26 de dezembro de 2017

Capítulo 11

A primeira coisa que Arthur Dent precisava fazer — concluiu ele, resignado — era dar um jeito em sua vida. Para isso, precisava encontrar um planeta onde pudesse viver. De preferência, um planeta no qual pudesse respirar e ficar de pé ou sentado sem experimentar nenhum desconforto gravitacional. Também tinha de ser algum lugar onde os níveis de acidez fossem baixos e as plantas não atacassem as pessoas.
— Detesto soar antrópico — disse ele ao ser estranho que ficava atrás do balcão de atendimento no Centro de Aconselhamento de Realocação em Alpha Pintleton —, mas eu gostaria imensamente de morar em um lugar onde as pessoas se parecessem vagamente comigo também. Você sabe. Meio humanos.
O ser estranho atrás do balcão abanou as suas partes mais estranhas e pareceu um pouco surpreso com a declaração. Esvaiu-se e esparramou-se para fora do assento, pingando, arrastou-se pelo chão, ingeriu o velho arquivo de metal e então, com um arroto poderoso, excretou a gaveta desejada. Tentáculos cintilantes surgiram das suas orelhas, removeram algumas pastas da gaveta, sugaram-na novamente e depois a coisa vomitou o arquivo de volta em seu lugar. Arrastou-se pelo chão e agosmentou-se de volta em seu assento, jogando os arquivos sobre a mesa.
— Algum desses te interessa? — perguntou ele.
Arthur examinou ansiosamente uns pedaços de papel grudentos e úmidos.
Estava, definitivamente, em um lugar bastante atrasado da Galáxia, pelo menos no que dizia respeito ao universo que ele conhecia e reconhecia. No lugar onde deveria estar sua casa havia aquele grosseiro planeta putrefato, encharcado por chuva e habitado por escória e porcos do pântano. Nem mesmo o Guia do Mochileiro das Galáxias funcionava direito por lá, e por isso era obrigado a falar coisas como aquela em lugares como aquele. Sempre perguntava sobre Stavromula Beta, mas ninguém tinha ouvido falar desse planeta.
Os mundos disponíveis pareciam bastante desanimadores. Tinham pouco a lhe oferecer, uma vez que ele tinha pouco a lhes oferecer também. Sentia-se péssimo ao perceber que, embora viesse originalmente de um mundo com carros, computadores, balé e Armagnac, ele não sabia, por conta própria, como aquelas coisas funcionavam. Não era capaz de fazer nada daquilo. Sozinho, era incapaz de construir uma torradeira. O máximo que conseguia era fazer um sanduíche e olhe lá. Não havia muita demanda para os serviços que poderia prestar.
Arthur ficou arrasado. O que não deixou de surpreendê-lo, porque achava que já estava no fim do poço. Fechou os olhos por um instante. Queria tanto estar em casa. Queria tanto que seu mundinho, a  Terra onde crescera, não tivesse sido demolida. Gostaria tanto que nada daquilo tivesse acontecido. Queria tanto abrir os olhos e estar de pé na entrada de sua casa na região oeste da Inglaterra, com o sol brilhando sobre as colinas verdejantes, o carro dos correios subindo a rua, os narcisos florescendo no seu jardim e, ao longe, o pub abrindo para o almoço. Queria tanto poder ir até o pub para ler o jornal bebericando uma cerveja. Fazer uma palavra-cruzada e ficar empacado no quadrinho 17 diagonal.
Abriu os olhos.
O ser estranho estava pulsando irritado sobre ele, batucando uma espécie de pseudópode na mesa. Arthur balançou a cabeça e olhou para a folha de papel seguinte.
Deprimente, pensou ele. Olhou a próxima. Deprê total. Próxima.
Opa... Aquilo sim parecia bem melhor.
Era um mundo chamado Bartledan. Tinha oxigênio. Colinas verdejantes. Tinha inclusive, ao que parecia, uma renomada cultura literária. Mas o que mais despertou a sua atenção foi a fotografia de um pequeno grupo de bartledanianos, em uma praça, sorrindo alegremente para a câmera.
— Ah — disse ele, mostrando a fotografia para o ser estranho atrás do balcão.
Os olhos dele se estenderam na ponta de um pedúnculo e melaram o papel, deixando um rastro viscoso sobre ele.
— Sim — respondeu ele, enojado. — Eles realmente se parecem com você.
Arthur se mudou para Bartledan e, usando uma parte do dinheiro que conseguira vendendo pedacinhos de unha do pé e saliva para um banco de DNA, comprou um quarto na cidade que vira na foto. Era um lugar agradável. O ar era perfumado. As pessoas se pareciam com ele e não demonstravam se incomodar com a sua presença. Não o atacaram com nenhum objeto.
Comprou algumas roupas e um armário para guardá-las. Tinha encontrado uma vida. Agora precisava encontrar um propósito para ela.
Primeiro tentou sentar e ler. Mas a literatura de Bartledan, apesar de ser famosa naquele setor da Galáxia por sua sutileza e graça, não conseguia prender o seu interesse.
O problema é que, no fim das contas, não era sobre seres humanos. Não era sobre o que os seres humanos queriam. As pessoas em Bartledan eram incrivelmente parecidas com os humanos fisicamente, mas, quando você dizia “Boa tarde” para uma delas, ela ficava levemente espantada, cheirava o ar e dizia que provavelmente era uma tarde boazinha, já que Arthur havia mencionado o assunto.
— Não, eu quis apenas desejar uma boa tarde para você — diria Arthur, ou melhor, costumava dizer. Aprendeu rapidamente a evitar aquelas conversas. — Quis dizer que espero que você tenha uma boa tarde — acrescentava ele.
Mais espanto.
— Desejar? — perguntavam finalmente os bartledanianos, em um desconserto gentil.
— É... — teria então dito Arthur. — Estou apenas expressando a esperança de que você...
— Esperança?
— É.
— O que é isso?
Boa pergunta, pensava Arthur consigo mesmo e voltava para o seu quarto para pensar sobre coisas.
Por um lado, tinha de reconhecer e respeitar o que aprendera sobre a visão bartledaniana do universo, que consistia na ideia de que o universo era o que o universo era, ame-o ou deixe-o. Por outro lado, não podia deixar de achar que não desejar nada nem esperar nada simplesmente não era natural.
Natural. Essa era uma palavra complicada.
Há muito percebera que várias coisas que julgava naturais, como comprar presentes no Natal, parar no sinal vermelho ou despencar a uma aceleração de 9,75 m/s2, não passavam de hábitos do seu mundo e não funcionavam necessariamente da mesma maneira em outros lugares; mas não desejar nada — aquilo não podia ser natural, podia? Seria como não respirar.
Respirar era outra coisa que os bartledanianos não faziam, apesar de todo o oxigênio disponível na atmosfera. Simplesmente ficavam lá. Às vezes corriam para lá e para cá e jogavam netbol e coisas do gênero (sem jamais desejar ganhar, é claro — apenas jogavam e quem ganhasse ganhou), mas nunca respiravam de fato. Era, por algum motivo, desnecessário. Arthur aprendeu rapidamente que jogar netbol com eles era algo assustador. Embora eles se parecessem com os humanos e até mesmo se movimentassem como humanos, eles não respiravam e não desejavam coisas.
Respirar e desejar coisas, por outro lado, era tudo o que Arthur fazia o dia inteiro. Às vezes, desejava tanto as coisas que a sua respiração chegava a ficar ofegante e ele precisava se deitar e descansar um pouco. Sozinho. No seu pequeno quarto. Tão longe do mundo em que havia nascido que o seu cérebro mal podia processar as grandezas envolvidas sem ficar debilitado.
Preferia não pensar. Preferia ficar sentado, lendo — ou, pelo menos, preferiria se houvesse algo decente para ler. Mas, nas histórias bartiedanianas, ninguém jamais desejava coisa alguma. Nem mesmo um copo d’água. Certamente buscavam um quando estavam com sede, mas, se não tivesse algum disponível, não pensavam mais no assunto. Acabara de ler um livro no qual o personagem principal tinha, no período de uma semana, trabalhado em seu jardim, jogado bastante netbol, ajudado a consertar uma estrada, tido um filho com sua mulher e morrido de sede inesperadamente, um pouco antes do último capítulo. Exasperado, Arthur esquadrinhara o livro do início ao fim e acabou encontrando uma referência a algum problema no encanamento no capítulo dois.
Só isso. Então o cara morre. Acontece.
Não era sequer o clímax do livro, porque não havia clímax. O personagem morria a cerca de um terço do final do penúltimo capítulo e o resto do livro falava mais coisas sobre o conserto de estradas. O livro simplesmente acabava, do nada, na centésima milésima palavra, porque aquele era o tamanho limite dos livros em Bartledan.
Arthur atirou o livro na parede, vendeu o quarto e foi embora. Começou a viajar com um descaso rebelde, trocando mais saliva, unhas do pé, unhas da mão, sangue e cabelo — ou qualquer coisa que alguém estivesse interessado em comprar — por passagens. Acabou descobrindo que, em troca de amostras de sêmen, era possível viajar até de primeira classe. Não parava em lugar nenhum e limitava a sua existência ao mundo hermético e indefinido das cabines de naves hiperespaciais, comendo, bebendo, dormindo, assistindo filmes, parando apenas em portos espaciais para doar mais DNA e pegar a próxima nave de longa distância. Esperava e esperava que algum outro acidente acontecesse. O problema em tentar fazer com que o acidente certo aconteça é que a coisa não funciona assim. Não é isso o que “acidente” quer dizer. O acidente que acabou acontecendo estava longe do que ele tinha planejado. A nave na qual estava viajando piscou no hiperespaço, oscilou pavorosamente entre noventa e sete pontos diferentes da Galáxia ao mesmo tempo, captou, em um deles, o puxão inesperado de um campo de atração gravitacional de um planeta fora do mapa, foi capturada em sua atmosfera externa e começou a cair, rasgando-se com um ruído estridente dentro dele.
Os sistemas da nave afirmaram o tempo todo, enquanto caíam, que tudo estava perfeitamente normal e sob controle, mas quando ela entrou em um último giro violento, cortando furiosamente um quilômetro de árvores antes de finalmente explodir em uma bola ardente de fogo, ficou claro que a coisa não era bem assim.
O fogo lambeu a floresta, fervendo a noite inteira, depois tratou de se apagar sozinho, como todos os incêndios não programados acima de uma certa extensão agora têm obrigação legal de fazer. Após isso, durante algum tempo, incêndios menores despertaram aqui e ali, enquanto peças diversas de escombros dispersos explodiam calmamente, cada uma a seu tempo. Depois isso também acabou.
Arthur Dent, graças ao total enfado dos infindáveis voos interestelares, era o único passageiro a bordo que realmente se familiarizara com os procedimentos de segurança da nave em caso de uma aterrissagem forçada e, portanto, foi o único sobrevivente do desastre. Estava zonzo, com alguns ossos quebrados e sangrando, em uma espécie de casulo cor-de-rosa fofinho com as palavras “Tenha um bom dia” estampadas em mais de três mil línguas diferentes.
Silêncios negros e estrondosos nadavam nauseantes em sua mente despedaçada. Sabia, com uma espécie de certeza resignada, que iria sobreviver, porque ainda não havia estado em Stavromula Beta. Após o que pareceu uma eternidade de dor e escuridão, percebeu sombras discretas movendo-se à sua volta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!