14 de dezembro de 2017

Capítulo 14

— O povo de Krikkit — disse Sua Altíssima Supremacia Judicial, o Magistrado Pag, Presidente CIMR (Culto, Imparcial e Muitíssimo Relaxado) do Conselho de Juízes no Tribunal de Crimes da Guerra de Krikkit — é, puxa, vocês, sabem, são apenas um bando de caras muito legais, não é, que estavam apenas querendo matar todo mundo. Muitas vezes é exatamente como me sinto pela manhã. Que merda. Bem — prosseguiu, colocando seus pés em cima do banquinho à sua frente e fazendo uma pausa para catar um fiozinho solto em seu Chinelo de Praia Cerimonial —, não são pessoas com quem se deseje compartilhar uma Galáxia.
Era verdade.
O ataque de Krikkit contra a Galáxia havia sido formidável. Milhares e milhares de imensas naves de guerra de Krikkit haviam saído subitamente do hiperespaço e atacado simultaneamente milhares e milhares de planetas centrais, pegando primeiro suprimentos materiais vitais para a construção da próxima leva e depois calmamente aniquilando os planetas.
A Galáxia, que naquela época passava por um período de grande paz e prosperidade, ficou atordoada como um homem sendo assaltado em um pasto.
— Quero dizer — continuou o Magistrado Pag, olhando em volta da imensa e ultramoderna (isso fora há dez bilhões de anos, quando “ultramoderno” significava aço escovado e concreto em profusão) sala do tribunal —, esses caras são totalmente obsessivos. Aquilo também era verdade, e era a única explicação que já tinham conseguido formular para a velocidade inimaginável com a qual o povo de Krikkit havia perseguido seu novo e único propósito — a destruição de qualquer coisa que não fosse de Krikkit.
Também era a única explicação para a espantosa velocidade com que tinham compreendido toda a hipertecnologia necessária para construir milhares de espaçonaves e milhões de robôs brancos mortíferos.
Os robôs haviam aterrorizado profundamente todos aqueles que os encontraram, muito embora, na maioria dos casos, esse terror tivesse uma vida extremamente curta, assim como a vida da pessoa aterrorizada. Eram temíveis e cruéis máquinas de guerra voadoras com um único propósito. Traziam consigo terríveis bastões de guerra multifuncionais que, quando erguidos de uma forma, destruíam prédios e, quando erguidos de outra forma, disparavam fulgurantes Raios Zapogun Omnidestrutivos; erguidos de uma terceira forma, lançavam um pavoroso arsenal de granadas, que iam desde pequenos dispositivos incendiários até Dispositivos Hipernucleares Maxi-Slorta capazes de aniquilar uma estrela das grandes. O simples ato de bater nas granadas com os bastões de guerra fazia com que as granadas se ativassem e as lançavam, com fenomenal precisão, a distâncias que iam de alguns metros a centenas de milhares de quilômetros.
— Bem — disse novamente o Magistrado Pag —, então fomos nós que vencemos. — Fez uma pausa e mastigou um chiclete. — Vencemos — repetiu —, mas não chega a ser um grande feito. Afinal, temos toda uma galáxia de tamanho médio contra um pequeno mundo... e quanto tempo levamos? Oficial de Justiça?
— Meritíssimo? — disse o homem de aparência austera, vestido de preto, levantando-se.
— Quanto tempo, rapaz?
— É um pouco difícil, Meritíssimo, dizer com exatidão. A distância e o tempo...
— Relaxe, rapaz, chute um número.
— É difícil chutar um número, Meritíssimo, em um assunto tão...
— Vamos, coragem, desembucha.
O Oficial de Justiça piscou. Claramente, como a maioria dos que trabalhavam no Judiciário, achava que o Magistrado Pag [também conhecido pessoalmente como Zipo Bibrok 5x108, inexplicavelmente) era uma figura deplorável. Era obviamente grosseiro e não sabia se portar. Parecia pensar que o fato de possuir o cérebro jurídico mais brilhante jamais conhecido lhe dava o direito de se comportar como bem entendesse e infelizmente parecia estar correto.
— É, hum, bem, Meritíssimo, de forma muito aproximada, uns dois mil anos — murmurou o Oficial, descontente.
— E quantos carinhas foram detonados?
— Dois grilhões, Meritíssimo — o Oficial de Justiça sentou-se. Uma foto de seu hidrospectro naquele momento teria revelado que estava fumegando levemente.
O Magistrado Pag olhou mais uma vez para o tribunal, no qual estavam reunidos centenas dos mais altos oficiais de toda a administração galáctica, todos eles em uniformes ou corpos de gala, dependendo do metabolismo e costumes locais. Atrás de uma parede de Cristal Blindado AntiZap havia um grupo de representantes do povo de Krikkit, olhando com um desdém calmo e polido para todos os alienígenas ali reunidos a fim de julgá-los.
Aquela era a ocasião mais importante da história do Judiciário, e o Magistrado Pag sabia disso. Tirou o chiclete da boca e colou-o embaixo de sua cadeira.
— É um montão de cadáveres — disse.
O silêncio desconfortável que perpassou o tribunal parecia indicar que todos concordavam.
— Então, como eu disse, são um bando de caras legais, mas não o tipo de gente com quem desejemos compartilhar Galáxia, sobretudo não se eles forem continuar com isso, se não aprenderem a relaxar um pouco. Quero dizer, vamos todos continuar tensos, não é? Pow, pow, pow – quando vão nos atacar de novo? Não há a menor chance de coexistência pacífica, não é? Alguém pode me trazer água, por favor?
Sentou-se e bebericou, refletindo.
— Tudo bem — disse —, ouçam-me, ouçam-me. É que, assim esses caras, vocês sabem, têm direito à visão deles do Universo. E, de acordo com essa visão, imposta pelo Universo, correto, eles agiram certo. Parece louco, mas vocês têm que concordar. Eles acreditam em...
Consultou um pedaço de papel que tirou do bolso de trás de seu jeans judicial.
— Acreditam na “paz, justiça, moral, cultura, esporte, vida familiar e na aniquilação de todas as outras formas de vida”.
Deu de ombros.
— Já ouvi coisas bem piores.
Coçou o saco de forma pensativa.
— Freeeow — disse. Tomou outro gole de água, depois colocou-a contra a luz e olhou-a intensamente, enquanto girava o copo. — Ei, tem alguma coisa nesta água? — perguntou.
— Ahn, não, Meritíssimo — disse nervosamente o serventuário que havia trazido a água.
— Então leve-a — retrucou o Magistrado — e coloque algo dentro dela. Tive uma ideia.
Afastou o copo e inclinou-se para a frente.
— Ouçam-me, ouçam-me todos — disse.
Sua brilhante solução era a seguinte:
O planeta de Krikkit deveria ser trancado, por toda a eternidade, em um envoltório de Tempolento, dentro do qual a vida continuaria quase infinitamente lenta. Toda luz em torno do envoltório seria desviada, de forma que ele permanecesse invisível e impenetrável. Escapar do envoltório seria completamente impossível, a menos que fosse aberto do lado de fora. Quando o restante do Universo chegasse ao derradeiro fim, quando toda a criação emitisse seu último suspiro (claro que isso foi antes de se descobrir que o fim do Universo seria um fantástico negócio para a área de culinária e restaurantes) e a vida e a matéria deixassem de existir, então o planeta Krikkit e seu sol emergiriam do envoltório de Tempolento para continuar sua existência solitária, como desejavam, no crepúsculo do vazio universal. A Fechadura ficaria em um asteroide colocado em órbita lenta ao redor do envoltório. Sua chave seria o símbolo da Galáxia — o Portal de Wikkit.
Quando os aplausos no tribunal finalmente cessaram, o Magistrado Pag já estava no Chuveiro Sensormático com uma bela participante do júri, para a qual havia mandado um bilhete meia hora antes.

Um comentário:

  1. Bem interessante essa justiça galática, garantindo os direitos de todos!

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Boa leitura :)