canal vinte.
Zaphod saltou através da cabine para mexer nos botões de frequência do subéter antes que outro ruído pulverizador de mentes os atingisse. Ficou ali, tremendo.
— O que — perguntou Trillian com uma vozinha calma — quer dizer mergulho solar?
— Quer dizer — disse Marvin — que a nave vai mergulhar no sol. Mergulho... Solar. É muito fácil de entender. O que você espera, roubando a nave dublê de Hotblack Desiato?
— Como você sabe... — disse Zaphod, com uma voz que gelaria um lagarto polar de Vega — que esta é a nave dublê de Hotblack Desiato?
— Simples — disse Marvin —, eu a estacionei para ele.
— Então... por que... você... não... nos disse?
— Você disse que queria emoção, aventura e coisas realmente bárbaras.
— É horrível — disse Arthur desnecessariamente na pausa que se seguiu.
— Foi o que eu disse — confirmou Marvin.
Numa frequência diferente, o receptor subéter captara uma transmissão pública, que agora ecoava por toda a cabine.
— ... Tempo bom para o concerto esta tarde. Estou aqui, em frente ao palco — mentia o repórter —, no meio do Deserto Escarlate, e com a ajuda de hiperbinóculos posso vislumbrar a imensa audiência agrupando-se no horizonte à minha volta. Atrás de mim os postes de som erguem-se como penhascos escarpados, e acima de mim o sol brilha sem saber o que vai atingi-lo. Os grupos ecologistas de pressão sabem o que vai atingi-lo, e alegam que o show causará terremotos, maremotos, furacões, danos irreparáveis na atmosfera e todas essas coisas de ecologista. Mas acabo de ler um informe de que um representante do Disaster Área encontrou-se com os ecologistas para um almoço e atirou em todos eles, de forma que não restam empecilhos para...
Zaphod desligou. Voltou-se para Ford.
— Sabe o que estou achando? — disse.
— Acho que sim — disse Ford.
— Me diz o que você acha que eu estou achando.
— Acho que você está achando que está na hora da gente sair desta nave.
— Acho que você está certo — disse Zaphod.
— Acho que você está certo — disse Ford.
— De que jeito? — disse Arthur.
— Quieto — disseram Ford e Zaphod. — A gente acha.
— Então é isso — disse Arthur —, nós vamos morrer.
— Gostaria que você parasse de ficar dizendo isso — disse Ford.
Vale repetir a esta altura as teorias que Ford arrumou, em seu primeiro contato com os humanos, para explicar seu peculiar hábito de ficar continuamente afirmando e reafirmando o óbvio, como em “Lindo dia”, ou “Você é alto” ou “Então é isso, nós vamos morrer”.
Sua primeira teoria era que se os seres humanos deixassem de exercitar seus lábios, suas bocas provavelmente selariam.
Após alguns meses de observação, arrumou uma outra teoria, que era a seguinte — “Se os seres humanos deixarem de exercitar seus lábios, seus cérebros começarão a funcionar”.
Em verdade, esta segunda adapta-se mais literalmente ao povo Belcerebon de Kakrafoon. O povo Belcerebon causava um grande ressentimento e insegurança entre as raças vizinhas por ser uma das civilizações mais desenvolvidas, iluminadas, e acima de tudo uma das mais quietas da Galáxia. Como punição para tal comportamento, que foi considerado arrogante e provocativo, um Tribunal Galáctico impôs a eles o mais cruel dentre os males sociais, a telepatia. Consequentemente, para se prevenirem de transmitir cada leve pensamento que atravesse suas mentes a qualquer um num raio de dez quilômetros, têm agora que conversar muito alto e continuamente sobre o tempo, sobre suas pequenas dores, o jogo daquela tarde e sobre como Kakrafoon ficou barulhento de repente.
Outro método de bloquearem suas mentes momentaneamente é acolher um show do Disaster Área. A cronometragem do concerto era crítica. A nave tinha que iniciar seu mergulho antes de começar o show de forma a atingir o sol seis minutos e trinta e sete segundos antes do clímax da música a que se relacionava, para que a luz das labaredas solares tivesse tempo de viajar até Kakrafoon.
A nave já estava mergulhando há vários minutos no momento em que Ford Prefect terminou sua busca pelos outros compartimentos. Voltou à cabine.
O sol de Kakrafoon avultava assustadoramente grande na tela, seu ardejante inferno branco de fusão de núcleos de hidrogênio crescendo a cada momento enquanto a nave se precipitava em sua direção, sem ligar para os socos de Zaphod sobre o painel. Arthur e Trillian tinham a expressão fixa dos coelhos numa estrada à noite que acham que a melhor forma de lidar com faróis que se aproximam é ficar olhando para eles.
Zaphod deu uma volta, com os olhos arregalados.
— Ford — disse —, quantas cápsulas de salvamento temos?
— Nenhuma — disse Ford.
— Você contou direito? — gritou Zaphod.
— Duas vezes — disse Ford. — Você conseguiu falar com a equipe do palco pelo rádio?
— Consegui — disse Zaphod, amargo. — Disse que tinha todo um grupo de pessoas a bordo e eles mandaram um “oi” para todo mundo.
Ford revirou os olhos.
— Você não disse quem você era?
— Ah, eu disse. Disseram que era uma grande honra. Isso e também sobre uma conta de restaurante.
Ford empurrou Arthur para o lado grosseiramente e debruçou sobre o painel de controle.
— Nenhum funciona? — disse, selvagem.
— Todos anulados.
— Destrua o piloto automático.
— Encontre-o antes. Nada conecta.
Houve um momento frio de silêncio.
Arthur estava passeando pelo fundo da cabine. Parou de repente.
— Não é por nada — disse —, mas o que significa teleporte?
Passou um outro momento.
Lentamente os demais foram virando-se para ele.
— Provavelmente este é o momento errado de perguntar — disse Arthur. — É que eu lembro de ter ouvido vocês usarem essa palavra faz pouco tempo e só estou falando nisso porque...
— Onde — disse Ford Prefect calmamente — está escrito teleporte?
— Bom, logo aqui, na verdade — disse Arthur, indicando uma caixa escura no fundo da cabine —, logo acima da expressão “de emergência” e abaixo da palavra “sistema”, ao lado de um sinal que diz “não funciona”.
No pandemônio que se seguiu instantaneamente, a única ação a se acompanhar foi a de Ford Prefect investindo contra a caixinha preta que Arthur indicara e apertando repetidamente o pequeno botão preto que havia sobre ela. Um painel quadrado de três metros por três abriu-se diante deles revelando um compartimento que parecia um compartimento múltiplo de chuveiros que tinha arrumado uma nova função na vida como depósito de eletricista. Fios desencapados parcialmente caíam do teto, uma porção de componentes estavam espalhados numa bagunça pelo chão, e o painel de programação caía pendurado na cavidade da parede onde deveria ter sido instalado.
Um jovem contador do Disaster Área, visitando o estaleiro onde estava sendo construída a nave, perguntara ao mestre de obras por que diabos estavam instalando um teleporte extremamente caro numa nave que só tinha uma viagem importante a fazer, e sem tripulação. O mestre de obras explicara que o teleporte tinha saído com dez por cento de desconto e o contador explicara que isso era imaterial; o mestre de obras explicara que aquele era o mais fino, o mais poderoso e o mais sofisticado teleporte que o dinheiro podia comprar e o contador explicara que o dinheiro não queria comprá-lo; o mestre de obras explicara que as pessoas ainda teriam que entrar e sair da nave e o contador explicara que a nave dispunha de uma porta perfeitamente utilizável; o mestre de obras explicara que o contador podia ir estourar os miolos e o contador explicara ao mestre de obras que aquela coisa que estava voando em sua direção era um sanduíche de dedos. Após as explicações terem sido concluídas, os trabalhos no teleporte foram interrompidos e este passou despercebido no item “desp. gerais” a cinco vezes o preço.
— Mulas do inferno — murmurou Zaphod, enquanto ele e Ford tentavam se virar com aqueles fios.
Após um momento, Ford lhe disse para se afastar. Enfiou uma moeda no teleporte e girou um botão no painel dependurado. Com um ruído e um raio de luz a moeda desapareceu.
— Essa parte funciona — disse Ford —, mas não tem sistema de direção. Um teleporte de transferência de matéria sem um sistema de direção poderia mandar você para... para qualquer lugar.
O sol de Kakrafoon assomava enorme na tela.
— Quem se importa — disse Zaphod. — A gente vai para onde for.
— E também — disse Ford — não tem funcionamento automático. Não poderíamos ir todos. Alguém teria que ficar para operar.
Um momento solene se passou. O sol ficava cada vez maior.
— Ei, Marvin, garoto — disse Zaphod, brilhantemente —, como vai?
— Muito mal, eu suspeito — murmurou Marvin.
Um pequeno instante depois, o concerto de Kakrafoon atingiu um clímax inesperado.
A nave negra com seu único moroso ocupante mergulhara pontualmente na fornalha nuclear do sol. Gigantescas labaredas se levantaram a milhões de quilômetros de sua superfície, empolgando e eventualmente derrubando a dúzia de Montadores de Labaredas que vinham cavalgando próximo à superfície à espera do grande momento.
Instantes antes da luz das labaredas atingir Kakrafoon, o triturante deserto abriu-se ao meio numa falha. Um imenso rio subterrâneo até então não detectado jorrou na superfície, sendo seguido segundos depois pela erupção de milhões de toneladas de lava fervente que subiram vários metros no ar, vaporizando instantaneamente o rio tanto acima quanto abaixo da superfície numa explosão que ecoou até o outro lado do planeta.
Aqueles — muito poucos — que testemunharam o evento e sobreviveram juram que os cem mil quilômetros quadrados de deserto subiram de uma vez para o ar como uma panqueca de um quilômetro de espessura, virou-se e caiu com o outro lado para cima. Nesse momento preciso a radiação solar das labaredas filtradas pelas nuvens de vapor atingiu o solo.
Um ano depois, o deserto de cem mil quilômetros quadrados estava coberto de flores. A estrutura da atmosfera ao redor do planeta estava sutilmente alterada. O sol queimava menos no verão, o frio incomodava menos no inverno, chuvas agradáveis caíam com mais frequência, e lentamente o deserto de Kakrafoon foi-se tornando um paraíso. Até a telepatia com que o povo tinha sido amaldiçoado foi permanentemente dispersa pela explosão.
Um porta-voz do Disaster Área — o que tinha matado os ecologistas — foi citado mais tarde como tendo dito que aquilo tinha sido “um monstro bom”.
Muitas pessoas falaram coisas comoventes sobre os poderes de cura da música. Alguns cientistas céticos examinaram os informes do evento com maior cuidado e alegaram ter descoberto tênues vestígios de um vasto Campo de Improbabilidade artificialmente induzido proveniente de uma região próxima no espaço.

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