26 de dezembro de 2017

Capítulo 19

Era uma visão à qual Arthur nunca se acostumava nem tampouco se cansava.
Ele e Ford haviam trilhado o caminho rapidamente pela margem de um pequeno rio que desembocava no leito do vale e, quando finalmente alcançaram a beira das planícies, escalaram os galhos de uma árvore frondosa para conseguirem um panorama melhor de uma das visões mais estranhas e fantásticas que a Galáxia tinha a oferecer.
A imensa horda ensurdecedora de milhares e milhares de Bestas Perfeitamente Normais deslizava veloz, em uma formação imponente, pela Planície de Anhondo. Na pálida luz do amanhecer, conforme os imensos animais investiam e o leve vapor do seu suor se mesclava com a névoa enlameada oriunda dos seus cascos trepidantes, pareciam levemente mais irreais e fantasmagóricos. O mais impressionante, contudo, era de onde vinham e para onde iam, que parecia ser, simplesmente, de lugar nenhum para lugar algum.
Formavam uma falange sólida, de uns cem metros de largura e meio quilômetro de extensão. A falange não se movia, exibindo apenas uma leve oscilação para o lado e para trás durante os oito ou nove dias em que costumava aparecer. Mas, embora permanecesse mais ou menos fixa, as grandes bestas que a formavam galopavam com uma constância regular, a mais de quarenta quilômetros por hora, aparecendo do nada em um dos cantos da planície e desaparecendo, de modo igualmente abrupto, no outro.
Ninguém sabia de onde surgiam nem para onde iam. Mas eram tão importantes para a vida dos lamuellanos que ninguém se dava ao trabalho de perguntar. O Velho Thrashbarg disse, tempos atrás, que, algumas vezes, se você obtém uma resposta é possível que a pergunta seja suprimida. Alguns moradores comentaram entre si que havia sido a única coisa realmente sábia que tinham ouvido de Thrashbarg e, após uma breve discussão sobre o assunto, deixaram a coisa de lado.
O barulho dos cascos era tão alto que era difícil conseguir escutar qualquer outra coisa.
— O que você disse? — gritou Arthur.
— Eu disse — gritou Ford — que isso pode ser uma evidência de alguma flutuação dimensional.
— O que é isso? — gritou Arthur de volta.
— Bem, várias pessoas estão começando a se preocupar com a possibilidade do espaço-tempo estar dando sinais de que vai rachar de vez, por causa de tudo o que está acontecendo com ele. Na verdade existem diversos mundos onde é possível ver como as massas terrestres racharam e se moveram apenas olhando para as curiosamente longas ou sinuosas rotas dos animais migratórios. Isso pode ter alguma coisa a ver com isso. Vivemos em uma época contorcida. Ainda assim, na falta de um espaçoporto decente...
Arthur lançou um olhar paralisado para ele.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ele.
— O que você quer dizer com o que quero dizer com isso? — gritou Ford. — Você sabe muito bem o que quero dizer. Vamos sair daqui a galope.
— Você está sugerindo que a gente tente montar em uma Besta Perfeitamente Normal?
— Isso aí. Vamos ver no que dá.
— Vamos morrer! Não — disse Arthur, de repente. — Não vamos morrer. Pelo menos, eu não. Ford, você já ouviu falar de um planeta chamado Stavromula Beta?
Ford franziu a testa.
— Acho que não — respondeu ele. Sacou a sua cópia surrada do Guia do Mochileiro das Galáxias e a consultou. — Escreve como se fala? — perguntou.
— Não sei. Nunca vi escrito e quem me falou estava com a boca cheia de dentes de outras pessoas. Lembra que eu te contei sobre o Agrajag?
Ford parou para pensar.
— O carinha que cismou que você ficava matando ele sem parar?
— Isso. Um dos lugares que ele alegou que eu o matara era Stavromula Beta. Parece que alguém tenta atirar em mim. Eu me abaixo e Agrajag, ou uma das suas muitas reencarnações, é atingido. Parece que isso realmente aconteceu em algum momento, então, creio eu, não posso morrer até escapar do tiro em Stavromula Beta. O problema é que ninguém ouviu falar nesse lugar.
— Humm. — Ford fez mais algumas consultas no seu Guia, mas foram em vão. — Eu estava aqui pensando... não, nunca ouvi falar — disse ele, finalmente. Mas estava intrigado por achar que o nome lhe dizia alguma coisa.
— Está bem — respondeu Arthur. — Eu vi como os caçadores lamuellanos capturam as Bestas Perfeitamente Normais. Se você ataca uma em meio à horda, ela é pisoteada, então você tem que dar um jeito de atrair uma a uma para matá-las. É mais ou menos como um toureiro faz, sabe, com uma capa colorida bem chamativa. Você faz com que uma delas parta para cima de você, aí dá aquele passinho para o lado e gira a capa de forma elegante. Você tem alguma coisa que possamos usar como uma capa colorida bem chamativa?
— Serve isso? — perguntou Ford, entregando a sua toalha.

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