14 de dezembro de 2017

Capítulo 18

Arthur materializou-se com seu já tradicional espalhafato, cambaleando e sentindo um aperto na garganta, no coração e em vários outros órgãos. Era algo que ele ainda se permitia sempre que precisava realizar uma destas horrorosas e dolorosas materializações com as quais estava determinado a não se acostumar.
Olhou em volta procurando os outros.
Não estavam lá.
Olhou novamente em volta procurando os outros.
Continuavam não estando lá.
Fechou os olhos.
Abriu-os.
Olhou em volta procurando os outros.
Persistiam obstinadamente em sua ausência.
Fechou novamente os olhos, preparando-se para executar este exercício absolutamente inútil mais uma vez; e foi só então, enquanto seus olhos estavam fechados, que seu cérebro passou a registrar a imagem que seus olhos estavam vendo enquanto abertos. Franziu as sobrancelhas, perplexo.
Então abriu os olhos de novo, a fim de verificar os fatos, e continuou com o rosto franzido.
Se algo mudou, foi apenas o rosto franzindo ainda mais e se arraigando nesta posição. Se aquilo era uma festa, era bem ruim — tão ruim, na verdade, que todos tinham ido embora. Ele abandonou esta linha de raciocínio, concluindo que era inútil. Obviamente aquilo não era uma festa. Era uma caverna, um labirinto, ou um túnel feito de algo — estava escuro demais para saber. Estava completamente escuro, uma escuridão úmida e luzente. Os únicos sons eram os ecos de sua própria respiração que soava preocupada. Tossiu baixinho e teve que ouvir o eco fantasmagórico de sua tosse vagando entre os corredores infindáveis e as câmaras invisíveis, como em um grande labirinto eventualmente retornando até ele pelos mesmos corredores invisíveis como que dizendo...
— Sim?
A mesma coisa acontecia a cada mínimo barulho que fazia, o que o deixava nervoso. Tentou cantarolar algo alegre, mas, quando o som voltou até ele, era uma marcha fúnebre, então decidiu parar.
Sua mente ficou cheia de imagens da história que Slartibartfast lhe contou.
A cada instante esperava ver os letais robôs brancos surgirem das sombras para matá-lo. Prendeu a respiração. Eles não vieram. Voltou a respirar. Não sabia o que esperar. Alguém ou alguma coisa, contudo, parecia estar esperando por ele, já que, naquele instante, acendeu-se subitamente, ao longe na escuridão, um fantasmagórico letreiro em néon verde.
Dizia, silenciosamente:
VOCÊ FOI REDIRECIONADO.
O letreiro piscou novamente e se apagou de uma forma que não conseguiu decidir se gostava ou não. Ele piscou e se apagou com uma espécie de floreio desdenhoso. Arthur então tentou reassegurar-se de que aquilo era apenas um truque ridículo de sua imaginação.
Um letreiro em néon estava ligado ou desligado, dependendo de haver ou não eletricidade passando. Não havia nenhuma forma, disse para si mesmo, do letreiro fazer a transição de um estado para o outro com um floreio desdenhoso. Ainda assim, ele abraçou o próprio corpo com força dentro de seu roupão, sentindo frio na espinha.
O letreiro em néon, nas profundezas, acendeu-se novamente, desorientador, com apenas três pontos e uma vírgula. Assim:
...,
Só que em néon verde.
Arthur percebeu, após olhar perplexo para aquilo durante poucos segundos, que o letreiro tentava indicar que havia mais, que a frase ainda não estava completa. Tentava, refletiu Arthur com um pedantismo sobre-humano. Ou, pelo menos, desumano.
A sentença completou-se, então, com estas duas palavras:
ARTHUR DENT.
Sobressaltou-se. Fixou novamente o olhar para ter certeza.
O letreiro continuava dizendo ARTHUR DENT, então sobressaltou-se novamente. Mais uma vez, o letreiro piscou e se apagou, deixando-o no escuro, com a imagem vermelha de seu nome quicando em sua retina.
BEM-VINDO, disse a luz néon em seguida.
Pouco depois, acrescentou:
ACHO QUE NÃO.
O medo gélido que havia pairado sobre Arthur durante todo aquele tempo, esperando um bom momento, percebeu que aquele era um bom momento e caiu sobre ele.
Arthur tentou lutar contra ele. Agachou-se em uma espécie de posição de alerta que vira alguém fazer uma vez na televisão, mas deve ter sido alguém com joelhos mais fortes. Ele tentou enxergar escuridão adentro.
— Ahn, oi? — disse.
Limpou a garganta e repetiu a mesma coisa, mais alto e sem o “ahn”. Em algum ponto do corredor à sua frente pareceu que alguém havia subitamente começado a bater em um bumbo.
Prestou atenção durante alguns segundos e então percebeu era apenas seu coração batendo.
Prestou atenção durante mais alguns segundos e percebeu não era seu coração batendo, mas alguém batendo em um bumbo corredor abaixo.
Gotas de suor se formaram em sua testa, tensionaram-se e depois pularam fora. Colocou uma das mãos no chão para firmar sua posição de alerta, que não estava indo muito bem. O letreiro mudou de novo. Dizia agora:
NÃO SE PREOCUPE.
Após uma breve pausa, acrescentou:
FIQUE EXTREMAMENTE ASSUSTADO, ARTHUR DENT.
Mais uma vez piscou e apagou-se. Mais uma vez deixou-o em meio à escuridão. Seus olhos pareciam querer sair das órbitas. Não tinha certeza se era porque estava tentando enxergar melhor ou se eles simplesmente queriam cair fora naquele momento.
— Alô? — disse novamente, desta vez tentando colocar em sua voz um tom de autoconfiança agressivo e duro. — Tem alguém aí?
Nenhuma resposta, nada.
Isso irritou Arthur Dent muito mais do que qualquer resposta e ele começou a afastar-se daquele vazio assustador. Quanto mais se afastava, mais assustado ficava. Depois de algum tempo, entendeu que estava com medo por causa de todos os filmes a que tinha assistido, nos quais o herói vai recuando cada vez mais de um suposto perigo à sua frente e acaba esbarrando nele por trás.
Foi exatamente quando pensou que deveria virar-se rapidamente.
Não havia nada lá.
Apenas a escuridão.
Aquilo o deixou realmente nervoso e ele começou a afastar-se de volta para onde tinha vindo.
Depois de um curto tempo, percebeu subitamente que agora estava recuando exatamente para o lugar do qual estiver recuando da primeira vez.
Não pôde deixar de pensar que aquilo devia ser uma completa tolice.
Decidiu então que seria melhor recuar da forma como estivera recuando da primeira vez e virou-se novamente.
Acabou que seu segundo instinto estava correto, porque havia um monstro indescritivelmente pavoroso imóvel em silêncio atrás dele. Arthur tremia desesperadamente, enquanto sua pele tentava saltar para um lado e seu esqueleto para o outro. Seu cérebro, enquanto isso, tentava decidir-se por qual das duas orelhas ele realmente desejava sair.
— Aposto que você não esperava me encontrar novamente — disse o monstro, e Arthur achou que era uma observação bem estranha da parte do monstro, uma vez que jamais havia encontrado a criatura antes. Tinha certeza de que nunca havia encontrado a criatura antes pelo simples fato de que conseguia dormir à noite. Aquilo era... aquilo era... aquilo era...
Arthur piscou e olhou novamente. O monstro estava absolutamente imóvel e, pensando bem, tinha algo familiar.
Uma terrível e fria calma apoderou-se dele quando compreendeu que estava olhando para um holograma de uma mosca com quase dois metros de altura. Perguntou-se por que alguém estaria interessado em mostrar-lhe um holograma de uma mosca com quase dois metros de altura naquele momento.
Perguntou-se de quem era aquela voz.
Era um holograma horrivelmente realístico.
Ele desapareceu.
— Ou talvez você se lembre melhor de mim — disse a voz subitamente, e era uma voz profunda, gutural e malevolente que soava como alcatrão derretido escorrendo de um barril ideias malignas em sua mente — como o coelho.
Com um súbito ping, surgiu um coelho naquele labirinto curo, um enorme, monstruosa e odiosamente macio e adorável coelho. Novamente era apenas uma imagem, mas cada um dos macios e adoráveis pelos parecia uma coisa única e real crescendo em sua pele macia e adorável. Arthur surpreendeu-se ao ver seu próprio reflexo naqueles suaves e adoráveis imensos olhos castanhos que não piscavam.
— Nascido na escuridão — rosnou a voz —, criado na escuridão. Uma manhã, pela primeira vez coloquei minha cabeça para fora naquele reluzente mundo novo e ela foi partida ao meio por algo que se parecia muito com um suspeito instrumento primitivo feito de sílex. Feito por você, Arthur Dent, e manejado por você. De forma bastante brutal, pelo que me lembro. Você transformou minha pele em uma sacola na qual guardava pedras interessantes. Fiquei sabendo disso por acaso, já que, em minha vida seguinte, retornei como uma mosca e você me matou. De novo. Só que desta vez você me matou com a bolsa que havia feito com minha pele anterior. Arthur Dent, você não apenas é um homem cruel e desalmado, como também é absurdamente sem tato.
A voz fez uma pausa enquanto Arthur olhava em volta, abestalhado.
— Vejo que você perdeu a bolsa — disse a voz. — Provavelmente se cansou dela, não é?
Arthur sacudiu a cabeça, desesperado. Queria explicar que, na verdade, adorava aquela bolsa e cuidava dela com muito cuidado e a levava com ele para onde quer que fosse, mas, por algum motivo, sempre que viajava para algum lugar acabava inexplicavelmente com uma outra sacola e que, muito peculiarmente, naquele exato momento havia notado pela primeira a sacola que estava carregando agora parecia ser feita de uma imitação fajuta de pele de leopardo que não era a mesma que estava com ele pouco antes de ter chegado naquele qualquer lugar que fosse, e que aquela não era uma sacola que, pessoalmente, ele teria escolhido, e só Deus sabe o que poderia ter lá dentro — posto que não era dele —, e que gostaria muito de ter novamente sua sacola original, exceto, claro, pelo fato de lamentar profundamente ter removido tão peremptoriamente a dita sacola, ou melhor dizendo, ter removido as partes que a constituíam, ou seja, a pele de coelho, de seu dono anterior, seja dito o coelho ao qual tinha, naquele instante a honra de tentar em vão dirigir-se.
Na prática, tudo que conseguiu dizer foi:
— Eh...
— Veja agora a salamandra na qual você pisou.
E lá estava, no mesmo corredor que Arthur, uma gigantesca salamandra verde escamada. Arthur se virou, gritou, pulou para trás e viu-se de pé no meio do coelho. Gritou de novo, mas não achou outro lugar para onde pular.
— Essa também era eu — prosseguiu a voz, em tom grave e ameaçador —, como se você não soubesse...
— Saber? — disse Arthur, espantado. — Saber?
— A coisa mais interessante sobre a reencarnação — rosnou a voz — é que a maioria das pessoas, a maioria dos espíritos não percebem o que está acontecendo com eles.
Fez uma pausa dramática. Na opinião de Arthur, já havia drama suficiente naquilo tudo.
— Eu tinha consciência — sussurrou a voz —, ou melhor, eu me tornei consciente. Lentamente. Gradualmente.
Ele, quem quer que fosse, parou novamente e tomou fôlego:
— Não podia evitar, não é mesmo? — berrou — A mesma coisa continuava acontecendo, de novo, de novo, de novo! Em cada vida que já vivi fui morto por Arthur Dent. Qualquer mundo, qualquer corpo, qualquer tempo, assim que estou me acostumando lá vem Arthur Dent e, paft!, me mata. Difícil não notar, não é? Meio que um lembrete. Meio que um marcador. Meio que uma maldita pista! “Engraçado”, dizia meu espírito para si mesmo enquanto ele voava de volta para o vazio da não-existência após outra aventura na terra dos vivos, terminada por Dent, “... engraçado que aquele homem que acabou de me atropelar, enquanto eu saltitava através da estrada em direção a meu lago favorito, me pareceu familiar...” Aos poucos então, consegui juntar as peças, Dent, seu maníaco multiassassino de mim.
Os ecos da voz reverberavam para cima e para baixo dos corredores. Arthur permaneceu silencioso e frio, sacudindo a cabeça, sem acreditar.
— Eis o momento, Dent — grasnou a voz, agora atingindo um tom de ódio febril —, eis o momento em que eu finalmente soube!
A coisa que subitamente se abriu diante de Arthur era indescritivelmente horrenda, fazendo-o engolir em seco e gorgolejar de terror, mas vamos fazer uma tentativa de descrever quão horrenda a coisa era. Era uma enorme e pulsante caverna úmida com uma imensa e gosmenta criatura similar a uma baleia rolando dentro dela e escorregando sobre monstruosas lápides brancas. No alto da caverna havia um vasto promontório no qual se podia ver os recessos escuros de outras duas terríveis cavernas, as quais...
Arthur Dent percebeu subitamente que estava olhando para sua própria boca, quando sua atenção deveria estar concentrada na ostra viva que estava sendo irremediavelmente enfiada dentro dela.
Cambaleou para trás gritando e desviou os olhos.
Quando abriu novamente os olhos viu que a terrível aparição tinha sumido. O corredor estava escuro e, por alguns instantes, silencioso. Estava sozinho com seus pensamentos. Eram pensamentos extremamente desagradáveis e ele preferia ter um acompanhante por perto.
O próximo barulho que ouviu foi o tremor grave e maciço de uma grande parte da parede se abrindo para o lado, revelando, por enquanto, apenas uma negra escuridão atrás dela. Arthur olhou para dentro da mesma forma que um rato olha para dentro de um canil escuro.
E a voz dirigiu-se a ele novamente.
— Diga-me que foi apenas coincidência, Dent. Eu o desafio a dizer que foi apenas coincidência.
— Foi uma coincidência — disse Arthur, rapidamente.
— Não foi não! — retrucou a voz com um berro.
— Foi — disse Arthur —, foi sim...
— Se foi apenas coincidência, então meu nome — ribombou a voz — não é Agrajag.
— Devo presumir — disse Arthur — que você afirma que era esse o seu nome.
— Sim — retrucou Agrajag, como se tivesse completado um brilhante silogismo.
— Bem, lamento dizer que ainda assim foi apenas coincidência — disse Arthur.
— Venha até aqui e repita isto! — urrou a voz, novamente em fúria.
Arthur entrou lá e disse que era uma coincidência, ou melhor, quase conseguiu dizer que era uma coincidência. Sua língua meio que perdeu o passo perto do final da última palavra porque as luzes se acenderam e ele pôde ver onde havia entrado.
Era uma Catedral do Ódio.
Era produto de uma mente não apenas retorcida, mas completamente distendida. Era enorme. E terrível.
Tinha uma Estátua nela.
Mas voltaremos à Estátua em breve.
Aquela vasta, incompreensivelmente vasta câmara parecia sido escavada no interior de uma montanha — o que se devia precisamente ao fato de ela ter sido escavada no interior de uma montanha. Arthur sentia tudo girando de forma nauseante em torno de sua cabeça enquanto tentava olhar para a câmara.
Era negra.
Onde não era negra seria geralmente desejável que fosse, por conta das cores escolhidas para alguns dos indizíveis detalhes. As cores percorriam pavorosamente todo o espectro de cores nauseantes, indo do Ultraviolento ao Infravermicida, passando pelo Púrpura Fígado, Lilás Execrável, Amarelo Vômito, sem deixar de lado o Hombre Cremado e Gan Grená.
Os detalhes indizíveis nos quais essas cores foram usadas eram gárgulas que teriam feito Francis Bacon desistir de seu almoço.
Todas as gárgulas olhavam para dentro, afixadas nas paredes, nos pilares, nos contrafortes, nos assentos do coro — todas olhavam em direção à Estátua, a respeito da qual falaremos em breve.
E, se as gárgulas teriam feito Francis Bacon desistir de seu almoço, ficava claro, pela cara das gárgulas, que a Estátua teria fato com que elas desistissem de seu próprio almoço. Isso, claro, se estivessem vivas para comê-lo — coisa que não estavam — e se alguém tivesse tentado servir-lhes um almoço — coisa que não fizeram.
Nas monumentais paredes havia enormes placas de pedra em memória daqueles que haviam sido mortos por Arthur Dent.
Os nomes de alguns dos imortalizados estavam sublinhados e tinham asteriscos ao seu lado. Por exemplo, o nome de uma vaca que foi abatida e da qual Arthur por acaso comeu um filé tinha seu nome gravado sem destaque, enquanto o nome de um peixe, que o próprio Arthur pescou, depois decidiu que não gostou e finalmente deixou no canto do prato, esta sublinhado duas vezes, com três asteriscos e uma adaga ensanguentada acrescentados como decoração para deixar coisas bem claras.
O mais perturbador em tudo isso — tirando a Estátua, que estamos aos poucos introduzindo, por etapas — era a implicação muito clara de que todas aquelas pessoas e criaturas eram de fato uma só, repetidas vezes.
Estava igualmente claro que aquela pessoa estava, ainda que de forma injusta, muito chateada e irritada.
Na verdade, seria razoável dizer que aquela pessoa tinha atingido um nível de irritação jamais visto no Universo. Era uma irritação de proporções épicas, uma chama flamejante e ardente de irritação, uma irritação que abrangia todo o tempo e o espaço em sua infinita sombra.
E esta irritação tinha sido expressa da forma mais contundente na Estátua que ficava no centro de toda essa monstruosidade, que era uma estátua de Arthur Dent, não muito lisonjeira, por sinal. Com 15 metros contados, não havia um centímetro nela que não estivesse cheio de insultos àquele lá representado, e 15 metros de insultos seriam suficientes para fazer qualquer um sentir-se mal. Desde a pequena espinha ao lado de seu nariz até o horrível corte de seu roupão, nenhum aspecto de Arthur Dent deixou de ser esculhambado e vilipendiado pelo escultor.
Arthur era mostrado como uma górgona, um ogro malvado, voraz e faminto por sangue, massacrando tudo em sua passagem pelo inocente Universo de um só homem. Com cada um dos 30 braços que o escultor, num ímpeto de fervor artístico, havia decidido lhe dar, a Estátua estava esmagando a cabeça de um coelho, matando uma mosca, partindo um osso da sorte, arrancando um piolho do cabelo fazendo alguma coisa que Arthur não conseguiu identificar na primeira vez. Seus muitos pés estavam basicamente esmagando formigas.
Arthur cobriu os olhos com as mãos, inclinou a cabeça e sacudiu-a lentamente de um lado para o outro, diante da tristeza e do horror evocados por toda aquela maluquice.
Quando reabriu os olhos, viu à sua frente o homem ou criatura, ou o que quer que fosse, que supostamente ele estava perseguindo o tempo todo.
— RrrrrrrrrhhhhhhhaaaaaaaaHHHHHHHHl — disse Agrajag. Ele, ou aquilo, ou o que fosse, parecia um morcego gordo enlouquecido. Caminhou lentamente em torno de Arthur, cutucando-o com suas garras recurvadas.
— Olhe...! — reclamou Arthur.
— RrrrrrrrrhhhhhhhaaaaaaaaHHHHHHHH! — explicou Agrajag, e Arthur aceitou aquilo, relutantemente, pelo simples fato de estar bastante assustado por aquela medonha e estranhamente disforme aparição.
Agrajag era negro, inchado, enrugado e coriáceo.
Suas asas de morcego eram ainda mais assustadoras por serem coisas pateticamente quebradas e desajeitadas do que se fossem asas fortes e musculosas. A coisa mais terrível era provavelmente a tenacidade de sua existência, que continuava apesar de violar todas as probabilidades da física.
Tinha uma coleção de dentes muito impressionante. Era como se cada um deles tivesse vindo de um animal diferente e depois tivessem sido arrumados dentro de sua boca em ângulos tão bizarros que, se Arthur Dent realmente fosse tentar mastigar alguma coisa, parecia que iriam dilacerar metade de sua própria face ao mesmo tempo, além de arrancar um olho.
Cada um dos três olhos era pequeno e intenso, parecendo ter a mesma sanidade de um peixe em um arbusto.
— Foi numa partida de críquete — disse, rancoroso.
Diante de tudo que estava acontecendo, Arthur achou que isso era uma noção tão absurda que praticamente se engasgou
— Não neste corpo — grasnou a criatura —, não neste corpo. Este é meu último corpo. Minha última vida. É meu corpo para a vingança. Meu corpo para matar Arthur Dent. Minha última chance, e ainda tive que lutar para consegui-la.
— Mas...
— Foi em uma — esbravejou Agrajag — partida de críquete! Eu tinha um coração fraco, com problemas, mas o que poderia me acontecer, disse para a minha mulher, em uma partida de críquete? E lá estava eu, vendo o jogo, e o que aconteceu? Duas pessoas surgiram do nada, maliciosamente, à minha frente. A última coisa que não pude deixar de notar antes que meu pobre coração pifasse por conta do choque foi que uma delas era Arthur Dent usando um osso de coelho em sua barba. Coincidência?
— Sim — disse Arthur.
— Coincidência? — gritou a criatura, dolorosamente esmigalhando suas asas quebradas e abrindo uma pequena ferida em sua bochecha direita com um dente particularmente nojento. Olhando mais de perto, coisa que vinha tentando evitar, Arthur notou que boa parte da face de Agrajag estava coberta por pedaços de band-aid preto. Afastou-se nervosamente. Passou a mão pela barba. Ficou perplexo ao descobrir que ainda estava com o osso de coelho enfiado nela. Arrancou-o e jogou fora.
— Olhe — disse ele —, é apenas o destino fazendo travessuras com você. E comigo. Conosco. É uma completa coincidência.
— O que você tem contra mim, Dent? — rosnou a criatura, avançando contra ele e mancando dolorosamente ao fazê-lo.
— Nada — insistiu Arthur. — Honestamente, nada.
Agrajag olhou para ele com intensidade.
— Matar uma pessoa o tempo todo me parece uma forma bem estranha de se relacionar com alguém contra quem você não tem nada. Eu diria mesmo que é uma forma bem peculiar de interação social. Também diria que é uma mentira!
— Mas, veja — disse Arthur —, realmente lamento muito. Houve um terrível engano. E preciso ir. Você tem um relógio? Eu deveria estar ajudando a salvar o Universo. — Afastou-se ainda mais.
Agrajag aproximou-se ainda mais.
— Houve um ponto — disse ele — em que havia resolvido desistir. Sim, eu não voltaria mais. Ficaria no mundo dos mortos. E o que aconteceu?
Arthur sacudiu aleatoriamente a cabeça para indicar que não tinha a menor ideia e nem queria ter uma. Percebeu que havia recuado até encostar-se na pedra preta que havia sido escavada sabe-se lá por meio de que esforço hercúleo e transformada em uma imitação grotesca de seus chinelos. Ele olhou para cima, para a horrenda paródia de si mesmo que se erguia acima dele. Continuava sem entender o que uma de suas mãos estaria fazendo.
— Fui involuntariamente precipitado de volta no mundo físico — prosseguiu Agrajag — como um ramalhete de petúnias. Dentro de um vaso, devo acrescentar. Esta vidinha particularmente feliz começou comigo, em meu vaso, sem nenhum apoio, 500 quilômetros acima da superfície de um planeta particularmente sombrio. Não era, como você talvez tenha pensado, uma posição naturalmente sustentável para um vaso de petúnias. Você estaria certo em pensar assim. Aquela vida terminou muito pouco tempo depois, 500 quilômetros abaixo. Dentro dos restos de um cachalote despedaçado, devo acrescentar. Meu irmão espiritual.
Olhou maliciosamente para Arthur com um ódio ainda maior
— Enquanto caía — rosnou —, não pude deixar de notar uma bela espaçonave branca. Observando por uma portinhola dessa bela espaçonave branca, com cara de espertalhão, estava Arthur Dent. Coincidência?
— Sim! — gritou Arthur. Olhou novamente para cima e viu que o braço que o intrigava fora representado como chamando à existência um vaso de petúnias condenado.
Definitivamente não era um conceito fácil de se apreender.
— Preciso ir — insistiu Arthur.
— Você pode ir — respondeu Agrajag — logo depois que eu o matar.
— Infelizmente não vai dar — explicou Arthur, começando a subir pela inclinação na rocha em que seus chinelos haviam sido esculpidos —, porque eu tenho que salvar o Universo, entende? Tenho que encontrar uma Trave de Prata, este é o objetivo. É muito difícil fazer isso quando se está morto.
— Salvar o Universo! — repetiu Agrajag, com desprezo. — Você deveria ter pensado nisso antes de começar sua vendeta contra mim! O que você me diz daquela vez quando estava em Stavromula Beta e alguém...
— Nunca estive lá — interrompeu Arthur.
— ... tentou assassiná-lo, mas você se abaixou? Quem você acha que a bala atingiu? O que você disse mesmo?
— Nunca estive lá — repetiu Arthur. — Do que você está falando? Tenho que ir.
Agrajag parou, pensativo.
— Você tem que ter estado lá. Você foi o responsável por minha morte lá, assim como em todos os outros lugares. Eu estava passando inocentemente! — Ele tremia.
— Nunca ouvi falar desse lugar — insistiu Arthur. — E certamente ninguém nunca tentou me assassinar. A não ser você. Talvez eu possa ir lá mais tarde, o que você acha?
Agrajag piscou lentamente, paralisado por uma espécie de horror lógico.
— Você não esteve em Stavromula Beta... ainda? — disse em voz baixa.
— Não — disse Arthur. — Não tenho a menor ideia do que seja esse lugar. Nunca estive lá nem planejo ir lá.
— Ah, mas com certeza vai — disse Agrajag com a voz trêmula — você certamente vai para lá. Ah, por Zárquon! — ele cambaleou, olhando desesperadamente em volta para sua imensa Catedral do Ódio. — Trouxe você para cá cedo demais!
Começou a gritar e a urrar.
— Que zarquada! Eu trouxe você aqui antes do tempo.
Subitamente se recompôs e lançou um olhar maligno e cheio de ódio para Arthur.
— Vou matar você assim mesmo! — vociferou. — Mesmo que seja uma impossibilidade lógica, por Zárquon, vou tentar! Vou explodir toda essa montanha!
Gritou:
— Vamos ver como você escapa desta, Arthur!
Ainda mancando dolorosamente, arrastou-se rapidamente até o que parecia ser um pequeno altar para sacrifícios, pequeno e negro. Gritava tão histericamente naquele momento que seu rosto estava ficando muito machucado.
Arthur pulou do lugar para onde tinha subido, na escultura de seu próprio pé, e tentou correr para deter a criatura quase totalmente enlouquecida. Saltou sobre ela, fazendo com que aquela estranha monstruosidade se espatifasse sobre o altar.
Agrajag gritou novamente, debateu-se furiosamente por um curto momento, depois lançou um olhar esbugalhado para Arthur.
— Você sabe o que fez agora? — disse, sem fôlego e dolorosamente. — Você simplesmente me matou mais uma vez. Afinal, quer de mim: sangue?
Debateu-se novamente em um breve ataque apoplético estremeceu e, ao fazê-lo, finalmente caiu sobre um grande botão vermelho no altar.
Arthur sentiu um enorme medo e horror, primeiro pelo que acabara de fazer e depois por causa das barulhentas sirenes sinos que subitamente encheram o ar, anunciando alguma terrível emergência. Olhou desesperado ao seu redor.
A única saída parecia ser o caminho pelo qual havia entrado. Saiu correndo naquela direção, deixando para trás a bolsa feita com uma imitação fajuta de pele de leopardo.
Corria sem rumo, aleatoriamente, através do estranho labirinto, parecendo ser perseguido cada vez mais ferozmente por buzinas, sirenes e luzes piscando. De repente virou em um corredor e à sua frente havia luz.
Não estava piscando. Era a luz do dia.

Um comentário:

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Boa leitura :)