26 de dezembro de 2017

Capítulo 14

Enquanto o Guia tornava a se dobrar em um disco liso e negro, Ford tentou se dar conta de algumas coisas bem alucinadas. Ou, pelo menos, tentou se dar conta, pois as coisas eram alucinadas demais para dar conta de tudo de uma só vez.
Sua cabeça estava martelando, seu tornozelo estava doendo e, embora não gostasse de parecer um maricas em relação à dor, costumava achar que a lógica multidimensional intensa era algo que ele compreendia melhor no banho.
Precisava de tempo para pensar a respeito. Tempo, um drinque caprichado e algum óleo de banho perfumado e denso que fizesse bastante espuma. Precisava dar o fora dali. Precisava tirar o Guia dali. Não acreditava que os dois pudessem escapar juntos.
Olhou à sua volta, nervoso.
Pense, pense, pense. Tinha de ser algo simples e óbvio. Se sua suspeita furtiva e asquerosa de que estava lidando com vogons furtivos e asquerosos estava correta, então quanto mais simples e óbvio, melhor.
De repente viu o que precisava. Não tentaria lutar contra o sistema, apenas iria fazer uso dele. A coisa mais assustadora sobre os vogons era a sua determinação absolutamente irracional para fazer qualquer coisa irracional que estivessem determinados a fazer.
Não adiantava nada apelar para o seu bom senso, porque não tinham um. No entanto, se você mantivesse  a calma, algumas vezes podia explorar a sua teimosia obtusa e acachapante em serem acachapantes e obtusos. A questão não era apenas que a mão esquerda deles nem sempre sabia o que a mão direita estava fazendo; frequentemente, a própria mão direita tinha apenas uma vaga noção do que ela mesma estava fazendo.
Ousaria simplesmente mandar entregar aquilo para ele mesmo? Ousaria simplesmente colocar o objeto no sistema e deixar que os vogons descobrissem como fazê-lo chegar até ele enquanto estivessem ocupados — como provavelmente estariam — destruindo o prédio para descobrir onde Ford o escondera?
Sim.
Febrilmente, empacotou o Guia. Embrulhou-o. Etiquetou-o. Parando um momento para pensar se estava realmente fazendo a coisa certa, encaminhou o pacote para a rampa de correspondência interna do prédio.
— Colin — disse ele, virando-se para a pequena bola flutuante. — Vou te abandonar à própria sorte.
— Estou tão feliz — respondeu Colin.
— Aproveite ao máximo — disse Ford. — Porque preciso que você tome conta desse pacote e o leve para fora do prédio. Eles provavelmente vão te incinerar quando te encontrarem e eu não vou mais estar aqui para ajudar. A coisa vai ficar muito, muito feia para o seu lado e eu só lamento. Entendeu?
— Estou gorgolejando de satisfação — disse Colin.
— Vai! — ordenou Ford.
Colin obedientemente mergulhou na rampa de correspondência para cumprir sua missão. Agora Ford só tinha que se preocupar consigo mesmo, mas aquela continuava sendo uma preocupação substancial. Podia ouvir o barulho de passos pesados correndo do lado de fora da porta, que ele tivera a precaução de trancar e de obstruir com um armário bem pesado.
Estava aflito porque tudo tinha sido fácil demais. Tudo muito bem encaixado.
Passara o dia aos trancos e barrancos e, no entanto, tudo terminara de forma estranhamente bem resolvida. A não ser pelo seu sapato. Estava chateado com aquilo. Era uma conta que teria de acertar mais tarde.
Com um ruído ensurdecedor, a porta explodiu para dentro. No turbilhão de fumaça e poeira, Ford pôde distinguir criaturas grandes, parecidas com lesmas, correndo na sua direção.
Então fora tudo fácil demais, não é? Tudo funcionando como se a sorte mais extraordinária estivesse ao seu lado? Bom, era isso o que ele ia descobrir.
Imbuído de um espírito de pesquisa científica, arremessou-se novamente pela janela.

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Boa leitura :)