26 de dezembro de 2017

Capítulo 20

Pular nas costas de uma Besta Perfeitamente Normal de uma tonelada e meia migrando pelo seu mundo a estrondosos quarenta quilômetros por hora não é algo tão fácil quanto possa parecer.
Certamente, não tão fácil quanto os caçadores lamuellanos faziam parecer, e Arthur Dent já estava preparado para descobrir que aquela talvez acabasse sendo a parte difícil.
O que não estava preparado para descobrir, no entanto, era que até mesmo chegar na parte difícil já era difícil. Isso porque a parte que supostamente deveria ser fácil era praticamente impossível.
Não conseguiam chamar a atenção de um animal sequer. As Bestas Perfeitamente Normais eram tão obstinadas em produzir um bom estrondo com os seus cascos — cabeças abaixadas e ombros projetados para a frente, patas traseiras transformando o chão em mingau — que precisavam de algo não só meramente surpreendente, mas geológico para chamar a sua atenção.
Os estrondos ensurdecedores e o tempo de espera acabaram sendo, no final das contas, mais do que Arthur e Ford podiam suportar. Após passarem quase duas horas zanzando para lá e para cá e fazendo coisas cada vez mais estapafúrdias com uma toalha de banho média com padrões florais, não haviam sequer conseguido que uma das grandes bestas que esmagavam estrondosamente o chão desse pelo menos uma olhadela de soslaio na direção deles.
Estavam a mais ou menos um metro da avalanche horizontal de corpos suados. Ficar mais perto significava um risco de morte instantânea, cronológica ou não cronológica.
Arthur já havia visto o que sobrava de qualquer Besta Perfeitamente Normal que, graças a um lançamento desajeitado de um caçador lamuellano jovem e inexperiente, era atingida por uma lança enquanto ainda esmagava estrondosamente o chão no meio do bando.
Bastava um único tropeção.
Nenhum compromisso anterior com a morte em Stavromula Beta — fosse lá onde diabos ficasse Stavromula Beta — poderia salvar a sua vida ou a de qualquer outra pessoa da marcha ribombante e estraçalhadora daqueles cascos.
Por fim, Arthur e Ford cambalearam para trás. Sentaram-se, exaustos e vencidos, e começaram a criticar as respectivas técnicas de manejo da toalha.
— Você tem que sacudir mais a toalha — reclamou Ford. — Precisa de mais impulso do cotovelo se quiser chamar a atenção dessas criaturas malditas.
— Mais impulso? — reclamou Arthur. — Você é que precisa de mais flexibilidade no pulso.
— Você precisa agitar mais — discordou Ford.
— Você precisa de uma toalha maior.
— Vocês precisam — disse outra voz — é de um pássaro pikka.
— De quê?
A voz viera de trás deles. Se viraram e, atrás deles, sob o sol matinal, estava o Velho Thrashbarg.
— Para atrair a atenção de uma Besta Perfeitamente Normal — disse ele, aproximando-se de Arthur e Ford — vocês precisam de um pássaro pikka. Como este aqui.
De dentro da coisa parecida com uma batina de tecido grosso que usava, Thrashbarg tirou um pequeno pássaro pikka. O animal ficou inquieto na palma da mão do velho, olhando concentradíssimo para alguma coisa que estava em disparada a um metro e dezesseis centímetros de distância à sua frente.
Ford instantaneamente assumiu a posição de alerta agachado que gostava de manter quando não sabia ao certo o que estava acontecendo ou que o deveria fazer. Balançou os braços em volta bem devagar, torcendo para que o gesto parecesse ameaçador.
— Quem é esse? — sussurrou ele.
— Ah, é só o Velho Thrashbarg — disse Arthur, baixinho. — E eu não me daria ao trabalho de ficar fazendo esses gestos malucos. Ele é um malandro tão experiente quanto você. Podem acabar dançando um em volta do outro o dia inteiro.
— E o pássaro? — sussurrou Ford novamente. — Qual é a do pássaro?
— É só um pássaro! — respondeu Arthur, impaciente. — Como qualquer outro. Põe ovos e faz ark para coisas que ninguém vê. Ou kar ou rit, sei lá.
— Você já viu algum deles pôr ovos? — perguntou Ford, desconfiado.
— Pelo amor de Bob, claro que sim — respondeu Arthur. — E já comi  centenas deles. Dão um omelete dos bons. O segredo é colocar pequenos cubos de manteiga gelada e depois bater bem devagar com um...
— Eu não quero droga de receita nenhuma — disse Ford. — Só quero me certificar de que é um pássaro de verdade e não uma espécie de ciberpesadelo multidimensional.
Ford levantou-se devagarzinho da posição agachada e espanou a poeira do corpo. Continuava de olho no pássaro, de qualquer forma.
— Então — disse o Velho Thrashbarg para Arthur. — Está escrito que Bob tomará novamente para si a graça divina de seu enviado, o Fazedor de Sanduíches?
Ford quase se agachou de novo.
— Está tudo bem — murmurou Arthur —, ele sempre fala desse jeito.
Em voz alta, ele disse:
— Ó, venerável Thrashbarg. Humm, creio que é chegada a hora de dar no pé. Mas o jovem Drimple, meu aprendiz, será um excelente Fazedor de Sanduíches no meu lugar. Ele tem talento e um profundo amor pelos sanduíches, e todas as habilidades que adquiriu até agora, embora ainda sejam rudimentares, um dia haverão de amadurecer e, ah, bem, acho que ele vai se sair bem, é o que estou tentando dizer.
O Velho Thrashbarg olhou para ele, muito sério. Seus velhos olhos cinzentos movimentaram-se, tristes. Ele levantou os braços, segurando o pássaro pikka inquieto em uma das mãos e o seu cajado na outra.
— Ó, Fazedor de Sanduíches de Bob! — pronunciou ele. Fez uma pausa, enrugou a testa e suspirou enquanto fechava os olhos, em devota contemplação. — A vida será muito menos esquisita sem você por aqui!
Arthur estava impressionado.
— Sabe, acho que essa foi a coisa mais bonita que alguém já me disse na vida!
— Dá pra gente continuar ou tá difícil? — reclamou Ford.
Algo já estava acontecendo. A mera presença do pássaro pikka na mão esticada de Thrashbarg já estava enviando tremores de interesse pela horda estrondosa. Algumas cabeças se levantavam rapidamente para olhar naquela direção. Arthur começou a se lembrar de alguns dos caçadores de Bestas Perfeitamente Normais que ele vira. Lembrou-se de que, além dos caçadores-toureiros sacudindo as suas capas, havia sempre outros parados atrás deles, segurando pássaros pikka. Sempre imaginara que, assim como ele, tinham ido só para olhar.
O Velho Thrashbarg avançou, ficando um pouco mais perto da horda em disparada. Algumas Bestas já estavam virando a cabeça para trás, interessadas no pássaro. Os braços esticados de Thrashbarg estavam tremendo. Apenas o pássaro pikka parecia não estar nem um pouco interessado no que estava acontecendo. Algumas moléculas anônimas de ar em nenhum lugar específico absorviam toda a sua excitada atenção.
— Agora! — exclamou o Velho Thrashbarg finalmente. — Agora você pode usar a toalha!
Arthur avançou com a toalha de Ford, movimentando-se como faziam os caçadores-toureiros, com um tipo de andar pomposo que estava longe de lhe cair bem. Mas sabia o que devia fazer e que aquilo era a coisa certa a fazer. Exibiu e sacudiu a toalha algumas vezes, aprontando-se para o momento, e depois observou. Avistou o animal que queria não muito longe dali. De cabeça baixa, estava galopando para cima dele, bem na extremidade da horda. O Velho Thrashbarg mexeu o pássaro, a Besta olhou para cima, sacudiu a cabeça e então, bem na hora em que ia abaixar a cabeça novamente, Arthur fez um floreio com a toalha na linha de visão dela.
Ela balançou a cabeça novamente, confusa, e seus olhos acompanharam os movimentos da toalha.
Conseguira chamar sua atenção. Daquele momento em diante parecia a coisa mais natural do mundo atrair o animal para ele. Estava com a cabeça erguida, levemente inclinada. Estava diminuindo o ritmo para um meio galope e, depois, para um trote. Alguns segundos depois, a enorme fera estava prostrada entre eles, bufando, arquejando, suando e farejando animadamente o pássaro pikka, que parecia não ter sequer notado sua chegada.
Executando estranhos movimentos ondulatórios com os braços, Thrashbarg mantinha o pássaro pikka diante da Besta, tomando cuidado para que não estivesse ao seu alcance, sempre para baixo. Executando estranhos movimentos com a toalha, Arthur mantinha a atenção da Besta assim e assado — sempre para baixo.
— Acho que nunca vi nada tão ridículo em toda a minha vida — murmurou Ford para si mesmo.
Finalmente, a Besta caiu, aturdida mas dócil, de joelhos no chão.
— Vai! — sussurrou Thrashbarg em tom de urgência para Ford. — Vai! Agora!
Ford saltou nas costas imensas da criatura, agarrando sua pelagem espessa e embaraçada para se apoiar, e segurando tufos de pelo para se sustentar, uma vez posicionado lá em cima.
— Agora, Fazedor de Sanduíches! Vai! — Com um gesto elaborado e um aperto de mão ritualístico que Arthur não pôde sequer acompanhar porque o Velho Thrashbarg obviamente tinha acabado de inventar, ele empurrou Arthur para frente.
Respirando fundo, Arthur escalou as costas imensas, quentes e arfantes da Besta, colocando-se atrás de Ford, e segurou firme. Músculos enormes, do tamanho de leões-marinhos, ondularam e se flexionaram debaixo dele. De repente, o Velho Thrashbarg suspendeu o pássaro bem alto. A cabeça da Besta girou para acompanhá-lo. Thrashbarg levantou o braço com o pássaro pikka várias vezes; então, lentamente, pesadamente, a Besta Perfeitamente Normal se ergueu, um pouco cambaleante. Os dois cavaleiros montados em suas costas agarravam-se aos seus pelos feroz e nervosamente.
Arthur contemplou o mar de animais enfurecidos, esforçando-se para tentar ver para onde estavam indo, mas não havia nada além de uma bruma de calor.
— Tá conseguindo enxergar alguma coisa? — perguntou a Ford.
— Não. — Ford virou para olhar para trás, tentando ver se conseguia alguma pista de onde haviam vindo. Nada.
Arthur gritou para Thrashbarg lá atrás.
— Você sabe de onde eles vêm? — gritou ele. — Ou para onde estão indo?
— O domínio do Rei! — gritou Thrashbarg de volta.
— Rei? — gritou Arthur, surpreso. — Que Rei? — A Besta Perfeitamente Normal balançava e sacudia sem parar debaixo dele.
— Como assim, que Rei? — perguntou o Velho Thrashbarg. — O Rei.
— Ê que você nunca mencionou um Rei — gritou Arthur, um tanto quanto espantado.
— O quê? — perguntou o Velho Thrashbarg. As batidas de milhares de cascos tornavam difícil ouvir qualquer coisa, e ele estava concentrado no que estava fazendo. Ainda segurando o pássaro no alto, Thrashbarg conduziu a Besta lentamente até que ela se virasse e ficasse novamente emparelhada com a movimentação do seu bando gigantesco. Avançou um pouco mais. A Besta o seguiu. Avançou novamente. A Besta o seguiu novamente. Por fim, já estava se movendo por conta própria.
— Eu disse que você nunca mencionou um Rei! — repetiu Arthur.
— Eu não disse um Rei — gritou o Velho Thrashbarg —, eu disse o Rei.
Recolheu o braço e depois estendeu-o com toda a força, lançando o pássaro pikka no ar, acima da horda. Isso pareceu pegar o pássaro pikka completamente de surpresa, já que ele, obviamente, não estava prestando atenção nenhuma ao que estava acontecendo. Levou alguns segundos para entender o que estava se passando; então abriu as asas e voou.
— Vá! — gritou Thrashbarg. — Vá encontrar o seu destino, Fazedor de Sanduíches!
Arthur não estava tão certo de que queria encontrar o seu destino daquela forma. Queria apenas chegar aonde quer que fosse para poder descer daquela criatura. Não se sentia nem um pouco seguro lá em cima. A Besta estava ganhando velocidade, enquanto seguia o rastro do pássaro pikka. Alcançou a margem da grande maré de animais e um pouco depois, de cabeça baixa, tendo esquecido o pássaro, correu novamente com o resto da horda, aproximando-se rapidamente do ponto onde desapareciam subitamente. Arthur e Ford agarravam-se na fera gigante, lutando pela vida, cercados por todos os lados de montanhas ondulantes de corpos.
— Isso! Cavalguem a Besta! — gritou Thrashbarg. A sua voz distante reverberava diminuta em seus ouvidos. — Cavalguem a Besta Perfeitamente Normal! Cavalguem, cavalguem!
Ford gritou no ouvido de Arthur:
— Para onde ele disse que estamos indo?
— Disse alguma coisa sobre um Rei — berrou Arthur de volta, segurando-se desesperadamente.
— Que Rei?
— Foi o que eu perguntei. Ele só disse o Rei.
— Eu não sabia que existia um o Rei — berrou Ford.
— Nem eu — gritou Arthur.
— A não ser, é claro, o Rei — disse Ford. — Mas acho que ele não está falando desse Rei.
— Que Rei? — berrou Arthur.
Estavam quase no final da reta.
Bem à sua frente, Bestas Perfeitamente Normais galopavam para o nada e desapareciam.
— Como assim, que Rei? — berrou Ford. — Eu não sei que Rei. Só estou dizendo que ele não deve estar se referindo ao Rei, então, não sei de quem está falando.
— Ford, não faço ideia do que você está falando.
— Novidade — disse Ford. Então, com uma aceleração súbita, as estrelas surgiram, giraram sobre as suas cabeças e depois, de maneira igualmente repentina, desapareceram novamente.

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Boa leitura :)