17 de dezembro de 2017

Capítulo 18

Um dia de verão em Islington, repleto do pesaroso lamento das máquinas de restauração de antiguidades.
Fenchurch estava inevitavelmente ocupada durante a tarde, então Arthur saiu para passear envolto em uma névoa de êxtase e deu uma olhada em todas as lojas que, em Islington, são bastante úteis, como qualquer um que habitualmente precise de velhas ferramentas para trabalhar a madeira, capacetes da Guerra Bôer, dragas, mobília de escritório ou peixes pode prontamente confirmar.
O sol batia sobre os jardins nos terraços. Batia sobre arquitetos e encanadores. Batia em advogados e ladrões. Batia sobre as pizzas. Batia em fiscais do estado.
Bateu em Arthur quando ele entrou em uma loja de mobília restaurada.
— É um prédio interessante — disse o proprietário, efusivo. — No porão tem uma passagem secreta que dá para o bar mais próximo. Parece que foi construída para o príncipe regente, para ele pudesse dar as suas escapadinhas.
— Entendi, para ninguém surpreendê-lo comprando móveis de pinho descascados — disse Arthur.
— Não — respondeu o proprietário -, não por esse motivo.
— Desculpe — disse Arthur. — Estou terrivelmente feliz.
— Estou vendo.
Continuou vagando atordoadamente e acabou indo parar bem na frente dos escritórios do Greenpeace. Lembrou-se do conteúdo do seu arquivo marcado “Coisas Para Fazer — Urgente!”, que nunca mais havia aberto. Entrou no prédio com um sorriso alegre e disse que tinha vindo dar contribuição em dinheiro para ajudar a libertar os golfinhos.
— Muito engraçado — responderam -, vá embora.
Não estava exatamente preparado para aquela resposta então tentou novamente. Desta vez ficaram bastante irritados com ele; então ele acabou deixando algum dinheiro e voltou para a rua ensolarada.
Um pouco depois das seis voltou para a casa de Fenchurch na travessa, trazendo uma garrafa de champanhe.
— Segura isso aqui — disse ela, colocando uma pesada corda em suas mãos e desaparecendo para dentro das enormes portas de madeira branca, de onde pendia um pesado cadeado em uma tranca de ferro preta.
A casa era um estábulo reformado, em uma pequena travessa industrial atrás do Royal Agricultural Hall de Islington, agora abandonado. Além das enormes portas de estábulo, também havia uma porta da frente de aparência normal, revestida de madeira envernizada com ornamentos e um golfinho preto servindo de batente. A única coisa estranha sobre essa porta era sua posição, a quase três metros de altura, já que a porta fora colocada no segundo andar e provavelmente havia sido originalmente usada para receber o feno para cavalos famintos.
Uma velha roldana projetava-se para fora dos tijolos acima entrada e era nela que a corda que Arthur segurava estava presa. Na outra ponta da corda havia um violoncelo pendurado.
A porta abriu-se sobre a sua cabeça.
— O.k. — disse Fenchurch -, puxe a corda e mantenha o violoncelo firme. Depois faça-o subir até aqui.
Ele puxou a corda, mantendo o violoncelo firme.
— Não dá para puxar a corda de novo — disse ele — sem soltar o violoncelo.
Fenchurch deitou-se no chão.
— Eu cuido do violoncelo — disse ela. — Pode puxar a corda.
O violoncelo subiu até a altura da porta, balançando um ouço, e Fenchurch puxou-o para dentro.
— Agora, suba você — ela gritou lá para baixo.
Arthur apanhou a sacola com as comprinhas que tinha feito e entrou pelas portas do estábulo, radiante.
O cômodo de baixo, que ele vira brevemente mais cedo, era bem rústico e cheio de tralhas. Havia coisas como uma enorme e velha máquina de passar de ferro fundido e uma surpreendente pilha de pias de cozinha em um canto. Havia também um carrinho de bebê que deixou Arthur momentaneamente alarmado, mas estava caindo aos pedaços e descomplicadamente cheio de livros.
O chão era de concreto, velho e manchado, empolgantemente rachado. E essa era a medida do humor de Arthur, enquanto olhava para os degraus de madeira mal conservados do outro lado da sala. Até mesmo um chão de concreto rachado parecia-lhe insuportavelmente sensual.
— Um arquiteto amigo meu vive me dizendo que poderia fazer coisas fantásticas aqui — disse Fenchurch, toda falante quando Arthur surgiu pela porta. — Ele vive vindo aqui em casa, e fica aí parado, embasbacado, resmungando alguma coisa sobre espaço, objetos, acontecimentos e propriedades maravilhosas de luz, aí me pede um lápis e some por várias semanas. Coisas fantásticas, como você vê, até agora não aconteceram por aqui.
Para falar a verdade, pensou Arthur ao examiná-lo, o cômodo superior era no mínimo razoavelmente fantástico de qualquer forma. Fora decorado com simplicidade e mobiliado com coisas feitas de almofadas e tinha um aparelho de som estéreo com alto-falantes que teriam impressionado caras que construíram Stonehenge.
Havia flores pálidas e quadros interessantes.
Havia uma espécie de jirau abaixo do telhado que sustentava uma cama e um banheiro no qual, explicou Fenchurch, seria até possível dançar uma valsa.
— Mas — acrescentou — apenas se você quisesse dançar sozinho e não se importasse de bater nas paredes o tempo todo. Enfim. Aqui está você.
— Pois é.
Olharam-se por um momento.
Aquele momento tornou-se um momento mais longo e, de repente, virou um momento muito longo, tão longo que mal se podia dizer de onde aquele tempo todo estava vindo.
Para Arthur, que normalmente conseguia dar um jeito de sentir-se constrangido se fosse deixado a sós por muito tempo mesmo com um vaso de banana-do-mato, aquele momento foi de constante revelação. Sentiu-se, de repente, como um animal enjaulado, nascido no zoológico, que um belo dia acorda, encontra a porta da sua jaula tranquilamente aberta e vê, diante de si, a savana estender-se cinzenta e rosada até o distante sol nascente, enquanto à sua volta novos sons despertam.
Perguntou-se quais seriam esses novos sons, olhando para o rosto dela, francamente maravilhado, e para os seus olhos, que sorriam com uma compartilhada surpresa.
Nunca antes percebera que a vida está sempre falando com uma voz que responde às perguntas que
você vive fazendo sobre ela; nunca detectara conscientemente ou reconhecera esses tons até agora, quando a vida estava algo que jamais dissera para ele, que era “sim”.
Fenchurch finalmente abaixou os olhos, sacudindo a cabeça de um modo quase imperceptível.
— Eu sei — disse ela. — Vou ter que me lembrar — acrescentou — que você é o tipo de pessoa que não consegue segurar um pedacinho de papel por dois minutos sem ganhar uma rifa com ele.
Ela se virou.
Vamos dar uma volta — disse ela, rapidamente. — Hyde Park. Vou só colocar uma roupa menos decente.
Ela usava um vestido escuro um tanto severo, não exatante simétrico, que realmente não lhe caía bem.
— Eu uso esse vestido especialmente para o meu professor de violoncelo — explicou ela. — Ele é um cara legal, mas às vezes eu acho que todos aqueles movimentos com o arco o deixam um pouco excitado. Já volto.
Subiu com delicadeza os degraus até o jirau e disse lá de cima:
— Coloque a garrafa no congelador para mais tarde.
Ele percebeu, quando acomodou a garrafa de champanhe no congelador, que havia uma garrafa idêntica lá dentro.
Foi até a janela e olhou para fora. Virou-se e começou a fuçar os discos dela. Lá de cima, ouviu o farfalhar do seu vestido caindo no chão. Teve uma conversa consigo mesmo sobre o tipo de pessoa que ele era. Disse a si mesmo, com muita firmeza, que pelo menos por enquanto ia manter os olhos firme e inabalavelmente vidrados nas lombadas dos discos, ler os títulos, balançar a cabeça em sinal de aprovação, até mesmo contar os desgraçados, se fosse preciso. Ia manter a cabeça baixa.
Coisa que ele completa, absoluta e abjetamente não foi capaz de fazer.
Lá de cima, ela estava olhando para ele com tanta intensidade que mal pareceu notar que ele estava olhando para ela lá de baixo. Depois balançou a cabeça, deslizou um vestido leve de verão sobre o corpo e desapareceu dentro do banheiro.
Reapareceu um pouco depois, toda sorridente e com um chapéu-de-sol, descendo as escadas com extraordinária leveza. Ela tinha um jeito estranho de se mover, quase dançando.
Viu que ele tinha notado isso e inclinou a cabeça para o lado perguntando:
— Você gosta?
— Você está maravilhosa — disse ele, simplesmente, pois ela de fato estava.
— Hummm — ela disse, como se ele não tivesse realmente respondido sua pergunta.
Fechou a porta da frente do andar de cima, que tinha ficado aberta esse tempo todo, e olhou em torno do pequeno aposento para certificar-se de que as coisas conseguiriam ficar naquele estado durante algum tempo. Os olhos de Arthur seguiram os dela e, quando ele estava olhando em outra direção, ela tirou uma
coisa de uma gaveta e colocou na bolsa de lona que estava levando.
Arthur olhou para ela.
— Você está pronta?
— Você sabe — perguntou ela, com um sorriso ligeiramente intrigado — que há algo de errado comigo?
Aquela objetividade pegou Arthur de surpresa.
— Bem — disse ele -, ouvi vagamente algo sobre...
-Gostaria de saber o que você sabe sobre mim — disse ela. — Se você ficou sabendo por quem estou imaginando, pode esquecer. Russell meio que inventa umas coisas, porque não consegue lidar com a coisa em si.
Uma pontada de preocupação atingiu Arthur em cheio.
— E qual é a coisa real? — perguntou ele. — Você pode me dizer?
— Não se preocupe — respondeu ela -, não é nada demais. Só não é comum. Não é nada, nada comum.
Tocou a mão de Arthur, inclinou-se em sua direção e deu um beijo rápido.
— Estou realmente curiosa para saber — disse ela — se você descobrir o que é, esta noite.
Arthur sentia que, se alguém o tocasse naquele momento, ele produziria o mesmo som profundo e prolongado que o seu aquário cinzento fazia quando ele lhe dava um peteleco com a ponta da unha.

Um comentário:

  1. Professor de Português que não gosta de erros de gramática e ortografia23 de dezembro de 2017 02:28

    Os olhos sangram com os incontáveis erros de gramática e ortografia.

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!