14 de dezembro de 2017

Capítulo 12

— Shhh — fez Slartibartfast. — Ouçam e observem.
A noite havia caído no antigo planeta Krikkit. O céu estava escuro e vazio.
A única luz provinha da cidade vizinha, a partir da qual sons pacíficos e amigáveis vagavam suavemente pela brisa. Estavam de pé sob uma árvore que exalava odores inebriantes. Arthur agachou-se para sentir a Ilusão Informacional do solo e da grama. Pegou um pouco de terra e deixou cair entre seus dedos. O solo parecia denso e rico, a grama tinha vigor. Era difícil evitar a impressão de que aquele lugar era absolutamente maravilhoso de todas as formas.
Contudo, o céu era vazio, e Arthur tinha a impressão de que ele transmitia uma certa frieza à paisagem que, embora não pudesse ser vista no momento, era idílica. Supôs, entretanto, que fosse apenas questão de hábito.
Sentiu um cutucão no seu ombro e olhou para cima. Slartibartfast estava lhe mostrando, em silêncio, algo que vinha descendo do outro lado da colina. Ele olhou e pôde perceber luzes distantes que serpenteavam, movendo-se devagar na direção deles.
Quando chegaram mais perto, pôde ouvir os sons também, e logo as luzes e sons se transformaram em um pequeno grupo de pessoas retornando para casa, vindo das colinas e dirigindo-se à cidade.
Passaram andando bem perto dos observadores sob a árvore com suas tochas balançando e projetando focos suaves de luz que dançavam sobre as árvores e a grama. Estavam tagarelando alegremente e cantando uma música que falava sobre o quão maravilhoso aquilo era, sobre como estavam felizes, como gostavam de trabalhar nas fazendas e como era bom voltar para suas casas e ver as mulheres e os filhos, com um refrão animado que dizia o quão docemente perfumadas as flores eram naquela época do ano, e também que era uma pena que o cachorro, que gostava tanto deles, tivesse morrido. Arthur quase podia imaginar Paul McCartney sentado, com seus pés diante da lareira no entardecer, cantarolando aquilo para Linda e pensando no que compraria com os royalties — provavelmente Essex.
— Os Mestres de Krikkit — sussurrou Slartibartfast em tom sepulcral.
Essa observação causou em Arthur uma breve confusão, tendo chegado tão rapidamente após seus próprios pensamentos sobre Essex. Então a lógica da situação se impôs em sua mente dispersa e descobriu que continuava sem entender o que o velho queria dizer.
— O quê? — perguntou.
— Os Mestres de Krikkit — repetiu Slartibartfast e, se o tom anterior foi sepulcral, desta vez ele soou como alguém que está com bronquite no Hades.
Arthur examinou o grupo e tentou extrair algum sentido das poucas informações que tinha à disposição até o momento.
As pessoas do grupo eram claramente alienígenas por pequenos detalhes, como o fato de parecerem um pouco altas, magras, de feições duras e quase tão pálidas que se podia dizer brancas. Fora isso, pareciam muito agradáveis. Bem, talvez fossem um pouco esquisitonas e talvez não fossem pessoas com quem se gostaria de fazer uma longa viagem de ônibus, mas o ponto é que, se, de alguma forma, se desviavam de serem pessoas boas e honestas, era por serem legais em excesso e não o contrário. Então por que toda essa constrição pulmonar de Slartibartfast, que parecia mais adequada a um comercial de rádio para um daqueles filmes de terror asquerosos a respeito de operadores de serras elétricas que levavam trabalho para fazer em casa à noite?
Essa questão do Krikkit também era complexa. Ele ainda não tinha conseguido fazer a ponte entre o que conhecia como críquete e aquilo que...
Slartibartfast interrompeu os pensamentos de Arthur nesse ponto, como se percebesse o que o outro estava pensando.
— O jogo que você conhece como críquete — disse, com uma voz que parecia ainda vagar por subterrâneos — é apenas uma dessas peculiaridades da memória racial, capaz de manter algumas imagens vivas na mente séculos após seu verdadeiro sentido ter se perdido nas névoas do tempo. De todas as raças da Galáxia, apenas os ingleses seriam capazes de reviver a memória da mais terrível das guerras que já cindiram o Universo e transformá-la naquilo que, lamento dizer, é visto como um jogo incompreensivelmente chato e sem sentido. Eu até gosto dele — acrescentou —, mas, aos olhos de muitos, vocês foram inadvertidamente culpados de um grotesco mau gosto. Aquela parte da bolinha vermelha acertando o wicket é particularmente cruel.
— Hum — disse Arthur, franzindo o rosto de forma reflexiva para indicar que suas sinapses cognitivas estavam lidando com aquilo da melhor forma possível. — Hum.
— E estes — disse Slartibartfast, retornando a seu tom criptogural e apontando para o grupo de homens de Krikkit que passou por eles — são os que começaram tudo, e tudo irá começar hoje à noite. Venham, vamos segui-los para ver o que vem a seguir.
Saíram de baixo da árvore e seguiram o grupo animado longo da trilha escura pela colina. Seus instintos naturalmente diziam para que se movessem furtivamente e em silêncio atrás de suas presas. Contudo, como estavam apenas andando em meio uma Ilusão Informacional, poderiam estar tocando tuba pintados de azul sem problema algum, já que ninguém iria notar.
Arthur observou que alguns deles tinham passado a cantar uma outra música.
Chegava até eles carregada pela suave brisa da noite e era uma balada romântica e doce que permitiria a Paul McCartney comprar Kent e Sussex, além de fazer uma boa oferta por Hampshire.
— Você certamente sabe — disse Slartibartfast, virando-se para Ford — o que está para acontecer, não?
— Eu? — disse Ford. — Não.
— Você não estudou História Antiga da Galáxia quando era jovem?
— Eu ficava no cibercubículo atrás de Zaphod — disse Ford —, era impossível me concentrar. O que não significa que não tenha aprendido algumas coisas muito impressionantes.
Nesse momento, Arthur notou um detalhe curioso naquela canção. Os oito compassos do meio — que fariam com que Paul se consolidasse em Winchester e olhasse com interesse sobre o Test Valley chegando até as ricas terras de New Forest logo a seguir — tinham uma letra peculiar. Quem escreveu a canção falava sobre encontrar-se com uma garota, mas não dizia “sob o luar” ou “sob as estrelas”, e sim “sobre a grama”. Aquilo soava um pouco prosaico para Arthur.
Então ele olhou novamente para o céu, desconcertantemente preto, e teve a sensação de que havia uma questão importante aí — se ao menos pudesse definir qual era.
A sensação era a de estar sozinho no Universo, que foi o que ele disse para os outros.
— Não — disse Slartibartfast, apressando ligeiramente o passo — o povo de Krikkit nunca pensou “Estamos sozinhos no Universo”. Eles estão cercados por uma enorme Nuvem de Poeira, entende? Um único sol com um único mundo e estão na extremidade leste da Galáxia. Por causa da Nuvem de Poeira nunca houve nada para ser visto no céu. Durante a noite é completamente escuro. Durante o dia há o sol, mas não é possível olhar diretamente para o sol, então eles não olham. Quase não percebem que há um céu. É como se tivessem um ponto cego que se estende 180 graus, de um horizonte a outro. O único motivo pelo qual nunca pensaram “Estamos sozinhos no Universo” é porque, até esta noite, eles sequer sabiam que há um Universo. Ao menos não até esta noite.
Continuou andando, deixando suas palavras reverberando no ar atrás de si.
— Imagine como seria nem mesmo ter pensado “Estamos sós”, simplesmente porque você nunca houvesse pensado que havia outra possibilidade.
Andou novamente
— Creio que seria apavorante — acrescentou.
Enquanto falava, começaram a ouvir um ruído agudo de algo muito alto, cortando o céu sem estrelas acima deles. Olharam para cima, preocupados, mas não conseguiram ver nada num primeiro momento.
Então Arthur notou que o grupo à sua frente também havia ouvido o ruído, mas ninguém sabia muito como agir. Estavam olhando em volta, confusos, para a esquerda, para a direita, Para a frente, para trás e até mesmo para o chão. Sequer penaram em olhar para cima.
A profundidade do choque e do horror que demonstraram logo em seguida, quando os destroços em chamas de uma espaçonave desceram do céu com um estrondo, chocando-se contra o solo cerca de um quilômetro à frente, era algo que só podia ser entendido por quem estava lá.
Alguns falam com admiração da Coração de Ouro, outros da Nave Estelar Bistromática. Muitos falam, com toda razão, da lendária e gigantesca Espaçonave Titanic, uma majestosa e luxuosa nave de cruzeiro lançada dos grandes estaleiros nos complexos de asteroides de Artifactovol há centenas de anos. De infinita beleza, estonteantemente enorme e equipada com mais diversões do que qualquer outra nave daquilo que hoje ainda nos resta da História, teve o azar de ser construída logo no início das pesquisas em Física da Improbabilidade muito antes que este difícil ramo do saber fosse completamente — ou ao menos minimamente — compreendido. Os projetistas e engenheiros decidiram, em sua inocência, construir um protótipo de Campo de Improbabilidade na nave, cujo propósito seria, supostamente, o de assegurar que fosse Infinitamente Improvável que qualquer coisa desse errado em qualquer parte da nave. Não perceberam que, por conta da natureza quase-recíproca e circular de todos os cálculos de Improbabilidade, qualquer coisa que fosse Infinitamente Improvável muito possivelmente aconteceria quase instantaneamente.
A Espaçonave Titanic era uma visão incrivelmente bela, atracada como uma Baleia Megavoid arcturiana prateada entre o tracejado laser dos guindastes de construção, uma nuvem brilhante de agulhas de luz sobressaindo-se contra a profunda escuridão do espaço interestelar. Entretanto, ao ser lançada, não conseguiu nem mesmo completar sua primeira mensagem de rádio — um S.O.S. — antes de sofrer um súbito e fortuito colapso total de existência.
Ainda assim, o mesmo evento que demonstrou a desastrosa falha de uma ciência em sua infância também testemunhou a apoteose de outra ciência. Foi provado, de forma definitiva que o número de pessoas assistindo à cobertura na TV 3D do lançamento era maior do que o número de pessoas que existiam de fato na época — algo que é hoje reconhecido como a maior façanha de todos os tempos na ciência da pesquisa de audiência.
Outro evento espetacular da mídia naquela época foi o fato a estrela Ysllodins ter se tornado uma supernova poucas horas depois. Ysllodins é a estrela ao redor da qual a maioria dos grandes agentes de seguro vive ou, melhor dizendo, vivia. Ainda assim, enquanto essas espaçonaves, assim como outras famosas que vêm à mente, como os Cruzadores da Frota Galáctica — o GSS Daring, o GSS Audacy e o GSS Suicidal Insanity —, são mencionadas com reverência, entusiasmo, afeto, admiração, lástima, inveja, ressentimento — e todas as emoções mais comumente conhecidas —, aquela que em geral evoca o mais sincero espanto é a Krikkit One, a primeira espaçonave construída pelo povo de Krikkit.
Não que fosse uma nave fantástica. Não era.
Era uma pilha insana de sucata amontoada. Parecia ter sido montada no quintal de alguém, e na verdade foi exatamente em um quintal que ela foi montada. O que era fantástico a respeito daquela nave não é que houvesse sido bem construída (não foi), mas simplesmente que houvesse sido construída. O tempo decorrido entre o momento que o povo de Krikkit descobriu que havia algo chamado “espaço” e o lançamento de sua primeira nave foi de quase um ano.
Ford Prefect estava profundamente aliviado, enquanto afivelava o cinto, por aquela ser apenas outra Ilusão Informacional e portanto ele estar em segurança. Na vida real, aquela não era uma nave na qual ele colocaria os pés, nem por todo o saquê da China. Uma das expressões que lhe vinham à mente era “Completamente desconjuntada”. A outra expressão era “Posso sair daqui?”.
— Essa coisa vai mesmo voar? — disse Arthur, olhando com desconfiança para as tubulações e o cabeamento primitivos que entulhavam o interior da nave.
Slartibartfast lhe assegurou que aquilo iria voar, que estavam perfeitamente seguros e que tudo seria extremamente instrutivo e nada desconfortável.
Ford e Arthur decidiram relaxar e ficar angustiados numa boa.
— Por que não — disse Ford — pirar?
Na frente deles estavam os três pilotos que, naturalmente não percebiam a presença deles pelo simples motivo de não estarem realmente lá. Tinham participado da construção da nave. Estiveram na trilha da colina naquela noite cantando suas músicas profundamente comoventes. Suas mentes haviam sido ligeiramente reviradas pela colisão da nave alienígena. Passaram semanas revirando cada minúsculo segredo dos destroços daquela nave incendiada, tudo isso enquanto cantarolavam melodiosas cantigas sobre revirar naves espaciais.
Depois haviam construído sua própria nave e lá estava ela. Aquela era a sua nave e no momento estavam cantarolando sobre isso também, expressando a dupla alegria de ter realizado e de possuir algo. O refrão era tocante e falava sobre a tristeza de que seu trabalho os tivesse obrigado a passar tanto tempo na garagem, longe de suas mulheres e filhos, que sentiram muita falta deles mas sempre os mantiveram alegres contando-lhes como o cachorrinho estava crescendo, saudável.
Pow!, decolaram.
Cruzaram o céu como uma nave que sabe exatamente o que está fazendo.
— Não é possível — disse Ford, um pouco depois de terem se recuperado do choque da aceleração, enquanto subiam para além da atmosfera do planeta —, não é possível — repetiu — que alguém possa projetar e construir uma nave destas em um ano, não importa o quão motivados estivessem. Não acredito. Mesmo que me provem, não acredito. — Sacudiu a cabeça, pensativo, e olhou por uma escotilha para o vazio do lado de fora.
Por algum tempo nada aconteceu, e Slartibartfast apertou a tecla de avanço rápido para prosseguirem.
Muito rapidamente, então, chegaram até o perímetro interno da Nuvem de Poeira, oca e esférica, que circundava seu sol e seu planeta, ocupando a próxima órbita. Foi como se houvesse uma mudança gradual na textura e consistência do espaço. A escuridão parecia agora estar sendo arranhada e rasgada conforme passavam. Era uma escuridão muito fria, um vácuo pesado; era a escuridão do céu da noite de Krikkit. Sua frieza e seu peso e seu vazio aos poucos se infiltraram no coração de Arthur e ele podia sentir nitidamente os sentimentos dos pilotos de Krikkit que flutuavam no ar como uma potente carga estática. Estavam agora no próprio limite do conhecimento histórico de sua raça. Era este o ponto além do qual nenhum deles havia especulado, ou sequer tomado conhecimento de que havia algo sobre o qual especular.
A escuridão da nuvem esbofeteava a nave. Lá dentro havia apenas o silêncio da história. Sua missão histórica era a de descobrir se havia algo ou algum lugar do outro lado do céu de onde a espaçonave destroçada pudesse ter vindo. Um outro mundo, talvez, por mais estranho e incompreensível que esse pensamento fosse para as mentes fechadas daqueles que viviam sob o céu de Krikkit.
A história estava se preparando para desfechar outro duro golpe.
Em volta, a escuridão continuava arranhando-os, aquela escuridão vazia e envolvente. Parecia estar cada vez mais próxima, cada vez mais densa, cada vez mais pesada. E subitamente se desfez.
Voaram para além dos confins da nuvem.
Viram as maravilhosas joias da noite em sua infinita poeira e suas mentes zumbiam de medo.
Permaneceram voando por mais algum tempo, imóveis contra a imensidão estrelada da Galáxia, também ela imóvel contra a imensidão do Universo. Depois fizeram meia-volta.
— Isso não pode ficar aí — disseram os homens de Krikkit enquanto navegavam para casa.
No caminho de volta entoaram diversas canções que ponderavam sobre paz, justiça, moral, cultura, esportes vida em família e o aniquilamento de todas as outras formas de vida.

Um comentário:

  1. Choque historico-cultural. Adeus outras formas de vida.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!