14 de dezembro de 2017

Capítulo 20

Enquanto Arthur corria em disparada pela encosta da montanha, pulando e arfando, subitamente sentiu toda a montanha se mexer muito, muito ligeiramente embaixo dele.
Houve um ribombo, um rugido e um movimento sutil e borrado, depois uma onda de calor surgiu atrás e acima dele. Corria em pânico total. A terra começou a tremer e ele compreendeu, naquele momento, a força existente na expressão “tremor de terra” de uma forma que nunca tinha compreendido antes. Havia sido sempre uma expressão qualquer para ele, mas naquele momento percebeu, apavorado, que “tremer” é uma coisa muito estranha e nauseabunda para a terra fazer. Pior, estava fazendo aquilo enquanto ele estava em cima dela. Sentiu-se tomado por medo e tremores. O chão se moveu, a montanha se agitou, ele escorregou, se levantou, escorregou de novo e correu. A avalanche começou.
Pedras, depois pedregulhos, depois rochas quicavam e passavam por ele como cachorrinhos desajeitados, só que muito, muito maiores, muito, muito mais duros e pesados e infinitamente mais capazes de matá-lo caso caíssem em cima dele. Seus olhos balançavam com eles e seus pés balançavam com o chão balançante. Corria como se correr fosse uma terrível doença, seu coração ribombando no ritmo daquela ribombante histeria geológica a seu redor.
A lógica da situação — ou seja, que ele estava obviamente destinado a sobreviver para que o próximo incidente previsto na saga de sua perseguição acidental a Agrajag pudesse acontecer — estava miseravelmente falhando na tarefa de se impor dentro da mente de Arthur ou mesmo de exercer qualquer tipo de influência repressora sobre ele naquele momento. Corria com o medo da morte dentro dele, abaixo dele, sobre ele e mesmo segurando seus cabelos.
E subitamente tropeçou outra vez e foi lançado para a frente com uma velocidade considerável. Mas, justamente no momento em que estava próximo a se chocar com o chão de forma boçalmente brutal, ele viu, jogada pouco à frente, uma pequena bolsa azul-marinho que tinha certeza de ter perdido no aeroporto de Atenas cerca de dez anos antes, contando por sua escala de tempo, e, em sua total perplexidade, errou o chão completamente e ficou pairando no ar com sua mente cantarolando.
O que ele estava fazendo era o seguinte: estava voando. Olhou em volta, muito surpreso, mas não tinha como duvidar do que estava fazendo. Nenhuma parte de seu corpo estava tocando o chão, e nenhuma parte de seu corpo estava sequer próxima ao chão. Ele simplesmente flutuava ali, com as rochas rasgando o ar em torno dele.
Agora ele podia fazer algo a respeito. Piscando com o não-esforço da coisa, subiu mais e agora as rochas estavam rasgando o ar abaixo dele.
Olhou para baixo com enorme curiosidade. Entre ele e o solo trêmulo havia cerca de dez metros de ar vazio — ou, pelo menos, vazio se fossem descontadas as rochas que não passavam muito tempo ali, posto que continuavam sua descida atribulada, puxadas pelas mãos de ferro da lei da gravidade. A mesma lei que, aparentemente, acabara de dar umas férias para Arthur.
Ele pensou, quase instantaneamente, com a precisão instintiva que a autopreservação impõe à mente, que ele não devia pensar sobre aquilo, pois, se o fizesse, a lei da gravidade imediatamente olharia de forma cruel em sua direção e exigiria saber o que ele estava fazendo lá em cima, daí tudo estaria perdido.
Então decidiu pensar sobre tulipas. Era difícil, mas conseguiu. Pensou em como sua base era firme e arredondada pensou na interessante variedade de cores existentes e pensou na proporção do total de tulipas que cresciam, ou haviam crescido na Terra, no raio de um quilômetro em torno de um moinho de vento.
Após algum tempo ficou perigosamente cansado desses pensamentos, sentiu o ar fugindo abaixo dele, sentiu que estava descendo novamente para o nível das rochas sobre as quais estava se esforçando tanto para não pensar, então pensou no aeroporto de Atenas durante algum tempo e isso o manteve convenientemente aborrecido durante uns cinco minutos, ao final dos quais ele percebeu, sobressaltado, que agora flutuava a uns 200 metros do chão.
Pensou por alguns instantes sobre como voltaria para o chão, mas instantaneamente desistiu dessa área de especulação novamente e tentou encarar a situação.
Estava voando. O que podia fazer a respeito? Olhou novamente para o chão. Não olhou com muita firmeza, apenas fez o melhor para olhar de relance, como se não quisesse nada, en passant. Havia algumas coisas que não podia deixar de notar. Uma era que a erupção da montanha parecia ter terminado, havia uma cratera pouco abaixo do pico, provavelmente onde a rocha havia colapsado sobre a enorme caverna da catedral, sua estátua e a triste figura de Agrajag.
A outra era sua bolsa, aquela que havia perdido no aeroporto de Atenas.
Estava jogada numa clareira, cercada por rochedos que haviam caído, mas aparentemente não havia sido atingida por nenhum deles. Não podia sequer especular sobre porquê disso ter acontecido, mas, uma vez que este era um mistério ínfimo ante a monstruosa impossibilidade da bolsa ter aparecido por lá, não era uma especulação com a qual quisesse se preocupar muito. O importante era que a bolsa estava lá. E a detestável bolsa de uma imitação fajuta de pele de leopardo parecia haver desaparecido, o que era algo bom, ainda que completamente inexplicável.
O fato é que teria que apanhar aquela bolsa. Lá estava ele, voando 200 metros acima da superfície de um planeta alienígena cujo nome nem mesmo sabia. Não podia ignorar a postura tocante daquele pequeno pedaço do que costumava ser sua vida, ali, distante vários anos-luz dos restos pulverizados de sua casa.
Além disso, pensou, a bolsa, se ainda estivesse no estado em que a havia deixado, teria lá dentro uma lata do único azeite de oliva grego ainda restante no Universo.
Lenta e cuidadosamente, palmo a palmo, começou a oscilar para baixo, deslizando suavemente de um lado para o outro como uma folha de papel tensa que estivesse tateando seu caminho em direção ao chão.
Estava funcionando e ele se sentia bem. O ar lhe dava suporte, mas deixava-o passar. Dois minutos mais tarde estava flutuando a meio metro da bolsa e se deparou com uma decisão difícil. Estava oscilando ali, gentilmente. Franziu o rosto, mas apenas levemente.
Se ele pegasse a bolsa, seria capaz de carregá-la? Poderia o peso extra puxá-lo imediatamente de volta para o chão? Poderia o mero ato de tocar algo que estava no chão subitamente descarregar seja qual fosse aquela misteriosa força que o mantinha flutuando? Poderia ele ser minimamente sensato naquele momento e descer do ar, voltar ao chão por algum tempo? Se o fizesse, seria capaz de voar novamente?
A sensação, quando se permitia pensar nela, era plena de um êxtase tão calmo que não podia sequer pensar em perdê-la, talvez para sempre. Preocupado com isso, ele oscilou um pouco mais para cima novamente, apenas para se deixar levar pela sensação, aquele movimento surpreendentemente sem esforço.
Oscilou, flutuou. Tentou até mesmo um pequeno rasante.
O rasante foi incrível. Com seus braços abertos à frente os cabelos e seu roupão tremulando com o vento, ele mergulhou do céu, flutuou sobre uma massa de ar a meio metro do chão e então subiu novamente, parando no ápice da curva e mantendo-se lá. Apenas se mantendo por lá.
Era incrível.
E aquela era, percebeu, a forma de pegar a bolsa. Iria dar um rasante e pegá-la quando estivesse mais próximo do solo. Carregaria a bolsa com ele quando subisse novamente. Talvez seu voo sofresse com algumas turbulências, mas estava certo de que podia manter-se no ar.
Tentou mais uns mergulhos para praticar e saiu-se cada vez melhor. O ar em seu rosto, a sensação em seu corpo, tudo se juntava para fazer com que sentisse seu espírito inebriado de uma maneira que não sentia desde, desde — bom, até onde conseguia se lembrar —, desde que nascera. Deixou-se levar pela brisa e observou os arredores, que eram, como percebeu, muito feios. Tinham uma aparência desolada, destruída. Decidiu não mais olhar aquilo. Iria apenas pegar a bolsa e então... não sabia bem o que fazer após pegar a bolsa. Decidiu que iria apenas pegar a bolsa e ver como as coisas caminhavam depois.
Colocou-se contra o vento, foi contra ele e virou-se. Flutuava sobre seu corpo. Ele não percebia, mas àquela altura seu corpo estava uilomeando.
Agachou-se sob a corrente de ar, deu impulso e mergulhou.
O ar soprava ao passar, enquanto ele se deliciava com isso. O chão vacilou, depois colocou suas ideias em ordem e subiu suavemente para encontrá-lo, oferecendo-lhe a bolsa, com suas alças de plástico quebradiças voltadas em sua direção.
Na metade do caminho houve um rápido mas perigoso momento em que ele não podia acreditar que estivesse fazendo aquilo — e, assim, por pouco não deixou de estar —, mas recuperou-se a tempo, tirou um rasante do solo, passou um braço suavemente pelas alças da bolsa e começou a subir de novo, mas não conseguiu e de repente caiu, arranhado, esfolado e revirando-se no solo de pedras.
Levantou-se imediatamente e girou descontroladamente, sacudindo a bolsa em total desespero e desapontamento.
Seus pés voltaram a ficar colados ao chão da forma que sempre estiveram.
Seu corpo parecia um incômodo saco de batatas que se revirava batendo contra o chão e sua mente tinha toda a leveza de uma bolsa de chumbo.
Ele caiu, dobrou-se e sofreu com a vertigem. Tentou correr, inutilmente, mas suas pernas estavam fracas demais. Tropeçou e estatelou-se no chão. Foi então que lembrou que, naquela sacola, não apenas havia a lata de azeite grego como também a cota máxima permitida de retsina — vinho grego —, e, com o agradável choque causado por esta descoberta, deixou de notar durante pelo menos dez segundos que estava voando novamente.
Riu e chorou cheio de alívio e prazer, além de puro deleite físico.
Mergulhou, girou, deslizou e flutuou pelo ar. Com ar blasé, sentou-se em uma ascendente e revirou o conteúdo da bolsa. Sentia-se da mesma forma que imaginava que os anjos deveriam sentir-se durante sua famosa dança sobre a cabeça de um alfinete enquanto os filósofos tentavam contá-los. Riu prazerosamente ao ver que a bolsa de fato continha o azeite grego, a retsina, assim como um par de óculos escuros rachados, alguns calções de banho cheios de areia, alguns cartões-postais amassados de Santorini, uma grande e feiosa toalha, alguma pedras interessantes e vários pedacinhos de papel com o endereço de pessoas que ele pensava, muito aliviado, que jamais encontraria de novo, mesmo que a razão para tal fosse triste. Jogou fora as pedras, colocou os óculos escuros e deixou os pedacinhos de papel serem levados pelo vento.
Dez minutos mais tarde, enquanto flutuava despreocupadamente em uma nuvem, foi atingido no cóccix por uma enorme e incrivelmente obscena festa.

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Boa leitura :)