17 de dezembro de 2017

Capítulo 16

Depois de passar um domingo nojento esvaziando latas de lixo atrás de um bar em Taunton, sem encontrar absolutamente nada, nenhum bilhete de rifa, nenhum número de telefone, Arthur fez tudo o que podia para encontrar Fenchurch e, quanto mais ele tentava, mais as semanas passavam.
Estava com ódio de si mesmo, do destino, do mundo e do clima. Chegou até, mergulhado no seu sofrimento e na sua fúria, a voltar ao restaurante do posto de gasolina, na beira da estrada, onde estivera antes de encontrá-la.
— É o chuvisco que me deixa particularmente mal-humorado.
— Por favor, pare de reclamar do chuvisco — interrompeu Arthur.
— Eu pararia, se parasse de chuviscar.
— Olha...
— Posso te contar o que vai acontecer quando parar de chuviscar?
— Não.
— Vai cair uma chuva gosmenta.
— O quê?
— Vai cair uma chuva gosmenta.
Arthur observava o mundo hediondo lá fora por cima aro da sua xícara de café. Aquele era um lugar completamente inútil para se estar, constatou ele, e tinha sido atraído de volta para lá mais por uma questão de superstição do que de lógica. No entanto como se para espezinhá-lo com a prova de que coincidências incríveis de fato podem acontecer, o destino decidira reuni-lo com o motorista de caminhão que encontrara da última vez.
Quanto mais tentava ignorá-lo, mais se via sendo arrastado dentro do vórtice gravítico da conversa exasperante do sujeito.
— Acho — disse Arthur vagamente, xingando-se por sequer se dar ao trabalho de dizer isso — que está parando.
— Rá!
Arthur deu de ombros. Devia ir embora. Era isso que devia fazer. Devia simplesmente ir embora.
— Nunca pára de chover — vociferou o motorista de caminhão. Deu um murro na mesa, derrubou o seu chá e, de fato, por um momento, pareceu estar irritado.
Impossível simplesmente sair sem responder a um comentário como aquele.
— É claro que pára de chover — disse Arthur. Não chegava a ser uma refutação sofisticada, mas era algo que tinha de ser dito.
— Chove... o tempo... todo — enfureceu-se o homem, esmurrando a mesa novamente, pontuando cada palavra com um soco.
Arthur balançou a cabeça.
— É burrice dizer que chove o tempo todo... — disse ele.
O sujeito levantou as sobrancelhas de repente, afrontado.
— Burrice? Por que é burrice? Por que é burrice dizer que e o tempo todo se chove o tempo todo mesmo?
— Não choveu ontem.
— Choveu em Darlington.
Arthur estacou, desconfiado.
— Não Vai me perguntar onde eu estava ontem? — perguntou o sujeito. — Hein?
— Não.
— Mas imagino que dê para imaginar.
— É mesmo?
— Começa com um D.
— Jura?
— E estava chovendo pacas por lá, pode acreditar.
— É melhor não sentar aí, não, colega — disse um estranho de macacão alegremente para Arthur, ao passar. — Esse é o Canto da Nuvem Negra, isso aí. Reservado especialmente para “Raindrops Keep Falling On My Head” aí do seu lado. Tem um canto como esse reservado para ele em cada lanchonete, daqui até a ensolarada Dinamarca. Fique longe, é o meu conselho. É o que todos nós fazemos. Como vai indo, Rob? Muito ocupado? Está usando os seus pneus de chuva? Rá rá.
Passou por eles rapidamente e foi contar uma piada sobre Britt Ekland para alguém na mesa ao lado.
— Viu só, nenhum desses palhaços me leva a sério — disse Rob McKeena. — Mas — acrescentou soturnamente, inclinando-se para a frente e revirando os olhos — todos sabem que é verdade!
Arthur franziu a testa.
— Como a minha mulher — sussurrou o único dono e motorista do “Fretes McKeena — Faça chuva ou faça sol” — Ela diz que é besteira, que eu faço escândalo e reclamo à toa, mas — fez uma pausa dramática e disparou olhares perigosos — sempre recolhe as roupas do varal quando ligo para dizer que estou voltando
para casa! — Ele sacudiu si colher de café. — O que você me diz?
— Bem...
— Eu tenho um caderninho — prosseguiu. — Um caderninho. Um diário. Há quinze anos.
Anotei todos os lugares por onde já passei. Dia a dia. E como estava o tempo. E o tempo se esteve invariavelmente horrível — rosnou ele. — Já estive em todos os cantos da Inglaterra, da Escócia, do Pais de Gales. Por toda a Europa, Itália, Alemanha, varias vezes na Dinamarca, na Iugoslávia. Tenho tudo isso anotado e mapeado. Até quando fui fui visitar o meu irmão — acrescentou ele — em Seattle.
— Bem — disse Arthur, finalmente levantando-se para ir embora -, talvez você devesse mostrar isso para alguém.
— Eu vou — disse Rob McKeena.
E de fato mostrou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!