7 de dezembro de 2017

Capítulo 14

Quatro corpos inertes afundavam num redemoinho de escuridão. A consciência estava morta, o frio esquecimento arrastava os corpos para as profundezas do não ser. O troar do silêncio ecoava lugubremente a seu redor e eles afundaram por fim num mar escuro e amargo de um vermelho movediço que lentamente os engolfou, aparentemente para sempre.
Após o que pareceu uma eternidade o mar recuou e os deixou estendidos numa praia dura e fria, despojos da correnteza da Vida, do Universo e Tudo o Mais. Espasmos frios os sacudiam, luzes dançavam nauseantemente à sua frente. A praia dura e fria tombava e girava e então parava. Tinha um brilho escuro — era uma praia fria e dura muito reluzente.
Um borrão esverdeado os observava com ar de reprovação.
Tossiu.
— Boa-noite, madame, cavalheiros — disse —, têm reserva?
A consciência de Ford Prefect ricocheteou de volta, como elástico, animando seu cérebro. Olhou para o borrão, confuso.
— Reserva? — perguntou debilmente.
— Sim, senhor — disse o borrão verde.
— É preciso reserva para o além-da-vida?
Na medida em que é possível a um borrão esverdeado arcaras sobrancelhas desdenhosamente, foi isso que ele fez.
— Além-da-vida, senhor? — disse.
Arthur Dent engalfinhava-se com sua consciência como alguém que se engalfinha com uma barra de sabão na banheira.
— Aqui é o além? — gaguejou.
— Bom, eu presumo que seja — disse Ford Prefect, tentando descobrir qual era o lado de cima. Testou a teoria de que deveria ficar na direção oposta ao chão frio e duro da praia em que estava deitado e cambaleou para ficar sobre o que esperava serem seus pés.
— Quero dizer — disse, balançando brandamente —, não tem jeito da gente ter sobrevivido àquela explosão, tem?
— Não — murmurou Arthur. Ele estava se apoiando sobre os cotovelos, mas isso não parecia melhorar as coisas. Deixou-se cair de novo.
— Não — disse Trillian, levantando-se —, não tem nenhum jeito.
Um som surdo, rouco e gorgolejante emergiu do solo. Era Zaphod Beeblebrox tentando falar.
— Eu certamente não sobrevivi — gorgolejou ele. — Eu era um cara totalmente à beira da morte. Pá pum, e é isso aí.
— É, graças a você — disse Ford —, não tivemos a menor chance. Devemos ter sido transformados em pedacinhos. Braços, pernas por toda parte.
— É — disse Zaphod levantando-se barulhentamente.
— Se a senhorita e os cavalheiros desejarem algo para beber... — disse o borrão esverdeado, que permanecia impaciente ao lado deles.
— Caplan pá tabum — prosseguiu Zaphod —, e lá estão nossas moléculas instantaneamente desintegradas. Ei, Ford — disse, ao identificar um dos borrões que se solidificavam lentamente à sua volta —, bateu para você essa coisa de ver sua vida inteira desfilando à sua frente?
— Bateu assim para você? — disse Ford. — Sua vida inteira?
— É, ou pelo menos eu presumo que era minha. Eu passei muito tempo fora de mim, sabe.
Olhou à sua volta para as várias formas que estavam finalmente tomando forma propriamente em vez de vagas e vacilantes formas disformes.
— Então... — disse.
— Então o quê? — disse Ford.
— Então aqui estamos nós — disse Zaphod, hesitante —, deitados, mortos aqui...
— Estamos em pé — corrigiu Trillian.
— Ahn, em pé, mortos — continuou Zaphod — neste desolado...
— Restaurante — disse Arthur Dent, que tinha levantado e conseguia, para sua surpresa, ver claramente. Aliás, o que o surpreendia não era que ele pudesse ver, mas o que ele estava vendo.
— Aqui estamos nós — continuou Zaphod, obstinado —, em pé, mortos, neste desolado...
— Cinco estrelas — disse Trillian.
— Restaurante — concluiu Zaphod.
— Estranho, não? — disse Ford.
— Ahn, é.
— Belos candelabros, no entanto — disse Trillian. Olharam uns para os outros, estupidificados.
— Não é bem um além-da-vida — disse Arthur. — Está mais para um après vie.
Os candelabros eram de fato um tanto espalhafatosos e o teto baixo abobadado não teria, num Universo ideal, sido pintado naquele tom particular de turquesa, e mesmo se fosse, não teria sido iluminado por aquele tipo de luz indireta. Este não é, porém, um Universo ideal, como ficou posteriormente evidenciado pelos desenhos no parquete de mármore, e pelo modo como tinha sido feita a fachada do bar de cento e vinte metros cobertos de mármore. A fachada do bar de cento e vinte metros cobertos de mármore tinha sido feita juntando-se cerca de duas mil peles de Lagartos Mosaicos Antarenses, sem se ligar para o fato de que os dois mil lagartos envolvidos precisavam delas para manterem seus interiores do lado de dentro.
Algumas criaturas elegantemente vestidas passeavam ociosamente pelo bar ou descansavam nos confortáveis assentos ricamente coloridos dispostos aqui e ali por todo o recinto do bar. Um jovem oficial Vl’Hurg e sua vaporosa dama verde atravessaram a porta de vidro fume no fundo do bar e penetraram na luz ofuscante do salão principal do Restaurante.
Atrás de Arthur havia uma grande janela de sacada com cortinas. Ele afastou um canto da cortina e olhou para fora, para uma paisagem árida e desolada, cinza, lúgubre, cheia de crateras, uma paisagem que em condições normais teria dado calafrios de terror em Arthur. Estas não eram, porém, condições normais, pois a coisa que gelava seu sangue e fazia sua pele tentar arrastar-se por suas costas e lhe sair pela nuca era o céu. O céu era...
Um criado de libré puxou educadamente a cortina de volta ao seu lugar.
— Tudo a seu tempo, cavalheiro — disse. Os olhos de Zaphod flamejaram.
— Ei, prestem atenção, defuntos — disse. — Acho que estamos perdendo alguma coisa ultra-importante aqui, sabe. Alguma coisa que alguém aqui disse e a gente perdeu.
Arthur estava profundamente aliviado em desviar sua atenção daquilo que acabara de ver.
— Eu disse que era uma espécie de après...
— É, e não preferia não ter dito? — disse Zaphod. — E você, Ford?
— Eu disse que era estranho.
— É, sagaz, mas sem graça, talvez tenha sido...
— Talvez — interrompeu o borrão esverdeado, que a essa altura tinha tomado a forma de um mirrado garçonzinho vestido de verde-escuro —, talvez os senhores queiram discutir a questão de algo para beber...
— Beber! — exclamou Zaphod, apaixonado. — Escute, pessoinha verde, meu estômago poderia levá-lo para casa e afagá-lo durante toda a noite simplesmente pela ideia.
— ... e o Universo — prosseguiu o garçom, determinado a não se desviar do seu curso — explodirá mais tarde, para seu prazer.
A cabeça de Ford inclinou-se lentamente em sua direção. Ele falou com sentimento.
— Urras — disse —, que espécie de bebida vocês servem neste lugar?
O garçom riu; um pequeno riso educado de garçom.
— Ah — disse ele —, creio que o cavalheiro talvez me tenha compreendido mal.
— Oh, espero que não — suspirou Ford.
O garçom tossiu; uma pequena tosse educada de garçom.
— Não é raro que nossos fregueses sintam-se um pouco desorientados com a viagem no tempo — disse. — De forma que eu sugeriria...
— Viagem no tempo? — disse Zaphod.
— Viagem no tempo? — disse Ford.
— Viagem no tempo? — disse Trillian.
— Quer dizer que isto não é o além? — disse Arthur.
O garçom sorriu; um pequeno sorriso educado de garçom. Tinha quase exaurido seu pequeno repertório educado de garçom e logo cairia em seu papel de garçom de lábios apertados e pequeno sorriso sarcástico.
— Além, cavalheiro? — disse. — Não, senhor.
— E não estamos mortos? — disse Arthur.
O garçom apertou os lábios.
— Aha, ha — disse. — O cavalheiro está evidentissimamente vivo, caso contrário eu não tentaria atendê-lo, senhor.
Num gesto extraordinário que não faz sentido tentar descrever, Zaphod Beeblebrox bateu em suas duas cabeças com dois de seus braços e em uma de suas coxas com o outro.
— Ei, caras — disse. — Que louco! Conseguimos! Finalmente chegamos aonde estávamos indo! Aqui é o Milliways!
— Milliways! — disse Ford.
— Sim, senhor — disse o garçom, garimpando paciência —, aqui é o Milliways, o Restaurante do Fim do Universo.
— Fim do quê? — perguntou Arthur.
— Do Universo — repetiu o garçom, com muita clareza e desnecessária distinção.
— Quando ele acabou? — perguntou Arthur.
— Dentro de poucos minutos, senhor. — Respirou fundo. Não precisava fazê-lo, uma vez que seu corpo era suprido com a variedade peculiar de gases de que necessitava através de um pequeno dispositivo intravenoso atado a sua perna. Há momentos, porém, em que não importa que metabolismo se tenha, é preciso respirar fundo. — Agora, se os senhores quiserem pedir finalmente seus drinques — disse —, eu lhes mostrarei sua mesa.
Zaphod arreganhou dois sorrisos maníacos, passeou pelo bar pedindo quase todas as coisas.

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