17 de dezembro de 2017

Capítulo 20

— O objetivo do pôr-do-sol à tardinha, no verão, sobretudo nos parques — disse a voz, muito séria —, é fazer os peitos das meninas pularem para cima e para baixo mais visivelmente. Estou convencido disso.
Arthur e Fenchurch riram do comentário ao passarem pelo homem. Ela o abraçou com mais força por um instante.
— E eu tenho certeza — disse o rapaz de cabelo ruivo encaracolado e nariz comprido e fino que estava debatendo sentado em uma cadeira dobrável ao lado do lago Serpentine — que, se alguém levasse a fundo o argumento, iria perceber que ele flui com perfeita naturalidade e lógica de tudo aquilo — insistiu com seu magro companheiro de cabelo escuro que estava afundado na cadeira ao lado, arrasado por causa das suas espinhas — de que Darwin estava falando. Tenho certeza. Isso é indiscutível. E — acrescentou ele — adoro isso.
Ele se virou bruscamente e semicerrou os olhos por trás dos óculos para observar Fenchurch. Arthur puxou-a para longe e pôde sentir que ela estava tremendo de rir em silêncio.
— Próximo palpite — disse ela, quando parou de rir -, vamos lá.
— O.k. — disse ele -, o seu cotovelo. O seu cotovelo esquerdo. Há algo de errado com ele.
— Errou de novo — disse ela -, errou feio. Você está totalmente na pista errada.
O sol de verão estava mergulhando por trás das árvores no parque e era como se... Certo, não vamos medir as palavras. O Hyde Park é espetacular. Tudo nele é espetacular, tirando o lixo nas manhãs de segunda-feira. Até os patos são espetaculares. Qualquer um que passasse por lá numa tarde de verão sem ficar comovido provavelmente estaria dentro de uma ambulância com o rosto coberto pelo lençol.
Naquele parque há gente fazendo coisas bem mais insólitas do que em qualquer outro lugar. Arthur e Fenchurch viram um homem de short tocando gaita de foles sozinho sob uma árvore. O sujeito parou por um instante de tocar para colocar um casal de americanos para correr porque tinham tentado, timidamente, colocar algumas moedas no estojo do instrumento.
— Não! — gritou ele para os americanos. — Saiam daqui! Eu só estou praticando.
Recomeçou a soprar a sua gaita, mas nem mesmo o barulho que isso provocava pôde estragar o humor de Arthur e Fenchurch.
Ele a envolveu com os seus braços e foi descendo as mãos devagar pelo seu corpo.
— Não acho que seja a sua bunda — disse Arthur, depois de um tempo. — Acho que não tem nada de
errado com ela.
— Não — concordou ela -, não tem absolutamente nada de errado com a minha bunda.
Eles se beijaram por tanto tempo que o gaiteiro acabou indo praticar do outro lado da árvore.
— Vou te contar uma história — disse Arthur.
— Está bem.
Encontraram um espaço na grama, relativamente livre de casais deitados um em cima do outro, sentaram-se e observaram os patos espetaculares e a luz do sol ondulando na superfície do lago que corria sob os patos espetaculares.
— Uma história — disse Fenchurch, aconchegando o braço dele no dela.
— Que vai te dar uma ideia do tipo de coisa que acontece comigo. É completamente real.
— Você sabe que algumas vezes as pessoas contam histórias que supostamente aconteceram com o melhor amigo do primo da sua mulher, mas que, no fim das contas, foram inventadas mesmo.
— Bom, parece mesmo uma dessas histórias, só que realmente aconteceu e eu sei que aconteceu, porque a pessoa com a qual tudo aconteceu fui eu.
— Como o bilhete da rifa.
Arthur riu.
— Exatamente. Eu ia pegar um trem — prosseguiu ele. — Cheguei na estação...
— Eu já te contei — interrompeu Fenchurch — o que aconteceu com os meus pais numa estação?
— Já — disse Arthur.
— Só estou conferindo.
Arthur deu uma olhada no relógio.
— Acho que já podíamos voltar — disse ele.
— Conte a sua história — respondeu ela, decidida. — Você chegou na estação.
— Eu estava uns vinte minutos adiantado. Confundi o horário do trem. Acho que é no mínimo igualmente possível — acrescentou, após uma breve reflexão — que a companhia de trens tenha confundido o horário. Nunca tinha pensado nisso.
— Tá, continua. — Fenchurch riu.
— Aí eu comprei um jornal, para fazer as palavras cruzadas, e fui até o restaurante para tomar um café.
— Você faz palavras cruzadas?
— Faço.
— Quais?
— As do The Guardian, normalmente.
— Eu acho que eles sempre tentam ser espertinhos. Prefiro a do Times. Você resolveu?
— O quê?
— As palavras cruzadas do Guardian.
— Ainda não tive chance de dar uma olhada nelas — disse Arthur. — Ainda estou tentando comprar um café.
— Tudo bem, então. Compre o café.
— Estou comprando. Estou comprando também alguns biscoitos.
— Que tipo?
— Rich Tea.
— Boa escolha.
— Também gosto. Com tudo isso em mãos, eu procuro uma mesa e me sento. E, antes que você me pergunte como era a mesa, não sei, não lembro, isso aconteceu há séculos. Provavelmente era redonda.
— Tá bem.
— Deixa eu recapitular a cena. Eu lá, sentado à mesa. A minha esquerda, o jornal. À direita, o café. E no meio da mesa o pacote de biscoitos.
— Estou vendo perfeitamente.
— O que você não vê — disse Arthur -, porque ainda não o mencionei, é um cara que já estava sentado nessa mesa. Ele está sentado na minha frente.
— Como ele é?
— Perfeitamente normal. Maleta de couro. Terno e gravata. Não tinha cara de quem estava prestes a fazer uma coisa estranha.
— Ah. Conheço bem esse tipo. O que ele fez?
— Ele fez o seguinte. Ele se inclinou sobre a mesa, pegou o pacote de biscoito, abriu, pegou um e...
— E?
— Comeu.
— O quê?
— Ele comeu.
Fenchurch olhou para ele, abismada.
— E que diabos você fez?
— Bem, diante das circunstâncias, fiz o que qualquer inglês viril faria. Fui obrigado a ignorá-lo.
— Como assim? Por quê?
— Bom, não é o tipo de coisa para a qual a gente está preparado, né? Vasculhei minha alma e descobri que não havia nada na minha criação, experiência ou até nos meus instintos básicos me dizendo como reagir diante de alguém que, sentado na minha frente, simplesmente, calmamente, rouba um dos meus biscoitos.
— Ah, você podia... — Fenchurch pensou a respeito. — É, tenho que admitir que eu teria feito a mesma coisa. E aí, o que aconteceu?
— Concentrei furiosamente a minha atenção nas palavras cruzadas — disse Arthur. — Não consegui preencher nada, tomei um gole de café, estava quente demais para beber, então eu não tinha nada para fazer. Me preparei. Apanhei um biscoito, tentando fingir que não tinha reparado que o pacote já estava misteriosamente aberto...
— Mas você reagiu, adotou uma postura firme.
— Do meu jeito, sim. Comi o biscoito. Comi deliberada e ostensivamente, para que ele não tivesse dúvida sobre o que estava fazendo. E, quando eu como um biscoito — disse Arthur —, devo dizer que não tem volta.
— E o que ele fez?
— Apanhou outro. Sério — insistiu Arthur -, foi exatamente o que ele fez. Ele apanhou outro biscoito e comeu. Tão claro como a luz do dia. Tão certo como estarmos sentados aqui no chão.
Fenchurch mexeu-se desconfortavelmente.
— E o problema — disse Arthur — é que, como eu não havia dito nada da primeira vez, ficou ainda mais difícil levantar o assunto da segunda vez. O que eu poderia dizer? “Com licença... não pude deixar de notar que...” Não dava mais. Não, eu o ignorei, até mesmo com mais vigor do que antes
— Esse é o meu homem...
— Olhei para as palavras cruzadas, novamente, não consegui fazer uma linha, aí, inspirando-me na coragem de Henrique V no Dia de São Crispim...
— Ahn?
— Eu ataquei novamente. Peguei outro biscoito. E, por um momento, os nossos olhos se encontraram.
— Assim?
— Sim, bem, não, não desse jeito. Mas se encontraram. Por um breve instante. E nós dois desviamos o olhar. Mas devo dizer — disse Arthur — que houve uma pequena eletricidade no ar. Havia uma pequena tensão crescendo naquela mesa. Àquela altura.
— Imagino.
— Acabamos com o pacote assim. Ele, eu, ele, eu.
— O pacote todo?
— Bom, eram só oito biscoitos, mas parecia que toda uma vida de biscoitos havia se passado diante de nós. Nem mesmo os gladiadores enfrentavam algo tão difícil.
— Os gladiadores — disse Fenchurch — teriam que fazer tudo isso sob um sol forte. Exige mais do condicionamento físico.
— É, tem isso. Enfim. Quando o pacote vazio jazia morto entre nós, o cara finalmente se levantou, já tendo feito o pior e foi embora. Eu suspirei aliviado, é claro. Anunciaram o meu trem um pouco depois, então terminei o meu café, levantei, apanhei o jornal e, embaixo do jornal...
— Ahn?
— Estavam os meus biscoitos.
— O quê? — perguntou Fenchurch. — O quê?
— É sério.
Ela ficou sem ar e se jogou de costas na grama, morrendo de rir.
Sentou-se novamente.
— Seu bobalhão — disse ela, levantando a voz -, seu bobo, tolo e completo idiota!
Empurrou Arthur para trás, rolou sobre ele, lhe deu um beijo e rolou de volta ao seu lugar.
Ele ficou impressionado ao sentir como ela era leve.
— Agora é a sua vez de me contar uma história.
— Pensei — disse ela, com uma voz rouca e baixa — que você estivesse doido para voltar.
— Não estou com pressa — disse ele, aéreo -, quero que você me conte uma história.
Ela olhou em volta, pensando.
— Tá bem — disse ela -, mas é uma história bem curta. E não é engraçada como a sua, mas... tudo bem.
Olhou para baixo. Arthur podia sentir que era um daqueles momentos. O ar parecia estar parado em torno deles, esperando. Arthur queria que o ar fosse embora, cuidar de sua própria vida.
— Quando eu era criança... — disse ela. — Essas histórias sempre começam assim, né?
“Quando eu era criança...” Tudo bem. É nesse ponto em que a garota diz, de repente, “Quando eu era criança” e começa a desabafar. Chegamos a esse ponto. Quando eu era criança, eu tinha esse quadro pendurado aos pés da cama... O que você está achando até agora?
— Estou gostando. Está fluindo bem. Você está conseguindo tornar o quarto interessante bem no início. Provavelmente seria bom desenvolver melhor a história do quadro.
— Era um desses quadros de que as crianças supostamente gostam — disse ela —, mas na prática não. Cheio de animaizinhos carinhosos, fazendo coisas carinhosas, sabe como é?
— Sei. Também fui atormentado por eles. Coelhos usando coletes.
— Exatamente. Na verdade, os meus coelhos estavam em uma balsa com ratos e corujas. Acho até que tinha uma rena
— Na balsa.
— Na balsa. E tinha um garoto sentado lá também.
— No meio dos coelhos de colete, das corujas e da rena
— Exatamente. Um garoto com aquele jeito de moleque cigano sorridente.
— Argh.
— O quadro me deixava preocupada, tenho que admitir. Tinha uma lontra nadando na frente da balsa e eu costumava ficar acordada à noite, preocupada com aquela lontra puxando a balsa, com todos aqueles animais desprezíveis lá dentro, que não deveriam nem estar numa balsa, para começar, e a pobre lontra tinha um rabo tão fininho para puxar a balsa... eu ficava imaginando que devia doer muito, puxar aquilo o
tempo todo. A coisa me preocupava. Não muito, mas levemente, o tempo todo.
— Aí um dia — lembre-se de que eu olhava para esse quadro todas as noites, durante anos — de repente percebi que a balsa tinha uma vela. Nunca tinha visto antes. A lontra estava bem, ela só estava nadando, na dela.
Ela deu de ombros.
— Gostou da história? — perguntou ela.
— O final é fraco — disse Arthur -, deixa a platéia perguntando “Sim, mas e daí?”. A história estava indo bem, mas precisa de um fechamento antes dos créditos.
Fenchurch riu e abraçou as pernas.
— Foi uma revelação tão inesperada, anos de preocupação quase despercebida subitamente abandonados, como se eu tirasse um peso das costas, como se o que era preto e branco passasse a ser colorido, como uma plantinha seca finalmente regada. Aquele tipo de mudança de perspectiva súbita que dizer “Deixe as suas preocupações de lado, o mundo é um lugar maravilhoso e perfeito. Na verdade, tudo é muito fácil”. Você deve estar achando que estou dizendo isso porque me senti assim hoje à tarde, ou algo do tipo, não é?
— Bem, eu... — disse Arthur, perdendo a compostura de repente.
— Não, tudo bem — disse ela. — É verdade. Foi exatamente assim que me senti. Mas, veja bem, já me senti assim antes, e foi até mais forte. Incrivelmente forte. Acho que sou do tipo — disse ela, com o olhar perdido no horizonte — que tem revelações surpreendentes.
Arthur estava confuso, mal conseguia falar e sentiu que era sábio, portanto, não tentar ainda.
— Foi muito estranho — disse ela, mais ou menos como teria dito um dos egípcios em perseguição a respeito do comportamento do mar Vermelho quando Moisés moveu seu cajado.
— Muito estranho — repetiu ela -, porque dias antes já estava sentindo uma coisa estranha crescendo dentro de mim, como se estivesse para dar à luz ou algo assim. Não, na verdade não foi bem isso, era mais como se eu estivesse sendo conectada a alguma coisa, aos poucos. Não, também não era isso, era como se toda a Terra, através de mim, fosse...
— O número quarenta e dois significa algo para você? — perguntou Arthur gentilmente.
— O quê? Não, sobre o que você está falando? — perguntou fenchurch.
— É só algo que me passou pela cabeça — murmurou Arthur.
— Arthur isso e muito importante para mim, e sério.
— Minha pergunta era bem séria — disse Arthur. — Já o Universo, bem, nunca tenho muita certeza sobre ele.
— O que você quer dizer com isso?
— Me conte o resto — disse ele. — Não se preocupe se parecer estranho. Acredite, você está falando com alguém que já viu de tudo que é estranho — acrescentou ele. — E não estou referindo aos biscoitos.
Ela concordou com a cabeça e parecia acreditar nele. Derepente, agarrou o braço de Arthur.
— Foi tão simples — disse ela -, tão maravilhosa diariamente simples, quando me ocorreu.
— O que foi? — perguntou Arthur, baixinho.
— Veja bem, Arthur — disse ela -, é isso que eu não sei mais. E a perda é insuportável. Se eu tento voltar até aquele momento, fica tudo confuso e, mesmo quando me esforço, chego até a parte da xícara de chá e depois acabo desmaiando.
— O quê?
— Bom, como na sua história, a melhor parte também aconteceu numa lanchonete. Eu estava lá sentada, tomando um chá. Isso aconteceu dias depois da tal sensação crescente de estar me conectando a alguma coisa. Acho que meu corpo estava até vibrando um pouco. O prédio em frente à lanchonete estava em obras e eu estava observando pela janela, por cima da borda da minha xícara de chá, que para mim continua sendo a melhor maneira de observar os outros trabalhando. E aí, de repente, surgiu na minha cabeça uma mensagem, vinda de não sei onde. E ela era tão simples. Fazia com que tudo fizesse tanto sentido. Eu me endireitei na cadeira e pensei: “Ah! Ah, sim, então está tudo bem.” Fiquei tão sobressaltada que quase derrubei a xícara de chá... verdade, derrubei, sim. É — acrescentou ela, pensativa —, tenho certeza de que derrubei mesmo. Você está entendendo.
— Estava, até a parte da xícara de chá.
Ela sacudiu a cabeça e depois sacudiu novamente, como se tentasse limpar a mente, que era exatamente o que estava tentando fazer.
— Então foi isso. Estava tudo bem até a parte da xícara de chá. Foi então que tive a impressão de que o mundo literalmente explodiu.
— O quê?
— Eu sei que parece maluquice e todo mundo diz que foram alucinações, mas, se aquilo foi uma alucinação, então tenho alucinações em telão, em 3D com som Dolby Stereo de dezesseis canais e deveria arrumar um emprego com essa gente que já se cansou de filmes de tubarão. Foi como se o chão tivesse sido literalmente arrancado sob os meus pés e... e...
Ela bateu suavemente na grama, como se para verificar que ela estava lá e depois pareceu mudar de ideia sobre o que ia dizer.
— E então acordei no hospital. Acho que tenho entrado e saído de lá desde então. E é por isso que tenho um nervosismo instintivo diante de súbitas revelações surpreendentes de que tudo vai ficar bem. — Ela levantou o rosto e olhou para ele.
Arthur simplesmente parara de se preocupar com as estranhas anomalias que envolviam a sua volta à Terra, ou melhor, as relegara à parte do seu cérebro marcada com “Coisas Para Pensar. Urgente”. “O mundo está aqui”, dissera para si mesmo. “O mundo, seja lá por que for, está aqui e ele fica aqui. Comigo dentro.” Mas agora o mundo parecia ondular à sua volta, como naquela noite, no carro do irmão de Fenchurch, quando ele estava contando as histórias malucas sobre o gente da CIA na represa. As árvores ondulavam diante dele. O lago ondulava, mas isso era absolutamente normal e não motivo para ficar alarmado, já que um ganso cinzento acabara de pousar nele. Os gansos estavam numa boa, relaxados, e não tinham grandes respostas para as quais quisessem saber a pergunta.
— De todo jeito — disse Fenchurch, súbita e radiantemente, com um largo sorriso —, tem alguma coisa errada com uma parte do meu corpo e você precisa descobrir o que é. Vamos para casa.
Arthur balançou a cabeça.
— O que foi? — perguntou ela.
Arthur não balançara a cabeça para discordar da sugestão de Fenchurch, que ele achara verdadeiramente excelente uma das melhores sugestões do mundo, e sim porque estava alguns instantes, tentando se livrar da impressão recorrente de que, quando menos esperasse, o Universo ia sair de trás da porta e fazer buuu para ele.
— Só estou tentando esclarecer as coisas na minha cabeça — disse Arthur. — Você diz que sentiu como se a Terra tivesse realmente... explodido...
— Foi. Mais do que senti.
— E todo mundo diz — continuou ele, hesitante — que isso foram alucinações?
— Sim, mas Arthur, isso é ridículo. As pessoas acham que basta dizer “alucinações” que tudo o que você quer explicar fica magicamente explicado e, se sobrar alguma coisa que você não consiga entender, isso eventualmente desaparece. É só uma palavra, não explica nada. Não explica por que os golfinhos desapareceram.
— Não — respondeu Arthur. — Não — acrescentou ele, pensativo. — Não — acrescentou novamente, ainda mais pensativo. — O quê? — perguntou finalmente.
— Não explica por que os golfinhos desapareceram.
— Não — disse Arthur —, eu ouvi. De que golfinhos você esta falando?
— Como assim, de que golfinhos? Estou falando de quando todos os golfinhos desapareceram.
Ela pousou a mão no joelho de Arthur, o que fez ele perceber que o formigamento que subia e descia pela sua espinha não era um carinho que ela estava fazendo nas suas costas e devia ser então uma daquelas terríveis sensações horripilantes que ele costumava ter quando as pessoas estavam tentando explicar coisas para ele.
— Os golfinhos?
— Todos os golfinhos desapareceram? — perguntou Arthur.
— Sim.
— Os golfinhos? Você está me dizendo que todos os golfinhos desapareceram? É isso — perguntou Arthur, tentando ser absolutamente claro quanto aquele ponto — o que você está dizendo?
— Arthur, onde foi que você esteve, pelo amor de Deus? Todos os golfinhos desapareceram no
mesmo dia em que eu...
Ela olhou atentamente para o olhar assustado de Arthur.
— O que...?
— Nada de golfinhos. Sumiram todos. Desapareceram.
Ela examinou o rosto dele.
— Você realmente não sabia disso?
Era óbvio, pela sua expressão assustada, que ele não sabia.
— Para onde eles foram? — perguntou ele.
— Ninguém sabe. É isso o que desapareceram quer dizer. — Ela fez uma pausa. — Bom, tem um homem que diz que sabe a verdade, mas todo mundo diz que ele mora na Califórnia — disse ela — e é louco. Eu estava pensando em ir até lá falar com ele, porque essa me parece a única pista que eu tenho sobre o que aconteceu comigo.
Ela deu de ombros e olhou para ele, longa e profundamente. Colocou a mão no rosto de Arthur.
— Eu realmente gostaria de saber por onde você andou — disse ela— — Acho que algo terrível aconteceu com você também. E foi por isso que nós nos reconhecemos.
Ela olhou o parque à sua volta, que já estava sendo atado pelas garras do anoitecer.
— Bom — disse ela —, agora você tem alguém para contar.
Arthur exalou vagarosamente um suspiro acumulado há muito tempo.
— E uma história muito longa — disse ele.
Fenchurch inclinou-se sobre ele e apanhou a sua bolsa de lona.
— Tem alguma coisa a ver com isso? — perguntou ela. O que ela tirou da bolsa era algo velho e usado em muitas viagens, como se tivesse sido arremessado em rios pré-históricos, tostado sob o sol que brilha tão vermelho sobre os desertos de Kakrafon, semi-enterrado nas areias de mármore que permeiam os intoxicantes oceanos de Santraginus V, congelado nas geleiras da lua de Jaglan Beta, usado como assento, chutado para lá e para cá em naves espaciais, pisado e maltratado e, como seus fabricantes previram que seriam exatamente coisas assim que aconteceriam com ele, haviam prudentemente criado uma capa com um plástico bem resistente e escrito nele, em amistosas letras garrafais, as palavras “Não entre em pânico”.
— Onde você arrumou isso? — perguntou Arthur, sobressaltado, puxando-o da mão dela.
— Ah — respondeu ela -, achei mesmo que fosse seu. No carro de Russell, naquela noite. Você deixou cair. Você esteve em muitos desses lugares?
Arthur tirou o Guia do Mochileiro das Galáxias da capa. Era como um laptop pequeno, fino e flexível. Digitou algumas coisas até que a tela ficou iluminada com o texto.
— Em alguns — respondeu ele.
— Podemos ir até lá?
— O quê? Não — respondeu Arthur abruptamente, mas em seguida se acalmou, mas se acalmou com cautela. — Você quer? — perguntou ele, torcendo para que a resposta fosse negativa. Foi um ato de suprema generosidade da sua parte não ter dito “Você não quer, não é?”, sendo o que esperava.
— Quero — respondeu ela. — Quero descobrir qual era a mensagem que eu perdi e de onde ela veio. Porque não acho — acrescentou ela, levantando-se e olhando à sua volta para a crescente escuridão que tomava o parque — que tenha vindo daqui.
— Não tenho nem mesmo certeza — acrescentou ela em seguida, abraçando Arthur pela cintura — de que sei onde é aqui.

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