7 de dezembro de 2017

Capítulo 12

Pouco depois ele estava correndo pela planície em direção à cidade em ruínas. O ar úmido chiava em seus pulmões e ele frequentemente tropeçava de cansaço. A noite também estava começando a cair, e o chão áspero era traiçoeiro.
A exaltação de sua experiência recente ainda estava com ele, no entanto. Todo o Universo. Tinha visto todo o Universo estender-se ao infinito à sua volta — tudo. E com isso viera o conhecimento claro e extraordinário de que ele era a coisa mais importante de todas. Ter um ego convencido é uma coisa. Ser realmente informado por uma máquina é outra.
Não tinha tempo para refletir sobre o assunto.
Gargravarr lhe havia dito que teria que alertar seus superiores sobre o que acontecera, mas que estava disposto a deixar um intervalo decente antes de fazê-lo. Tempo bastante para que Zaphod pudesse encontrar um lugar para se esconder.
O que ia fazer ele não sabia, mas sentindo-se a pessoa mais importante do Universo, tinha confiança em crer que alguma coisa ia pintar.
Nada além disso naquele planeta empestado poderia lhe dar muita razão para otimismo.
Continuou correndo e logo atingiu a periferia da cidade abandonada. Andou por ruas tortuosas e destruídas, cobertas de ervas daninhas e sapatos em estado de putrefação. Os prédios por que ele passou estavam tão esfacelados e decrépitos que achou que não seria seguro entrar. Onde iria se esconder? Apressou-se. Depois de um tempo, os restos de uma ampla avenida surgiram, saindo da rua por onde ele vinha andando, e no fim dela havia um prédio baixo e vasto rodeado de vários outros menores, sendo o conjunto circundado por uma paliçada perimetral. O prédio principal parecia razoavelmente sólido, e Zaphod resolveu ir ver se ele poderia lhe servir... bem se poderia lhe servir de alguma coisa.
Aproximou-se do prédio. Ao longo de um dos lados — a frente, ao que tudo indicava, já que dava para um largo pátio de concreto — havia três portas gigantescas, com talvez trinta metros de altura. A mais distante estava aberta e Zaphod entrou por ela.
No interior tudo era escuridão, poeira e confusão. Gigantescas teias de aranha cobriam todas as coisas. Parte da infraestrutura do prédio tinha desabado, parte da parede dos fundos tinha desmoronado e uma grossa camada de poeira de vários centímetros de espessura cobria o chão.
Por entre a escuridão formas enormes erguiam-se envoltas em brumas, cobertas de escombros.
Essas formas eram ora cilíndricas, ora bulbosas, às vezes ovais, ou melhor, em forma de ovos quebrados. A maioria delas estava partida ao meio ou caindo aos pedaços, algumas eram meros esqueletos.
Eram todas naves espaciais abandonadas.
Zaphod perambulou frustrado por entre os destroços. Não havia ali nada que se aproximasse ainda que remotamente do aproveitável. Até uma simples vibração de um passo seu fazia aqueles destroços precários desabarem mais ainda.
Na direção dos fundos do prédio havia uma velha nave, um pouco maior que as demais, e mergulhada sob uma camada ainda mais espessa de pó e teias de aranha. Seu exterior, no entanto, parecia intacto. Zaphod aproximou-se com interesse, e ao fazê-lo, tropeçou numa linha de alimentação.
Tentou afastar o fio e, para sua surpresa, descobriu que ainda estava conectado com a nave.
Para seu total assombro, percebeu que a linha de alimentação estava fazendo um leve ruído.
Olhou para a nave, incrédulo, e então para o fio em suas mãos.
Arrancou o paletó e jogou fora. Engatinhando, seguiu o fio até o ponto onde ele se conectava com a nave. A conexão estava em bom estado e o som da vibração do fio era mais perceptível.
Seu coração batia acelerado. Limpou um pouco do encardido e encostou o ouvido contra a parede da nave. Ouviu apenas um barulho apagado e indeterminado.
Vasculhou fervorosamente os escombros que estavam no chão à sua volta e encontrou um pequeno pedaço de cano e um copinho de plástico não-biodegradável. Com isso montou um estetoscópio que colocou contra a parede da nave.
O que ele ouviu fez seus cérebros darem saltos mortais.
A voz dizia:
“As Linhas de Cruzeiro Transestelar gostariam de pedir desculpas aos passageiros pela demora em levantar voo. Estamos no momento à espera do embarque do nosso suprimento de lencinhos umedecidos de limão para seu conforto, frescor e higiene durante a viagem. Por enquanto agradecemos sua paciência. A tripulação estará brevemente servindo café e biscoitos outra vez”.
Zaphod deu um passo para trás olhando embasbacado para a nave.
Andou ao redor por alguns instantes, perplexo. Nisso deparou subitamente com uma gigantesca plataforma de embarque ainda suspensa, mas só por um suporte, no teto acima dele. Estava encardida, mas algumas das cifras ainda podiam ser discernidas.
Os olhos de Zaphod investigaram as cifras e fizeram então uns breves cálculos. Arregalou os olhos.
— Novecentos anos... — murmurou para si mesmo. Isso era há quanto tempo a nave estava atrasada.
Dois minutos mais tarde ele estava a bordo.
Assim que passou pela cabine de descompressão o ar que o recebeu era fresco e agradável — o ar-condicionado ainda estava funcionando.
As luzes ainda estavam acesas.
Da pequena câmara de entrada saiu num corredor estreito e foi andando por ele nervosamente.
De repente uma porta se abriu e apareceu uma figura diante dele.
— Por favor, retorne ao seu lugar, senhor — disse uma aeromoça androide, que deu as costas para ele e prosseguiu pelo corredor.
Quando seu coração voltou a bater ele a seguiu. Ela abriu a porta no final do corredor e entrou.
Ele a seguiu porta adentro.
Estavam agora no compartimento de passageiros e o coração de Zaphod parou outra vez por um momento.
Em cada poltrona estava sentado um passageiro, atado a ela.
Os cabelos dos passageiros eram longos e despenteados; suas unhas, compridas; os homens tinham barba.
Todos eles estavam claramente vivos — mas dormindo.
Zaphod sentiu calafrios de horror.
Caminhou pelo corredor entre as poltronas como num sonho. Quando ele estava no meio do caminho a aeromoça tinha chegado ao fim. Ela virou e disse:
— Boa-tarde, senhoras e senhores — falou suavemente —, agradecemos pela compreensão desta leve demora. Levantaremos voo assim que pudermos. Se acordarem agora, servirei café e biscoitos.
Houve um breve resmungar. Nesse momento todos os passageiros acordaram. Acordaram berrando e tentando arrancar os cintos e equipamentos de segurança que os mantinham presos às poltronas. Gritaram, berraram e se esganiçaram até Zaphod achar que seus ouvidos iam explodir.
Bufavam e se contorciam enquanto a aeromoça pacientemente vinha pelo corredor colocando uma bandeja de café e biscoitos em frente a cada um deles. Então um deles ergueu-se de sua poltrona. Virou-se e olhou para Zaphod.
A pele de Zaphod parecia querer sair-lhe do corpo. Ele também se virou e saiu correndo da confusão.
Atravessou a porta e voltou ao outro corredor. O homem o perseguiu.
Correu num frenesi até o fim do corredor, atravessou a câmara de entrada e foi em frente. Chegou à cabine de comando, bateu e trancou a porta atrás de si. Apoiou-se na porta, ofegante. Em questão de segundos, alguém começou a bater à porta. De algum lugar na cabine de comando uma voz metálica o advertia.
— Os passageiros não têm permissão de permanecer na cabine de comando. Por favor, retorne ao seu assento e aguarde a decolagem. Café e biscoitos estão sendo servidos. Aqui quem fala é seu piloto automático. Por favor, retorne ao seu assento.
Zaphod não disse nada. Estava ofegante, atrás dele alguém continuava a bater à porta.
— Por favor, retorne ao seu assento — repetiu o piloto automático. — Os passageiros não têm permissão de permanecer na cabine de comando.
— Eu não sou passageiro — arquejou Zaphod.
— Por favor, retorne ao seu assento.
— Eu não sou passageiro! — gritou Zaphod mais uma vez.
— Por favor, retorne ao seu assento.
— Eu não sou... alô, está me ouvindo?
— Por favor, retorne ao seu assento.
— Você é o piloto automático? — perguntou Zaphod.
— Sou — disse a voz do painel de comando.
— É o encarregado desta nave?
— Sou — disse a voz novamente —, houve um atraso. Os passageiros devem ser mantidos entretidos para seu conforto e conveniência. Serve-se café e biscoitos a cada ano, após o quê os passageiros voltam ao entretenimento para seu conforto e conveniência. Decolaremos assim que os suprimentos de voo estiverem completos. Pedimos desculpa pela demora.
Zaphod afastou-se da porta, a que tinham parado de bater. Aproximou-se do painel de comando.
— Demora? — gritou. — Você viu o mundo do lado de fora desta nave? É uma terra perdida, um deserto. A civilização apareceu e se foi, cara. Não há lencinhos umedecidos em limão para chegar de lugar nenhum!
— Ao que indicam as estatísticas — prosseguiu o piloto automático empertigadamente —, outras civilizações hão de se formar. Um dia haverá lencinhos de papel umedecidos em limão. Até lá teremos uma pequena demora. Por favor, retorne ao seu assento.
— Mas...
Mas nesse instante a porta se abriu. Zaphod voltou-se para ver o homem que o perseguira. Estava carregando uma grande mala. Estava vestido com elegância e tinha os cabelos curtos. Não tinha barba nem unhas compridas.
— Zaphod Beeblebrox — disse ele. — Meu nome é Zarniwoop. Creio que você estava querendo me ver.
Zaphod Beeblebrox estremeceu. Suas bocas diziam frases desconexas. Caiu sentado numa cadeira.
— Cara, cara, de onde você apareceu, cara? — disse ele.
— Eu estava aqui a sua espera — disse, num tom de homem de negócios.
Largou a mala e sentou-se em outra cadeira.
— Estou contente que tenha seguido as instruções — prosseguiu. — Estava um pouco preocupado que você tivesse saído de meu escritório pela porta e não pela janela. Nesse caso você teria entrado numa enrascada.
Zaphod sacudiu as cabeças e balbuciou.
— Quando você entrou pela porta de meu escritório você penetrou em meu Universo sintetizado eletronicamente — explicou. — Se tivesse saído pela porta teria voltado ao real. O artificial é controlado daqui.
Deu uns tapinhas na mala.
Zaphod o observou com ressentimento e aversão.
— Qual é a diferença? — murmurou.
— Nenhuma — disse Zarniwoop —, são idênticos. Oh, exceto que os Lutadores Astrossapos são cinza-claro no Universo real, se não me engano.
— O que está acontecendo? — bradou Zaphod.
— Simples — disse Zarniwoop. Sua autoconfiança e presunção faziam Zaphod ferver. — Muito simples — repetiu Zarniwoop —, descobri as coordenadas onde esse homem pode ser encontrado – o homem que rege o Universo – e descobri que seu planeta está protegido por um Campo de Improbabilidade. Para proteger meu segredo – e a mim – retirei-me à segurança deste Universo totalmente artificial e me escondi numa linha esquecida de cruzeiro. Estava em segurança. Enquanto isso, você e eu...
— Você e eu? — disse Zaphod furioso. — Quer dizer que eu te conhecia?
— Conhecia — disse Zarniwoop. — Nós nos conhecíamos bem.
— Eu não tinha bom gosto — disse Zaphod, e assumiu um silêncio emburrado.
— Enquanto isso, eu e você combinamos que você roubaria a nave movida a Improbabilidade Infinita – a única que poderia alcançar o mundo do regente do Universo – e a traria a mim aqui. Isto você fez agora, acredito, e lhe dou meus parabéns. — Dirigiu-lhe um sorriso firme que Zaphod gostaria de ter acertado com um tijolo.
— Ah, e caso você esteja querendo saber — acrescentou Zarniwoop —, este Universo foi criado especificamente para que você viesse a ele. Você é portanto a pessoa mais importante deste Universo. Você jamais — prosseguiu com um sorriso ainda mais tijolável — teria sobrevivido ao Vórtice de Perspectiva Total no Universo real. Vamos?
— Aonde? — disse Zaphod, emburrado. Sentia-se demolido.
— À sua nave. Coração de Ouro. Acredito que você a trouxe, não?
— Não.
— Onde está o seu paletó?
Zaphod o encarou, misticamente.
— Meu paletó? Eu o tirei, está lá fora.
Zarniwoop levantou-se e fez um gesto para que Zaphod o acompanhasse.
Na câmara de entrada, puderam ouvir os gritos dos passageiros sendo alimentados com café e biscoitos.
— Não vinha sendo uma experiência muito agradável esperar por você — disse Zarniwoop.
— Não muito agradável para você! — berrou Zaphod. — O que você acha...
Zarniwoop levantou um dedo pedindo silêncio enquanto abria a porta que dava para o exterior. A poucos metros dali acharam o paletó de Zaphod sobre os escombros.
— Uma nave muito notável e poderosa — disse Zarniwoop. — Observe.
Enquanto observavam, o bolso do paletó inchou subitamente. Rasgou-se e rompeu-se.
O pequeno modelo de metal do Coração de Ouro que Zaphod intrigara-se de achar no seu bolso estava crescendo.
Crescia, continuava a crescer. Após alguns minutos atingiu seu tamanho natural.
— A um Nível de Improbabilidade de... — disse Zarniwoop — de... ah, sei lá, mas algo muito alto.
Zaphod balançava.
— Quer dizer que eu a tinha comigo o tempo todo?
Zarniwoop sorriu. Pegou sua mala e abriu.
Girou um único botão dentro dela.
— Adeus, Universo artificial — disse. — Olá. Universo real.
O cenário diante deles desvaneceu vagamente c reapareceu exatamente como estava antes.
— Viu? — disse Zarniwoop. — Exatamente igual.
— Quer dizer — repetiu Zaphod por extenso — que eu a tinha comigo o tempo todo?
— Ah, sim — disse Zarniwoop —, claro. Essa era toda a questão.
— É o seguinte — disse Zaphod —, eu estou fora, daqui pra frente não conte comigo. Já tive o que queria com isso. Você brinque como quiser.
— Lamento, mas você não pode sair — disse Zarniwoop —, você está entrelaçado no Campo de Improbabilidade. Você não pode escapar.
Sorriu aquele sorriso que Zaphod desejara acertar e que desta vez acertou.

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