7 de dezembro de 2017

Capítulo 18

O grupo de seguidores de Zarquon permaneceu rígido, recusando-se a ser esbofeteado pelas gargalhadas impiedosas que se derramavam sobre eles.
Max conteve sua plateia.
— Não, mas falando sério agora, pessoal, sem intenção de ofender. Não, sei que não deveríamos brincar com crenças profundamente arraigadas. Uma salva de palmas para o Grande Profeta Zarquon...
A plateia aplaudiu respeitosamente.
— ... onde quer que esteja!
Mandou um beijo para o grupo de rostos empedernidos e retornou ao centro do palco. Pegou um banco alto e se sentou.
— É maravilhoso — continuou — ver todos vocês aqui esta noite, não é mesmo? Sim, absolutamente maravilhoso. Porque sei que tantos de vocês vêm aqui várias e várias vezes, o que eu acho realmente maravilhoso, vir aqui e assistir à finalização de tudo, e então retornar para casa, para suas próprias eras... e construir famílias, lutar por sociedades novas e melhores, combater em guerras terríveis por aquilo que sabem que é o certo... isso realmente dá esperança no futuro de toda espécie viva. A não ser, é claro — apontou para o redemoinho relampejante acima e ao redor deles — pelo fato de sabermos que isso não existe...
Arthur voltou-se para Ford. Ainda não tinha conseguido fazer esse lugar entrar direito na sua cabeça.
— Olha — disse—, se o Universo está para acabar... a gente não vai junto?
Ford dirigiu-lhe um olhar de três Dinamites Pangalácticas, ou, em outras palavras, um olhar bastante incerto.
— Não — respondeu. — Olha — disse —, assim que você cai neste mergulho você fica preso nessa coisa fantástica de campo de força temporal. Eu acho.
— Ah — disse ArthurVoltou sua atenção para o prato de sopa que tinha conseguido pedir ao garçom em troca do bife.
— Olha — disse Ford. — Vou te mostrar.
Pegou um guardanapo da mesa e começou a tentar fazer algo com ele, sem esperanças.
— Olha — disse outra vez. — Imagine este guardanapo, certo, como sendo o Universo temporal, certo? E esta colher como o módulo transduccional na curvatura da matéria...
Levou um tempo para ele dizer esta última parte, e Arthur detestou ter que interrompê-lo.
— Essa é a colher com que eu estava comendo — disse.
— Tá bom — disse Ford. — Imagine então esta colher... — encontrou uma colher de madeira num pote de picles — esta colher... — mas achou que era bagunça demais pegar aquela colher — não, melhor ainda, este garfo...
— Ei, quer largar meu garfo — disse Zaphod, asperamente.
— Tá bom — disse Ford —, tá bom, tá bom. Então vamos supor que este copo de vinho é o Universo temporal...
— Qual? Esse que você acabou de derrubar no chão?
— Eu derrubei?
— Derrubou.
— Tá bom — disse Ford —, esquece. Quer dizer... quer dizer, olha, você sabe realmente como o Universo começou?
— Provavelmente não — disse Arthur, que preferia nunca ter começado com isso.
— Tá bom — disse Ford —, imagine isso. Certo. Você tem uma banheira. Uma banheira rosada bem grande. Feita de ébano.
— Feita onde? — disse Arthur. — A Casa Harrods foi destruída pelos vogons.
— Não importa.
— Então continua.
— Escuta.
— Tudo bem.
— Você tem essa banheira, certo? Imagine que você tem essa banheira. E é de ébano. E é cônica.
— Cônica? — disse Arthur. — Que tipo de...
— Psiu — disse Ford. — É cônica. Então o que você faz, entende, você enche a banheira de areia branca e fina, certo? Ou açúcar. Areia branca e fina e/ou açúcar. Tanto faz. Não importa. Pode ser açúcar. E quando estiver cheia, você destampa o ralo... tá ouvindo?
— Estou ouvindo.
— Você destampa o ralo, e tudo vai escorrendo num redemoinho, vai escorrendo, entende, pelo ralo.
— Entendi.
— Você não entendeu. Você não entendeu nada. Eu ainda não cheguei na parte importante. Quer ouvir a parte importante?
— Me conta a parte importante.
— Vou te contar a parte importante.
Ford pensou por um momento, tentando lembrar qual era a parte importante.
— A parte importante — disse — é essa. Você filma o que está acontecendo.
— Importante — concordou Arthur.
— Você pega uma câmera de filmar e filma o que está acontecendo.
— Importante.
— Essa não é a parte importante. A parte importante é essa, agora eu lembrei qual é a parte importante. A parte importante é que depois você liga o projetor... de trás para frente!
— De trás para frente?
— É. Ligar o projetor de trás para frente é definitivamente a parte importante. E aí, você senta e fica assistindo, e parece que está tudo subindo em espiral pelo ralo e enchendo a banheira. Entendeu?
— E foi assim que o Universo começou? — disse Arthur.
— Não — disse Ford —, mas é um jeito maravilhoso de espairecer.
Procurou seu copo de vinho.
— Cadê meu copo de vinho? — perguntou.
— No chão.
— Ah.
Ao afastar a cadeira para trás para procurar o copo, Ford colidiu com o garçonzinho verde que vinha chegando à mesa carregando um telefone portátil. Ford pediu desculpas ao garçom explicando que era porque ele estava extremamente bêbado. O garçom disse que tudo estava bem e que entendia perfeitamente. Ford agradeceu ao garçom por sua simpática indulgência, tentou puxá-lo pelo topete, mas errou por vinte centímetros, e deslizou para debaixo da mesa.
— Sr. Zaphod Beeblebrox? — perguntou o garçom.
— Ahn, o quê? — disse Zaphod, levantando-se de seu terceiro bife.
— Telefone para o senhor.
— Ei, o quê?
— Um telefonema, senhor.
— Para mim? Aqui? Ei, mas quem é que sabe que eu estou aqui?
Uma de suas mentes acorreu. A outra ainda se refestelava com a comida.
— Você não liga se eu continuar, não é? — disse sua cabeça que comia, e continuou.
Havia agora tantas pessoas atrás dele que já tinha perdido a conta. Não devia ter feito uma entrada tão chamativa. Droga, e por que não, pensou. Como você vai saber se está se divertindo se não tem ninguém olhando você se divertir?
— Talvez alguém aqui tenha dado o toque para a Polícia Galáctica — disse Trillian. — Todo mundo te viu entrando.
— Quer dizer que eles querem me prender pelo telefone? — disse Zaphod. — Pode ser. Sou muito perigoso quando encurralado.
— É — disse uma voz debaixo da mesa. — Você se despedaça tão rápido que todo mundo tem medo de ser atingido pelos estilhaços.
— Ei, o que é isso? O dia do Juízo Final? — disse Zaphod.
— Nós não vamos vê-lo, de qualquer forma? — disse Arthur, nervoso.
— Não tenho pressa — murmurou Zaphod. — OK, então quem é esse cara no telefone? — Deu um chute em Ford. — Ei, levanta aí, meu, pode ser que eu precise de você.
— Não conheço — disse o garçom — pessoalmente, o cavalheiro metálico em questão, senhor...
— Metálico?
— Sim, senhor.
— Você disse metálico?
— Sim, senhor. Disse que não conheço pessoalmente o cavalheiro metálico em questão...
— OK, vá em frente.
— Mas tenho a informação de que ele está aguardando sua volta há um número considerável de milênios. Parece que o senhor saiu daqui um tanto precipitadamente.
— Saí daqui? — disse Zaphod. — Você está louco? Acabamos de chegar.
— Certamente, senhor — persistiu obstinadamente o garçom —, mas, antes de chegar, senhor, creio que o senhor havia saído.
Zaphod tentou entender com um cérebro e depois com o outro.
— Você está dizendo que antes de chegarmos aqui, tínhamos saído daqui?
Vai ser uma longa noite, pensou o garçom.
— Precisamente, senhor — disse ele.
— Arranje um analista com o dinheiro para emergências — aconselhou Zaphod.
— Não, espere um minuto — disse Ford, emergindo para cima do nível da mesa mais uma vez. — Onde estamos, exatamente?
— Para ser absolutamente exato, senhor, este é o Planeta Astrossapo B.
— Mas nós saímos de lá — protestou Zaphod. — Saímos de lá e viemos ao Restaurante do Fim do Universo.
— Sim, senhor — disse o garçom, sentindo que agora estava no curso normal e indo bem —, um foi construído sobre as ruínas do outro.
— Oh — disse Arthur, brilhantemente —, quer dizer que viajamos no tempo, mas não no espaço.
— Escute, símio semi-evoluído — cortou Zaphod —, por que você não vai trepar numa árvore?
Arthur encolerizou-se.
— Vá arrebentar suas duas cabeças, quatro-olhos — recomendou a Zaphod.
— Não, não — disse o garçom a Zaphod —, o macaco está certo, senhor.
Arthur gaguejou e não disse nada adequado ou mesmo coerente.
— Vocês saltaram... creio que quinhentos e setenta e seis bilhões de anos permanecendo no mesmo lugar — explicou o garçom. Ele sorria. Tinha a maravilhosa sensação de que vencera finalmente contra todas as evidências, que pareciam insuperáveis.
— É isso! — exclamou Zaphod. — Entendi. Mandei o computador nos mandar para o lugar mais próximo onde se pudesse comer e foi exatamente o que ele fez. Quinhentos e setenta e seis bilhões de anos a mais ou a menos, não saímos do lugar. Simples.
Todos concordaram que era muito simples.
— Mas quem — disse Zaphod — é esse cara no telefone?
— O que será que aconteceu com Marvin? — disse Trillian.
Zaphod bateu com as mãos nas cabeças.
— O Androide Paranoide! Eu o deixei caído de desânimo em Astrossapo B.
— Quando foi isso?
— Bom, ahn, quinhentos e setenta e seis bilhões de anos atrás, eu acho — disse Zaphod. — Ei, passe o aparelho, capitão.
O garçonzinho girou suas sobrancelhas pela testa, confuso.
— Perdão, senhor?
— O telefone, garçom — disse Zaphod, arrancando-o de sua mão. — Xi, vocês são tão bunda-mole, que não sei como não escorregam das cadeiras.
— Certamente, senhor.
— Ei, Marvin, é você? — disse Zaphod no telefone. — Como você está, cara.
Houve uma longa pausa até que uma voz baixa começasse a falar.
— Acho que você deveria saber que estou me sentindo muito deprimido.
Zaphod tampou o fone com a mão.
— É o Marvin.
— Ei, Marvin — disse ao telefone de novo —, estamos nos divertindo muito. Comida, vinho, um pouco de abuso pessoal e o Universo indo às picas. Onde podemos te encontrar?
Outra pausa.
— Você não precisa fingir que está interessado em mim, sabe — disse Marvin, por fim. — Sei perfeitamente bem que não passo de um robô desprezível.
— OK, OK, mas onde você está?
— “Reverta o empuxo, Marvin”, é o que me dizem, “abra a câmara de compressão número três, Marvin”, “Marvin, pode pegar aquele papel?”. Se posso pegar aquele papel! Aqui estou eu, um cérebro do tamanho de um planeta e me pedem para...
— Certo, certo — solidarizou-se Zaphod, com alguma dificuldade.
— Mas estou bastante acostumado a ser humilhado — disse Marvin, monótono. — Posso até enfiar a cabeça num balde d'água, se você quiser. Quer que eu enfie a cabeça num balde d’água? Já tenho um prontinho. Espere um minuto.
— Ahn, ei, Marvin... — interrompeu Zaphod, mas já era tarde. Tristes ruídos de lata encharcada vieram do outro lado da linha.
— O que ele está dizendo? — perguntou Trillian.
— Nada — disse Zaphod —, só ligou para lavar a cabeça diante da gente.
— Pronto — disse Marvin ao voltar ao aparelho, borbulhando um pouco. — Espero que esteja satisfeito...
— Tá bom, tá bom — disse Zaphod —, agora quer fazer o favor de dizer onde você está?
— Estou no estacionamento — disse Marvin.
— No estacionamento? — disse Zaphod. — Fazendo o quê?
— Estacionando os carros, o que mais se pode fazer num estacionamento?
— OK, aguenta aí que a gente está indo.
Num único movimento, Zaphod levantou-se, desligou o telefone e escreveu “Hotblack Desiato” na conta.
— Vamos, pessoal — disse. — Marvin está no estacionamento. Vamos descer lá.
— O que ele está fazendo no estacionamento? — perguntou Arthur.
— Estacionando os carros, o que mais? Pergunta idiota.
— Mas e o Fim do Universo? Vamos perder o grande momento.
— Eu já vi. É palha — disse Zaphod. — Nada além de um gnab gib.
— Um quê?
— O contrário de um big bang. Vamos, depressa.
Poucos dos outros fregueses prestaram atenção neles enquanto atravessavam a aglomeração de mesas do Restaurante em direção à saída. Seus olhos estavam fixos nos horrores do céu.
— Um efeito interessante de se notar — dizia-lhes Max — é no quadrante superior esquerdo do céu, onde se vocês olhares com atenção podem ver o sistema estelar de Hastromil derretendo-se em ultravioleta. Tem alguém aqui de Hastromil?
Houve uma ou duas manifestações hesitantes vindas de algum lugar, lá do fundo.
— Bem — disse Max, sorrindo animadamente para eles —, tarde demais para se preocupar se deixaram o gás aberto.
O saguão de recepção estava praticamente vazio, mas mesmo assim Ford teve dificuldades em atravessá-lo. Zaphod puxou-o pelo braço e o enfiou num cubículo que ficava ao lado do hall de entrada.
— O que você está fazendo com ele? — perguntou Arthur.
— Pondo-o sóbrio — disse Zaphod, introduzindo uma moeda. Piscaram umas luzes e uns gases rodopiaram.
— Oi — disse Ford, saindo logo em seguida —, aonde vamos?
— Para o estacionamento, venha.
— Por que não tomamos os tempoteleportadores pessoais? — disse Ford. — Levam a gente direto para a Coração de Ouro.
— É, mas eu já desencanei daquela nave. Zarniwoop pode ficar com ela. Não quero entrar no jogo dele. Vamos ver o que a gente pode arranjar.
Um Transportador Vertical Feliz de Pessoas da Companhia Cibernética de Sírius levou-os até o substrato debaixo do Restaurante. Ficaram contentes ao ver que ele tinha sido depredado e não quis, assim, fazê-los felizes além de levá-los para baixo. No fundo do poço abriram-se as portas e um bafo de ar viciado atingiu-os. A primeira coisa que viram ao sair do elevador foi uma longa parede de concreto com mais de cinquenta portas oferecendo instalações sanitárias para as cinquenta formas de vida principais. Mesmo assim, como em todo estacionamento da Galáxia, em toda a história dos estacionamentos, este cheirava a impaciência.
Viraram uma esquina e encontraram-se de repente sobre uma esteira rolante que atravessava um vasto espaço cavernoso que se estendia numa distância que parecia infinita. Era dividida em compartimentos, cada qual abrigando uma nave que pertencia a um freguês lá em cima, algumas eram modelos pequenos e utilitários, produzidos em massa; outras, enormes espaçosines, os brinquedos dos muitos ricos.
Os olhos de Zaphod faiscavam de algo que podia ser ou não ser cobiça conforme iam passando por eles. Na verdade, é melhor deixar clara esta questão — cobiça é exatamente do que se tratava.
— Lá está ele — disse Trillian. — O Marvin, ali embaixo.
Olharam para onde ela estava apontando. Puderam ver, indistintamente, uma pequena figura metálica esfregando apaticamente um pedaço de pano num canto remoto de uma nave prateada.
A curtos intervalos no percurso da esteira rolante, largos tubos transparentes levavam ao nível do chão. Zaphod entrou num deles e deslizou suavemente até lá embaixo. Os outros o seguiram. Pensando nisso mais tarde, Arthur Dent achou que essa tinha sido a única experiência realmente agradável em suas viagens pela Galáxia.
— Ei, Marvin — disse Zaphod, andando a passos largos em sua direção. — Ei, cara, fico feliz em vê-lo.
Marvin virou, e na medida em que é possível a um rosto metálico totalmente inerte parecer reprovador, foi o que fez.
— Não, não fica — respondeu. — Ninguém nunca fica.
— Faça o que bem entender — disse Zaphod, virando-se para ir cobiçar as naves. Ford foi com ele.
Apenas Arthur e Trillian realmente foram até Marvin.
— Não, nós ficamos, de verdade — disse Trillian, dando-lhe tapinhas de um modo que ele detestava intensamente. — Ficar aqui, assim, esperando a gente todo esse tempo.
— Quinhentos e setenta e seis bilhões, três mil quinhentos e setenta e nove anos — disse Marvin. — Eu contei.
— Bom, estamos aqui agora — disse Trillian, sentindo (com razão, segundo Marvin) que essa era uma coisa meio boa de se dizer.
— Os primeiros dez milhões de anos foram os piores — disse Marvin —, os segundos dez milhões de anos, esses também foram os piores. Os terceiros dez milhões de anos não foram nada agradáveis. Depois disso eu entrei numa fase de decadência.
Fez uma pausa longa o bastante para que eles sentissem que deviam dizer alguma coisa, e então interrompeu.
— São as pessoas que a gente encontra neste serviço que realmente deixam a gente mal — disse, e fez outra pausa.
Trillian pigarreou.
— E esse...
— A melhor conversa que eu tive foi há mais de quarenta milhões de anos — continuou Marvin.
Outra vez a pausa.
— Ah, v...
— E foi com uma máquina de fazer café.
Esperou.
— Isso é...
— Vocês não gostam de conversar comigo, não é? — disse Marvin num tom desolado.
Trillian começou a conversar com Arthur.
Um pouco além dali, Ford Prefect encontrara uma coisa de cuja aparência ele gostou muito, muitas coisas assim, aliás.
— Zaphod — disse em voz baixa —, dá só uma olhada nestas máquinas das estrelas...
Zaphod olhou e gostou.
O aparelho que estavam olhando era na verdade bem pequeno, mas extraordinário, um verdadeiro brinquedo de criança rica. Não era grande coisa na aparência. Não parecia nada além de um dardo de papel de dez metros de comprimento feito de lâminas metálicas finas, mas resistentes. Na ponta de trás havia uma cabine para duas pessoas. Tinha um pequeno motor charmoso, mas que não podia movê-lo a grande velocidade. Uma coisa que ele tinha, porém, era um tanque de calor.
O tanque de calor tinha uma massa de uns dois mil bilhões de toneladas e ficava acondicionado num buraco negro instalado num campo eletromagnético situado na metade do comprimento da nave, e esse tanque de calor permitia que a nave fosse manobrada a até alguns quilómetros de um sol amarelo, e ali agarrar e montar as labaredas solares que emanavam de sua superfície.
Montar labaredas é um dos esportes mais exóticos e estimulantes da existência, e aqueles que têm o dinheiro e a ousadia para praticá-lo situam-se entre os homens mais admirados da Galáxia. É também, claro, estupendamente perigoso — aqueles que não morrem montando, morrem invariavelmente de exaustão sexual em uma das festas Après-Labaredas do Clube Dédalo.
Ford e Zaphod olharam e seguiram em frente.
— E esta gracinha — disse Ford —, este buggy estelar cor-de-tangerina?
Mais uma vez, o buggy estelar era uma nave pequena — um nome completamente impróprio, a propósito, porque uma coisa que ele não era capaz de fazer era cobrir distâncias interestelares. Era basicamente um jipe planetário enfeitado para parecer o que não era.
Seguiram em frente.
A nave seguinte era das grandes, quarenta e cinco metros de comprimento — uma nave-limusine estilo carruagem planejada obviamente com um único objetivo em mente, que era deixar o observador doente de inveja. A pintura e os acessórios diziam claramente: “Não apenas sou rico o bastante para ter esta nave, como também sou bastante rico para não levá-la a sério”. Era maravilhosamente abominável.
— Olhe só para isto — disse Zaphod. — Câmbio multi-ramalhetado, mostradores perispulécticos. Deve ser uma das joias de Lazlar Lyricon.
Examinou cada centímetro.
— Só! — exclamou. — Olhe, o emblema do lagarto infracor-de-rosa na capota de neutrino. A marca registrada de Lazlar. O cara não tem vergonha.
— Já fui ultrapassado por uma dessas uma vez, na Nebulosa de Axel — disse Ford. — Eu estava no maior pau, e essa coisa me passou como se estivesse passeando. Inacreditável.
Zaphod assobiou, apreciando.
— Dez segundos depois — disse Ford — espatifou-se contra a terceira lua de Jaglan Beta.
— Ah, verdade?
— Uma nave linda, de qualquer forma. Parece um peixe, move-se como um peixe, dirige-se como uma vaca.
Ford olhou o outro lado.
— Ei, venha ver — chamou —, tem uma pintura deste lado. Um sol explodindo – a marca registrada do Disaster Área. Esta deve ser a nave de Hotblack. Cara de sorte. Eles têm essa música terrível, sabe, que termina com uma nave dublê arrebentando-se contra o sol. É para ser um espetáculo espantoso. As naves dublês saem caras, no entanto.
A atenção de Zaphod estava, porém, em outro lugar. Sua atenção estava fixa na nave estacionada ao lado da limusine de Hotblack Desiato. Estava de queixos caídos.
— Isso... — disse — isso... realmente impressiona a vista...
Ford olhou. Ele também ficou maravilhado.
Era uma nave de linhas simples, clássicas, como um salmão, trinta e cinco metros de comprimento, muito harmoniosa, muito lisa. Tinha apenas uma coisa de notável.
— Ê tão... negra! — disse Ford Prefect. — Quase não dá para distinguir suas linhas... parece que a luz cai para dentro dela!
Zaphod não disse nada. Estava simplesmente apaixonado. Sua negrura era tão extrema que era quase impossível dizer a que distância se estava dela.
— O olhar simplesmente desliza sobre ela... — dizia Ford, em êxtase. Era um momento de emoção. Ele mordia os lábios.
Zaphod caminhou na direção dela, lentamente, como um homem possuído —, ou, mais exatamente, como um homem que quer possuir. Estendeu a mão para tocá-la. Sua mão parou. Estendeu a mão para tocá-la. Sua mão parou outra vez.
— Venha sentir esta superfície — disse, num sussurro.
Ford estendeu a mão para tocá-la. Sua mão parou.
— Não... não dá — disse.
— Viu? — disse Zaphod. — É totalmente desprovida de atrito. Deve ser uma máquina e tanto...
Voltou-se para Ford para olhá-lo seriamente. Pelo menos foi o que fez uma de suas cabeças — a outra continuou contemplando a nave, deslumbrada.
— O que você acha, Ford?
— Você diz... ahn... — Ford olhou por sobre os ombros. — Você diz sair daqui com ela? Você acha que a gente deve?
— Não.
— Eu também não.
— Mas nós vamos, não vamos?
— Como não?
Admiraram um pouco mais, até que Zaphod se recompôs.
— É melhor sair fora rapidinho — disse. — Daqui a pouco o Universo já vai ter acabado e o pessoal vai jorrar aqui embaixo para pegar suas banheiras.
— Zaphod — disse Ford.
— Que?
— Como a gente vai fazer?
— Simples — disse Zaphod. Virou-se. — Marvin! — gritou.
Vagarosamente, laboriosamente, e com um milhão de rangidos e estalos que ele tinha aprendido a simular, Marvin voltou-se para responder ao chamado.
— Venha cá — disse Zaphod —, temos um trabalho para você.
Marvin arrastou-se em direção a eles.
— Eu não vou gostar — disse ele.
— Vai sim — disse Zaphod, entusiástico —, toda uma nova vida estende-se à sua frente.
— Ah, não. Mais uma — resmungou Marvin.
— Cale a boca e escute! — disse Zaphod. — Desta vez vai haver emoção e aventura e coisas realmente bárbaras.
— Parece horrível.
— Marvin! Estou tentando pedir para você...
— Suponho que você queira que eu abra esta espaço-nave para você.
— O quê? Bom... é. É, é isso — disse Zaphod, apreensivo. Mantinha pelo menos três olhos nas portas de entrada. O tempo era curto.
— Bom, preferia que você tivesse me dito simplesmente, em vez de tentar conseguir meu entusiasmo — disse Marvin —, porque isso eu não tenho.
Caminhou até a nave, tocou-a, e uma escotilha se abriu.
Ford e Zaphod olharam assombrados.
— Não há de quê — disse Marvin. — Ah, vocês não disseram que houvesse. — Foi embora, arrastando-se.
Arthur e Trillian juntaram-se a eles.
— O que está havendo? — perguntou Arthur.
— Olhe para isso — disse Ford —, olhe para o interior desta nave.
— Fabuloso, fabuloso — murmurava Zaphod.
— É preto — disse Ford. — Tudo nela é totalmente preto.
No Restaurante, as coisas se aproximavam cada vez mais do momento após o qual não haveria mais momentos.
Os olhos de todos estavam fixos no domo, com exceção dos do guarda-costas de Hotblack Desiato, que estavam fixos em Hotblack Desiato, e os do próprio Hotblack Desiato, que o guarda-costas tinha fechado respeitosamente.
O guarda-costas estava inclinado sobre a mesa. Se Hotblack Desiato estivesse vivo, provavelmente teria considerado esse um bom momento para inclinar-se para trás, ou mesmo sair para dar uma volta. Seu guarda-costas não era exatamente o tipo de homem que inspirasse proximidade. Devido a sua desafortunada condição, porém, Hotblack Desiato permanecia totalmente inerte.
— Senhor Desiato? — sussurrou o guarda-costas. Sempre que ele falava parecia que os músculos dos dois lados de sua boca ficavam se acotovelando, para que um ou outro saísse da frente.
— Senhor Desiato? O senhor está me ouvindo?
Hotblack Desiato naturalmente não disse nada.
— Hotblack? — sussurrou o guarda-costas.
Mais uma vez, naturalmente, Hotblack Desiato não respondeu. Sobrenaturalmente, no entanto, ele respondeu.
Na mesa à sua frente, um copo de vinho tremeu, e um garfo ergueu-se uns dois centímetros e bateu no copo.
O guarda-costas rosnou satisfeito.
— É hora de ir, senhor Desiato — murmurou o guarda-costas. — Não queremos pegar o rush, não com o senhor na sua condição. O senhor deve estar bem e descansado para a próxima apresentação. Havia uma plateia realmente grande. Uma das melhores. Kakrafoon. Quinhentos e setenta e seis bilhões de anos atrás. O senhor não terá estado estando pós-ansioso por isso?
O garfo ergueu-se mais uma vez, parou, balançou evasivamente e caiu de novo.
— Ah, que é isso — disse o guarda-costas. — Vai ser ótimo. Você arrasou com eles. — O guarda-costas teria causado um ataque apoplético no Dr. Dan Streetmentioner.
— A nave negra indo de encontro ao sol sempre os empolga, e a nova está uma beleza. Vai ser uma pena vê-la ir embora. Vamos descer, aí eu ligo o piloto automático da nave negra e a gente vai com a limusine, OK?
O garfo bateu uma vez, concordando, e o copo de vinho esvaziou-se misteriosamente.
O guarda-costas empurrou a cadeira de rodas de Hotblack Desiato para fora do Restaurante.
— E agora — gritou Max do centro do palco —, o momento por que todos estávamos esperando! — Ergueu os braços para o ar. Atrás dele a orquestra veio com um frenesi de percussão e cordas. Max tinha discutido com eles quanto a isso, mas eles alegavam que estava no contrato que era isso o que iam fazer. O agente dele teria que ver isso.
— Os céus começam a ferver! — gritou. — A natureza entra em colapso em meio ao vazio vociferante! Dentro de vinte segundos o próprio Universo terá seu fim! Vejam onde explode a luz do infinito!
A horrenda fúria da destruição resplandecia acima deles — e nesse momento uma pequena trombeta soou como que de uma distância infinita. Max lançou olhares dardejantes sobre a orquestra. Nenhum deles parecia estar tocando trombeta. Subitamente uma nuvem de fumaça surgiu em redemoinhos no palco ao lado dele. Outras trombetas juntaram-se à primeira. Por mais de quinhentas vezes Max tinha conduzido esse espetáculo e nunca nada semelhante acontecera. Afastou-se, assustado, da fumaça rodopiante, e, quando o fez, uma figura materializou-se lentamente dentro dela, a figura de um velho barbudo, vestindo um manto e rodeado de luz. Tinha estrelas nos olhos e uma coroa de ouro na testa.
— O que é isso? — murmurou Max, de olhos arregalados. — O que está acontecendo?
No fundo do Restaurante, o grupo empedernido da Igreja da Segunda Vinda do Grande Profeta Zarquon ajoelhou-se em êxtase entoando cânticos e chorando.
Max piscou, maravilhado. Levantou os braços para a plateia.
— Uma salva de palmas, senhoras e senhores — conclamou — para o Grande Profeta Zarquon! Ele veio! Zarquon voltou!
Um aplauso tonitroante explodiu enquanto Max atravessou o palco e entregou o microfone nas mãos do Profeta.
Zarquon tossiu. Espiou a audiência reunida. As estrelas em seus olhos piscavam, pouco à vontade. Segurava o microfone, confuso.
— Ahn — disse ele — ... olá. Ahn... olha, desculpem por eu ter vindo um pouco atrasado. Eu andei com uns problemas bem desagradáveis, todo tipo de coisa aparecendo de última hora.
Parecia nervoso com o silêncio reverente dos espectadores. Pigarreou.
— Ahn, como nós estamos com o tempo? — disse.— Ele disse que só tínhamos um min...
E assim acabou o Universo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)