26 de dezembro de 2017

Capítulo 18

Arthur deu um pulo, assustado. Era difícil dizer o que o assustava mais: a possibilidade de ter machucado a pessoa na qual inadvertidamente se sentara ou a possibilidade de que a pessoa na qual inadvertidamente se sentara fosse machucá-lo.
A princípio, após uma breve inspeção, concluiu que não havia nenhuma causa imediata para alarme no que dizia respeito à segunda hipótese. A pessoa na qual sentara, fosse quem fosse, estava inconsciente. Aquilo provavelmente ajudava a explicar o que ela estava fazendo deitada ali. Parecia estar respirando bem. Arthur sentiu o pulso do sujeito. Também estava bem.
Estava deitado de lado, um pouco encolhido. A última vez que Arthur prestara primeiros socorros estava tão longe no tempo e no espaço que ele realmente não conseguia lembrar o que devia fazer numa situação daquelas. A primeira coisa que devia fazer, recordou ele, era ter um kit de primeiros socorros à mão. Droga.
Será que deveria deitar o sujeito de barriga para cima ou não? E se ele tivesse alguma fratura? E se tivesse engolido a língua? E se decidisse processá-lo? Quem, antes de tudo, era aquela pessoa?
Foi então que o sujeito inconsciente gemeu alto e se virou de barriga para cima.
Arthur não sabia se ele deveria...
Olhou para o sujeito.
Olhou novamente.
Olhou para o sujeito mais uma vez, só para ter certeza absoluta.
Apesar de estar certo de que não era possível se sentir pior do que já estava, sentiu um enorme desânimo.
O sujeito gemeu de novo e abriu os olhos lentamente. Demorou um pouco para enxergar alguma coisa direito, depois piscou e enrijeceu o corpo.
— Você! — exclamou Ford Prefect.
— Você! — exclamou Arthur Dent.
Ford voltou a gemer.
— O que você precisa que eu explique desta vez? — perguntou ele, fechando os olhos, em desespero.
Cinco minutos depois, Ford estava sentado, esfregando o lado da cabeça onde havia um galo bem grande.
— Quem diabos era aquela mulher? — perguntou ele. — Por que estamos cercados por esquilos e o que eles querem?
— Esses esquilos encheram a minha paciência a noite toda — respondeu Arthur. — Ficam tentando me dar revistas e coisas assim.
Ford franziu a testa.
— Sério?
— E pedaços de pano.
Ford raciocinou.
— Ahn — disse ele. — Estamos perto do local onde sua nave caiu?
— Estamos — respondeu Arthur, um pouco ríspido.
— Deve ser isso, então. Acontece. Os robôs de cabine da nave são destruídos. As mentes cibernéticas que os controlam sobrevivem e começam a infectar a vida elvagem local. Podem transformar um ecossistema inteiro em uma indústria de prestadores de serviço inútil, oferecendo toalhinhas quentes e drinques para todo mundo que passar por perto. Devia existir uma lei contra isso. Provavelmente existe. Provavelmente existe também uma lei contra ter uma lei contra isso, assim fica tudo resolvido. Certo. O que você disse?
— Eu disse: e a mulher é minha filha.
Ford parou de esfregar a cabeça.
— Repete.
— Eu disse — repetiu Arthur, irritado — que a mulher é minha filha.
— Eu não sabia que você tinha uma filha.
— Bom, provavelmente há muitas coisas a meu respeito que você não sabe — disse Arthur. — Para falar a verdade, provavelmente também há muitas coisas a meu respeito que eu não sei.
— Ora, ora, ora. Quando foi que isso aconteceu?
— Não sei direito.
— Isso sim é bem a sua cara — disse Ford. — Existe uma mãe na parada?
— Trillian.
— Trillian? Eu não achei que...
— Não. Olha, é um pouco constrangedor...
— Eu me lembro que uma vez ela me disse por alto que tinha uma filha. Falo com ela de tempos em tempos. Mas nunca a vi com a menina.
Arthur não disse nada.
Ford recomeçou a esfregar a mão na cabeça, um pouco confuso.
— Tem certeza de que aquela era sua filha? — perguntou ele.
— Me conte o que aconteceu.
— Ih... é uma longa história. Eu estava vindo buscar o pacote que mandei para mim, aos seus cuidados...
— Bom, e o que era aquilo, afinal?
— Eu acho que pode ser algo inimaginavelmente perigoso.
— E você mandou pra mim? — reclamou Arthur.
— Foi o lugar mais seguro em que consegui pensar. Achei que pudesse confiar na sua capacidade de ser absolutamente chato e não abrir o pacote. Enfim, como cheguei à noite, não estava conseguindo encontrar o tal vilarejo. Estava me virando com informações bem básicas. Não encontrei nenhuma sinalização. Acho que vocês não têm sinalização nenhuma por aqui.
— É por isso que eu gosto daqui.
— Aí, captei um sinal bem fraco do seu velho Guia, então segui nessa direção, pensando que ia me levar até você. Percebi que tinha aterrissado em uma espécie de bosque. Não conseguia entender direito o que estava acontecendo. Saí da nave e me deparei com essa mulher, parada ali. Fui até ela para dizer oi e de repente vi que ela estava com o negócio na mão!
— Que negócio?
— A coisa que eu mandei para você! O novo Guia. O tal pássaro! Você tinha que ter guardado direito, seu idiota, mas a mulher estava com ele sobre o ombro. Eu parti para cima e ela me deu uma pedrada na cabeça.
— Entendi — disse Arthur. — E o que você fez?
— Ué, caí no chão, é claro. Me machuquei feio. Ela e o pássaro começaram a se dirigir para a minha nave. E quando eu digo minha nave estou me referindo a uma RW6.
— Uma o quê?
— Uma RW6, pelo amor de Zarquon. O meu cartão de crédito e o computador central do Guia estão se relacionando muito bem ultimamente. Você não ia acreditar nessa nave, Arthur, ela é...
— Então a RW6 é uma nave?
— É! É uma... ah, deixa pra lá. Olha, pega leve, Arthur! Ou, pelo menos, pega um catálogo. Nesse momento, eu fiquei bastante preocupado. E, acho eu, com uma semiconcussão. Estava de joelhos, sangrando em profusão e, então, fiz a única coisa que me veio à cabeça, que era implorar. Eu disse, por favor, não leve a minha nave. E não me abandone encalhado no meio de uma floresta primitiva, sem ajuda médica e com um ferimento na cabeça. Eu poderia estar correndo um sério perigo e ela também.
— E o que ela disse?
— Ela me deu outra pedrada na cabeça.
— Acho que posso confirmar que essa era mesmo a minha filha.
— Um amor de menina.
— Você precisa conhecê-la melhor — disse Arthur.
— Por que, ela fica mais mansa?
— Não — respondeu Arthur —, mas você aprende a hora de desviar.
Ford suspendeu a cabeça e tentou enxergar direito.
O céu estava começando a clarear a oeste, que era onde nascia o sol. Arthur não estava particularmente interessado em vê-lo. A última coisa que queria após uma noite infernal como aquela era um glorioso dia nascendo e se intrometendo na história.
— O que você está fazendo em um lugar desses, Arthur? — perguntou Ford.
— Bom — disse Arthur —, basicamente, estou fazendo sanduíches.
— Hein?
— Eu sou, ou provavelmente era, o Fazedor de Sanduíches de uma pequena tribo. Era um pouco constrangedor, para falar a verdade. Quando eu cheguei, isto é, no dia em que eles me resgataram dos escombros da tal nave espacial de última geração que caiu neste planeta, eles foram muito legais comigo e eu achei que devia fazer alguma coisa para ajudar. Você sabe, recebi uma boa educação, venho de uma cultura de tecnologia avançada, poderia ensinar algumas coisas para eles. Mas, é claro, não consegui. Na hora do vamos ver, descobri que não faço a menor ideia de como as coisas funcionam. E não estou falando de videocassetes, pois ninguém sabe mexer neles mesmo. Estou falando de coisas como uma caneta, um poço artesiano, algo assim. Não tenho a menor ideia. Não podia ajudar em nada. Um dia, estava muito desanimado e resolvi fazer um sanduíche para mim. E isso os deixou incrivelmente animados. Nunca haviam visto um antes. Era uma ideia que jamais lhes tinha ocorrido e eu, por acaso, gosto de fazer sanduíches, então a coisa meio que começou assim.
— E você gostava disso?
— Ah, sim, acho que eu gostava, sim. Possuir um bom conjunto de facas, essas coisas.
— Você não achava, por exemplo, devastadoramente, explosivamente, incrivelmente, dolorosamente chato?
— Bem, ah, não. Nem tanto. Não era doloroso.
— Que estranho. Eu acharia.
— Bom, acho que temos pontos de vista diferentes.
— Pois é.
— Como os pássaros pikka.
Ford não fazia a menor ideia do que ele estava falando e não estava com saco para perguntar. Em vez disso, disse:
— Então, como é que a gente faz para dar o fora desse lugar?
— Bom, acho que a maneira mais simples seria seguir o vale até as planícies, o que provavelmente levaria uma hora, e depois continuar seguindo. Acho que não consigo encarar a ideia de ter que voltar por onde eu vim.
— Continuar seguindo para onde?
— Ué, de volta para o vilarejo, não? — Arthur suspirou, um pouco melancólico.
— Não quero ir para nenhuma droga  de vilarejo! — interrompeu Ford. — Temos que dar o fora daqui!
— Onde? Como?
— Sei lá, me diz você. Você mora aqui! Deve haver alguma maneira de sair desse planeta idiota.
— Eu não sei. O que você costuma fazer? Fica sentado esperando uma nave espacial passar, não é?
— Ah, sim... E quantas naves espaciais visitaram esse antro de pulgas esquecido por Zarquon, recentemente?
— É... há alguns anos, a minha nave caiu aqui por engano. Depois teve a da Trillian, depois a entrega do pacote, agora a sua e...
— Sim, mas além dos suspeitos de sempre?
— Bom, ah, acho que basicamente nenhuma, até onde sei. É bem pacato por aqui.
Como se para desmenti-lo de propósito, um trovão soou bem alto ao longe.
Ford pulou, sobressaltado, e começou a caminhar para a frente e para trás na luz fraca e dolorosa daquele início de madrugada, que rasgava o céu como se alguém tivesse arrastado um pedaço de fígado sobre ele.
— Você não entende como isso é importante — disse ele.
— O quê? O fato de a minha filha estar sozinha, solta pela Galáxia? Você acha que eu não...
— Podemos ter pena da Galáxia depois? — zombou Ford. — Isso é muito, muito sério mesmo. Assumiram o controle do Guia. Ele foi comprado.
Arthur reagiu.
— Ah, muito sério — gritou ele. — Por favor, me inteire o mais rápido possível sobre questões de política corporativa das editoras! Você nem faz ideia de como tenho pensado nisso!
— Você não entende! Existe um Guia completamente novo!
— Ah! — gritou Arthur. — Ah! Ah! Ah! É emoção demais para mim! Mal posso esperar que ele seja lançado para descobrir quais os portos espaciais mais empolgantes para se ficar entediado zanzando por um aglomerado globular do qual nunca ouvi falar. Por favor, vamos correndo à loja mais próxima para comprá-lo imediatamente?
Ford apertou os olhos.
— É isso que vocês chamam de sarcasmo, não é?
— Sabe que eu acho que é, sim? — berrou Arthur. — Eu realmente acho que isso pode ser o negócio maluco chamado sarcasmo, infiltrando-se pelas beiradas de minha fala educada! Ford, eu tive uma noite infernal! Será que dá para levar isso em consideração enquanto você fica aí bolando com quais basbaquices triviais estapafúrdias e inconsequentes irá me bombardear em seguida?
— Tenta descansar — disse Ford. — Eu preciso pensar.
— Por que você precisa pensar? Não podemos ficar aqui sentados, fazendo budumbudumbudumbudum com a boca um pouquinho? Não dá para babarmos um pouquinho e nos balançarmos para a esquerda um pouquinho? Eu não aguento mais, Ford! Não aguento mais ter que pensar e resolver coisas. Você pode até pensar que eu estou aqui tendo um chilique...
— Não tinha pensado nessa hipótese.
— ... mas é sério! De que adianta? Nós achamos que toda vez que fazemos alguma coisa sabemos quais serão as consequências, isto é, sabemos mais ou menos o que esperamos que sejam. E isso, algumas vezes, não é apenas incorreto. É desvairadamente, loucamente, estupidamente, cegamente errado!
— É exatamente disso que eu estou falando.
— Obrigado — disse Arthur, sentando-se novamente. — O quê?
— Engenharia reversa temporal.
Arthur colocou as mãos na cabeça e balançou-a lentamente de um lado para o outro.
— Existe alguma maneira humana — gemeu ele — de te impedir de me explicar o que é essa sei-lá-o-quê reversa temporal de merda?
— Não — respondeu Ford —, porque a sua filha está presa bem no meio dela e isso é sério, mortalmente sério.
Trovões soaram em meio à pausa.
— Está bem — disse Arthur. — Pode explicar.
— Eu me joguei da janela de um arranha-céu.
Aquilo alegrou Arthur.
— Ah! — exclamou ele. — Por que você não faz isso de novo?
— Eu fiz.
— Humm — fez Arthur, desapontado. — Obviamente, não deu em nada.
— Da primeira vez, consegui me salvar graças a mais impressionante – e eu digo isso com toda a modéstia – e fantástica combinação de improviso, agilidade, contorcionismo e autosacrifício.
— E qual foi o auto-sacrifício?
— Eu me desfiz da metade de um par de sapatos muito queridos e, creio eu, insubstituíveis.
— E por que isso foi um autosacrifício?
— Por que eram meus! — respondeu Ford, amuado.
— Acho que temos valores muito diferentes.
— Sim, os meus são melhores.
— Melhores de acordo com a sua... ah, deixa pra lá. Então, tendo conseguido se salvar de maneira muito engenhosa da primeira vez, você usou de toda a sua sensatez e pulou novamente. Por favor não me diga o porquê. Só me conte o que aconteceu, se necessário.
— Caí direto na cabine aberta de um carro a jato que estava passando, cujo piloto havia acabado de apertar acidentalmente o botão de ejetar, quando, na verdade, queria apenas trocar de música no rádio. Ora, nem mesmo eu conseguiria pensar que isso foi uma grande sacação minha.
— Ah, não sei, não — comentou Arthur, exausto. — Suponho que você tenha se infiltrado no jato do sujeito de madrugada e programado a música menos favorita dele para tocar ou algo assim.
— Não, claro que não — disse Ford.
— Só estou verificando.
— Mas, por mais estranho que pareça, alguém fez isso. E aí é que está o xis da questão. É possível olhar para trás e rastrear toda a cadeia e as ramificações de acontecimentos e coincidências cruciais. No final das contas, o responsável por tudo isso era o novo Guia. O tal pássaro.
— Que pássaro?
— Você não chegou a ver?
— Não.
— Ah, é uma criaturinha mortal. É bonito, fala grosso, provoca o colapso seletivo de formas de onda quando quer.
— O que isso significa?
— Engenharia reversa temporal.
— Ahn — fez Arthur. — Ah, tá.
— A questão é: para quem ele está realmente trabalhando?
— Acho que tenho um sanduíche aqui — disse Arthur, catando no bolso. — Quer um pedaço?
— Quero.
— Deve estar um pouco amassado e encharcado, lamento.
— Tudo bem.
Mastigaram um pouco.
— Até que é bem gostoso — disse Ford. — Que carne é essa?
— É de Besta Perfeitamente Normal.
— Nunca vi uma. Então, a questão é — continuou Ford — para quem o pássaro está realmente trabalhando? Qual é a verdadeira trama por trás dessa história?
— Humm — mastigou Arthur.
— Quando encontrei o pássaro — prosseguiu Ford —, o que se deu graças a uma série de coincidências por si só interessantes, ele exibiu a mais fantástica pirotecnia multidimensional que eu já vi. Depois disse que colocaria os seus serviços à minha disposição no meu universo. Eu respondi obrigado, mas não, obrigado. Ele disse que ia fazer isso de qualquer jeito, querendo eu ou não. Eu disse tenta só para você ver, ele disse que ia e que, na verdade, já havia feito. Eu disse é o que veremos e ele disse que veríamos. Foi então que eu decidi empacotar o bicho e enviá-lo para cá. E resolvi mandar para você por uma questão de segurança.
— Ah, é? Segurança de quem?
— Ah, deixa pra lá. Aí, como uma coisa leva a outra, achei sensato me jogar da janela novamente, por não ter nenhuma outra alternativa naquele momento. Para minha sorte, o carro a jato estava lá; do contrário, eu teria que me contentar com mais pensamentos engenhosamente rápidos, agilidade, talvez o outro pé do sapato e, se nada disso desse certo, com o chão. Mas isso me mostrou que, gostando eu ou não, o Guia estava trabalhando para mim, o que era profundamente preocupante.
— Por quê?
— Porque, se você está com o Guia, acha que é ele quem trabalha para você. Desde então as coisas fluíram magnificamente para mim, até agora há pouco, quando me deparei com a gatinha da pedrada e, bangue, já era. Estou fora do circuito.
— Você está falando da minha filha?
— Estou tentando ser o mais educado possível. Ela é o próximo elo na cadeia e vai achar que tudo está indo às mil maravilhas. Vai poder bater na cabeça de quem quiser com pedaços da paisagem e tudo vai fluir lindamente, até que ela faça o que deve fazer e, então, vai ficar de fora também. É engenharia reversa temporal e, obviamente, ninguém compreendeu o que estava desencadeando!
— Como eu, por exemplo.
— O quê? Ah, acorda, Arthur. Olha, deixa eu tentar novamente. O novo Guia foi desenvolvido nos laboratórios de pesquisa. Ele utiliza uma nova tecnologia chamada Percepção Sem Filtros. Você sabe o que isso quer dizer?
— Olha, eu passei os últimos anos fazendo sanduíches, pelo amor de Bob!
— Quem é Bob?
— Deixa pra lá. Continua.
— Percepção Sem Filtros significa que ele percebe tudo. Entendeu? Eu não percebo tudo. Você não percebe tudo. Temos filtros. O novo Guia não possui nenhum filtro sensorial. Ele percebe tudo. Nem era uma ideia tecnológica muito complicada. Era só questão de deixar algo de fora. Entendeu?
— Porque não digo simplesmente que entendi, você continua falando do mesmo jeito.
— Certo. Agora, como o pássaro pode perceber qualquer universo possível, ele está presente em qualquer universo possível. Entendeu?
— En...ten...diiiiii.
— Então o que acontece é o seguinte: os palhaços dos departamentos de marketing e contabilidade dizem “Ah, que ideia genial, isso quer dizer que só precisamos fazer um desses e depois vamos vendê-lo um número infinito de vezes!”. Não faz essa cara, Arthur, é assim que os contadores pensam!
— Mas é bem inteligente, não é?
— Não! É incrivelmente burro. Veja bem: a máquina é apenas um pequeno Guia. Tem uma cibertecnologia bem interessante lá dentro, mas, por conta da Percepção Sem Filtros, qualquer mínimo movimento que o Guia faça tem o poder de um vírus. Ele pode se propagar pelo espaço, pelo tempo e em um milhão de outras dimensões. Qualquer coisa pode se focar em qualquer lugar em qualquer um dos universos nos quais transitamos. O seu poder é recursivo. Imagine um programa de computador. Em algum lugar existe uma instrução principal e todo o resto não passa de funções recursivas, ou parênteses se propagando em uma enorme onda sem fim através de um espaço infinito de endereçamento. E o que acontece quando os parênteses colapsam? Onde fica o derradeiro end if? Isso por acaso faz algum sentido? Arthur?
— Foi mal, dei uma cochilada rápida. Era alguma coisa sobre o universo, não era?
— Alguma coisa sobre o universo, é — disse Ford, exausto. Sentou-se novamente. — Tudo bem — disse ele. — Pense nisso. Você sabe quem eu acho que vi nos escritórios do Guia? Vogons. Ahá! Finalmente uma palavra que você sabe o que é.
Arthur levantou-se num salto.
— Esse barulho — disse ele.
— Que barulho?
— O trovão.
— O que é que tem?
— Não é um trovão. É a migração de primavera das Bestas Perfeitamente Normais. Já começou.
— O que são esses animais de que você é fã?
— Eu não sou fã. Eu apenas coloco pedaços deles nos meus sanduíches.
— E por que são chamados de Bestas Perfeitamente Normais?
Arthur contou para ele.
Não era todos os dias que Arthur tinha o prazer de ver os olhos de Ford se arregalarem de surpresa.

Um comentário:

  1. E engraçado ver o Arthur não entendendo as explicações do Ford e ele perdendo a paciência.

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Boa leitura :)