17 de dezembro de 2017

Capítulo 19

Ford Prefect estava de saco cheio de ser continuamente acordado com o som de tiros.
Deslizou pela escotilha de manutenção que havia transformado em uma espécie de leito inutilizando algumas das maquinarias mais barulhentas por perto e estofando-a com toalhas.
Desceu pela escada de acesso e vagou pelos corredores, mal-humorado.
Eles eram claustrofóbicos e mal iluminados. Além disso, a pouca luz que havia por lá ficava piscando e mudando de intensidade conforme a energia oscilava para cá e para lá, provocando fortes vibrações e zumbidos irritantes.
Não era isso, porém.
Parou e apoiou-se contra a parede quando algo parecido com uma pequena furadeira elétrica prateada passou voando por ele pelo corredor escuro com um desagradável chiado cortante.
Também não era isso.
Com muito desânimo, passou por cima de uma antepara e foi dar em um corredor maior, embora igualmente mal iluminado.
A nave balançou. Já vinha fazendo isso há algum tempo, mas dessa vez foi mais forte. Um pequeno
pelotão de robôs passou por ele, produzindo um estardalhaço terrível.
Ainda não era isso, porém.
De um dos lados do corredor vinha uma fumaça acre; então ele foi para o outro lado.
Passou por uma série de monitores de observação inseridos nas paredes por trás de grossas lâminas de plexiglas, que ainda assim estavam bastante arranhadas.
Um deles exibia uma figura réptil verde, escamosa e grotesca fazendo um discurso e tanto sobre o sistema de Voto Único Transferível. Era difícil dizer se ele era a favor ou contra, mas ele certamente tinha uma opinião muito forte a respeito. Ford diminuiu o som.
Também não era isso.
Passou por outro monitor. Estava exibindo um comercial de pasta de dentes que supostamente faria com que seus usuários se sentissem livres. Havia uma retumbante música nele, igualmente irritante, mas também não era aquilo.
Passou por outra tela tridimensional, muito maior do que as outras, que estava monitorando a área externa da imensa e prateada nave xaxisiana.
Enquanto observava, surgiram mil cruzadores estelares robóticos de Zirzla, terrivelmente armados, saindo da sombra de uma lua, em silhueta contra o disco cegante da estrela Xaxis, e a nave simultaneamente detonou uma chama feroz de forças incompreensivelmente pavorosas de todos os seus orifícios contra eles.
Era isso.
Ford balançou a cabeça, irritado, e esfregou os olhos. Sentou-se sobre a carcaça destruída de um robô prateado, sem brilho, que obviamente tinha pegado fogo, mas, àquela altura, já estava frio o bastante para servir de assento.
Bocejando, pegou sua cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias na mochila. Ativou a tela e pesquisou meio desatento alguns verbetes de nível três e outros de nível quatro. Estava procurando algumas receitas para curar a sua insônia. Encontrou REPOUSO, que de fato era o que estava precisando. Encontrou REPOUSO E RECUPERAÇÃO e estava prestes a prosseguir quando subitamente teve uma ideia melhor. Olhou para a tela do monitor. A batalha tornava-se mais feroz a cada segundo e o barulho era estarrecedor. A nave sacudia, gritava e cambaleava cada vez que um novo raio de colossal energia era desferido ou recebido.
Tornou a olhar para o Guia e pesquisou algumas possíveis localizações. Subitamente começou a rir e então remexeu novamente na sua mochila.
Apanhou um pequeno módulo de transferência de memória, retirou todos os fiapos e as migalhas de biscoito e conectou-o a uma interface na parte de trás do Guia.
Quando todas as informações que ele julgava relevantes já tinham sido transferidas para o módulo, ele o desconectou, colocou-o delicadamente na palma da mão, guardou o Guia de volta na mochila, deu um sorriso afetado e saiu em busca dos bancos de dados do computador da nave.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!