7 de dezembro de 2017

Capítulo 20

O Restaurante continuou a existir, mas todo o resto parou. A relaestática temporal o mantinha e o protegia dentro de um nada que não era meramente um vácuo, era simplesmente nada — nada havia em que se pudesse dizer que havia um vácuo.
O domo, protegido pelo campo de força, tornara-se novamente opaco, a festa terminara, os comensais se retiravam, Zarquon desaparecera junto com o resto do Universo, as Turbinas do Tempo se preparavam para puxar o Restaurante de volta por sobre a margem do tempo para a hora de servir o almoço, e Max Quordlepleen estava de volta a seu camarim acortinado tentando falar com seu agente ao tempofone.
No estacionamento estava a nave negra, fechada e silenciosa.
Entrou no estacionamento o falecido Sr. Hotblack Desiato, empurrado pela esteira rolante por seu guarda-costas. Desceram por um dos tubos. Ao se aproximarem da nave-limusine uma escotilha se abriu, acoplou-se às rodas da cadeira de rodas e a puxou para dentro. O guarda-costas acompanhou, e depois de ver seu patrão seguramente instalado em seu sistema de manutenção de morte, dirigiu-se à cabine. Dali operou o sistema de controle remoto que ativava o piloto automático da nave negra, estacionada ao lado da limusine, propiciando assim um grande alívio a Zaphod Beeblebrox, que vinha tentando dar a partida há mais de dez minutos.
A nave negra deslizou suavemente para fora de sua vaga. Virou, e moveu-se pelo corredor central do estacionamento silenciosamente. No final dele, acelerou rapidamente, mergulhou na câmara de lançamento temporal e iniciou a longa viagem de volta ao passado distante.
O Cardápio do Milliways cita, com a autorização devida, um trecho do Guia da Galáxia para Caronas. O trecho é o seguinte:

A história de toda civilização galáctica tende a atravessar três fases distintas e identificáveis, as da Sobrevivência, Interrogação e Sofisticação, também conhecidas como as fases do Como, a do Porquê e a do Onde.
Por exemplo, a primeira fase é caracterizada pela pergunta: “Como vamos poder comer?”. A segunda pela pergunta: “Por que comemos?”. E a terceira, pela pergunta: “Onde vamos almoçar?”.

O cardápio segue em frente sugerindo que o Milliways, o Restaurante do Fim do Universo, seria uma resposta agradável e sofisticada para a terceira pergunta.
O que ele não diz é que embora uma grande civilização leve milênios para passar pelas fases do Como, do Porquê e do Onde, pequenos agrupamentos sociais podem passar por elas com extrema rapidez.
— Como estamos? — perguntou Arthur.
— Mal — disse Ford Prefect.
— Para onde estamos indo? — perguntou Trillian.
— Não sei — disse Zaphod Beeblebrox.
— Por que não? — inquiriu Arthur Dent.
— Cale a boca — sugeriram Zaphod Beeblebrox e Ford Prefect.
— Basicamente, o que vocês estão tentando dizer — disse Arthur Dent, ignorando a sugestão — é que estamos fora de controle.
A nave sacudia e balançava nauseantemente enquanto Ford e Zaphod tentavam tomar o controle do piloto automático. Os motores gemiam e choramingavam como crianças cansadas num supermercado.
— Ê esse sistema absurdo de cores que me incomoda — disse Zaphod, cujo caso de amor com a nave não tinha durado mais do que três minutos depois de começar o voo. — Toda vez que você tenta operar um desses misteriosos controles pretos, rotulados em preto contra um fundo preto, acende uma luzinha preta para dizer o que você fez. O que que é isso? Alguma espécie de hipernave funerária galáctica?
As paredes da cabine sacolejante também eram pretas, os assentos — que eram rudimentares, uma vez que a única viagem importante para que essa nave fora projetada não seria tripulada — eram pretos, o painel de controle era preto, os instrumentos eram pretos, os parafusos que os prendiam eram pretos, o fino carpete de náilon que cobria o chão era preto, e quando eles levantaram uma ponta dele, descobriram que o forro por baixo também era preto.
— Talvez a pessoa que a desenhou tivesse olhos que respondessem a outros comprimentos de onda — propôs Trillian.
— Ou não tinha muita imaginação — murmurou Arthur.
— Talvez — disse Marvin — estivesse muito desanimada.
A verdade, embora eles não pudessem saber, era que a decoração tinha sido escolhida em homenagem à condição triste, lamentável e dedutível de imposto de seu proprietário.
A nave deu uma guinada particularmente nauseante.
— Vão com calma — implorou Arthur —, estou ficando enjoado com as ondas do espaço.
— Com as ondas do tempo — corrigiu Ford. — Estamos mergulhando no tempo.
— Obrigado — disse Arthur. — Agora eu acho que eu realmente vou passar mal.
— Vá em frente — disse Zaphod. — Seria bom um pouco de cor neste lugar.
— Isto é uma conversa educada para depois do jantar? — cortou Arthur.
Zaphod deixou os controles para Ford tentar adivinhar, e foi para cima de Arthur.
— Olha, terráqueo — disse, furioso —, você tem um serviço a prestar, certo? A Pergunta referente à Resposta Fundamental, certo?
— O quê, essa estória? — disse Arthur. — Pensei que a gente já tinha esquecido.
— Eu, não, cara. Como disseram os ratos, vale uma fortuna nos canais certos. E está tudo trancado nessa cabeça sua.
— É, mas...
— Mas nada! Pense nisso. O Sentido da Vida! Se a gente puser as mãos nisso, a gente vai ter cada centímetro do Universo sob nosso resgate, e isso vale uma nota. Um manancial de riqueza!
Arthur deu um longo suspiro, sem muito entusiasmo.
— Certo — disse —, mas por onde a gente começa? Como eu posso saber? Eles dizem que a Resposta Fundamental é Quarenta e dois, como é que eu vou saber qual é a pergunta? Pode ser qualquer coisa. Quero dizer, quanto são seis vezes sete?
Zaphod o encarou seriamente por um instante. Então seus olhos brilharam, empolgados.
— Quarenta e dois! — exclamou.
Arthur passou a mão na testa.
— É — disse pacientemente —, eu sei disso.
Zaphod baixou os rostos.
— Só estou dizendo que a pergunta podia ser qualquer coisa — disse Arthur. — Não vejo como se espera que eu saiba.
— Porque — disse Zaphod — você estava lá quando seu planeta virou fogos de artifício.
— Temos uma coisa na Terra... — começou Arthur.
— Tínhamos — corrigiu Zaphod.
— ... chamada tato. Ah, não importa. Olhe, eu simplesmente não sei.
Uma voz baixa ecoou sombriamente pela cabine.
— Eu sei — disse Marvin.
Ford gritou dos controles, com os quais continuava empreendendo uma guerra derrotada.
— Fique fora disso, Marvin — disse ele. — Isso é conversa orgânica.
— Está impresso nos padrões de ondas cerebrais do terráqueo — prosseguiu Marvin — mas não creio que vocês estejam muito interessados em saber.
— Quer dizer — disse Arthur —, quer dizer que você pode ver dentro de minha mente?
— Posso — disse Marvin. Arthur olhou para ele, assombrado.
— E...?
— Me espanta que você consiga viver num lugar tão pequeno.
— Ah — disse Arthur. — Ultraje.
— Sim — confirmou Marvin.
— Ah, ignore-o — aconselhou Zaphod —, ele só está fazendo estória.
— Fazendo estória? — disse Marvin, girando a cabeça num simulacro de espanto. — Por que eu haveria de querer fazer estória? A vida já é bastante ruim sem que eu queira ainda inventar mais.
— Marvin — disse Trillian, com a voz gentil e doce que só ela ainda era capaz de assumir para falar com a bastarda criatura —, se você sabia o tempo todo, por que não nos contou?
Marvin girou a cabeça para ela.
— Vocês não perguntaram — disse, simplesmente.
— Bom, estamos perguntando agora, homem metálico — disse Ford, virando-se para olhar para ele.
Nesse momento a nave parou de sacolejar e o ruído dos motores passou para um suave zunido.
— Ei, Ford — disse Zaphod —, pelo barulho parece que está bem. Você conseguiu mexer nos controles desta barca?
— Não — disse Ford —, eu só parei de mexer com eles. Acho que a gente vai ter que ir para onde quer que essa nave esteja indo e cair fora rapidinho.
— É, tá certo — disse Zaphod.
— Eu sabia que vocês não estavam realmente interessados — murmurou Marvin para si mesmo, e sentou num canto e se desligou.
— O problema — disse Ford — é que o instrumento desta nave que está fornecendo alguma informação está me deixando preocupado. Se for o que eu estou achando que é, e se estiver dizendo o que eu acho que está, então a gente já voltou demais no tempo. Talvez uns dois milhões de anos antes da nossa era.
Zaphod sacudiu os ombros.
— Tempo é bobagem — disse.
— Queria saber de quem é essa nave, de qualquer modo — disse Arthur.
— Minha — disse Zaphod.
— Não. De quem ela é de verdade.
— Minha, de verdade — insistiu Zaphod. — Olhe, propriedade é roubo, certo? Logo, roubo é propriedade. Logo, esta nave é minha, OK?
— Diga isso à nave.
Zaphod inclinou-se sobre o painel.
— Nave — disse, batendo nos controles —, este é o seu novo dono falando...
Não foi adiante. Muitas coisas aconteceram de repente.
Todos os controles do painel, que tinham sido desligados para a viagem no tempo, acenderam-se agora.
Uma imensa tela abriu-se sobre o painel revelando uma ampla paisagem cósmica e um imenso sol solitário bem na frente deles.
Nenhuma dessas coisas, porém, foi responsável pelo fato de Zaphod ter sido arremessado violentamente para o fundo da cabine, assim como os demais.
Foram arremessados por um estrondo emitido subitamente pelos monitores de som em volta da tela.

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