26 de dezembro de 2017

Capítulo 1

A história da Galáxia ficou meio confusa por vários motivos: em parte porque aqueles que tentavam acompanhá-la ficaram meio confusos, mas também porque coisas incrivelmente confusas aconteceram de fato.
Um dos problemas tem a ver com a velocidade da luz e com as dificuldades encontradas em tentar ultrapassá-la. Não dá. Nada viaja mais rápido do que a velocidade da luz, com exceção talvez das más notícias, que obedecem a leis próprias e especiais.
Os Hingefreel de Arkintoofle Menor bem que tentaram construir naves espaciais movidas a más notícias, mas elas não funcionavam particularmente bem e, como eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar, não fazia o menor sentido estar lá.
Então, de modo geral, as pessoas da Galáxia acabavam ficando entretidas com suas próprias confusões locais e a história da Galáxia em si foi, por um bom tempo, basicamente cosmológica.
O que não quer dizer que as pessoas não estivessem se esforçando. Tentaram enviar frotas de naves espaciais para lutar ou para fazer negócios em lugares distantes, mas elas geralmente levavam milhares de anos para chegar lá. Quando finalmente chegavam, já haviam sido descobertas outras formas de viagem usando o hiperespaço para superar o problema da velocidade da luz. Então, qualquer batalha para as quais essas frotas mais-lentas-que-a-luz tivessem sido enviadas já teria sido resolvida séculos antes de elas chegarem.
Isso não impedia, é claro, que as tripulações quisessem lutar assim mesmo.
Estavam treinados, preparados, tinham cochilado durante alguns séculos, vieram de muito longe para fazer um trabalho árduo e, por Zarquon, iriam fazê-lo de qualquer maneira.
Foi então que ocorreram algumas das primeiras grandes confusões da História Galáctica, com batalhas ressurgindo continuamente séculos depois de as questões que as motivaram supostamente já terem sido resolvidas. Essas confusões, contudo, não eram nada se comparadas às que os historiadores precisavam destrinchar depois que a viagem no tempo foi descoberta e as batalhas começaram a pré-surgir centenas de anos antes que as questões envolvidas sequer fossem conhecidas. Quando o Gerador de Improbabilidade Infinita foi criado e planetas inteiros começaram a virar pudim inesperadamente, a renomada faculdade de história da Universidade de Maximegalon finalmente decretou seu próprio fechamento e cedeu seus prédios para a próspera faculdade de Divindade e Polo Aquático, que estava de olho neles há anos.
Isso não tem nada demais, é claro, mas provavelmente significa que ninguém jamais saberá com certeza de onde os grebulons vieram, por exemplo, ou exatamente o que queriam. E isso é uma pena porque, se alguém soubesse alguma coisa sobre eles, talvez uma horrível catástrofe pudesse ser evitada — ou, pelo menos, teria que encontrar uma outra maneira para acontecer.
Click, hum.
A gigantesca e cinzenta nave de reconhecimento grebulon movia-se em silêncio pelo vácuo negro. Viajava a uma velocidade espantosa, de tirar o fôlego, mas, ainda assim, recortada sobre o fundo cintilante de um bilhão de estrelas longínquas, parecia não estar se movendo. Era apenas um grão escuro congelado em meio aos infinitos grãos de brilho noturno.
A bordo da nave tudo permanecia exatamente igual há milênios: extremamente escuro e silencioso.
Click, hum.
Bem, quase tudo.
Click, click, hum.
Click, hum, click, hum, click, hum.
Click, click, click, click, click,
hum.
Hmmm.
Um programa de supervisão de baixo nível acordou um programa de supervisão de nível um pouquinho mais alto lá dentro do semi-sonolento cibercérebro da nave e relatou que toda vez que fazia click, a resposta era apenas hum. O programa de supervisão de nível mais alto perguntou qual deveria ser a resposta, e o programa de supervisão de baixo nível disse que não se lembrava exatamente, mas achava que deveria ser algo como um suspiro de satisfação distante, não? Ele não tinha ideia do que era aquele hum. Click, hum, click, hum. Era só o que recebia.
O programa de supervisão de nível mais alto analisou a situação e não ficou nem um pouco satisfeito. Perguntou ao programa de supervisão de baixo nível o que exatamente ele estava supervisionando, mas o programa de supervisão de baixo nível também não conseguia se lembrar o que era. Sabia apenas que algo deveria fazer click e depois soltar um suspiro de satisfação a cada dez anos ou algo assim, o que em geral acontecia sem problemas. Tinha tentado consultar sua tabela de erros, mas não conseguiu encontrá-la, e por isso decidiu comunicar o problema ao programa de supervisão de nível mais alto.
O programa de supervisão de nível mais alto foi consultar uma de suas próprias tabelas de códigos para tentar descobrir o que o programa de supervisão de baixo nível deveria supervisionar. Não conseguiu encontrar sua tabela de códigos.
Estranho.
Procurou novamente. Recebia apenas uma mensagem de erro. Tentou encontrar aquela mensagem em sua tabela de mensagens de erros, mas não conseguiu achá-la também. Aguardou alguns nanossegundos e repetiu a coisa toda. Então resolveu acordar o supervisor de função setorial.
O supervisor de função setorial encontrou problemas logo de cara. Acionou o seu agente supervisor, que também encontrou problemas. Em alguns milionésimos de segundo, circuitos virtuais que passaram anos, ou mesmo séculos, adormecidos, estavam cintilando de volta à vida por toda a nave. Alguma coisa, em algum lugar, tinha dado terrivelmente errado, mas nenhum dos programas de supervisão conseguia detectar o que era. Em todos os níveis, instruções vitais haviam desaparecido e as instruções sobre o que fazer caso as instruções vitais estivessem desaparecidas também estavam desaparecidas.
Pequenos módulos de software — agentes — corriam pelos circuitos lógicos, agrupando, consultando, reagrupando. Rapidamente concluíram que a memória da nave, até o módulo central de missão, estava em frangalhos. Todas as perguntas do universo não seriam suficientes para determinar o que havia acontecido. Até mesmo o módulo central de missão parecia estar avariado.
O que, na verdade, tornou o problema bem simples de se resolver. Bastava substituir o módulo central de missão. Havia uma cópia de reserva, uma réplica exata do original. Era preciso substituí-lo fisicamente porque, por motivos de segurança, não havia nenhuma conexão entre o original e sua cópia. Uma vez substituído, o módulo central poderia supervisionar a reconstrução do resto do sistema minuciosamente e tudo ficaria bem.
Os robôs foram instruídos a apanhar o backup do módulo central de missão no cofre blindado, onde ficava armazenado, e levá-lo para a câmara de lógica da nave, onde seria instalado.
Isso acarretou uma longa troca de códigos de emergência e protocolos enquanto os robôs questionavam a autenticidade das instruções dos agentes. Por fim, os robôs se convenceram de que todos os procedimentos estavam corretos. Tiraram à cópia reserva do módulo central de missão de seu invólucro, a retiraram da câmara de armazenamento, caíram para fora nave e saíram rodopiando pelo vazio.
Esse fato forneceu a primeira boa pista sobre o que estava errado.
Investigações adicionais logo determinaram o que havia acontecido. Um meteorito abriu um rombo gigantesco na nave. A nave não detectou isso antes porque o meteorito atingiu justamente o equipamento que deveria detectar se a nave havia sido atingida por um meteorito.
A primeira coisa a fazer era tentar tapar o buraco. Perceberam que seria impossível, porque os sensores da nave não conseguiam ver que havia um buraco e os supervisores que deveriam alertar que os sensores não estavam funcionando direito também não estavam funcionando direito e insistiam que os sensores estavam bem. A nave só conseguia deduzir a existência do rombo porque os robôs haviam inegavelmente caído nele, levando junto o seu cérebro sobressalente — o mesmo que teria permitido que ela notasse o rombo.
A nave se esforçou para pensar de maneira coerente sobre o assunto, falhou e depois apagou completamente por instantes. Não chegou a perceber que tinha apagado, é claro, porque estava apagada. Ficou apenas surpresa ao ver as estrelas pularem.
Depois da terceira vez em que as estrelas pularam, a nave finalmente percebeu que devia estar apagando e que era hora de tomar decisões importantes.
Relaxou.
Percebeu então que ainda não havia tomado as decisões importantes e entrou em pânico. Apagou novamente. Quando voltou a si, vedou todos os compartimentos que ficavam em volta de onde o buraco impossível de visualizar deveria estar.
Obviamente ainda não havia alcançado o seu destino, pensou ela, inquieta, mas, como já não tinha a menor ideia de qual era o seu destino ou de como chegaria lá, não fazia mais sentido continuar.
Consultou cada mínimo fragmento de instrução que havia conseguido recuperar a partir do módulo central de missão avariado.
— Sua !!!!! !!!!! !!!!! missão de !!!!! anos é !!!!! !!!!!, !!!!!, !!!!! !!!!! !!!!! !!!!!, aterrissar !!!!! !!!!! !!!!! distância segura !!!!! !!!!! monitorá-lo. !!!!! !!!!! !!!!...
O resto era lixo puro.
Antes de apagar de vez, a nave deveria transmitir aquelas instruções, do jeito que estavam, para os seus sistemas auxiliares mais primitivos. Precisava também reanimar toda a tripulação.
Havia um outro problema. Enquanto a tripulação estava hibernando, as mentes de todos os seus membros, suas memórias, suas identidades e sua noção do que estavam fazendo ali haviam sido transferidas para o módulo central de missão da nave para mantê-los em segurança.
Dessa forma, porém, os membros da tripulação não fariam mais a menor ideia de quem eram ou do que estavam fazendo ali. Paciência.
Antes de apagar de vez, a nave percebeu que os seus motores também estavam começando a pifar. A nave e a sua reanimada e confusa tripulação foram se arrastando sob o controle de seus sistemas auxiliares automáticos, que se preocuparam simplesmente em aterrissar no primeiro lugar que fosse possível e monitorar qualquer coisa que encontrassem para monitorar.
No que diz respeito ao local para aterrissar, não se saíram lá muito bem. O planeta encontrado era desoladoramente gelado e deserto, tão dolorosamente distante do sol que deveria aquecê-lo que precisaram de toda a maquinaria de Formatrônica Ambiental e dos Sistemas Suportrônicos de Vida que traziam consigo para torná-lo — ou parte dele, ao menos — habitável.
Havia planetas melhores ali por perto, mas o Estrategiotron da nave estava obviamente no módulo Furtivo e escolheu o planeta mais distante e discreto. A única pessoa que poderia contestar sua escolha era o Comandante-Chefe de Estratégia. Como todo mundo na nave havia perdido a memória, ninguém sabia quem era o Comandante-Chefe de Estratégia e, mesmo que pudessem identificá-lo, como é que ele iria discutir com o Estrategiotron da nave?
No que diz respeito a algo para monitorar, contudo, acertaram em cheio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)