26 de dezembro de 2017

Capítulo 15

No primeiro mês, conhecer um ao outro foi um pouco difícil. No segundo mês, tentar aceitar o que descobriram um sobre o outro no primeiro mês foi muito mais fácil. Mas no terceiro mês, quando a caixa chegou, a coisa ficou meio complicada.
No começo, até mesmo tentar explicar o que era um mês foi problemático.
Aquilo havia sido algo deliciosamente simples para Arthur em Lamuella. Os dias tinham um pouquinho mais de vinte e cinco horas, o que basicamente significava uma hora a mais na cama todos os dias e, claro, ter que reajustar seu relógio o tempo todo, coisa que Arthur até gostava de fazer.
Também se sentia em casa com o número de sóis e luas em Lamuella — um de cada — por oposição a certos planetas onde ele foi parar algumas vezes e que tinham uma quantidade absurda de ambos. O planeta orbitava em torno do seu único sol a cada trezentos dias, o que era um bom número, porque significava que o ano não ficava se arrastando. A lua orbitava em volta de Lamuella umas nove vezes por ano, o que significava que um mês tinha um pouquinho mais do que trinta dias, o que era absolutamente perfeito, porque dava mais tempo às pessoas para fazerem as coisas.
Não era meramente tranquilizador como a Terra: era, na verdade, uma melhoria.
Random, por outro lado, sentia-se como se estivesse presa em um pesadelo recorrente. Tinha ataques de choro e achava que a lua estava atrás dela. Aparecia no céu todas as noites e, quando ela finalmente sumia, lá vinha o sol para segui-la. Sem cessar.
Trillian avisara a Arthur que Random poderia ter uma certa dificuldade de se adaptar a um estilo de vida mais regular que o de até então, mas Arthur não estava preparado para vê-la uivando para a lua. Não estava preparado para nada daquilo, obviamente.
Sua filha? Sua filha? Ele e Trillian nem mesmo tinham feito... ou fizeram?
Tinha certeza absoluta de que se lembraria disso. E quanto a Zaphod?
— Espécies diferentes, Arthur — respondera Trillian. — Quando eu resolvi ter um filho, eles fizeram vários testes genéticos em mim e só encontraram uma compatibilidade. Só depois eu me dei conta. Fui verificar e estava certa. Eles não costumam revelar essas coisas, mas eu insisti.
— Quer dizer que você procurou um banco de DNA? — perguntou Arthur, com os olhos arregalados.
— Procurei. Mas ela não foi tão randômica quanto o nome sugere porque, é claro, você era o único doador homo sapiens. Mas parece que você era um viajante bem assíduo.
Arthur examinara embasbacado a menina infeliz que estava constrangedoramente prostrada na soleira da porta olhando para ele.
— Mas quando... há quanto tempo...?
— Você quer saber qual a idade dela, é isso?
— É.
— A errada.
— O que você quer dizer?
— Que não faço a menor ideia.
— Como assim?
— Bem, seguindo minha linha do tempo, eu dei à luz há uns dez anos, mas ela é, obviamente, muito mais velha do que isso. Passo minha vida inteira indo e voltando no tempo, sabe. Por causa do trabalho. Costumava levá-la comigo quando dava, mas nem sempre era possível. Então eu comecei a colocá-la em creches nas zonas temporais, mas hoje em dia é muito difícil encontrar um acompanhamento confiável do tempo. Você deixa as crianças lá pela manhã e não faz a menor ideia de quantos anos vão ter à tarde. Você reclama o quanto quiser, mas não adianta nada. Eu a deixei em um desses lugares por algumas horas uma vez e, quando voltei, ela já tinha virado adolescente. Fiz tudo o que pude, Arthur, agora é com você. Preciso fazer a cobertura de uma guerra.
Os dez segundos após Trillian ter partido foram os mais longos da vida de Arthur Dent. O tempo, como sabemos, é relativo. Você pode viajar anos-luz pelas estrelas e, quando voltar, se o fizer na velocidade da luz, estará apenas alguns segundos mais velho, enquanto o seu irmão gêmeo terá envelhecido vinte, trinta, quarenta ou sei lá quantos anos, dependendo da distância da sua viagem.
Tudo isso pode ser um choque pessoal profundo, especialmente se você não sabia que tinha um irmão gêmeo. Os segundos durante os quais você esteve ausente não serão suficientes para prepará-lo para o choque de relacionamentos familiares novos e estranhamente estendidos ao voltar.
Um silêncio de dez segundos não foi suficiente para que Arthur pudesse reorganizar sua visão de si mesmo e de sua vida, de modo a incluir de repente uma filha absolutamente desconhecida de cuja mera existência ele sequer tinha tido a mais leve suspeita ao se levantar naquela manhã. Laços familiares profundos não podem ser construídos em dez segundos, não importa o quão distante ou o quão rápido você se distancie, e Arthur se sentia desesperado, aturdido e entorpecido ao contemplar a menina parada na sua porta olhando para o chão.
Imaginou que não fazia o menor sentido fingir que não estava desesperado.
Foi até ela e a abraçou.
— Eu não amo você — disse ele. — Sinto muito. Nem conheço você ainda. Mas me dê alguns minutos.
“Vivemos em tempos estranhos. Também vivemos em lugares estranhos: cada um em seu próprio universo. As pessoas com as quais populamos nossos universos são sombras de outros universos inteiros que se cruzam com o nosso. Ser capaz de vislumbrar essa complexidade desconcertante de recursividade infinita e dizer coisas como ‘E aí, Ed! Belo bronzeado, hein? Como vai a Carol?’ requer uma imensa habilidade seletiva que todas as entidades conscientes têm de desenvolver uma capacidade para se proteger da contemplação do caos que atravessam aos trancos e barrancos. Então não encha o saco do seu filho, tá?”
(Trecho do livro Como ser pai em um universo fractalmente louco.)
— O que é isso?
Arthur estivera perto de desistir. Ou seja, ele não iria desistir. Não iria desistir de jeito nenhum. Nem agora nem depois. Mas, se fosse o tipo de pessoa que iria desistir de alguma coisa, provavelmente teria desistido naquele momento.
Não satisfeita em ser mal-humorada, intratável, em estar o tempo todo querendo ir embora para brincar na era Paleozoica, em não entender por que a gravidade tinha que ficar ligada o tempo todo e em ficar gritando para que o sol não a seguisse, Random usara a faca de trinchar de Arthur para escavar pedras e as atirar nos pássaros pikka, que não paravam de olhar para ela.
Arthur nem sabia se Lamuella tinha tido uma era Paleozoica. Segundo o Velho Thrashbarg, o planeta fora descoberto completamente formado no umbigo de uma lacraia gigante às quatro e meia da tarde de uma vroon-feira, embora Arthur, sendo um experiente viajante galáctico, com boas notas em Física e Geografia, tivesse sérias dúvidas a respeito. Mas era inútil tentar discutir com o Velho Thrashbarg, e ele nem tinha motivos para isso.
Sentado, observando a faca lascada e retorcida nas mãos, suspirou. Iria amar Random mesmo que isso o matasse, ou a ela, ou a ambos. Ser pai não era nada fácil. Sabia que nunca disseram que seria, mas essa não era a questão, porque jamais quisera ser pai, para começar.
Estava fazendo o melhor que podia. Sempre que tinha um minuto de folga no preparo dos sanduíches, passava tempo com ela, conversando, caminhando, sentado em uma colina com ela ao seu lado, vendo o sol se pôr por trás do vale onde ficava a cidade, tentando descobrir algo sobre a vida dela, tentando explicar a sua. Era complicado. Tirando os genes praticamente idênticos, não tinham quase nada em comum. Ou melhor, tinham apenas uma Trillian em comum, de quem tinham impressões um tanto quanto diferentes.
— O que é isso?
Percebeu subitamente que a menina estava falando com ele e sequer percebera. Ou melhor, não reconhecera a voz dela.
Em vez do tom de voz que geralmente usava com ele, amargo e agressivo, estava apenas fazendo uma pergunta.
Ele olhou em volta, surpreso.
Estava sentada num banquinho, no canto da cabana, com a sua típica postura encurvada, os joelhos grudados, os pés virados para fora e o cabelo negro caído sobre o rosto, enquanto examinava algo que tinha nas mãos.
Arthur foi até ela, um pouco tenso. As suas mudanças de humor eram muito imprevisíveis, mas, até agora, todas haviam sido variações entre diferentes tipos de mau humor. Surtos de recriminação rancorosos se transformavam, sem aviso prévio, em autopiedade miserável, ao que se seguiam demorados acessos de desespero taciturno, pontuados com ataques súbitos de violência sem sentido contra objetos inanimados e com pedidos para ir a clubes elétricos.
Não só não havia clubes elétricos em Lamuella como não havia nenhum outro tipo de clube. Nem mesmo tinham eletricidade. Havia uma ferraria, uma padaria, algumas carroças e um poço, mas isso era o ápice da tecnologia lamuellana, e a maioria dos acessos de raiva inextinguíveis de Random eram dirigidos contra o total e incompreensível atraso do lugar.
Ela conseguia captar a rede subeta no pequeno painel Flexotrônico que tinha implantado cirurgicamente no seu punho, mas isso não a animava nem um pouco, porque a rede estava cheia de notícias de coisas insanamente empolgantes que aconteciam em todos os lugares da Galáxia, menos ali. E a rede também lhe trazia notícias frequentes de sua mãe, que a abandonara para cobrir uma guerra que, ao que parecia, não tinha sequer ocorrido ou, no mínimo, tinha dado muito errado pela falta de dados de inteligência. Fora isso, tinha acesso a programas de aventuras que mostravam diversas naves espaciais fantasticamente caras chocando-se umas contra as outras.
Os lamuellanos ficavam totalmente hipnotizados com aquelas maravilhosas imagens mágicas que piscavam em seu punho. Só haviam visto uma nave espacial colidindo e a coisa fora tão assustadora, violenta, chocante e causara tanta devastação, incêndios e mortes que, estupidamente, jamais haviam se dado conta de que aquilo era entretenimento.
O Velho Thrashbarg ficou tão impressionado com aquilo que vira Random instantaneamente como uma emissária de Bob, mas pouco depois decidiu que ela, na verdade, havia sido mandada para testar a sua fé e talvez a sua paciência. Também ficara preocupado com a quantidade de colisões de naves espaciais que teria de começar a incluir em suas histórias sagradas se quisesse segurar a atenção dos aldeões, evitando que saíssem correndo toda hora para dar uma espiada no punho da menina.
Naquele momento, ela não estava espiando o seu punho, que estava desligado. Arthur sentou-se ao lado dela em silêncio, para ver o que ela estava examinando. Era o seu relógio. Havia tirado para tomar banho na cachoeira local, Random o encontrara e estava tentando entender como funcionava.
— É só um relógio — disse ele. — Serve para dizer a hora.
— Eu sei disso — respondeu ela. — Mas você vive mexendo nele e mesmo assim ele não informa a hora exata. Não chega nem perto.
Ela ligou o display do seu painel de punho, que automaticamente informou a hora local. Já nos primeiros minutos da chegada de Random o painel começara a medir a gravidade local e o momento orbital, e observou a posição do sol, rastreando seu percurso no céu. Usou o meio ambiente para reunir algumas pistas, depois estabeleceu as convenções de unidades locais e fez as devidas alterações. Ele costumava fazer essas coisas continuamente, o que era especialmente útil para pessoas que viajavam tanto no tempo quanto no espaço.
Random franziu a testa diante do relógio do pai, que não fazia nada daquilo.
Arthur gostava muito dele. Era melhor do que jamais poderia ter comprado com o seu próprio dinheiro. Ganhara de presente no seu aniversário de vinte e dois anos, de um padrinho muito rico, com complexo de culpa por ter se esquecido de todos os seus aniversários até então, e de seu nome também. O relógio marcava a data, a hora, as fases da lua e trazia “Para Albert, no seu aniversário de 21 anos” gravada, com a data errada, na superfície desgastada e arranhada da parte de trás do relógio, com letras ainda visíveis.
O relógio passara por poucas e boas nos últimos anos, sendo que a maior parte não era contemplada pela garantia. Não imaginava, é claro, que a garantia mencionasse expressamente que só asseguravam a precisão do relógio no campo magnético e gravitacional da Terra contanto que os dias tivessem vinte e quatro horas e que o planeta não explodisse e por aí vai. Eram pressupostos tão básicos que até mesmo os advogados os ignoraram.
Por sorte era um relógio de corda, ou melhor, ele dava corda sozinho. Em nenhum lugar da Galáxia teria encontrado baterias com exatamente as mesmas especificações de tamanho e voltagem que eram padronizadas na Terra.
— E o que são todos esses números? — perguntou Random.
Arthur apanhou o relógio da mão dela.
— Esses números aqui em volta marcam as horas. Essa janelinha aqui à direita, onde está escrito QUI, que significa quinta-feira, e o número é quatorze, ou seja, é o décimo quarto dia do mês de MAIO, que é o que está escrito nessa janelinha aqui. E essa outra janela aqui em cima, em formato de lua crescente, informa as fases da lua. Em outras palavras, diz o quão iluminada a lua está pelo sol à noite, o que depende das posições relativas do sol e da lua e, bem... da Terra.
— Da Terra — repetiu Random.
— É.
— É de lá que você e a mamãe vieram, não é?
— É.
Random apanhou o relógio de volta e o examinou novamente, visivelmente impressionada com alguma coisa. Então, levou o relógio até o ouvido e escutou, perplexa.
— Que barulho é esse?
— É o tique-taque. É o mecanismo que faz com que o relógio funcione. São engrenagens. O relógio tem vários tipos de engrenagens entrelaçadas e molas que trabalham para movimentar os ponteiros na velocidade exata para marcar as horas, os minutos, os dias e tudo mais.
Random continuou olhando fixamente para o relógio.
— Você está intrigada com alguma coisa — disse Arthur. — O que é?
— Estou — respondeu Random, finalmente. — Por que ele é todo feito em hardware?
Arthur sugeriu que saíssem para dar uma volta. Sentia que tinham que conversar sobre algumas coisas e, pela primeira vez, Random não estava exatamente receptiva e disposta, mas pelo menos não estava resmungando.
Do ponto de vista dela, aquilo também era bem esquisito. Não que ela quisesse ser difícil de propósito; ela simplesmente não sabia como ser outra coisa. Quem era aquele sujeito? Que vida era aquela que ela supostamente deveria levar? Que mundo era aquele do qual supostamente deveria fazer parte? E que universo era aquele que não parava de penetrar por seus olhos e ouvidos? Para que ele servia? O que queria?
Nascera em uma nave espacial que estava indo de algum lugar para algum outro lugar e, quando chegasse nesse outro lugar, ele teria se transformado em mais algum lugar de onde se devia seguir para outro lugar, e assim por diante. A sensação de que deveria estar em outro lugar era a sua expectativa normal.
Era normal para ela sentir que estava no lugar errado. As constantes viagens do tempo haviam somente agravado esse problema e feito com que ela tivesse a sensação de que não só estava sempre no lugar errado como, quase sempre, chegava lá na hora errada também.
Não notava que sentia isso, porque se sentira assim a vida toda, assim como jamais lhe parecera estranho que, em quase todos os lugares aonde ia, tivesse que usar pesos ou roupas especiais de antigravidade, além de um aparato especial para respirar.
Os únicos lugares em que conseguia se sentir em casa eram os mundos que ela mesma criava nas realidades virtuais dos clubes elétricos. Nunca lhe passara pela cabeça que o universo real fosse um lugar ao qual ela pudesse pertencer.
E isso incluía aquele lugarzinho chamado Lamuella, onde a sua mãe a abandonara. E também incluía aquele sujeitinho que lhe concedera o precioso e mágico dom da vida em troca de um assento de primeira classe. Ainda bem que ele até era legal e simpático, pois, do contrário, iam ter problemas. De verdade. Random carregava no bolso uma pedra especialmente afiada com a qual podia criar muitos problemas.
Ver as coisas do ponto de vista de uma outra pessoa, sem o treinamento adequado, pode ser muito perigoso.
Sentaram-se em um local de que Arthur gostava especialmente, em uma colina que tinha vista para o vale. O sol estava se pondo sobre o vilarejo.
A única coisa de que Arthur não gostava muito era poder ver, ao longe, o vale seguinte, onde um profundo sulco escuro e estraçalhado na floresta marcava o lugar onde a sua nave havia caído.
Mas talvez ele continuasse a voltar ali exatamente por aquele motivo.
Havia diversos pontos dos quais se podia contemplar a exuberante e ondulada zona rural de Lamuella, mas ele era atraído para aquele lugar, com o seu irritante ponto negro de medo e dor acomodado bem no canto da sua visão.
Nunca mais voltara lá desde que fora resgatado dos escombros. Nem queria. Não iria suportar.
Na verdade, estivera perto do local do acidente no dia seguinte à queda, quando ainda estava entorpecido e confuso com o choque. Estava com a perna quebrada, algumas costelas fraturadas, umas queimaduras feias e não estava conseguindo pensar de maneira coerente, mas insistira que os aldeões o levassem até lá, e eles, um pouco constrangidos, aceitaram. No entanto, não conseguiu alcançar o ponto exato em que o chão borbulhara e derretera e, finalmente, abandonou aquele pesadelo para sempre.
Logo depois correu um boato de que a área inteira estava mal-assombrada e ninguém mais se atreveu a ir para aquelas bandas desde então. A região estava cheia de vales lindos, verdejantes e encantadores — não fazia sentido ir justo para um altamente preocupante. O melhor é deixar o passado para trás e permitir que o presente avance para o futuro.
Random aninhava o relógio nas mãos, virando-o lentamente para deixar a distante luz do sol do entardecer brilhar calorosa sobre os arranhões e as imperfeições do grosso vidro. Ficava fascinada ao observar o ponteiro dos segundos tiquetaqueando em volta das horas como uma pequena aranha. Cada vez que ele completava um círculo inteiro, o mais comprido dos ponteiros principais movia-se exatamente para a próxima das sessenta pequenas divisões em volta do mostrador. E, quando o ponteiro maior completava o seu próprio círculo, o ponteiro menor se movia para o próximo dos dígitos principais.
— Você está olhando isso há mais de uma hora — comentou Arthur, calmamente.
— Eu sei — respondeu ela. — Uma hora é quando o ponteiro grande dá uma volta completa, não é?
— Isso mesmo.
— Então estou olhando há uma hora e dezessete... minutos.
Ela sorriu com um deleite profundo e misterioso e se mexeu bem devagarzinho, apoiando-se levemente no braço de Arthur. Ele sentiu um pequeno suspiro escapar de seus lábios, um suspiro que estava entalado em seu peito há semanas.
Queria colocar o seu braço em volta dos ombros da filha, mas sentia que ainda era muito cedo, que ela ia acabar se retraindo. Mas algo estava funcionando. Algo dentro dela começava a amolecer. O relógio tinha um significado para ela que nenhuma outra coisa conseguira ter até então. Arthur não tinha certeza se já havia compreendido o que era, mas estava profundamente satisfeito e aliviado por algo ter mexido com sua filha.
— Me explica de novo — pediu Random.
— Não tem nenhum mistério — disse Arthur. — O mecanismo do relógio é algo que foi se desenvolvendo ao longo de centenas de anos...
— Anos terrestres.
— É. Ele foi ficando mais e mais refinado, cada vez mais intrincado. Era um trabalho que exigia muita habilidade e cuidado. Precisava ser feito bem pequeno, mas tinha que continuar funcionando de maneira precisa, mesmo que você o balançasse ou deixasse cair no chão.
— Mas só em um planeta?
— Foi onde ele foi feito, sabe? Ninguém esperava que ele fosse para outro lugar e que tivesse que lidar com outros sóis, luas e campos magnéticos. Quero dizer, continua funcionando perfeitamente bem, só não significa muita coisa aqui, tão longe da Suíça.
— De onde?
— Da Suíça. Esse aí foi fabricado lá. Um pequeno país, cheio de colinas. Cansativamente arrumadinho. As pessoas que o fizeram não sabiam que existiam outros mundos.
— Uma coisa e tanto para alguém desconhecer.
— Bem, tem razão.
— Então de onde eles vieram?
— Eles, quer dizer, nós... nós simplesmente crescemos lá. Evoluímos na Terra. A partir de, sei lá, uma espécie de lodo ou algo assim.
— Como esse relógio.
— Humm. Não creio que o relógio tenha surgido do lodo.
— Você não entende!
Random subitamente ficou de pé, aos berros.
— Você não entende! Você não me entende, você não entende nada! Eu te odeio por ser tão burro!
Ela começou a correr freneticamente colina abaixo, ainda segurando firme o relógio e gritando que o odiava.
Arthur levantou-se num salto, assustado e sem entender nada. Começou a correr atrás dela pelos densos tufos de grama. Aquilo era doloroso para ele. Quando quebrara a perna no acidente, não havia sido uma fratura simples e não cicatrizara perfeitamente. Estava tropeçando e fazendo cara de dor enquanto corria.
De repente, ela se virou e olhou para ele, com o rosto nublado de ira. Sacudiu o relógio.
— Você não entende que existe um lugar ao qual isso pertence? Que, em algum lugar, ele funciona? Que, em algum lugar, ele se encaixa?
Virou-se e continuou a correr. Estava em forma e era bem veloz. Arthur não conseguiria alcançá-la de jeito nenhum.
Não que já não imaginasse que ser pai fosse uma tarefa tão difícil, mas é que ele não imaginava ser pai, muito menos assim, inesperadamente e em um planeta alienígena.
Random virou-se para gritar para ele novamente. Por algum motivo, sempre que ela fazia isso, Arthur parava.
— Quem você pensa que eu sou? — perguntou ela, irritada. — O seu assento de primeira classe? Quem você acha que mamãe pensou que eu era? Uma espécie de passaporte para uma vida que ela não teve?
— Não sei o que você quer dizer com isso — disse Arthur, ofegante e com dor.
— Você não sabe o que ninguém quer dizer com nada!
— Como assim?
— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!
— Me diz! Por favor, me diz! O que ela quis dizer com “a vida que ela não teve”?
— Ela queria ter ficado na Terra! Queria não ter ido embora com aquele fresco imbecil descerebrado, o Zaphod! Ela acha que poderia ter tido uma vida diferente!
— Mas — ponderou Arthur — ela teria morrido! Ela teria morrido quando o mundo foi destruído!
— Não deixa de ser uma vida diferente, não é?
— Não deixa de...
— Ela não precisaria ter me deixado nascer! Ela me odeia!
— Você não está falando isso a sério! Como é que alguém, humm, quero dizer...
— Ela me teve para se ajustar. Essa era a minha função. Mas eu sou muito menos ajustada do que ela! Então ela me desligou e continuou com a sua vidinha idiota.
— O que tem de idiota na vida dela? Ela é terrivelmente bem-sucedida, não é? Está em todo o tempo e espaço, em todas as emissoras da rede subeta...
— Idiota! Idiota! Idiota! Idiota!
Random se virou e saiu correndo de novo. Arthur não conseguiria alcançá-la e, por fim, acabou tendo que se sentar um pouco para esperar a dor na perna passar. Não tinha a menor ideia do que ia fazer com toda aquela confusão que estava em sua cabeça.
Uma hora mais tarde ele voltou capengando para a cidade. Estava anoitecendo.
Os aldeões que passaram por ele o cumprimentaram, mas havia no ar uma sensação de nervosismo e de não saber ao certo o que estava acontecendo e o que fazer com aquela sensação. Haviam visto o Velho Thrashbarg puxando a barba e contemplando a lua, o que também não era bom sinal.
Arthur voltou para sua cabana.
Random estava sentada debruçada sobre a mesa, quietinha.
— Sinto muito — disse ela. — Sinto muito mesmo.
— Tudo bem — respondeu Arthur, o mais delicadamente que pôde. — É bom levar um papo, sabe? Ainda temos tanto a aprender e compreender um sobre o outro, e a vida não é, bem, não é feita somente de chá e sanduíches...
— Sinto muito mesmo — repetiu ela, soluçando.
Arthur foi até ela e colocou o seu braço no ombro da filha. Ela não resistiu nem o rechaçou. Foi então que ele viu o que ela sentia muito.
Na mancha de luz produzida por uma lanterna lamuellana jazia o relógio de Arthur. Random havia arrancado a parte de trás com a lâmina da faca de espalhar manteiga e todos os dentes de engrenagem e as molas e as alavancas estavam espalhados em uma pequena poça de bagunça onde ela estivera remexendo as peças.
— Eu só queria ver como funcionava — disse Random —, como é que as peças se encaixavam. Sinto muito! Não consigo encaixar de volta. Sinto muito, tanto, mas tanto mesmo! Não sei o que fazer. Eu vou consertar! Juro! Eu vou consertar!
No dia seguinte, Thrashbarg apareceu lá e disse várias coisas sobre Bob.
Tentou exercer uma influência apaziguadora, convidando Random a deixar sua mente pairar no mistério inefável da lacraia gigante, mas Random disse que não existia nenhuma lacraia gigante e Thrashbarg ficou em um silêncio gélido e disse que ela seria jogada nas profundezas do infinito.
Random disse ótimo, foi lá que eu nasci e, no dia seguinte, o pacote chegou.
A vida estava pródiga em acontecimentos.
Na verdade, quando o pacote chegou, entregue por uma sonda robótica que desceu do céu fazendo barulhos robóticos, ele trouxe consigo uma sensação, que gradualmente começou a permear todo o vilarejo, de que já havia acontecido coisas demais.
Não era culpa da pobre sonda robótica. Tudo o que queria era a assinatura de Arthur Dent, ou a sua impressão digital, ou até mesmo algumas lasquinhas de células da pele na sua nuca, e iria embora. Ficou parada no ar, esperando, sem saber direito o porquê daquele ressentimento todo. Enquanto isso, Kirp apanhou outro peixe com uma cabeça de cada lado, mas, ao examiná-lo de perto, viu que na verdade eram dois peixes cortados pela metade e costurados mal e porcamente, de modo que não só Kirp não conseguiu renovar o interesse por peixes de duas cabeças como acabou colocando a autenticidade do primeiro em dúvida. Apenas os pássaros pikka pareciam estar achando tudo perfeitamente normal.
A sonda robótica pegou a assinatura e se mandou. Arthur carregou o pacote para sua cabana e olhou para ele.
— Vamos abrir! — sugeriu Random, que estava muito mais animada naquela manhã, agora que tudo à sua volta ficara completamente esquisito, mas Arthur não quis. — Por que não?
— Não está endereçado a mim.
— Está, sim.
— Não está, não. Está endereçado para... bem, está endereçado para Ford Prefect, aos meus cuidados.
— Ford Prefect? Não foi ele quem...
— Foi — respondeu Arthur, secamente.
— Já ouvi falar nele.
— Imagino que sim.
— Vamos abrir mesmo assim. O que mais vamos fazer com isso?
— Não sei — disse Arthur, que realmente não sabia. Tinha levado as suas facas danificadas à ferraria de manhã cedo, e Strinder as examinara e dissera que ia ver o que podia fazer.
Tentaram a rotina de sempre de sacudir as facas no ar, calculando o ponto de equilíbrio e o ponto de flexibilidade, etc. e tal, mas a alegria tinha ido embora e Arthur ficara com a triste impressão de que seus dias como fazedor de sanduíches estavam contados.
Ele abaixou a cabeça.
A próxima aparição das Bestas Perfeitamente Normais era iminente, mas Arthur sentia que as tradicionais festividades de caça e organização de banquetes seriam meio desanimadas e sem convicção. Algo acontecera em Lamuella, e Arthur tinha uma sensação horrível de que fora culpa dele.
— O que você acha que é? — perguntou Random, curiosa, girando o pacote em suas mãos.
— Eu não sei — respondeu Arthur. — Algo ruim e preocupante, com certeza.
— Como é que você sabe? — protestou Random.
— Porque tudo relacionado a Ford Prefect é invariavelmente pior e mais preocupante do que qualquer outra coisa. Acredite em mim.
— Você está chateado com alguma coisa, não está? — perguntou Random.
Arthur suspirou.
— Acho que só estou meio sobressaltado e inquieto — disse Arthur.
— Sinto muito — disse Random, devolvendo o pacote. Percebeu que ele ia ficar realmente chateado se ela abrisse. Ia ter que dar um jeito de fazer isso quando ele não estivesse olhando.

Um comentário:

  1. Eu não entendi essa da Trillian, chegou na casa do Arthur, bagunçou a comunidade inteira, jogou uma filha em cima da vida dele e saiu, tirando toda a graça da vida na comunidade para Arthur e todos os outros habitantes; a culpa não é de Ramdom, já que ela nem queria estar ali.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!