26 de dezembro de 2017

Capítulo 17

Durante um bom período de tempo houve muita especulação e controvérsia sobre onde tinha ido parar a chamada “matéria perdida” do universo. Por toda a Galáxia, os departamentos de ciências das universidades mais conceituadas estavam adquirindo equipamentos cada vez mais elaborados para sondar e vasculhar o núcleo de galáxias distantes e, depois, o próprio núcleo e as margens de todo o universo. Quando finalmente chegaram a uma conclusão, descobriram que, na verdade, o que estavam procurando era exatamente o material que servia para embalar os tais equipamentos.
Havia uma quantidade enorme de matéria perdida naquele pacote. Pequenas bolinhas redondas e fofas que Random deixou para as futuras gerações de físicos tentarem rastrear e descobrir novamente, assim que os achados da geração atual tivessem sido perdidos e esquecidos.
De dentro das bolinhas de matéria perdida, Random tirou um disco negro e liso. Ela o colocou sobre uma pedra ao seu lado e vasculhou todo o resto da matéria perdida na caixa para verificar se havia mais alguma coisa lá dentro, um manual, alguns acessórios ou algo assim, mas não havia mais nada. Só o disco negro.
Apontou sua lanterna para ele.
Assim que fez isso, começaram a surgir rachaduras ao longo da superfície aparentemente lisa. Random recuou, nervosa, mas então percebeu que a coisa, fosse lá o que fosse, estava apenas se desdobrando.
O processo era maravilhosamente bonito. Era extraordinariamente elaborado, mas simples e elegante ao mesmo tempo. Era como um origami automático, ou um botão de rosa florescendo em apenas alguns segundos.
Onde apenas alguns momentos antes havia um disco negro e liso havia agora um pássaro. Um pássaro pairando no ar.
Random continuou a recuar, cuidadosa e atenta.
Parecia-se com um pássaro pikka, só que era um pouco menor. Quer dizer, na verdade era maior ou, para ser mais exato, tinha exatamente o mesmo tamanho ou, no mínimo, não menos que o dobro. Também era muito mais azul e muito mais rosado do que os pássaros pikka, sendo ao mesmo tempo perfeitamente negro.
Havia algo muito estranho naquele pássaro, mas Random não conseguiu perceber de imediato o que era. Certamente, compartilhava com os pássaros pikka a impressão de que estava vendo algo que ninguém mais via.
De repente, ele desapareceu.
Depois, igualmente de repente, tudo ficou escuro. Random agachou-se, assustada, apalpando a pedra afiada em seu bolso novamente. Então a escuridão recuou, transformou-se em uma bola e, em seguida, voltou a ser aquele pássaro. Ficou suspenso no ar diante dela, batendo as suas asas lentamente, observando-a.
— Com licença — disse ele, de repente. — Eu só preciso me calibrar. Você consegue ouvir isso que estou dizendo?
— Isso o quê? — perguntou Random.
— Ótimo — disse o pássaro. — E consegue ouvir isso também? — Dessa vez, falou com uma voz mais esganiçada.
— Claro que sim! — disse Random.
— E quando eu digo isso? — perguntou ele, usando um tom de voz sepulcralmente grave.
— Sim!
Houve uma pausa.
— Não, é claro que não — disse o pássaro, alguns segundos depois. — Maravilha, bem, a sua faixa de audição está obviamente entre 20 e 16 KHz. Então. Assim está confortável para você? — perguntou ele, em uma agradável voz de tenor. — Não há harmônicos desconfortáveis arranhando no registro superior? Obviamente, não. Ótimo. Posso usar esses harmônicos como canais de dados. Agora, quantos de mim você consegue ver?
De repente, o ar ficou lotado com um emaranhado de pássaros. Random estava mais do que acostumada a passar seu tempo em realidades virtuais, mas aquilo era infinitamente mais estranho do que qualquer coisa que ela já tivesse visto antes. Era como se toda a geometria do espaço estivesse sendo redefinida em formas contínuas de pássaros.
Random engoliu em seco e sacudiu os braços ao redor de seu rosto, movendo-os naquele espaço formado por pássaros.
— Hummm, obviamente muitos — disse o pássaro. — E agora?
Ele se desdobrou em um túnel de pássaros, como se fosse um pássaro capturado entre espelhos paralelos, refletindo infinitamente a distância.
— O que é você? — gritou Random.
— Vamos chegar nisso, já, já — respondeu o pássaro. — Só me diga quantos, por favor?
— Bem, você é mais ou menos... — Random esticou os braços, em um gesto vago.
— Sei, ainda infinito em extensão, mas pelo menos estamos chegando à matriz dimensional certa. Ótimo. Não, a resposta é uma laranja e dois limões.
— Limões?
— Se eu tenho três limões e três laranjas e perco duas laranjas e um limão, o que me resta?
— Hein?
— Está bem, então você acha que o tempo flui dessa maneira, não é? Interessante. Ainda estou infinito? — perguntou ele, flutuando para cá e para lá no ar. — Continuo infinito agora? Estou muito amarelo?
O pássaro estava passando por sucessivas transformações enlouquecedoras de forma e de tamanho.
— Eu não consigo... — disse Random, desnorteada.
— Não precisa responder, eu sei só de observar você agora. Então. Sou a sua mãe? Sou uma pedra? Pareço imenso, fofinho e sinuosamente entrelaçado? Não? E agora? Estou recuando?
Finalmente o pássaro estava imóvel e quietinho.
— Não — respondeu Random.
— Bem, na verdade eu estava recuando no tempo, sim. Humm. Bem, acho que já resolvemos isso. Se você quiser saber, posso lhe contar que no seu universo é possível se movimentar livremente nas três dimensões que vocês chamam de espaço. Vocês se movem em linha reta numa quarta dimensão, a que chamam de tempo, e ficam estáticos em uma quinta, que é a primeira fundamental da probabilidade. Depois disso, a coisa fica um pouco complicada e acontece virtualmente de tudo nas dimensões treze à vinte e dois, nem queira saber. Tudo o que você precisa saber por enquanto é que o universo é muito mais complicado do que você pode imaginar, mesmo se você já imagina que ele é complicado pra cacete, para começar. Posso evitar palavras como “cacete”, se isso te ofender.
— Pode falar o que quiser.
— Está bem.
— Que diabos é você? — perguntou Random.
— Eu sou o Guia. No seu universo, sou o seu Guia. Na verdade, habito o que é tecnicamente conhecido como a Mistureba Generalizada de Todas as Coisas, que significa... bom, é melhor te mostrar.
O pássaro virou-se em pleno ar e voou para fora da caverna. Empoleirou-se em uma pedra, logo abaixo de uma marquise natural, fora da chuva, que estava voltando a ficar forte.
— Venha até aqui — disse ele — e veja isso.
Random não gostava de receber ordens de um pássaro, mas o seguiu mesmo assim até a entrada da caverna, apalpando a pedra que estava em seu bolso.
— Chuva — disse o pássaro. — Está vendo? Apenas chuva.
— Eu sei o que é chuva.
Torrentes de chuva assolavam a noite, a luz do luar filtrada pelos pingos.
— Então o que é chuva?
— Como assim, o que é chuva? Olha só, quem é você? O que você estava fazendo dentro da caixa? Por que tive que passar uma noite inteira correndo pela floresta, espantando esquilos retardados para, no final das contas, ter que aturar um pássaro me perguntando se eu sei o que é chuva? É água caindo pela droga do ar, pronto. Mais alguma coisa que você queira saber ou já podemos ir para casa?
Após uma longa pausa, o pássaro respondeu:
— Você quer ir para casa?
— Eu não tenho casa! — Random berrou as palavras tão alto que quase assustou a si mesma.
— Olhe para a chuva... — disse o pássaro-Guia.
— Estou olhando para a chuva! O que mais tem para olhar?
— O que você está vendo?
— Como assim, seu pássaro idiota? Estou vendo um monte de chuva. É apenas água caindo.
— Que formas você vê na água?
— Formas? Não tem forma nenhuma. É só uma... uma...
— Só Uma Mistureba Generalizada — completou o pássaro-Guia.
— É...
— E agora, o que você está vendo?
Quase no limite da visibilidade, um feixe tênue e fino transbordou dos olhos do pássaro. No ar seco, protegido pela marquise, não se via nada. Mas nos pontos onde o raio atingia os pingos de chuva conforme caíam havia uma lâmina de luz tão brilhante e viva que parecia sólida.
— Uau, que ótimo. Um show de lasers — comentou Random, debochada. — Nunca vi um desses antes, é claro, só em uns cinco milhões de shows de rock.
— Diga-me o que você está vendo!
— Apenas uma lâmina plana! Pássaro burro.
— Não há nada ali que não estivesse ali antes. Só estou usando a luz para chamar a sua atenção para determinados pingos, em determinados momentos. E, agora, o que está vendo?
A luz se apagou.
— Nada.
— Continuo fazendo a mesma coisa, só que com luz ultravioleta, que você não consegue ver.
— E de que adianta me mostrar uma coisa que eu não consigo ver?
— Para que você entenda que só porque consegue ver uma coisa não quer dizer que ela esteja lá. E que, se você não vê uma coisa, não significa que ela não esteja. Tudo se resume ao que seus sentidos fazem com que você note.
— Estou de saco cheio disso — disse Random. Logo em seguida levou um susto.
Pairando sob a chuva estava uma imagem tridimensional gigante, bem nítida, do seu pai olhando com cara de bobo para alguma coisa.
Umas duas milhas atrás de Random, seu pai, abrindo caminho pelos bosques, parou de repente. Ficou perplexo ao ver uma imagem dele próprio parecendo perplexo com alguma coisa flutuando nitidamente sob a chuva, a uns três quilômetros de distância. A uns três quilômetros de distância, à direita da direção para a qual estava caminhando.
Estava quase completamente perdido, convencido de que ia morrer por conta do frio, da chuva e da exaustão, e começando a desejar que tudo terminasse logo. Para completar, um esquilo acabara de lhe trazer uma revista de golfe intacta, o que fez com que o seu cérebro começasse a uivar e gralhar.
Ao ver uma imagem enorme e nítida de si mesmo iluminada no céu, convenceu-se, por outro lado, que provavelmente estava certo quanto a uivar e gralhar, mas errado quanto à direção.
Respirando bem fundo, ele se virou e seguiu em direção ao inexplicável show de luz.
— Está bem, mas isso prova o quê? — perguntou Random.
O fato de a imagem ser do seu pai assustou-a mais do que a aparição da imagem em si. Vira o primeiro holograma quando tinha dois meses de idade e fora colocada para brincar dentro dele. O mais recente tinha sido há meia hora, tocando a Marcha da Guarda Estrelar de AnjaQantine.
— Apenas que não estava nem mais nem menos lá do que a lâmina estava — respondeu o pássaro. — É apenas uma interação da água que cai do céu, movendo-se em uma direção, com luzes cujas frequências podem ser detectadas pelos seus sentidos, movendo-se em outra. Isso cria uma imagem aparentemente sólida na sua mente. Mas não passam de imagens na Mistureba Generalizada. Aqui vai mais uma para você.
— Minha mãe! — exclamou Random.
— Não — disse o pássaro.
— Eu reconheço a minha mãe quando a vejo!
A imagem era a de uma mulher saindo de uma nave espacial e entrando em um prédio enorme e cinzento, parecido com um hangar. Ela estava sendo escoltada por um grupo de criaturas altas, magras e roxo-esverdeadas. Era definitivamente a mãe de Random.
Bem, quase definitivamente.
Trillian não estaria andando tão insegura em baixa gravidade, ou examinando um tedioso e velho ambiente de suporte de vida à sua volta com um olhar tão incrédulo, nem muito menos carregando uma estranha câmera velha.
— Então quem é ela? — perguntou Random.
— Ela faz parte de uma extensão da sua mãe no eixo da probabilidade — respondeu o pássaro-Guia.
— Não faço a menor ideia do que você está falando.
— O espaço, o tempo e a probabilidade possuem eixos dentro dos quais é possível mover-se.
— Ainda continuo boiando. Se bem que... Não. Pode explicar.
— Pensei que você quisesse ir para casa.
— Explica!
— Você gostaria de ver a sua casa?
— Ver? Ela foi destruída!
— Dentro do eixo da probabilidade permanece descontínua. Veja só!
Algo muito estranho e incrível surgiu flutuando na chuva. Era um globo azul-esverdeado, enevoado e coberto de nuvens, girando com majestosa lentidão contra um pano de fundo negro e estrelado.
— Agora você vê — disse o pássaro. — Agora não vê mais.
A pouco menos de três quilômetros, Arthur Dent estacou. Não podia acreditar que estava vendo, boiando no ar, coberta pela chuva, porém nítida e vividamente real, contra o céu da noite, a Terra. Ficou sem ar ao vê-la. Então, no momento em que ficou sem ar, ela desapareceu novamente. Depois tornou a aparecer. Depois, e foi isso que fez com que ele ficasse doido de pedra, ela se transformou em uma salsicha.
Random estava igualmente impressionada com a visão daquela gigantesca salsicha azul e verde, aquosa e nevoenta, flutuando sobre ela. Transformou-se depois em uma fileira de salsichas, ou melhor, uma fileira de salsichas na qual faltavam várias salsichas. A brilhante fileira rodopiou e girou em um balé desconcertante no ar, depois diminuiu gradualmente o ritmo, enfraqueceu-se e desapareceu na escuridão cintilante da noite.
— O que foi isso? — perguntou Random, com a voz fraca.
— Uma breve visão do eixo de probabilidade de um objeto descontinuamente provável.
— Ah.
— A maioria dos objetos sofre mudanças e alterações ao longo do seu eixo de probabilidade, mas o mundo do qual você veio faz algo um pouquinho diferente. Ele se encontra no que poderíamos chamar de uma rachadura na paisagem da probabilidade, o que significa que, em diversas coordenadas de probabilidade, ele simplesmente deixa de existir. Ele possui uma instabilidade inerente, típica de qualquer coisa que faça parte do que é comumente chamado de Setores Plurais. Entendeu?
— Não.
— Quer ir até lá e ver por conta própria?
— Para a... Terra?
— É.
— E isso é possível?
O pássaro-Guia não respondeu de imediato. Abriu as asas e, com uma graça sem esforço, ergueu-se no ar e voou para a chuva, que estava enfraquecendo novamente.
Planou em êxtase sobre o céu noturno; luzes piscaram à sua volta e dimensões trepidavam com sua passagem. Mergulhou, girou, subiu novamente, tornou a girar e, finalmente, aquietou-se bem próximo do rosto de Random, batendo as asas lenta e silenciosamente. Continuou a falar com ela.
— Seu universo é vasto para você. Vasto em tempo, vasto em espaço. Isso se deve aos filtros através dos quais você o percebe. Mas eu fui construído sem filtros, o que significa que percebo a Mistureba Generalizada que contém todos os universos possíveis mas que não tem, por si mesma, tamanho algum. Para mim tudo é possível. Sou onisciente e onipotente, extremamente vaidoso e, o melhor, venho em uma embalagem prática e portátil. Você precisa descobrir o quanto essas afirmações são verdadeiras.
Random abriu um sorriso suave.
— Seu monstrinho. Você está me enrolando!
— Como eu disse, tudo é possível.
Random soltou uma gargalhada.
— Está bem — disse ela. — Vamos tentar ir para a Terra. Vamos tentar ir para a Terra em algum ponto do seu, ah...
— Eixo de probabilidade?
— Isso. Onde ela não foi destruída. O.k. Então você é o Guia. Como conseguimos uma carona?
— Engenharia reversa.
— O quê?
— Engenharia reversa. Para mim, o fluxo do tempo é irrelevante. Você decide o que quer. Depois eu meramente garanto que já tenha acontecido.
— Você está brincando.
— Tudo é possível.
Random franziu a testa.
— Você está brincando, não está?
— Deixe-me explicar de outra maneira — disse o pássaro. — A engenharia reversa nos permite pular toda aquela burocracia de ter que esperar que uma das raríssimas naves espaciais que passam pelo seu setor galáctico cerca de uma vez por ano resolva se está ou não a fim de lhe dar uma carona. Você quer uma carona, uma nave aparece e lhe dá uma. O piloto pode até achar que tem alguns milhões de motivos para decidir parar e lhe dar uma carona. Mas o verdadeiro motivo é que eu determinei que ele parasse.
— Isso é uma amostra da sua extrema vaidade, não é, pequeno pássaro?
O pássaro ficou em silêncio.
— Está bem — disse Random. — Eu quero uma nave que me leve para a Terra.
— Serve essa aqui?
Foi tão silencioso que Random só notou que havia uma nave espacial aterrissando quando já estava praticamente sobre a sua cabeça.
Arthur também notou a nave. Ele estava a pouco menos de dois quilômetros de distância agora. Após a exibição das salsichas iluminadas ter chegado ao fim, ele percebera tênues lampejos de outras luzes descendo das nuvens e imaginou, no início, que fossem outra parte do espetáculo de son et lumière.
Levou alguns segundos para concluir que era uma nave espacial de verdade e mais alguns segundos para concluir que estava aterrissando exatamente no local onde ele imaginava que a sua filha estava. Foi então que, com chuva ou sem chuva, com perna machucada ou sem perna machucada, com breu ou sem breu, ele começou realmente a correr.
Caiu quase que imediatamente, escorregou e machucou o joelho em uma pedra.
Levantou-se novamente com muito esforço e tentou continuar em frente. Teve a horrível sensação de que estava prestes a perder Random para sempre. Correu, mancando e xingando. Não sabia o que havia naquela caixa, mas o nome no pacote era o de Ford Prefect e era esse o nome que ele xingava enquanto corria.
A nave era a mais sexy e bonita que Random já havia visto.
Era impressionante. Prateada, esguia, inefável.
Se não fosse impossível, diria que era uma RW6. Quando a nave pousou silenciosa ao seu lado, percebeu que era de fato uma RW6 e ficou sem ar de tão empolgada. Uma RW6 era uma daquelas naves só encontradas em revistas criadas para provocar agitação civil. Random também estava extremamente nervosa. O timing e a forma como a nave tinha chegado eram perturbadores. Ou aquela era a coincidência mais bizarra do mundo ou algo muito peculiar e preocupante estava acontecendo.
Esperou, um pouco tensa, a nave abrir a sua escotilha. O seu Guia — ela o tinha como seu agora — estava suspenso no ar, um pouco acima do seu ombro direito, quase sem bater as asas.
A escotilha se abriu. Uma luz fraquinha vazou lá de dentro. Passados alguns segundos, uma figura apareceu. Ficou parada por alguns segundos, obviamente tentando acostumar seus olhos à escuridão. Então avistou Random parada um pouco mais adiante e pareceu um tanto surpresa.
Começou a caminhar até a garota. Então, de repente, soltou um grito de espanto e começou a correr na direção dela.
Random não era a pessoa mais indicada para se avançar em cima em uma noite escura, ainda por cima estressada do jeito que ela estava. Inconscientemente, estava cutucando a pedra em seu bolso desde o momento em que viu a nave aterrissar.
Ainda correndo, se arrastando, tropeçando e chocando-se contra árvores, Arthur acabou percebendo que já era tarde demais. A nave pousara há uns três minutos, mas já estava levantando voo novamente, silenciosa, graciosa, passando acima do bosque e manobrando suavemente através da chuva fina em que se transformara o temporal — subindo, subindo, empinando a proa e, sem fazer nenhum esforço, sumindo em meio às nuvens. Tinha partido. Random estava lá dentro. Arthur obviamente não tinha como ter certeza, mas ainda assim tinha certeza. Ela havia partido. Tivera uma chance de ser pai e não podia acreditar em quão mal se saíra. Tentou continuar a correr, mas os seus pés estavam se arrastando, o seu joelho doía furiosamente e ele sabia que era tarde demais.
Tinha certeza de que não podia se sentir mais infeliz e desgraçado do que aquilo, mas estava enganado.
Foi capengando até a caverna onde Random se abrigara e abrira a caixa. O chão ainda exibia as marcas da nave que aterrissara alguns minutos antes no local, mas não havia nenhum traço de Random.
Perambulou desconsolado pela caverna, encontrou a caixa vazia e pilhas de bolinhas feitas com matéria perdida espalhadas pelo chão.
Ficou um pouco irritado com aquilo. Tinha tentado ensinar a ela que devia arrumar as coisas após usá-las. Sentir-se um pouco irritado com ela por causa de algo assim ajudou-o a ficar menos desolado com a sua partida. Sabia que não tinha como encontrá-la.
O seus pés colidiram com algo inesperado. Inclinou-se para ver o que era e ficou absolutamente surpreso. Era o seu velho Guia do Mochileiro das Galáxias. Como tinha ido parar na caverna? Arthur jamais voltara até o local da queda para recuperá-lo.
Não queria ter de revisitar o local do acidente e não queria mais o Guia. Tinha a intenção de permanecer em Lamuella, fazendo sanduíches, para sempre. Como é que ele fora parar lá? Estava ligado. Na capa, as palavras NÃO ENTRE EM PÂNICO piscavam para ele.
Saiu da caverna novamente, sob a luz fraca e encharcada da lua.
Sentou-se em uma pedra para dar uma olhada no velho Guia e foi então que descobriu que não era uma pedra, mas uma pessoa.

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