17 de dezembro de 2017

Capítulo 12

Há uma razão desconhecida para que os bares próximos às estações tenham algo de especialmente sinistro, um tipo específico de imundície, um tipo especial de palidez nos salgadinhos.
Pior do que os salgadinhos, contudo, são os sanduíches. Há um sentimento predominante na Inglaterra de que tornar um sanduíche interessante, atraente ou de algum modo agradável de comer é algo pecaminoso que só os estrangeiros fazem.
“Vamos fazê-los secos” é a instrução enraizada em algum lugar na consciência coletiva nacional. “Vamos fazê-los borrachudos. Se for preciso manter os malditos hambúrgueres frescos, lave-os uma vez por semana.”
É comendo sanduíches em bares durante o almoço, aos sábados, que os ingleses procuram expiar sejam lá quais forem os seus pecados nacionais. Não sabem direito quais são esses pecados e nem querem saber, porque ninguém quer ficar sabendo muitos detalhes sobre seus pecados. Mas, sejam lá quais forem os tais pecados, são amplamente expiados pelos sanduíches que eles se obrigam a comer.
Se há algo ainda pior do que os sanduíches são as salsichas que ficam expostas ao lado deles. Tubos infelizes, cheios de cartilagens, boiando em um mar de algo quente e triste, atravessados por um palitinho de plástico no formato do chapéu de um chef de cozinha possivelmente uma homenagem póstuma a algum chef que detestava o mundo inteiro e que morreu, esquecido e solitário, entre os seus gatos numa escada dos fundos em Stepney.
As salsichas são para aqueles que sabem muito bem quais são os seus pecados e querem expiar algo bem específico.
— Deve ter um lugar melhor — disse Arthur.
— Não dá tempo — disse Fenny, olhando o relógio. — O meu trem sai em meia hora.
Sentaram em uma mesinha bamba. Sobre ela, alguns copos sujos, alguns descansos de copo encharcados. Arthur pediu um suco de tomate para Fenny e um copo de água amarelada com gás para ele. E duas salsichas. Não sabia ao certo por quê. Pediu-as mais para ter o que fazer enquanto esperava o gás assentar-se no seu copo.
O barman atirou o troco de Arthur em uma poça de cerveja sobre o bar e Arthur ainda agradeceu.
— Muito bem — disse Fenny, olhando o seu relógio — Conte-me o que é que tem para me contar.
Soava extremamente cética, como era de se esperar, e Arthur ficou desanimado. Aquele era o ambiente menos adequado, pensou, para tentar explicar a ela por que estava sentada ali, subitamente distante e na defensiva, que, numa espécie de sonho extracorpóreo, ele teve uma sensação telepática de que o colapso nervoso que ela sofrerá estava ligado ao fato de que a Terra, apesar das aparências contrárias, tinha sido demolida para abrir caminho para a construção de uma nova via expressa hiperespacial, algo que somente ele em todo o planeta sabia tendo realmente presenciado a demolição de dentro de uma nave vogon, e de que, além disso, o seu corpo e a sua alma desejavam insuportavelmente e ele precisava ir para a cama com ela tão rápido quanto fosse humanamente possível.
— Fenny — começou a dizer.
— Vocês gostariam de comprar alguns bilhetes da nossa rifa? Unzinho, pelo menos?
— Ele olhou para cima, irritado.
— Para ajudar a Anjie, que está se aposentando.
— O quê?
— Ela precisa de uma máquina de diálise.
Estava sendo abordado por uma senhora de meia-idade cadavericamente magra, usando um delicado conjuntinho de tricô um delicado permanentezinho e um delicado sorrisinho que provavelmente recebia frequentes lambidas de delicados cachorrinhos.
Ela estava segurando um bloquinho de rifas e uma latinha para coletar as contribuições.
— Custa apenas dez pence cada — disse ela -, então de repente dá para comprar até duas.
Sem quebrar a conta! — Ela deu uma risadinha tilintante, seguida de um suspiro curiosamente longo. Ter dito “Sem quebrar a conta” obviamente lhe dera mais prazer do que qualquer outra coisa desde que alguns soldados americanos ficaram alojados na sua casa durante a Segunda Guerra.
— Ah, tá, tudo bem — respondeu Arthur, metendo a mão no bolso apressadamente e tirando algumas moedas.
Com uma moleza irritante e uma delicada teatralidade, se é que isso existe, a mulher destacou dois bilhetes, que entregou Para Arthur.
— Eu realmente espero que você ganhe — disse ela, com um sorriso que de repente se dobrou como um modelo avançado de origami. — Os prêmios são tão bons.
— Obrigado — respondeu Arthur, colocando os bilhetes no bolso meio bruscamente e olhando para o seu relógio.
Virou-se para Fenny
A mulher com os bilhetes de rifa também.
— E você, mocinha? — perguntou ela. — É para a máquina diálise de Anjie. Ela está se aposentando, sabe. E então? Levantou o sorrisinho ainda mais em seu rosto. Ela ia ter parar uma hora ou outra, ou a sua pele ia arrebentar.
— Está bem, aqui vai — disse Arthur, estendendo uma moeda de cinquenta pence para ela, na esperança de que fosse logo embora
— Ah, estamos com dinheiro, hein? — disse a mulher com um longo suspiro sorridente. — Viemos de Londres, não é?
Arthur gostaria que ela não falasse tão irritantemente devagar.
— Não, tudo bem, pode deixar — disse ele, agitando a mão mas já era tarde, ela estava começando a destacar os cinco bilhetes, um por um, com uma lentidão pavorosa.
— Ah, mas você tem que ficar com os bilhetes — insistiu a mulher — ou não vai poder pegar seu prêmio. E são ótimos prêmios, sabe. Muito apropriados.
Arthur apanhou os bilhetes e agradeceu o mais rapidamente que pôde.
A mulher virou-se para Fenny novamente.
— E, agora, que tal...
— Não! — Arthur estava quase berrando. — Esses aqui são para ela — explicou ele, sacudindo os cinco novos bilhetes.
— Ah, sim, entendi! Que gentileza!
Ela atirou mais um sorriso nauseante para eles.
— Bem, eu realmente espero que...
— Está bem — cortou Arthur. — Obrigado.
A mulher finalmente partiu para a mesa ao lado. Arthur virou-se desesperadamente para Fenny e ficou aliviado ao ver que ela estava se sacudindo em uma risada silenciosa.
Ele suspirou e sorriu.
— Onde estávamos?
— Você estava me chamando de Fenny e eu estava prestes te pedir para não me chamar mais assim.
— Como assim?
Ela mexeu o seu suco de tomate com um longo palitinho de madeira.
— Foi por isso que eu perguntei se você era amigo do meu irmão. Do meu meio-irmão, na verdade. Ele é a única pessoa que me chama de Fenny e eu não gosto dele por causa disso.
— Então qual é...
— Fenchurch.
— O quê?
— Fenchurch.
— Fenchurch.
Ela lançou um olhar severo para ele.
— Isso mesmo — disse ela -, e eu estou te observando como um lince para ver se você vai me fazer a mesma pergunta idiota que todo mundo faz até eu ficar com vontade de gritar. Vou ficar chateada e decepcionada com você, se fizer. E vou gritar. Por isso, muito cuidado.
Ela sorriu e sacudiu o cabelo, deixando que caísse sobre sua testa. Ficou olhando para Arthur por trás das mechas.
— Ah, isso é um pouquinho injusto, não é?
— É.
— Tudo bem.
— Tá bom — ela disse, rindo —, pode perguntar. Assim nos livramos logo disso. De qualquer forma, é
melhor do que você ficar me chamando de Fenny o tempo todo.
— Possivelmente... — disse Arthur.
— Estão faltando apenas dois bilhetes, sabe, e já que você foi tão generoso agora há pouco...
— O quê? — interrompeu Arthur.
A mulher do permanente, do sorriso e do agora praticamente vazio bloquinho de rifas estava sacudindo os dois últimos bilhetes debaixo do nariz de Arthur.
— Quis lhe dar essa chance, porque os prêmios são ótimos.
Franziu o nariz e acrescentou, confiante:
— De muito bom gosto. Tenho certeza de que vocês gostar. E é para o presente de aposentadoria de Anjie, sabe. Nós queremos lhe dar...
— Uma máquina de diálise, já sei — disse Arthur. — Aqui está.
Estendeu mais duas moedinhas de dez pence e apanhou os bilhetes.
Um pensamento pareceu ocorrer então à mulher. Ocorreu bem devagarzinho. Era possível vê-lo chegando, como uma onda bem grande se aproximando da praia.
— Oh, Deus — disse ela. — Não estou interrompendo nada, estou? Olhou aflita para os dois.
— Não, tudo bem — respondeu Arthur. — Tudo o que poderia possivelmente estar bem — insistiu ele -, está bem. Obrigado — acrescentou.
— Digo — ela disse, em um prazeroso êxtase de preocupação — vocês não estão... apaixonados, estão?
— Olha, é difícil dizer — respondeu Arthur. — Ainda não tivemos chance de conversar.
Olhou de soslaio para Fenchurch. Ela estava sorrindo.
A mulher balançou a cabeça, num gesto cúmplice.
— Vou deixar vocês darem uma olhadinha nos prêmios em um minuto — disse ela e saiu.
Arthur, suspirando, virou-se para a garota pela qual achava difícil dizer se estava apaixonado.
— Você ia me fazer uma pergunta — disse ela.
— Sim.
— Podemos fazer isso juntos se você quiser — disse Fenchurch. — Você queria saber se eu fui encontrada...
— ...em uma bolsa de mão — acrescentou Arthur.
— ...no balcão de Achados e Perdidos — disseram juntos.
— ...na estação de Fenchurch Street — terminaram.
— E a resposta — disse Fenchurch — é não.
— Exato — disse Arthur.
— Fui concebida lá.
— No balcão de Achados e Perdidos? — perguntou Arthur, espantado.
— Não claro que não. Não seja ridículo. O que meus pais estariam fazendo no balcão de Achados e Perdidos? — perguntou ela, meio confusa com aquele ideia.
— Bem eu não sei — disse Arthur, perplexo -, ou melhor...
— Foi na fila para comprar passagens.
— Na...
— Fila para comprar passagens. Pelo menos é o que eles dizem. Recusam-se a dar maiores explicações. Apenas dizem que ninguém imagina como é chato ficar parado na fila para comprar passagens na estação de Fenchurch Street.
Tomou o seu suco de tomate, um pouco acanhada, e consultou o relógio. Arthur continuou gorgolejando por alguns minutos.
— Vou ter que ir daqui a pouquinho — disse Fenchurch — e você ainda nem começou a me contar qual é a coisa terrivelmente extraordinária que você queria tanto desabafar.
— Por que não me deixa levar você de carro até Londres? — perguntou Arthur. — Hoje é sábado, eu não tenho nada de especial para fazer, eu...
— Não — respondeu Fenchurch -, obrigada, você é um doce, mas é melhor não. Preciso ficar sozinha por uns dias. — Ela sorriu e deu de ombros.
— Mas...
— Você pode me contar depois. Vou te dar o meu telefone.
O coração de Arthur começou a fazer bum bum tchacabum enquanto ela rabiscava sete números a lápis em um pedaço de papel que em seguida entregou a ele.
— Agora podemos relaxar — ela disse, com um sorriso calmo que preencheu Arthur a tal ponto que achou fosse explodir.
— Fenchurch — disse ele, gostando do som daquele nome -, eu...
— Uma caixa — disse uma voz arrastada — de licores de cereja e, sei que vão gostar disso, um disco com música de gaita de foles escocesa...
— Sim, obrigado, excelente — insistiu Arthur.
— Achei que deveria mostrar para vocês — disse a mulher do permanente — porque vieram de Londres...
Ela estava exibindo os prêmios orgulhosamente para Arthur. Ele podia ver que eram realmente uma caixa de licores de cereja e um disco de gaita de foles. Era exatamente o que eram.
— Vou deixar vocês tomarem os seus drinques em paz agora — disse ela, dando uma leve batidinha no ombro fervilhante de Arthur -, mas tinha certeza de que vocês gostariam de ver.
Os olhos de Arthur encontraram os de Fenchurch novamente e, de repente, não soube mais o que dizer. O momento tinha surgido e ido embora, mas a sintonia entre eles fora arruinada por aquela maldita mulher imbecil.
— Não se preocupe — disse Fenchurch, olhando fixamente para ele por cima do seu copo —, vamos conversar novamente. — Tomou um gole do suco. — Talvez — acrescentou ela — não tivesse funcionado tão bem se não fosse por ela. — Ela deu um sorrisinho sutil e o seu cabelo caiu novamente sobre o rosto. Isso era realmente verdade. Ele tinha que admitir que era realmente verdade.

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