17 de dezembro de 2017

Capítulo 13

Naquela noite, em casa, enquanto galopava pela casa fazendo de conta que estava correndo por entre campos de milho em câmera lenta e explodindo sem parar em ataques súbitos de riso, Arthur imaginou que poderia até mesmo aguentar ouvir o disco de gaita de foles que ganhara na rifa. Eram oito horas e ele havia decidido que se forçaria, que se obrigaria a ouvir o disco inteiro antes de ligar para ela. Talvez fosse até mesmo melhor deixar para o dia seguinte. Aquela talvez fosse a melhor coisa a fazer. Quem sabe, até mesmo para a próxima semana.
Não. Nada de jogos. Ele a desejava e não dava a mínima se alguém percebesse. Ele a desejava, definitiva e absolutamente, queria estar ao lado dela, adorava-a e tinha tantas coisas que queria fazer com ela que não haveria nomes suficientes para todas.
Chegou a se surpreender dizendo coisas como “Iupi!” enquanto saltitava ridiculamente pela casa. Os olhos dela, o cabelo, a voz, tudo...
Parou.
Era melhor colocar o disco de gaita de foles de uma vez. E ligar para ela depois.
Ou ligar para ela antes, que tal?
Não. Ia fazer o seguinte. Ia colocar o disco de gaita de foles. Ia ouvir o disco todo, até o último lamúrio. E só então ligaria para ela. Aquela era a ordem certa. Era aquilo que ia fazer.
Tinha medo de tocar as coisas, achando que iria fazer que explodissem.
Apanhou o disco. Ele não explodiu. Tirou da capa. Abri toca-discos, ligou o amplificador.
Ambos sobreviveram. Dava risadas tolas enquanto pousava a agulha sobre o disco.
Sentou-se e ouviu solenemente A Scottish Soldier.
Ouviu Amazing Grace.
Ouviu algo sobre um glen ou algo no gênero.
E relembrou a sua miraculosa hora do almoço.
Estavam prestes a sair quando foram perturbados por uma terrível explosão de “iúhuuuus”.
A pavorosa mulher de permanente estava acenando para eles do outro lado do recinto, como um pássaro idiota com a asa quebrada. Todo mundo no bar estava olhando para eles e pareciam esperar
alguma resposta.
Não haviam ouvido a parte sobre quão satisfeita e feliz Anjie ficaria com as quatro libras e trinta pence que haviam conseguido recolher para ajudar a comprar sua máquina de diálise.
Haviam percebido vagamente que alguém na mesa ao lado ganhara uma caixa de licores de cereja e levaram um momento ou dois para descobrir que a senhora do “iú-hu” estava tentando saber se o bilhete número 37 era deles.
Arthur descobriu que era, de fato. Olhou irritado para o relógio.
Fenchurch lhe deu um empurrão.
— Vai lá — disse ela. — Vai lá buscar. Não seja mal-humorado. Faça um discurso bem bonito e diga o quanto está contente, depois você me liga e me conta como foi. Vou querer ouvir o disco, hein? Vai lá.
Ela deu um tapinha amigável no seu braço e foi embora.
Os fregueses acharam o seu discurso de agradecimento um pouco efusivo demais. Afinal, era só um disco de gaita de foles. Arthur lembrou de tudo, ouviu a música e continuou tendo acessos de riso.

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