14 de dezembro de 2017

Capítulo 16

— Nada está perdido para sempre — disse Slartibartfast, seu rosto tremeluzindo com a luz da vela que o garçom robô estava tentando levar — a não ser a Catedral de Chalesm.
— A o quê? — perguntou Arthur.
— A Catedral de Chalesm — repetiu Slartibartfast. — Foi durante o tempo em que eu estava fazendo pesquisas para a Campanha pelo Tempo Real que eu...
— A o quê? — perguntou Arthur novamente.
O velho parou e reuniu seus pensamentos, para aquele que ele esperava ser o último ataque à sua história. O garçom robô moveu-se pelas matrizes espaço-temporais conseguindo combinar, de forma espetacular, uma rispidez mal-humorada com uma gentil graça, voou sobre a vela e conseguiu pegá-la. Eles já tinham recebido a conta, tinham discutido convincentemente sobre quem havia comido o canelone e quantas garrafas de vinho eles tinham tomado e, como Arthur havia percebido vagamente, através disso tudo haviam manobrado com sucesso a nave para fora do espaço subjetivo em uma órbita estacionária em torno de um planeta estranho. O garçom estava agora ansioso para completar sua parte nesta confusão e limpar o bistrô.
— Tudo irá se esclarecer — disse Slartibartfast.
— Quando?
— Breve. Os fluxos temporais estão muito poluídos atualmente. Há um monte de lixo flutuando por eles, refugos e destroços, e cada vez mais essas coisas estão sendo regurgitadas do mundo físico. São zéfiros no contínuo espaço-temporal, sabe?
— É ouvi falar — disse Arthur.
— Ei, para onde estamos indo? — disse Ford, afastando sua cadeira com impaciência. — Queria muito que chegássemos lá.
— Estamos indo — disse Slartibartfast em uma voz lenta e comedida — tentar evitar que os robôs de guerra de Krikkit possam reunir toda a Chave de que precisam para libertar o planeta de Krikkit do envoltório de Tempolento e, assim, libertar o resto de seu exército e seus Mestres ensandecidos.
— É só — disse Ford — que você falou sobre uma festa.
— Falei — respondeu Slartibartfast, abaixando a cabeça.
Ele percebeu que aquilo havia sido um erro, porque a ideia parecia exercer uma estranha fascinação doentia na mente de Ford Prefect. Quanto mais Slartibartfast revelava a sombria e trágica história de Krikkit e de seus habitantes, maior era o desejo de Ford de beber muito e dançar com garotas.
O velho sentiu que não deveria ter mencionado a festa até o último momento. Mas era tarde, ele já falara e Ford Prefect havia se agarrado à ideia da mesma forma que uma Megalesma Arcturiana se agarra à sua vítima antes de arrancar sua cabeça e sumir com sua nave.
— Quando — disse Ford, ansioso — vamos chegar lá?
— Quando eu tiver acabado de lhes contar por que temos que ir lá.
— Eu sei por que estou indo — disse Ford, e inclinou-se para trás e apoiando a nuca nas mãos. Deu um daqueles seus sorrisos que faziam as pessoas estremecerem. Slartibartfast havia esperado, em vão, que sua aposentadoria fosse ser tranquila. Planejara aprender a tocar o heebiefone octaventral, uma tarefa agradavelmente fútil, pois sabia que tinha o número inadequado de bocas. Também planejara escrever uma monografia excêntrica completamente incorreta sobre fiordes equatoriais, só para deixar bem obscuras algumas coisas que ele considerava realmente importantes.
Em vez disso, de alguma forma convenceram-no a trabalhar em tempo parcial para a Campanha pelo Tempo Real e ele começou a levar as coisas a sério pela primeira vez em sua vida. Por conta disso lá estava ele, passando seus últimos anos de vida combatendo o mal e tentando salvar a Galáxia.
Achava aquele trabalho exaustivo. Suspirou profundamente.
— Ouçam — disse ele — na Camtem...
— O quê? — disse Arthur.
— A Campanha pelo Tempo Real, que eu explico para vocês mais tarde. Notei que cinco destroços que haviam recentemente sido jogados de volta à existência pareciam corresponder às cinco partes desaparecidas da Chave. Só consegui determinar com exatidão o destino de duas delas — o Pilar de Madeira, que reapareceu no seu planeta, e a Trave de Prata, que parece ter ido parar em uma espécie de festa. Precisamos ir até lá pegá-la antes que os robôs de Krikkit a encontrem, senão ninguém sabe o que poderá acontecer.
— Não — disse Ford com firmeza. — Precisamos ir à festa para beber muito e dançar com garotas.
— Mas será que você ainda não entendeu tudo que eu...?
— Sim — declarou Ford, com inesperada veemência —, entendi tudo perfeitamente bem. É justamente por isso que quero beber tudo o que puder e dançar com todas as garotas que encontrar enquanto elas ainda estão por aí. Se tudo que você nos mostrou é verdade...
— Verdade? Claro que sim!
— Então estamos tão ferrados quanto um molusco numa supernova.
— Um o quê? — entrecortou Arthur novamente. Mal ou bem, ele tinha conseguido seguir a conversa até aquele ponto e não queria perder o fio da meada agora.
— Tão ferrados quanto um molusco numa supernova — repetiu Ford, sem perder o ritmo. — A...
— O que os moluscos têm a ver com as supernovas? — perguntou Arthur.
— Eles não têm — disse Ford, sem se alterar — a menor chance dentro delas.
Fez uma pausa para ter certeza de que estava tudo claro agora. As novas expressões de perplexidade que se espalhavam pelo rosto de Arthur lhe diziam que nada estava claro.
— Uma supernova — continuou Ford o mais rápido e claramente possível — é uma estrela que explode com cerca da metade da velocidade da luz e queima com o brilho de bilhões de sóis antes de entrar em colapso e virar uma estrela de nêutrons superdensa. É uma estrela que engole outras estrelas, sacou? Nada tem a menor chance diante de uma supernova.
— Entendo — respondeu Arthur.
— A...
— Mas, então, por que um molusco em particular?
— E por que não um molusco? Não faz diferença!
Arthur aceitou esse ponto, e Ford prosseguiu, procurando retomar sua veemência anterior.
— A questão então é que pessoas como eu e você, Slartibartfast, assim como Arthur – particularmente e especialmente Arthur – somos meros diletantes, excêntricos, vagabundos ou bundões, como quiser.
Slartibartfast fechou o rosto, em parte perplexo e em parte ofendido.
Começou a falar.
— ... — foi até onde chegou.
— Não somos obcecados com coisa alguma, entende? — insistiu Ford.
— ...
— E este é o fator decisivo. Não podemos vencer contra obsessão. Eles se importam, nós não. Então eles vencem.
— Eu me importo com muitas coisas — disse Slartibartfast sua voz trêmula de irritação, mas também por incerteza.
— Tais como?
— Ora — disse o velho —, a vida, o Universo. Tudo o mais, na verdade. Fiordes.
— Você está pronto a morrer por eles?
— Fiordes? — Slartibartfast arregalou os olhos, surpreso. — Não.
— É isso.
— Não faria sentido, para ser franco.
— E eu continuo não vendo a relação com os moluscos.
Ford sentia que a conversa estava saindo de seu controle e se recusava a perder o foco naquele momento.
— O ponto é — disse, sibilando — que não somos pessoas obsessivas, e não temos a menor chance contra...
— Exceto por esta sua obsessão súbita com moluscos — insistiu Arthur —, que continuo não entendendo.
— Quer por favor deixar a porcaria dos moluscos de fora?
— Com prazer, se você fizer o mesmo — respondeu Arthur. — Foi você que trouxe isso à tona.
— Admito que foi um erro — disse Ford. — Esqueça. A questão é a seguinte.
Inclinou-se para a frente e apoiou a testa na ponta dos dedos.
— Que diabos eu estava dizendo? — falou, desgastado.
— Bem, vamos resumir a coisa e descer para a festa — disse Slartibartfast —, seja qual for o nosso motivo. — Levantou-se, balançando a cabeça.
— Acho que era isso que eu queria dizer — completou Ford. Por motivos não esclarecidos, os cubículos de teletransporte ficavam no banheiro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!