26 de dezembro de 2017

Capítulo 12

Ford rolava em pleno ar em meio a uma nuvem de cacos de vidro e pedaços de cadeiras. Mais uma vez, não havia exatamente planejado as coisas e estava apenas improvisando, ganhando tempo. Aprendeu que, em momentos de extrema crise, era bastante útil ver a sua vida passar por seus olhos. Ver as coisas sob uma perspectiva diferente lhe dava a oportunidade de refletir sobre elas e, às vezes, assim surgia uma pista vital sobre o seu próximo passo.
Lá estava o chão, apressando-se para encontrá-lo a uma aceleração de quase 10 m/s2, mas o melhor a fazer, pensou, era lidar com o problema quando chegasse a ele. Uma coisa de cada vez.
Ah, finalmente. A sua infância.
Coisas triviais, já vira tudo aquilo antes. Imagens passavam, rápidas. Tempos chatos em Betelgeuse V. Zaphod Beeblebrox ainda criança. Nenhuma novidade. Gostaria de ter alguma espécie de fast forward em seu cérebro. O seu aniversário de sete anos, quando ganhou a sua primeira toalha. Vamos lá, vamos lá.
Estava se contorcendo e virando de cabeça para baixo, o ar externo naquela altura era um choque gelado no pulmão. Tentava não inalar os cacos de vidro. Primeiras viagens para outros planetas. Ah, pelo amor de Zarquon, aquilo mais parecia um documentário imbecil sobre viagens antes da atração principal. Primeiros trabalhos para o Guia. Ah! Aqueles foram os bons tempos.
Trabalhavam em uma cabana no Atol Bwenelli, em Fanalla, antes que os Riktanarqals e os Donqueds a destruíssem. Um seis caras, algumas toalhas, um punhado de equipamento digital altamente sofisticado e, o mais importante, muitos sonhos. Não. E o mais importante: muito rum fanalliano. Para ser absolutamente preciso, a coisa mais importante de todas era a Aguardente Janx, depois o rum fanalliano e depois algumas praias no Atol, frequentadas pelas garotas locais, mas os sonhos também eram importantes. Que fim levaram?
Para falar a verdade, não conseguia lembrar direito quais eram os sonhos, mas pareciam enormemente importantes naquela época. Com certeza não envolviam o imenso arranha-céu de escritórios de onde estava despencando naquele momento.
Aquilo tudo havia começado quando alguns membros da equipe original decidiram fixar moradia e ficaram gananciosos, enquanto ele e os outros permaneceram fazendo o trabalho de campo, pesquisando, pegando caronas e, gradualmente, ficando cada vez mais isolados do pesadelo corporativista que o Guia inexoravelmente havia se tornado e da monstruosidade arquitetônica em que se alojara. Onde ficavam os sonhos naquele lugar? Pensou em todos os advogados que ocupavam metade do prédio, todos os agentes que ocupavam os andares inferiores e todos os editores assistentes e suas secretárias e os advogados das secretárias e as secretárias dos advogados das secretárias e, o pior de tudo, os contadores e o Departamento de Marketing.
Chegou a pensar em continuar caindo. Dois dedos para todos eles. Estava passando pelo décimo sétimo andar naquele momento. Era onde o Departamento de Marketing tagarelava. Um bando de babacas, todos discutindo qual deveria ser a cor do Guia e exercitando as suas habilidades infinitamente infalíveis de contar vantagem. Se eles tivessem olhado para a janela naquele momento, teriam ficado assustados com a visão de Ford Prefect caindo rumo à sua morte certa e fazendo sinais de V para eles.
Décimo sexto andar. Editores Assistentes. Imbecis. E tudo o que ele escrevera que os caras cortaram? Enviara quinze anos de pesquisa sobre um único planeta e eles resumiram tudo em duas palavras. “Praticamente inofensiva.” Sinais de V para eles também.
Décimo quinto andar. Administração Logística, seja lá o que fosse. Todos tinham carrões. Seja lá o que fosse, pensou, era o que isso era.
Décimo quarto andar. Recursos Humanos. Tinha uma suspeita muito perspicaz de que eles haviam arquitetado o seu exílio de quinze anos, enquanto o Guia se metamorfoseava em um monólito (ou melhor, duolito — não podia esquecer dos advogados) coorporativo.
Décimo terceiro andar. Pesquisa e Desenvolvimento. Segura aí. Décimo terceiro andar. Estava sendo obrigado a pensar bem depressa porque a situação estava ficando um pouco urgente. Lembrou-se subitamente do painel no elevador. Não tinha um décimo terceiro andar. Não dera muito atenção ao fato porque, depois de ter passado quinze anos no antiquado planeta Terra, onde as pessoas eram supersticiosas com o número treze, tinha se acostumado a estar em prédios onde não havia um décimo terceiro andar. Mas ali não fazia o menor sentido.
Não pôde deixar de notar, enquanto passava em queda livre pelo lado de fora, que as janelas do andar eram escuras.
O que estava se passando lá dentro? Começou a se lembrar de tudo o que Harl havia dito. Aquela história de um novo Guia, único e multidimensional, espalhado por um número infinito de universos. Tudo aquilo lhe soara, da maneira como Harl tinha contado, uma grande viagem inventada pelo Departamento de Marketing, com o apoio dos contadores. Se fosse mais real do que ele imaginara, então era uma ideia muito estranha e perigosa. Seria verdade? O que estava se passando por trás das janelas escuras do inacessível décimo terceiro andar?
Ford sentiu uma curiosidade crescendo dentro dele e, em seguida, uma sensação crescente de pânico. Aquela era, basicamente, a lista completa de sentimentos crescentes que ele tinha. No mais, sua distância em relação ao chão decrescia rapidamente. Precisava mesmo se concentrar em como sair daquela situação com vida.
Deu uma olhada para baixo. Uns trinta metros abaixo, as pessoas já estavam se agrupando, algumas olhando para cima com expectativa, abrindo espaço para ele e até mesmo interrompendo temporariamente a maravilhosa e completamente imbecil caçada aos Wockets.
Detestaria decepcioná-los, mas, a pouco mais de meio metro, sem que ele sequer tivesse percebido antes, estava Colin, obviamente felicíssimo, dançando e esperando que ele decidisse o que queria fazer.
— Colin! — berrou Ford.
Colin não respondeu. Ford gelou. Em seguida percebeu que não havia dito a Colin que o nome dele era Colin.
— Vem cá! — berrou Ford.
Colin subiu até o seu lado. Estava aproveitando imensamente a queda e esperava que Ford também estivesse.
O mundo de Colin ficou inesperadamente escuro porque a toalha de Ford o envolveu. Sentiu-se imediatamente muito, muito mais pesado. Estava animado e contente com o desafio que Ford acabara de impor. Só não estava certo se conseguiria levá-lo adiante.
A toalha estava esticada sobre Colin. Ford estava pendurado nela, agarrado às suas costuras. Outros mochileiros gostavam de modificar suas toalhas de maneiras exóticas, tecendo nelas todo tipo de ferramentas e utilitários esotéricos e até mesmo equipamento computacional nos tecidos. Ford era um purista. Gostava de coisas simples. Carregava uma toalha normal, comprada em uma loja normal. A toalha dele tinha até mesmo uma espécie de estampa floral, azul e rosa, apesar das constantes tentativas de Ford para descolorir e desbotar o tecido.
Tinha uns pedaços de fio enrascados na toalha, um pouco de grafite flexível e alguns nutrientes concentrados em uma das beiradas, para que ele sugasse em caso de emergência, mas, fora isso, era uma toalha comum, dessas que a gente usa para enxugar o rosto.
Deixara-se convencer por um amigo a fazer uma única modificação — reforçar as bainhas. Ford agarrava-se às bainhas como um tarado.
Continuavam descendo, só que um pouco mais devagar.
— Para cima, Colin! — gritou ele.
Nada.
— O seu nome — gritou Ford — é Colin. Então, quando eu gritar “Para cima, Colin!”, quero que você, Colin, suba. Entendeu? Para cima, Colin!
Nada. Ou melhor, uma espécie de gemido abafado vindo do robô.
Ford estava tenso. Estavam descendo bem devagar, mas o que estava deixando Ford tenso eram as pessoas que estavam se juntando lá embaixo. Amistosas, locais. Os caçadores de Wockets estavam se dispersando e, em seu lugar, criaturas com aparência de lesmas grandonas, pesadas e abrutalhadas, com lançadores de foguete, surgiram do que geralmente chamamos de nada. Nada, como todo viajante galáctico experiente sabe muito bem, é na verdade algo extremamente denso e com complexidades multidimensionais.
— Para cima — berrou Ford novamente. — Para cima! Colin, sobe!
Colin estava fazendo um esforço descomunal e gemendo. Estavam agora mais ou menos parados no ar. Ford tinha a sensação de que os seus dedos estavam se quebrando.
— Para cima!
Continuavam parados no mesmo lugar.
— Sobe, sobe, sobe! — Uma lesma estava se preparando para lançar um foguete contra ele. Ford mal podia acreditar. Estava pendurado no ar por uma toalha, com uma lesma se preparando para lançar foguetes sobre ele. Suas possíveis alternativas estavam se esgotando e começou a ficar seriamente assustado.
Em situações como essa é que mais precisava do Guia para lhe dar algum conselho, por mais enervante ou superficial que fosse, mas não era a hora de vasculhar os bolsos. E o Guia não parecia mais ser um amigo e aliado, e sim uma fonte de perigo.
Afinal de contas, estava despencando do prédio do próprio Guia, tendo a sua vida ameaçada pelas pessoas que pareciam ter o controle da empresa agora. Que fim levaram todos os sonhos que ele vagamente se lembrava de ter tido no Atol Bwenelli? Deviam ter deixado tudo como estava. Deviam ter ficado por lá. Ficado na praia. Amado mulheres bacanas. Vivido dos peixes. Ele devia ter percebido que estava tudo errado quando começaram a pendurar pianos de cauda sobre a piscina do monstro marinho no hall. Começou a se sentir completamente infeliz e aflito. Os seus dedos queimavam de dor. E o seu tornozelo continuava doendo.
Ah, muito obrigado, tornozelo, pensou ele, amargo. Obrigado por mencionar seus problemas justo agora. Imagino que você esteja a fim de uma boa bacia de água quente para levantar o seu astral, não é mesmo? Ou, no mínimo, você gostaria que eu...
Teve uma ideia.
A lesma armada posicionou o lançador de foguetes no ombro. O foguete, presumivelmente, era projetado para atingir qualquer coisa que se movesse no seu caminho.
Ford tentou não suar, porque sentia que a toalha escorregava de suas mãos.
Com o dedão do pé que não estava machucado, cutucou e forçou o calcanhar do sapato no pé que doía.
— Para cima, droga! — resmungou Ford inutilmente para Colin, que estava alegremente se matando de tanto esforço, mas não conseguia subir. Ford continuou insistindo no calcanhar do sapato. Estava tentando calcular o melhor momento, mas não fazia sentido.
Tinha que mandar ver e pronto. Uma única chance, era tudo o que tinha. O sapato estava agora solto na parte do calcanhar. O seu tornozelo machucado sentiu-se um pouco melhor.
Bom, aquilo era gostoso, não era? Chutou o sapato, que deslizou pelo seu pé e mergulhou no ar. Meio segundo depois, um foguete surgiu da boca do lançador, encontrou o sapato caindo em sua trajetória, partiu para cima dele com tudo, atingiu-o e explodiu com um enorme senso de satisfação e conquista.
Isso tudo aconteceu a uns 5 metros do chão.
A força principal da explosão foi direcionada para baixo. Onde, um segundo antes, havia um esquadrão de executivos da Corporação Infinidim com lançadores de foguetes na elegante praça, pavimentada com enormes lousas de pedra polida oriunda das antigas pedreiras de alabastro de Zentalquabula, existia agora apenas um pequeno poço com pedaços pútridos dentro.
Uma lufada de ar quente subiu da explosão, lançando Ford e Colin violentamente para cima. Ford tentou desesperada e cegamente agarrar-se a alguma coisa, mas não conseguiu. Foi arremessado para o alto, atingiu o ápice de uma parábola, fez uma breve pausa e começou a cair novamente. Foi caindo, caindo, caindo e, de repente, enroscou-se em Colin, que ainda estava subindo.
Agarrou-se desesperadamente ao pequeno robô esférico. Colin girava sem controle pelo ar em direção à torre dos escritórios do Guia, tentando alegremente se controlar e diminuir o ritmo.
O mundo girou de forma nauseante em torno da cabeça de Ford enquanto eles giravam um em volta do outro e então, de maneira igualmente nauseante, tudo parou.
Ford viu-se jogado, ainda tonto, no parapeito de uma janela. A sua toalha passou voando e ele a alcançou, segurando firme. Colin oscilava no ar, bem próximo. Ford olhou à sua volta — atordoado, machucado, sangrando e sem fôlego. O parapeito não tinha mais que trinta centímetros e ele estava precariamente empoleirado nele, a treze andares do chão.
Treze.
Sabia que estavam no décimo terceiro andar porque as janelas eram escuras.
Estava amargamente chateado. Pagara um preço absurdo por aqueles sapatos em uma loja no Lower East Side de Nova York. Havia, por causa disso, escrito um artigo inteiro sobre as alegrias proporcionadas por calçados de qualidade, e tudo isso tinha sido jogado fora no fiasco do “Praticamente inofensiva”. Que merda.
E agora perdera um dos sapatos.
Jogou a cabeça para trás e contemplou o céu. Não seria uma tragédia tão amarga se o planeta em questão não tivesse sido demolido, o que significava que ele sequer poderia comprar outro par.
Sim, devido à infinita extensão lateral da probabilidade, havia, certamente, uma multiplicidade quase infinita de planetas Terra, mas, quando era realmente necessário, um par de sapatos de qualidade não era algo que pudesse ser substituído apenas zanzando pelo espaço-tempo multidimensional.
Suspirou.
Paciência, era melhor tentar ver o lado bom da coisa. Pelo menos o sapato salvara a sua vida. Por enquanto.
Estava empoleirado em um parapeito de menos de trinta centímetros no décimo terceiro andar de um prédio e não tinha certeza se tudo aquilo valia um bom sapato.
Aturdido, espreitou através dos  vidros escuros.
Estava escuro e silencioso, como um túmulo.
Não. Aquilo era um pensamento ridículo. Já estivera em altas festas em túmulos. Será que conseguiria detectar algum movimento? Não tinha certeza. Tinha a impressão de estar distinguindo uma estranha sombra de asas batendo. Talvez fosse apenas o sangue pingando sobre os seus cílios. Enxugou os olhos. Cara, adoraria ter uma fazenda em algum lugar, criar ovelhas. Espiou novamente pela janela, tentando distinguir a silhueta, mas tinha a sensação, tão comum no universo naqueles dias, de que estava diante de alguma ilusão de ótica e que os seus olhos estavam lhe pregando peças.
Havia algum pássaro lá dentro? Era isso o que eles escondiam lá em cima, em um andar secreto, protegido por vidros escuros à prova de foguetes? O aviário de alguém? Havia, com certeza, alguma coisa batendo asas lá dentro, mas não parecia ser um pássaro, estava mais para um buraco no espaço no formato de um pássaro.
Fechou os olhos, coisa que já estava querendo fazer há algum tempo, por sinal. Perguntava-se o que deveria fazer em seguida. Pular? Escalar? Não tinha como quebrar aquele vidro. Tudo bem, o vidro supostamente à prova de foguetes não conseguira suportar um foguete na prática, mas aquele tinha sido um foguete disparado a curtíssima distância vindo de dentro, o que provavelmente não era o que os engenheiros tinham em mente ao projetá-lo. Isso, contudo, não significava que ele fosse conseguir quebrar o vidro enrolando a toalha no punho e socando a janela. Que diabos, tentou assim mesmo e acabou machucando a mão. Ainda bem que não conseguira um bom impulso de onde estava, senão teria se machucado feio. O prédio tinha sido reforçado maciçamente quando foi reconstruído do zero após o ataque de Frogstar e era, possivelmente, a editora com a blindagem mais pesada naquele ramo, mas havia sempre algum ponto fraco em qualquer sistema projetado por um comitê corporativo. Já havia descoberto um deles. Os engenheiros que projetaram as janelas não esperavam que fosse atingida por um foguete a curta distância vindo de dentro, então a janela havia quebrado.
Então o que os engenheiros teriam esperado que uma pessoa sentada no parapeito do lado de fora da janela pudesse fazer?
Quebrou a cabeça por alguns segundos antes de descobrir.
Para começar, não teriam esperado que ele estivesse ali. Somente um perfeito boçal estaria sentado onde ele estava, então tinha alguns pontos a seu favor. Um erro comum que as pessoas cometem quando tentam projetar coisas completamente à prova de imbecis era subestimar a ingenuidade dos imbecis completos.
Tirou do bolso o seu recém-adquirido cartão de crédito, enfiou na fenda que havia entre a janela e a moldura e fez algo que um foguete jamais seria capaz de fazer. Sacudiu um pouco o cartão. Sentiu uma lingueta deslizar. Abriu a janela e quase caiu para trás do parapeito, gargalhando e dando graças, no meio tempo, pelos Grandes Motins da Ventilação e Telefonia de SrDt 3454. Os Grandes Motins da Ventilação e Telefonia de SrDt 3454 começaram como um monte de ar quente. O ar quente, é claro, era o problema que a ventilação deveria solucionar e, geralmente, ela o solucionava razoavelmente bem, até que alguém inventou o ar-condicionado e resolveu o problema de maneira muito mais contundente. E isso tudo era ótimo, desde que você conseguisse aturar o barulho e o pinga-pinga, até que alguém foi lá e inventou algo muito mais sexy e inteligente do que o ar-condicionado: o controle climático central.
Aquilo sim era espetacular.
As principais diferenças entre o novo controle climático e o ar-condicionado comum consistiam no preço exorbitantemente mais caro e numa grande quantidade de equipamentos de medição e calibragem que sabiam, a cada momento, que tipo de ar as pessoas gostariam de respirar, com uma precisão muito maior do que simples pessoas poderiam saber.
O que também significava que, para se certificar de que as simples pessoas não estragariam os cálculos sofisticados que o sistema fazia por elas, todas as janelas nos edifícios tinham de ser absolutamente vedadas. Sério. Quando os sistemas estavam sendo instalados, várias pessoas que iam trabalhar nos prédios tiveram conversas mais ou menos assim com os montadores do sistema Inteli-Respiratron:
— Mas e se a gente quiser abrir as janelas?
— Vocês não vão querer abrir as janelas com o novo Inteli-Respiratron.
— Tá, mas vamos imaginar que a gente queira, só um pouquinho?
— Vocês não vão querer abrir nem um pouquinho. O novo sistema Inteli-Respiratron vai garantir isso.
— Humm.
— Aproveitem o Inteli-Respiratron!
— Tá bem, mas e se o Inteli-Respiratron pifar ou não funcionar direito ou algo assim?
— Ah! Uma das características mais inteligentes do Inteli-Respiratron é que ele não pifa de jeito nenhum. Então não há com o que se preocupar. Respirem bem e tenham um bom dia.
(Foi justamente por causa dos Grandes Motins de Ventilação e Telefonia de SrDt 3454 que todos os aparelhos mecânicos ou elétricos ou quantum-mecânicos ou hidráulicos ou até mesmo aparelhos movidos a vento, vapor ou pistão eram agora obrigados a ter uma inscrição gravada em algum lugar. Não importa o quão pequeno o objeto fosse, os seus fabricantes tinham de encontrar uma maneira de enfiar a tal inscrição em algum lugar, porque afinal servia para chamar a atenção deles próprios e não necessariamente a dos usuários. A inscrição era a seguinte: “A maior diferença entre uma coisa que pode pifar e uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum é que, quando uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum pifa, normalmente é impossível consertá-la.”)
Ondas de calor significativas começaram a coincidir, com uma precisão quase mágica, com defeitos significativos do sistema Inteli-Respiratron. No início isso causou apenas um ressentimento fervoroso e algumas mortes por asfixia. Mas o pavor absoluto surgiu no dia em que três eventos ocorreram simultaneamente. O primeiro foi uma declaração da empresa Inteli-Respiratron dizendo que os seus sistemas funcionavam melhor em climas temperados.
O segundo foi a pane de um sistema Inteli-Respiratron em um dia particularmente quente e úmido, o que resultou em uma evacuação de centenas de funcionários de escritórios para a rua, onde se depararam com o terceiro evento — uma turba ensandecida de operadores de telefonia que ficaram tão cansados de ter de repetir “Obrigada por utilizar nossos serviços”, o dia inteiro, todos os dias, para todos os imbecis que apanhavam um telefone, que finalmente decidiram sair às ruas com latas de lixo, megafones e rifles.
Nos dias de carnificina que se seguiram, cada janela da cidade, à prova de foguete ou não, foi quebrada, normalmente com gritos de “Sai da linha, ô babaca! Estou pouco me lixando para o número que você quer discar, para o ramal que está usando... Vai enfiar um fogo de artifício na garganta! É isso aíííí! U-rrrrru!!u! Vummmmm! Squawk!” e toda uma variedade de sons animalescos que eles não tinham a oportunidade de utilizar normalmente no trabalho.
Por causa disso, foi concedido a todos os operadores de telefonia o direito constitucional de dizer “Utilize os nossos serviços e vá se danar!” pelo menos uma vez por hora enquanto atendiam o telefone, e todos os prédios comerciais foram obrigados a ter janelas que abrissem pelo menos um pouquinho.
Um outro resultado, completamente inesperado, foi uma queda impressionante no índice de suicídios. Todos os executivos estressados e em ascensão que haviam sido obrigados, na época negra da tirania do Inteli-Respiratron, a se jogar na frente de trens ou se apunhalar até a morte podiam agora simplesmente trepar nos seus parapeitos e pular, na hora em que quisessem. E, frequentemente, era justo nessa hora, enquanto olhavam a sua volta e organizavam as suas ideias, que subitamente descobriam que tudo que precisavam era de um pouco de ar fresco e uma nova perspectiva das coisas — e talvez uma fazenda na qual pudessem criar algumas ovelhas.
Outro resultado completamente inesperado foi que Ford Prefect, preso no décimo terceiro andar de um prédio altamente blindado, armado apenas com uma toalha e um cartão de crédito, pôde assim mesmo entrar no prédio por uma janela supostamente à prova de foguetes.
Após permitir a entrada de Colin atrás dele, fechou a janela cuidadosamente e olhou em volta, procurando o tal pássaro. Chegou à seguinte conclusão sobre as janelas: como haviam sido convertidas para se abrirem depois de terem sido projetadas para serem inexpugnáveis, eram na verdade muito menos seguras do que se tivessem sido projetadas como janelas que abrem normalmente.
Pois é, a vida é mesmo engraçada, estava pensando Ford com os seus botões, quando percebeu de repente que tinha tido o maior trabalho para entrar em um lugar absolutamente desinteressante.
Então estacou, surpreso.
Onde estava a curiosa figura em formato de ave, batendo as asas? Onde estava qualquer coisa que justificasse todo aquele trabalho — o extraordinário véu de sigilo que parecia permear todo o ambiente e a igualmente extraordinária sequência de eventos que parecia conspirar para levá-lo até lá?
A sala, como qualquer outra sala daquele prédio no momento, havia sido decorada em um cinza de impressionante bom gosto. Havia alguns gráficos e desenhos na parede. A maioria não significava nada para Ford, mas foi então que ele se deparou com algo que era obviamente o modelo de um pôster.
Havia uma logomarca em formato de pássaro com um slogan que dizia: “O Guia do Mochileiro das Galáxias versão II: a mais incrível de todas as coisas que já existiram. Breve em uma dimensão perto de você.”
Sem mais nenhuma informação.
Ford tornou a olhar em volta. Então a sua atenção foi gradualmente atraída para Colin, o robô de segurança absurdamente hiper-feliz, que estava encolhido em um canto, balbuciando coisas de uma forma estranhamente parecida com medo.
Estranho, pensou Ford. Olhou em volta para ver o que poderia estar assustando Colin. Então viu algo que não havia notado antes, parado calmamente sobre uma bancada de trabalho.
Era circular e negro, mais ou menos do tamanho de um prato pequeno. A parte superior e a inferior eram lisinhas e convexas, o que lhe dava a aparência de um disco de arremesso bem leve. As superfícies pareciam ser completamente lisas, contínuas e sem traços característicos. A coisa estava parada.
Ford notou, então, que havia algo escrito nela. Estranho. Não havia nada escrito um segundo atrás, mas agora estava lá. Não parecia, contudo, ter ocorrido nenhuma transição visível entre os dois estados.
A mensagem, em letrinhas pequenas e alarmantes, se resumia a três palavras: ENTRE EM PÂNICO
Pouco antes não havia nenhuma marca ou linhas em sua superfície. Agora havia. E estavam crescendo.
Entre em pânico, dizia o Guia versão II. Ford começou a agir de acordo.
Lembrou-se subitamente por que as criaturas com aparência de lesma lhe pareciam tão familiares. Seu padrão de cores estava mais para um cinza executivo, porém, em todo o resto, eram parecidíssimas com os vogons.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!