7 de dezembro de 2017

Capítulo 17

Guia da Galáxia para Caronas diz que o Disaster Área, uma banda de rock plutoniano das Zonas Mentais de Gagrakacka, é geralmente tido não apenas como a mais barulhenta banda de rock da Galáxia, mas de fato a coisa mais barulhenta de todas. Os frequentadores habituais de seus shows julgam que o lugar onde se ouve o som com o melhor equilíbrio é dentro de bunkers de concreto a uns sessenta quilômetros do palco, enquanto os próprios músicos tocam os instrumentos por controle remoto de uma espaçonave altamente isolada que fica em órbita em torno do planeta — ou, mais frequentemente, em torno de um planeta completamente diferente.
Suas músicas são no geral bastante simples e a maioria seguindo o velho tema familiar do rapaz que encontra a moça sob uma lua prateada que então explode por nenhuma razão adequadamente explorada.
Muitos mundos já baniram suas apresentações, algumas vezes por razões artísticas, mas mais comumente pelo fato da aparelhagem de som da banda infringir os tratados locais de limitação de armas estratégicas.
Isso não os impediu, no entanto, de prosseguir com seus rendimentos por dilatar os limites da hipermatemática pura, e seu pesquisador-chefe de contabilidade foi recentemente nomeado Professor Catedrático de Neomatemática da Universidade de Maximegalon, em reconhecimento a suas Teorias Geral e Especial das Devoluções dos Impostos do Disaster Área, em que prova que toda a estrutura do contínuo espaço-tempo não está meramente curva, mas completamente torta.
Ford foi cambaleando de volta à mesa, onde Zaphod, Arthur e Trillian esperavam começar a diversão.
— Preciso comer alguma coisa — disse Ford.
— E aí, Ford — disse Zaphod —, falou com o carinha barulhento?
Ford meneou a cabeça, evasivamente.
— Hotblack? É, eu falei mais ou menos com ele, sim.
— O que ele disse?
— Bom, não muita coisa. Ele... ahn...
— Ahn?
— Está passando um ano parado por questões de imposto. Preciso sentar.
Sentou-se. Veio o garçom.
— Gostariam de olhar o cardápio? — disse ele. — Ou gostariam de conhecer o Prato do Dia?
— Uhm? — disse Ford.
— Uhm? — disse Arthur.
— Uhm? — disse Trillian.
— É isso aí — disse Zaphod. — Vamos ser apresentados a esse prato.
Numa salinha num dos braços do complexo do Restaurante, uma figura alta, magra e desengonçada afastou uma cortina e o esquecimento o olhou no rosto.
Não era um rosto bonito. Talvez porque o esquecimento o tivesse encarado tantas vezes. Era comprido demais, para começar; os olhos, fundos demais; as faces, cavernosas; os lábios, finos demais e compridos demais, e quando se abriam, seus dentes se pareciam demais com uma janela de sacada recentemente polida. As mãos que seguravam a cortina também eram longas e magras demais: eram frias, além disso. Pousavam levemente nas dobras da cortina e davam a impressão de que se ele não as vigiasse como um falcão, elas se arrastariam segundo sua própria vontade e fariam algo de indizível em um canto.
Deixou cair a cortina e a luz terrível que pousara sobre seu rosto foi pousar em algum lugar mais saudável. Rondou furtivamente por sua pequena sala como um louva-a-deus à espreita de uma presa noturna, instalando-se por fim num banquinho diante de um cavalete, onde folheou algumas páginas de piadas.
Uma campainha tocou.
Empurrou o montinho de papéis para o canto e levantou-se. Passou as mãos nos milhões de lantejoulas com que seu paletó estava enfeitado e saiu pela porta.
As luzes do Restaurante diminuíram, a orquestra acelerou o ritmo, um único canhão de luz iluminou a escuridão da escadaria que levava ao centro do palco.
No alto da escada surgiu uma figura alta, cintilantemente colorida. Precipitou-se em direção ao palco, foi até o microfone, arrebatou-o do pedestal com seu longo braço, e ficou por uns instantes curvando-se à direita e à esquerda, agradecendo os aplausos da plateia e exibindo-lhe sua janela de sacada. Acenou para seus amigos particulares na plateia, embora não houvesse nenhum, e esperou acabarem os aplausos.
Levantou uma das mãos e abriu um sorriso que ia não apenas de uma orelha a outra, mas que parecia ultrapassar os confins de seu rosto.
— Obrigado, senhoras e senhores! — exclamou. — Muito obrigado! Muito, muito obrigado!
Olhava para eles com olhos lampejantes.
— Senhoras e senhores — disse —, o Universo, como todos sabemos, existe há mais de setenta mil milhões de bilhões de anos e acabará dentro de meia hora. Portanto, bem-vindos ao Milliways, o Restaurante do Fim do Universo!
Com um gesto, arrancou habilmente mais uma rodada de aplausos espontâneos. Com outro gesto, cortou os aplausos.
— Serei seu anfitrião esta noite — disse. — Meu nome é Max Quordlepleen... — (Todo mundo sabia disso, era famoso em toda a Galáxia conhecida, mas ele dizia pelo frescor do aplauso que desencadeava e que ele agradecia com um aceno e um sorriso de quem recusa tanto.) — ... e acabo de chegar diretamente do outro lado do tempo, onde estava comandando um espetáculo no Big Bang Burger Bar, onde, acreditem, senhoras e senhores, tivemos uma noite realmente empolgante, e estarei com vocês agora nesta ocasião histórica: o Fim do Universo!
Mais uma salva de palmas, que se interromperam assim que as luzes diminuíram ainda mais. Em cada mesa as velas foram se acendendo sozinhas, assombrando os comensais e envolvendo-os em milhares de luzinhas cintilantes e milhões de sombras íntimas. Um frenesi de expectativa percorreu o Restaurante escurecido quando o enorme domo dourado acima deles começou lentamente a se apagar, a desaparecer.
Max prosseguiu, impondo sua voz.
— Então, senhoras e senhores, as velas estão acesas, a orquestra toca suavemente, e enquanto o domo protegido por um campo de força vai tornando-se transparente, revelando um céu escuro e soturno com a luz ancestral de lívidas estrelas engolidas, vejo que estamos prestes a ter uma fabulosa noite apocalíptica!
Até a suave melodia da orquestra desapareceu quando um choque atordoante tomou conta de todos aqueles que ainda não tinham contemplado essa visão.
Uma luz medonha e monstruosa derramou-se sobre eles.
— uma luz abominável,
— uma luz fervente, pestilenta,
— uma luz que teria desfigurado o inferno. O Universo estava chegando ao fim.
Por alguns segundos intermináveis o Restaurante girou silenciosamente pelo vazio que se alastrava. Então Max tomou a palavra mais uma vez.
— Para todos vocês que alguma vez quiseram ver a luz no fim do túnel, aí está.
A orquestra recomeçou.
— Obrigado, senhoras e senhores — gritou Max —, estarei de volta com vocês dentro de instantes, e por enquanto eu os deixarei com as talentosas mãos de Reg Nullify e seu Combo Cataclismático! Vamos aplaudir, senhoras e senhores, Reg e os rapazes!
O funesto turbilhão dos céus continuava.
Hesitante, a plateia começou a bater palmas e pouco depois a conversa normal foi retomada. Max iniciou sua volta pelas mesas, soltando piadas, dando gargalhadas, ganhando a vida.
Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox, um quadrúpede gordo e enorme, do tipo bovino, com grandes olhos d'água, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que quase poderia ser insinuante.
— Boa-noite — abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas —, sou o principal Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? — Rosnou e grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles.
Seu olhar encontrou olhares de sobressaltada perplexidade da parte de Arthur e Trillian, um dar de ombros resignado de Ford Prefect e a fome descarada de Zaphod Beeblebrox.
— Alguma parte do ombro, talvez? — sugeriu o animal. — Assada com molho de vinho branco?
— Ahn, do seu ombro? — disse Arthur, num sussurro de horror.
— Mas naturalmente que do meu ombro, senhor — mugiu o animal, satisfeito — só tenho o meu para oferecer.
Zaphod levantou-se de um salto e pôs-se a apalpar e sentir os ombros do animal, apreciando.
— Ou a alcatra, que também é muito boa — murmurou o animal. — Tenho feito exercícios e comido cereais, de forma que há bastante carne boa ali. — Deu um grunhido brando, rosnou mais uma vez e começou a ruminar. Engoliu mais uma vez o bolo alimentar. — Ou um ensopado de mim, quem sabe? — acrescentou.
— Você quer dizer que este animal realmente quer que a gente o coma? — cochichou Trillian para Ford.
— Eu? — disse Ford com um olhar vidrado. — Eu não quero dizer nada.
— É absolutamente horrível — exclamou Arthur —, a coisa mais revoltante que já ouvi.
— Qual é o problema, terráqueo? — disse Zaphod, que agora transferia a atenção para o enorme traseiro do animal.
— Eu simplesmente não quero comer um animal que está aí me convidando para isso — disse Arthur. — É impiedoso!
— Melhor do que comer um animal que não quer ser comido — disse Zaphod.
— Não é essa a questão — protestou Arthur. Pensou então um pouco a respeito. — Está bem, talvez seja essa a questão. Não quero saber, não vou pensar sobre isso agora. Eu só... ahn...
O Universo à volta dele enfurecia-se em espasmos mortais.
— Acho que só vou querer uma salada — murmurou.
— Uma salada? — disse o animal virando os olhos em sua direção, em tom de reprovação.
— Você vai me dizer — disse Arthur — que eu não deveria comer salada?
— Bem — disse o animal —, conheço muitos legumes que têm essa questão muito clara. E é por isso, aliás, que foi decidido cortar esse problema complicado pela raiz e criar um animal que realmente quisesse ser comido e que fosse capaz de dizê-lo com tanta clareza e distinção. E eis-me aqui.
Conseguiu uma leve mudança.
— Um copo d'água, por favor — disse Arthur.
— Olha — disse Zaphod —, nós queremos comer, não queremos uma discussão. Quatro bifes mal passados, e depressa. Faz quinhentos e setenta e seis bilhões de anos que não comemos.
O animal levantou-se. Deu um grunhido brando.
— Uma escolha muito acertada, senhor, se me permite. Muito bem — disse — agora é só eu sair e me matar.
Voltou-se para Arthur e deu uma piscadela amigável.
— Não se preocupe, senhor, não serei cruel.
Encaminhou-se gingando para a cozinha.
Em questão de minutos, o garçom apareceu com quatro filés fumegantes. Zaphod e Ford avançaram, sem vacilar duas vezes. Trillian parou, sacudiu os ombros, e se serviu. Arthur olhou para o seu, sentindo-se levemente enjoado.
— Ei, terráqueo — disse Zaphod, com um sorriso malicioso no rosto que não estava se empanturrando —, que bicho te mordeu?
E a orquestra continuava.
Por todo o restaurante as pessoas e coisas relaxavam e batiam papo. O ar estava repleto de conversas sobre isso e sobre aquilo e as essências mescladas de plantas exóticas, comidas extravagantes e vinhos insidiosos. Por um número infinito de quilômetros em todas as direções o cataclisma universal aproximava-se de um clímax estupefaciente. Dando uma olhada no relógio, Max voltou ao palco num floreio.
— E agora, senhoras e senhores — exclamou, radiante —, estão todos passando últimos momentos maravilhosos?
— Estamos — gritou o tipo de gente que grita “estamos” quando o comediante pergunta se estão passando momentos maravilhosos.
— Isso é maravilhoso — disse Max, entusiasmado —, absolutamente maravilhoso! E enquanto as tempestades de fótons se juntam em turbilhões, preparando-se para romper em pedaços o último dos sóis vermelhos, sei que todos nos acomodaremos e apreciaremos aquilo que sei que cada um de nós achará uma experiência imensamente empolgante e terminal.
Fez uma pausa. Olhou para a plateia vividamente.
— Acreditem, senhoras e senhores, não há nada agora que seja apenas penúltimo.
Fez outra pausa. Esta noite seu senso de oportunidade estava irretocável. Diversas vezes tinha conduzido esse espetáculo, noite após noite. Não que a palavra noite tivesse qualquer significado ali, na extremidade do tempo. Tudo o que havia era a incessante repetição do momento final, enquanto o Restaurante seguia lentamente além da margem do tempo, e mais uma vez voltava. Esta “noite” estava boa, a plateia se contorcia na palma da sua mão, sua voz sumia e eles tinham que esforçar-se para ouvi-lo.
— Isto, senhoras e senhores, é realmente o fim absoluto, a gélida desolação final, extingue-se o sopro majestático da criação.
Baixou ainda mais a voz. Na quietude, nem uma mosca ousaria tossir.
— Após isto — continuou — não há nada. Vazio. Olvido. Esquecimento. Absolutamente nada.
Seus olhos brilharam mais uma vez — ou teriam piscado?
— Nada... a não ser, é claro, a música para dançar e uma fina seleção de licores de Alderbar!
A orquestra lhe deu um acorde de estímulo. Ele preferia que não dessem, não precisava disso, não um artista de seu calibre. Podia tocar a plateia como seu próprio instrumento. Eles riam, aliviados. Ele seguiu em frente.
— E pelo menos — gritou animadamente — vocês não têm que se preocupar com uma ressaca de manhã. Não haverá mais manhãs!
Sorriu, radiante, para sua plateia feliz e risonha. Deu uma olhada para o céu, que seguia toda noite a mesma rotina de morte, mas a olhada não durou mais que uma fração de segundo. Ele confiava que o céu faria sua parte como um profissional confia no outro.
— E agora — disse ele, pavoneando pelo palco —, arriscando colocar um abafador sobre o maravilhoso clima de frivolidade e apocalipse desta noite, gostaria de saudar algumas caravanas.
Tirou um cartão do bolso.
— Temos... — ergueu uma mão para acalmar os ânimos. — Temos uma caravana do Clube de Bridge Zansellquasure Flamarion, de Vortvoid de Qvarne? Estão aqui?
Um pessoal animado se manifestou lá no fundo, mas ele fingiu que não tinha ouvido. Olhou pelo salão tentando encontrá-los.
— Estão aqui? — perguntou de novo, para conseguir uma animação mais alta. Conseguiu, como sempre conseguia. — Ah, lá estão eles. Bem, o último lance, rapazes; e sem trapaças, lembrem-se que este é um momento muito solene.
Sorveu as gargalhadas com prazer.
— E temos também, temos... uma caravana das divindades menores de Asgard?
à sua direita ecoou um trovão. Um relâmpago cortou o palco. Um pequeno grupo de homens cabeludos de capacetes estavam sentados felizes da vida e levantaram seus copos para ele.
Decadentes, pensou com seus botões.
— Cuidado com esse martelo, cavalheiro — disse. Fizeram sua brincadeirinha do raio de novo. Max sorriu para eles com os lábios. — E em terceiro — disse —, em terceiro, uma caravana dos Jovens Conservadores de Sírius B. Estão aqui?
Um grupo de cães jovens elegantemente vestidos parou de jogar papéis amassados uns nos outros e começou a jogar papéis amassados no palco. Latiam e ganiam ininteligivelmente.
— Sim — disse Max —, é tudo culpa sua. Vocês se dão conta?
— E finalmente — disse Max, aquietando a plateia e assumindo uma expressão solene —, finalmente creio que temos aqui conosco uma caravana de crentes, crentes muito devotos, da Igreja da Segunda Vinda do Grande Profeta Zarquon.
Havia cerca de vinte deles, sentados na última fileira, vestidos asceticamente, bebendo água mineral nervosamente e permanecendo alheios às festividades. Piscaram, ressentidos, quando o holofote foi apontado para eles.
— Lá estão eles — disse Max —, sentados ali, pacientemente. Ele disse que voltaria, e deixou vocês esperando por muito tempo, então vamos esperar que ele se apresse, pessoal, porque ele só tem mais oito minutos!

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Boa leitura :)