17 de dezembro de 2017

Capítulo 11

— Chuvas de abril, essas são especialmente detestáveis.
Apesar dos grunhidos evasivos de Arthur, o homem parecia determinado a conversar com ele. Chegou a pensar em levantar-se e ir para outra mesa, mas aparentemente não havia uma única mesa vazia no restaurante. Mexeu o seu café, irritado.
— Malditas chuvas de abril. Detesto, detesto, detesto.
Arthur estava olhando fixamente para fora da janela, franzindo a testa. Uma chuva fininha e ensolarada pairava sobre a estrada. Fazia dois meses que ele voltara para casa. Retomar a sua vida havia sido ridiculamente fácil. As pessoas tinham uma memória incrivelmente curta, inclusive ele. Oito anos de perambulações malucas pela Galáxia agora lhe pareciam não como uma espécie de pesadelo, mas como um filme gravado na tevê que ele deixara esquecido atrás de um armário, sem a menor vontade de assistir.
Um efeito que ainda permanecia, porém, era a sua alegria por estar de volta. Agora que a atmosfera da Terra havia se fechado de vez sobre a sua cabeça, pensou ele, completamente enganado, tudo no planeta lhe proporcionava um extraordinário prazer. Olhando o brilho prateado dos pingos chuva, sentiu-se na obrigação de discordar.
— Bem eu gosto delas — disse, de repente —, e por vários motivos. São leves e refrescantes. Cintilam e fazem a gente se sentir bem.
O homem bufou, debochado.
— É o que todos dizem — comentou, com a cara fechada, do outro canto na mesa.
Era um motorista de caminhão. Arthur sabia disso porque o comentário inicial e absolutamente espontâneo havia sido: “Sou motorista de caminhão. E detesto dirigir na chuva. Irônico, não é? Irônico pra cacete.”
Se havia uma conexão lógica oculta entre os dois fatos daquele comentário, Arthur não foi capaz de adivinhá-la e apenas resmungou de maneira afável, mas sem puxar papo.
Ainda assim, o homem não tinha parado de falar naquela hora e continuava falando agora.
— Sempre dizem a mesma coisa sobre as insuportáveis chuvas de abril — disse ele. — Tão insuportavelmente boas, tão insuportavelmente refrescantes, um clima tão insuportavelmente agradável.
Inclinou-se para a frente, fazendo uma careta feia, como se estivesse prestes a dizer algo sobre o governo.
— O que eu quero saber é o seguinte: se o tempo vai ficar bom, por que — ele quase cuspiu — não pode ficar bom sem essa maldita chuva?
Arthur desistiu. Decidiu abandonar o seu café, que estava quente demais para ser bebido depressa e ruim demais para ser bebido frio.
— Bom, vejo que já está de saída — disse, levantando-se. — Tchau.
Deu uma parada na lojinha do posto de gasolina e depois atravessou o estacionamento, fazendo questão de desfrutar um pouco aquele agradável chuvisco no rosto. Havia até como pôde notar, um tênue arco-íris resplandecendo sobre colinas de Devon. Desfrutou aquilo também.
Entrou no seu velho mas amado Golf GTi preto cantando os pneus e seguiu, deixando para trás as ilhas de bombas de gasolina, em direção à estrada de acesso, de volta à rodovia principal.
Estava enganado ao pensar que a atmosfera da Terra havia finalmente se fechado, e se fechado para sempre, sobre a sua cabeça.
Estava enganado ao pensar que algum dia seria possível deixar para trás a emaranhada teia de irresoluções para a qual as suas viagens galácticas o haviam arrastado.
Estava enganado ao pensar que podia esquecer que a Terra — imensa, sólida, oleosa, suja e pendurada em um arco-íris — na qual vivia não passava de um pontinho microscópico em um outro pontinho microscópico na infinitude inimaginável do Universo.
Continuou dirigindo, cantarolando, redondamente enganado sobre todas essas coisas.
O motivo pelo qual ele estava enganado estava parado na beira da estrada, cobrindo-se com um pequeno guarda-chuva.
O seu queixo caiu. Torceu o tornozelo contra o pedal do freio e derrapou tão violentamente que o carro quase capotou.
— Fenny! — gritou ele.
Tendo evitado por pouco não atingir a garota com o carro em si, atingiu-a com a porta do carro ao abri-la para que ela pudesse entrar. A porta bateu na mão da moça e fez com que deixasse cair seu guarda-chuva, que saiu rodopiando descontroladamente pela estrada.
— Merda! — gritou Arthur, enquanto saltava para fora do carro o mais gentilmente que podia, não sendo atropelado pelo “Fretes McKeena — Faça chuva ou faça sol” por um triz e assistindo, horrorizado, ele destruir o guarda-chuva de Fenny. O caminhão seguiu pela estrada, indiferente.
O guarda-chuva jazia como um pernilongo recém-esmagado, tristemente moribundo no chão. Pequenas rajadas de vento faziam com que ele estrebuchasse um pouco.
Arthur o apanhou.
— Ah — disse ele. Não fazia muito sentido oferecer aquela coisa de volta para ela.
— Como é que você sabe o meu nome?
— Ah, bem — disse ele. — Olha, eu compro outro para você...
Olhou para ela e ficou fraco.
Ela era alta, com cabelos negros caindo em ondas em volta do seu rosto pálido e sério.
Imóvel na beira da estrada, completamente sozinha, parecia quase lúgubre, como uma estátua de alguma virtude importante, mas pouco popular, em um jardim formal. Ela parecia estar olhando para outra coisa que não aquilo para o que ela parecia estar olhando.
Mas quando sorria, como naquele instante, era como se tivesse chegando de algum lugar.
Calor e vida inundavam o seu rosto e um movimento inacreditavelmente gracioso tomava o seu corpo. O efeito era muito desconcertante e desconcertou Arthur completamente.
Ela sorriu, jogou a sua bolsa no banco de trás e acomodou-se no banco do carona.
— Não se preocupe com o guarda-chuva — ela disse, entrando no carro. — Era do meu irmão e ele não devia gostar muito dele, do contrário não teria me dado. — Ela riu e colocou o cinto de segurança. — Você não é amigo do meu irmão, é?
— Não.
A voz dela era a única parte do todo que não dizia “Bom”.
A sua presença física dentro do carro, o seu carro, era algo extraordinário para Arthur.
Sentia, saindo devagarzinho com o carro que mal conseguia pensar ou respirar e esperava que nenhuma destas duas funções fosse vital para dirigir, senão estariam perdidos.
Então aquilo que sentira no outro carro, o do irmão dela, na noite em que voltara exausto e confuso dos seus anos de pesadelo nas estrelas, não havia sido um mero desequilíbrio momentâneo ou, se fosse, ele estava agora pelo menos duas vezes mais desequilibrado e muito propenso a despencar lá do lugar onde as pessoas bem equilibradas supostamente equilibravam.
— Então... — disse ele, esperando iniciar a conversa de maneira empolgante.
— Ele ficou de vir me buscar — o meu irmão — mas telefonou dizendo que não ia dar. Eu perguntei sobre os ônibus, mas ele começou a consultar o calendário em vez de uma folha com horários; aí eu decidi pedir carona. Então...
— Então...
— Então, aqui estou. E o que eu gostaria muito de saber é como você sabe o meu nome.
— Talvez fosse melhor decidirmos primeiro — disse Arthur, olhando para trás por cima do ombro, enquanto encaixava suavemente o seu carro no tráfego da estrada — para onde devo levar você.
Para muito perto, torceu ele, ou para muito longe. Perto significaria que eram praticamente vizinhos e longe significaria que poderia levá-la até lá de carro.
— Eu gostaria de ir para Taunton — ela disse -, por favor. Se estiver tudo bem pra você. Você pode me deixar no...
— Você mora em Taunton? — perguntou ele, esperando ter conseguido parecer meramente curioso, e não extasiado. Taunton era divinamente perto da sua casa. Ele podia...
— Não, eu moro em Londres — disse ela. — Tem um trem saindo em menos de uma hora.
Era a pior coisa possível. Taunton ficava a apenas alguns minutos dali. Perguntou-se o que faria e, enquanto estava ocupado se perguntando, para o seu horror ouviu-se dizendo:
— Ah, eu posso te levar até Londres. Deixe-me levar você até Londres...
Que trapalhão idiota. Por que diabos havia dito “deixe-me” daquele jeito ridículo? Estava se comportando como um garoto de doze anos.
— Você está indo para Londres? — perguntou ela.
— Não estava, não — disse ele -, mas...
Que trapalhão idiota.
— É muita gentileza sua, mas é melhor não. Eu gosto de viajar de trem. — E, de repente, ela se foi. Ou melhor, a parte dela que a trazia à vida se foi. Ela ficou olhando para fora da janela de uma maneira muito distante e cantarolando baixinho para si mesma.
Ele não conseguia acreditar.
Trinta segundos de conversa e já conseguira estragar tudo.
Homens adultos, explicou para si mesmo, em total contradição com séculos de evidências acumuladas sobre a maneira como os homens adultos se comportam, não se comportavam assim.
Taunton 8 km, dizia a placa.
Agarrou o volante com tanta força que o carro chegou a balançar. Tinha que fazer algo drástico. 
— Fenny — disse.
Ela se virou bruscamente para ele. — Você ainda não me disse como é...
— Escuta — disse Arthur -, eu vou te contar, embora a história seja meio estranha. Muito estranha.
Ela estava olhando para ele, em silêncio.
— Escuta...
— Você já disse isso.
— Disse? Ah. Tenho que conversar com você sobre umas coisas, coisas que você precisa saber... uma história que eu preciso te contar, mas... — Estava desesperado. Queria algo no gênero “dividiria os emaranhados cachos de tua cabeleira e cada um de teus cabelos se levantaria em separado com cabelos de um porco-espinho assustado”, mas achava não ia chegar lá e, além disso, não gostava da referência ao porco-espinho.
— ...mas levaria mais do que oito quilômetros — disse ele afinal, embora fosse uma frase meio tosca.
— Bem...
— Supondo, apenas supondo — não sabia o que viria a seguir então decidiu relaxar e ouvir -, que você fosse, de alguma maneira extraordinária, muito importante para mim e que embora você não soubesse disso, eu fosse muito importante para você e que tudo isso se perdesse nas nossas vidas porque só tivemos oito quilômetros e eu sou um completo imbecil quando se trata de dizer algo muito importante para alguém que eu acabei de conhecer sem bater em caminhões ao mesmo tempo, o que você acha — ele parou, desamparado, e olhou para ela — que eu deveria fazer?
— Olhar para a frente! — gritou ela.
— Merda!
Por pouco não bateram na lateral de cem máquinas de lavar italianas que um caminhão alemão transportava.
— Eu acho — disse ela, com um breve suspiro de alívio — que devíamos tomar um drinque antes do meu trem partir.

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