7 de dezembro de 2017

Capítulo 16

No bar, Zaphod já estava ficando acabado como uma salamandra aquática. Já estava batendo com uma cabeça na outra e seus sorrisos estavam fora de sincronismo. Estava miseravelmente feliz.
— Zaphod — disse Ford —, enquanto você ainda é capaz de falar, poderia me contar que fóton foi que aconteceu com você? Por onde você andou? É um assunto de menor importância, mas eu gostaria de vê-lo esclarecido.
A cabeça esquerda de Zaphod ficou sóbria, deixando a direita afundar na obscuridade da bebida.
— Pois é — disse —, eu estive por aí. Querem que eu encontre o homem que rege o Universo, mas eu não estou nem aí em encontrá-lo. Acho que esse homem não deve saber cozinhar.
Sua cabeça esquerda ficou olhando a direita dizer isso e concordou:
— Ê verdade, está certo, agora bebe mais um pouco.
Ford tomou outra Dinamite Pangaláctica, o drinque descrito como o equivalente alcoólico do assalto — caro e faz mal à cabeça. O que quer que tivesse acontecido, Ford decidiu, não interessava tanto assim.
— Escuta, Ford — disse Zaphod —, está tudo em paz, tudo em cima.
— Quer dizer que está tudo sob controle.
— Não — disse Zaphod —, eu não quero dizer que está tudo sob controle. Senão não estaria tudo em cima e em paz. Se você quer saber o que ocorreu, digamos apenas que eu tinha toda a situação em meu bolso, OK?
Ford sacudiu os ombros.
Zaphod riu em cima de sua bebida. Ela despejou, desceu pelo copo e começou a escorrer pelo balcão de mármore.
Um cigano celestial de pele escura aproximou-se tocando violino elétrico para eles até que Zaphod lhe deu bastante dinheiro e ele concordou em ir embora. O cigano aproximou-se de Trillian e Arthur, que estavam sentados num outro ponto do bar.
— Não sei que lugar é este — disse Arthur —, mas me dá arrepios.
— Tome outro drinque — disse Trillian —, divirta-se.
— Qual dos dois? — disse Arthur. — São mutuamente excludentes.
— Pobre Arthur, você realmente não foi feito para esta vida, não?
— Você chama isto de vida?
— Você está começando a se parecer com Marvin.
— Marvin tem o pensamento mais claro que conheço. Como você acha que a gente se livra deste violinista?
O garçom aproximou-se.
— Sua mesa está pronta.
Visto de fora, de onde nunca é visto, o Restaurante se assemelha a uma reluzente estrela do mar sobre uma rocha esquecida. Os braços abrigam os bares, as cozinhas, os geradores de campo de força, que protegem toda a estrutura e o pedaço de planeta onde ela está instalada, e as Turbinas de Tempo, que movimentam lentamente todo o aparato de um lado para outro do momento crucial.
No centro fica o gigantesco domo de ouro, quase um globo completo, e foi para esta área que Zaphod, Ford, Arthur e Trillian se dirigiram agora.
Pelo menos cinco toneladas de brilho puro haviam entrado ali antes deles e coberto toda superfície disponível. As outras superfícies não estavam disponíveis porque já estavam incrustadas de joias, conchas marinhas preciosas de Santraginus, folhas de ouro, mosaicos de azulejos, peles de lagarto e um milhão de adornos e decorações inidentificáveis. O vidro brilhava, a prata reluzia, o ouro cintilava, Arthur Dent revirava os olhos.
— Uau — disse Zaphod —, urras.
— Incrível — suspirou Arthur —, as pessoas...! As coisas...!
— As coisas — disse Ford Prefect, com calma — também são pessoas.
— As pessoas... — corrigiu Arthur — as... outras pessoas...
— As luzes...! — disse Trillian.
— As mesas...! — disse Arthur.
— As roupas...! — disse Trillian.
O garçom achou que eles pareciam uma dupla de almoxarifes.
— O Fim do Universo é muito apreciado — disse Zaphod cambaleando por entre as mesas, algumas feitas de mármore, outras de rico ultramórgano, algumas até de platina, e em cada uma um grupo de exóticas criaturas conversando entre si e estudando o cardápio.
— As pessoas gostam de se arrumar para vir aqui — continuou Zaphod. — Dá uma sensação de uma ocasião especial.
As mesas eram dispostas num grande círculo em torno de um palco central onde uma pequena orquestra tocava música suave. O palpite de Arthur era de pelo menos umas mil mesas, e intercaladas entre elas, palmeiras balouçantes, fontes murmurantes, estatuária bizarra, enfim, todo tipo de parafernália comum a todos os restaurantes em que se poupou alguma despesa para dar a impressão de que nenhuma despesa foi poupada. Arthur olhou ao redor, meio esperando avistar alguém fazendo um comercial do American Express.
Zaphod tropeçou em Ford, que tropeçou de volta em Zaphod.
— Uauí — disse Zaphod.
— Urras — disse Ford.
— Meu bisavô deve ter realmente sacaneado com o trabalho do computador, sabe — disse Zaphod. — Eu disse para ele nos levar para o lugar mais perto para comer e ele nos manda para o Fim do Universo. Me lembre de ser legal com ele.
Fez uma pausa.
— Ei, está todo mundo aqui, sabia? Todo mundo que foi alguém.
— Foi? — disse Arthur.
— No Fim do Universo você tem que usar bastante o pretérito — disse Zaphod — porque tudo já foi feito, sabe. Oi, rapazes! — acenou para um grupo de iguanas gigantes. — Como foram?
— Esse é Zaphod Beeblebrox? — perguntou um iguana ao outro.
— Acho que sim — respondeu o outro iguana.
— Cada uma que aparece — disse o primeiro iguana.
— Assim é a vida — disse o segundo iguana.
— Assim vai indo — disse o primeiro e eles mergulharam de volta ao silêncio.
Estavam esperando o maior show do Universo.
— Ei, Zaphod — disse Ford, tentando agarrar seu braço, e, devido à terceira Dinamite Pangaláctica, não conseguindo. Apontou algo com um dedo oscilante. — Ali está um velho colega meu. Hotblack Desiato! Está vendo aquele cara na mesa de platina, com um terno de platina?
Zaphod tentou acompanhar o dedo de Ford com os olhos, mas ficou tonto. Por fim ele viu.
— Ah, só! — disse, e o reconhecimento veio um momento depois. — Ei, esse cara realmente foi o megamáximo! Uau! Maior do que o mais máximo dos máximos. Além de mim.
— Quem é? — perguntou Trillian.
— Hotblack Desiato? — disse Zaphod, assombrado. — Você não conhece? Você nunca ouviu falar do Disaster Área?
— Não — disse Trillian, que nunca tinha ouvido.
— A maior — disse Ford —, a mais barulhenta...
— A mais rica... — sugeriu Zaphod.
— ... banda de rock da história do... — procurou a palavra.
— ... da história em si — disse Zaphod.
— Não — disse Trillian.
— Uauí — disse Zaphod —, aqui estamos nós no Fim do Universo e você ainda nem viveu. Você está marcando.
Ele a acompanhou até a mesa onde o garçom estava esperando todo esse tempo. Arthur os seguiu, sentindo-se muito perdido e solitário.
Ford enfrentou o mar de mesas para ir cumprimentar um velho conhecido.
— Ei, ahn, Hotblack — gritou —, como vai? Nem acredito que estou te vendo! E essa barriga? Fantástico! — Deu uma palmada nas costas do homem e ficou um tanto surpreso ao não receber resposta. A Dinamite Pangaláctica correndo no seu sangue lhe disse para ir frente mesmo assim.
— Lembra dos velhos tempos? — disse. — A gente costumava pendurar, não é? O Bistrô Ilegal, lembra? O Empório da Garganta Exígua? O Calamitódromo da Bebedeira? Grandes dias, ehn?
Hotblack Desiato não ofereceu nenhuma opinião quanto a se os dias tinham sido grandes ou não. Ford não se perturbou.
— E quando a gente tinha fome, a gente se fazia de fiscais da saúde pública, lembra disso? E saía por aí confiscando comidas e bebidas, ehn? Até que a gente teve uma intoxicação alimentar. Ah, e então teve aquelas noites longas conversando e bebendo naqueles quartos malcheirosos em cima do Café Lou em Vila Gretchen, Nova Betel, e você ficava sempre no quarto ao lado tentando compor umas músicas na sua guitarra e a gente achava péssimas. E você dizia que não ligava, e a gente dizia que ligava porque eram muito péssimas. — O olhar de Ford começava a ficar embaçado. — E você dizia que não queria ser uma estrela — continuou, viajando na nostalgia — porque despreza o sistema de estrelas. E a gente dizia, naquele tempo era eu, o Hadra, o Sulijoo, a gente dizia que não acreditava que você tivesse mesmo essa opinião. E agora, o que você faz? Você compra sistemas de estrelas!
Virou-se e solicitou a atenção das mesas próximas.
— Eis aqui — disse — um homem que compra sistemas de estrelas!
Hotblack não fez qualquer tentativa de confirmar ou negar esse fato, e a atenção da audiência temporária desviou-se rapidamente.
— Acho que alguém está bêbado — murmurou um ser lilás em forma de arbusto para seu copo de vinho.
Ford cambaleou e sentou-se pesadamente na cadeira em frente a Hotblack Desiato.
— Como é aquele seu número? — disse, agarrando-se desajeitadamente a uma garrafa e a derrubando, por coincidência dentro de um copo que estava ali ao lado. Para não desperdiçar um acidente feliz, secou o copo.
— Aquele número quente — continuou —, como é mesmo? “Bwarrm! Bwarrm! Baderr!” coisa assim, e no palco termina com a nave indo de encontro ao sol, e você faz isso de verdade!
Ford bateu um punho contra a palma da outra mão para ilustrar graficamente o feito. Derrubou a garrafa outra vez.
— Nave! Sol! Pápum! — gritou. — Quero dizer, pode esquecer essas coisas de laser, vocês estão nas labaredas solares e botando fogo! Ah, e músicas horríveis.
Seus olhos seguiram a trilha líquida escorrendo para fora da garrafa em cima da mesa. Algo precisava ser feito a esse respeito, pensou.
— Ei, você quer beber? — perguntou. Começou a penetrar em sua mente encharcada a impressão de que estava faltando algo naquela reunião e de que essa coisa que estava faltando tinha a ver com o fato de aquele gordo sentado à sua frente de terno de platina ainda não ter dito “Oi, Ford” ou “Que bom te ver depois de todo esse tempo”, ou, na verdade, pelo menos alguma coisa. Para ser mais exato, ele não tinha nem se mexido.
— Hotblack? — disse Ford.
Uma imensa mão carnuda pousou sobre seu ombro pelas costas e o arrancou para o lado. Ele se ergueu sem graça de sua cadeira e olhou para cima para ver se podia localizar o dono daquela mão descortês. O dono não era difícil de se localizar, devido ao fato dele medir cerca de dois metros e meio de altura e não ter sido feito com outras medidas que não fossem proporcionais a essa. Na verdade ele fora feito como se faz um sofá de couro, lustroso, pesado e solidamente recheado. O terno em que o corpo do homem tinha sido enfiado parecia ter como único propósito na vida demonstrar como é difícil colocar um corpo desse tipo em um terno. O rosto tinha a textura de uma laranja e a cor de uma maçã, mas aí acabava qualquer semelhança com qual quer coisa doce.
— Ô, garoto... — disse uma voz que emergia da boca do homem como se tivesse passado por maus bocados em seu peito.
— Ahn, o quê? — disse Ford informalmente. Estava novamente sobre seus pés e ficou desapontado que sua cabeça não chegasse um pouco mais para cima com relação ao corpo do homem.
— Bate — disse o homem.
— Ah, é? — disse Ford, pensando se estaria sendo prudente. — E quem é você?
O homem considerou a pergunta por um instante. Não estava acostumado a que lhe fizessem esse tipo de pergunta. Mesmo assim, depois de alguns momentos, veio com uma resposta.
— Eu sou o cara que está te dizendo para bater — disse — antes que batam para você.
— Agora, escute — disse Ford, nervoso; esperava que sua cabeça parasse de girar, ficasse quieta e tomasse o controle da situação —, agora, escute — prosseguiu —, eu sou um dos amigos mais antigos de Hotblack e...
Olhou de soslaio para Hotblack Desiato que ainda não tinha mexido nem uma pestana.
— ... e... — disse Ford outra vez, pensando no que seria uma boa palavra a dizer depois de “e”.
O homem enorme tinha uma frase inteira para dizer depois de “e”.
— E eu sou o guarda-costas do senhor Desiato — dizia a frase —, e sou responsável pelas costas dele, e não sou responsável pelas suas, então leve-as embora antes que se danifiquem.
— Agora, espere um minuto — disse Ford.
— Nenhum minuto! — rugiu o guarda-costas. — Nenhuma espera! O senhor Desiato não fala com ninguém!
— Bom, talvez você possa deixar ele mesmo dizer o que acha do assunto — disse Ford.
— Ele não fala com ninguém! — bramiu o guarda-costas.
Ford olhou ansiosamente para Hotblack outra vez e foi forçado a admitir para si mesmo que o guarda-costas estava com os fatos do lado dele. Continuava não havendo o menor movimento, o menor sinal de interesse quanto ao bem-estar de Ford.
— Por quê? — disse Ford. — Qual é o problema dele?
O guarda-costas lhe disse.

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