14 de dezembro de 2017

Capítulo 11

Estompe, estompe.
R-r-r-r-rrr.
— É um prazer servi-lo.
— Cale-se.
— Obrigado.
Estompe estompe estompe estompe estompe.
R-r-r-r-rrr.
— Obrigado por tornar uma simples porta muito feliz.
— Espero que seus diodos enferrujem.
— Obrigado. Tenha um bom dia.
Estompe estompe estompe estompe.
R-r-r-r-rrr.
— É um prazer abrir para você...
— Vá se zarcar!
— ... e uma grande satisfação fechar de novo, com a consciência de um trabalho bem-feito.
— Já disse para se zarcar!
— Obrigado por ouvir esta mensagem.
Estompe estompe estompe estompe.
— Uop.
Zaphod parou de estompear. Estava estompeando pela Coração de Ouro há dias e, até aquele momento, nenhuma porta tinha dito “uop” para ele. Na verdade, estava bem certo de que nenhuma porta teria dito “uop” agora. Portas, em geral não dizem algo assim. É muito conciso. Além disso, não havia portas suficientes.
Soou como se 100 mil pessoas tivessem dito “uop”, o que o deixava intrigado, já que era a única pessoa na nave.
Estava escuro. A maioria dos sistemas não-essenciais da nave estavam desligados. Ela estava à deriva em uma área remota da Galáxia, no mais negro nanquim do espaço. Então como 100 mil pessoas iriam até lá para dizer um “uop” totalmente inesperado?
Olhou em volta, para um lado e para o outro do corredor. Tudo estava envolto em trevas. Havia apenas os contornos rosados e fracamente iluminados das portas, que brilhavam no escuro e pulsavam sempre que elas falavam, apesar de tudo que ela já tinha tentado para impedi-las.
As luzes estavam apagadas para evitar que suas cabeças pudessem olhar uma para a outra, porque nenhuma delas era uma visão particularmente atraente no momento, como já não eram desde que Zaphod cometera o erro de examinar sua alma.
Aquilo tinha sido um grande erro. Era tarde da noite, é claro.
Tinha sido um dia difícil, é claro.
Uma música suave estava tocando no som da nave, é claro.
Ele estava, é claro, ligeiramente bêbado.
Em outras palavras, todas as condições habituais que levam a um surto de exame da alma estavam presentes. Ainda assim, claramente havia sido um erro.
Andando agora, silencioso e solitário, no corredor sombrio, lembrou-se daquele momento e sentiu um frio na espinha. Uma de suas cabeças olhou para um lado, a outra para o outro, e cada qual decidiu que o lado oposto era o caminho a seguir.
Estava prestando atenção, mas não havia som algum.
Só tinha havido aquele “uop”.
Parecia uma viagem terrivelmente longa para trazer um número terrivelmente grande de pessoas para dizer uma única palavra. Ficou nervoso e começou a caminhar em direção à ponte. Ao menos lá se sentiria no controle da situação. Parou de novo. Da forma como se sentia agora, não achava que fosse uma pessoa muito adequada para estar no controle de nada.
Lembrando agora daquele momento, o primeiro choque tinha sido a descoberta de que ele realmente tinha uma alma.
De certa forma sempre presumira que tinha uma, já que parecia ter todas as outras coisas, e na verdade tinha até duas de algumas coisas, mas encontrar de fato aquela coisa escondida lá dentro dele havia sido um grande choque. E ter descoberto, em seguida (este foi o segundo choque), que sua alma não era a coisa fantástica que acreditava ter o direito natural de esperar, sendo um homem de sua posição, o havia chocado novamente.
Então havia pensado a respeito de qual era exatamente sua posição e o novo choque quase fez com que derrubasse seu drinque. Virou o copo rapidamente antes que algo sério pudesse acontecer à bebida. Em seguida tomou um outro drinque, para seguir o primeiro e verificar se estava tudo bem.
— Liberdade — disse em voz alta.
Naquele momento, Trillian apareceu na cabine de comando e disse várias coisas entusiásticas a respeito da liberdade.
— Não posso lidar com isso — respondeu ele, soturno, e enviou um terceiro drinque para averiguar por que o segundo ainda não havia enviado um relatório sobre a situação do primeiro. Olhou inseguro para as duas Trillians e concluiu que preferia a que estava à direita.
Jogou um drinque garganta abaixo pela outra garganta, penando que este iria encontrar o anterior na junção, onde ambos uniriam forças e fariam com que o segundo tomasse jeito.
Então os três partiriam em busca do primeiro, teriam uma boa conversa com ele e talvez cantassem um pouco também.
Estava em dúvida se o quarto drinque tinha entendido tudo aquilo, portanto mandou descer um quinto para detalhar o plano e um sexto para dar apoio moral.
— Você está bebendo muito — disse Trillian.
Suas cabeças colidiram enquanto tentavam reunir, em uma única pessoa, as quatro Trillians que estavam vendo. Acabou desistindo e olhou para a tela de navegação. Ficou espantado ao ver que havia um número fenomenal de estrelas.
— Diversão e aventura e coisas exóticas — murmurou.
— Olha — disse ela com uma voz simpática, sentando-se ao lado dele —, é compreensível que você se sinta um pouco vazio e desnorteado por algum tempo.
Espantou-se com ela. Nunca antes havia visto alguém se sentar em seu próprio colo.
— Uau — disse. E tomou outro drinque.
— Você completou a missão que te envolveu durante quatro anos.
— Ela não me envolveu. Eu procurei evitar ficar envolvido nela.
— Mesmo assim você a concluiu.
Ele resmungou. Aparentemente estavam dando uma grande festa em seu estômago.
— Acho que isso acabou comigo — disse. — Aqui estou, Zaphod Beeblebrox, e posso ir a qualquer lugar, posso fazer qualquer coisa. Tenho a melhor nave de todo o espaço, uma garota com quem as coisas parecem estar indo bem...
— Parecem?
— Até onde posso ver. Não sou especialista em relacionamentos pessoais...
Trillian levantou as sobrancelhas.
— Sou — prosseguiu Zaphod — um grande cara, posso fazer tudo que quiser, só que não tenho a menor ideia do que seja isto.
Fez uma pausa.
Uma coisa deixou de levar à próxima — em contradição com o que disse, tomou outro drinque e escorregou desajeitadamente de sua cadeira.
Enquanto ele dormia, Trillian pesquisou algumas coisas na cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias que havia na nave. O Guia tinha alguns conselhos a respeito de porres.
— Vá fundo — dizia o texto — e boa sorte.
Havia uma referência cruzada para o verbete que falava sobre o tamanho do Universo e como lidar com isso.
Então ela encontrou o verbete sobre Han Wavel, um exótico planeta turístico e um dos prodígios da Galáxia.

Han Wavel é um mundo constituído basicamente de fabulosos hotéis e cassinos ultraluxuosos. Todos formados por erosão natural, provocada pela chuva e pelo vento. As chances de que algo assim aconteça são mais ou menos de um sobre infinito. Pouco se sabe a respeito de como isso aconteceu porque nenhum dos geofísicos, estatísticos de probabilidade, meteoroanalistas ou bizarrologistas que gostariam muito de estudar o assunto podem se dar ao luxo de ficar lá.

Incrível, pensou Trillian, e em poucas horas a grande nave branca estava lentamente descendo do céu, iluminada por um sol quente e brilhante, em direção a um espaçoporto recoberto por areia colorida. A nave estava obviamente causando sensação na superfície e Trillian estava se divertindo com isso. Ouviu Zaphod se movendo e assobiando em algum lugar da nave.
— Como você está? — perguntou pelo intercomunicador.
— Bem — disse ele alegremente —, incrivelmente bem.
— Onde você está?
— No banheiro.
— Fazendo o quê?
— Ficando aqui.
Depois de uma ou duas horas tornou-se óbvio que ele realmente pretendia ficar por lá e a nave subiu novamente sem sequer abrir sua escotilha.
— Putz! — disse Eddie, o computador.
Trillian assentiu pacientemente, batucou com seus dedos algumas vezes e depois pressionou de novo o botão do intercomunicador.
— Acho que diversão obrigatória provavelmente não é algo de que você precise neste momento.
— Provavelmente não — retrucou Zaphod de algum lugar.
— Acho que uma boa atividade física ajudaria a tirar você de dentro de si mesmo.
— O que você achar eu também acho — respondeu Zaphod.
“Impossibilidades Recreativas” foi um tópico que chamou a atenção de Trillian quando, pouco depois, ela se sentou para dar outra lida no Guia. Enquanto a Coração de Ouro cruzava o espaço a velocidades improváveis em uma direção indeterminada, ela tomava uma xícara de algo impensável preparado pela máquina Nutrimática de bebidas e lia sobre como aprender a voar.
O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:
Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar.

O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar.
Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente.
A primeira parte é fácil.
Ela requer apenas a habilidade de se jogar para a frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer.
Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão.
Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força.
Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade.
Um dos problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto isso tudo irá doer se você deixar de errar.
É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular.
Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola.
Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração.
Balance e flutue, flutue e balance.
Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto.
Não ouça nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de útil.
Provavelmente dirão algo como: “Meu Deus, você não pode estar voando!”
É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.
Flutue cada vez mais alto.
Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois deixe-se levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.
NÃO ACENE PARA NINGUÉM.
Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir.
Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu voo, sua velocidade, como manobrar, etc. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural. Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar — e se atrapalhar feio — em sua primeira tentativa.
Há clubes privados de voo aos quais você pode se juntar e que irão ajudá-lo a atingir esse momento fundamental de distração. Eles contratam pessoas com um físico inacreditável — ou com opiniões inacreditáveis —, e essas pessoas pulam de trás de arbustos para exibir seus corpos — ou suas opiniões — nos momentos cruciais. Poucos mochileiros de verdade terão dinheiro para se juntar a esses clubes, mas é possível conseguir um emprego temporário em um deles.

Trillian leu isso tudo em detalhes, mas, relutantemente, decidiu que Zaphod realmente não estava no clima certo para tentar voar, ou para caminhar por montanhas, ou para tentar conseguir que um funcionário público de Brantisvogan aceitasse uma notificação de mudança de endereço — estas eram as outras coisas listadas sob o tópico “Impossibilidades Recreativas”.
Ela decidiu então levar a nave até Allosimanius Syneca, um planeta feito de gelo e neve, de uma beleza atordoante e um frio estonteante. A viagem das planícies nevadas de Liska até o pico das Pirâmides de Cristal de Gelo de Sastantua é longa e exaustiva, mesmo com esquis a jato e uma matilha de cães de neve de Syneca, mas a vista lá de cima, uma vista que abrange os Campos de Geleiras de Stin, as reluzentes Montanhas Prismáticas e as longínquas luzes de gelo, etéreas e dançantes, é algo que congela a mente e então, aos poucos, a liberta para horizontes de beleza até então nunca experimentados, e, pessoalmente, Trillian achava que se sentiria bem com essa coisa de ter sua mente libertada aos poucos para horizontes de beleza até então nunca experimentados.
Entraram em uma órbita baixa.
A beleza branco-prateada de Allosimanius Syneca desfilava abaixo deles.
Zaphod ficou na cama, com uma cabeça enfiada embaixo de um travesseiro enquanto a outra montava quebra-cabeças até tarde.
Trillian assentiu pacientemente mais uma vez, contou até um número bem grande e depois disse a si mesmo que a coisa mais importante agora era fazer com que Zaphod falasse.
Tendo desativado todos os robôs sintomáticos da cozinha, preparou a refeição mais fantasticamente deliciosa que ela podia conceber — carnes sutilmente untadas, frutas perfumadas, queijos de aromas delicados e vinhos finos de Aldebaran.
Levou a comida até Zaphod e perguntou-lhe se gostaria de conversar.
— Vá se zarcar! — foi a resposta.
Trillian assentiu pacientemente para si mesma, contou até número muito maior que o anterior, colocou suavemente a bandeja de lado, foi até a sala do transporte e teleportou-se para fora daquela vida idiota dele.
Ela sequer programou as coordenadas. Não tinha a menor ideia para onde estava indo, apenas foi — uma fileira de pontinhos flutuando aleatoriamente pelo Universo.
— Qualquer coisa — disse para si mesma ao sair — é melhor que isto.
— Também acho — murmurou Zaphod para si mesmo, depois virou-se e fracassou completamente em dormir.
No dia seguinte, ele andou inquieto pelos corredores na nave, fingindo não estar procurando por ela, apesar de saber que não estava mais lá. Ele ignorou as perguntas insistentes do computador a respeito do que estava acontecendo por lá e acabou conectando uma mordaça eletrônica num par de terminais.
Depois de um tempo, começou a desligar as luzes. Não havia nada para ser visto. Nada iria acontecer.
Deitado na cama, uma noite — e a noite agora era contínua na nave —, decidiu tomar jeito e colocar as coisas em perspectiva. Com um movimento rápido, sentou-se e começou a vestir as roupas. Decidiu que, em algum lugar do Universo, deveria haver alguém se sentindo mais desprezível, miserável e abandonado do que ele mesmo e estava determinado a encontrar essa pessoa.
A meio caminho da ponte ocorreu-lhe que poderia ser o Marvin. Então voltou para a cama.
Foi algumas horas depois, enquanto estompeava desconsolado através dos corredores escuros xingando as portas alegres, que ele ouviu dizerem “uop”, coisa que o deixou bem nervoso.
Encostou-se, tenso, contra a parede do corredor e franziu o cenho como alguém que tentasse endireitar um saca-rolhas por telecinesia. Pressionou a ponta de seus dedos contra a parede e sentiu uma vibração incomum. Além disso, agora podia ouvir claramente leves ruídos e também podia ouvir de onde estavam vindo — era da ponte.
— Computador? — sussurrou.
— Mmmm? — respondeu o terminal mais próximo, também sussurrando.
— Há mais alguém nesta nave?
— Mmmmmm — disse o computador?
— Quem é?
— Mmmmmm mmmm mm mmmmmmmm.
Zaphod enfiou uma de suas caras em duas de suas mãos.
— Por Zarquon — murmurou. Então olhou pelo corredor na direção da entrada da ponte, meio distante, da qual ruídos mais sugestivos estavam vindo e onde estavam situados os terminais amordaçados.
— Computador — murmurou de novo.
— Mmm?
— Quando eu retirar a mordaça...
— Mmm.
— ... me lembre de dar um soco em minha própria boca.
— Mmmm mmmmm?
— Qualquer uma. Me diga apenas uma coisa. Uma vez significa sim, duas significa não. É algo perigoso?
— Mmm.
— É?
— Mmm.
— Você não disse “mmm” duas vezes agora?
— Mmm mmm.
Avançou lentamente pelo corredor, como se na verdade estivesse querendo sair correndo na outra direção, o que era verdade.
Estava a dois metros da porta para a ponte de comando quando percebeu, horrorizado, que ela iria ser gentil com ele.
Parou imediatamente. Não havia sido capaz de desligar os circuitos vocais de cortesia das portas.
A porta que levava à ponte estava fora do campo de visão de quem estivesse lá dentro, por conta da forma fascinantemente recurvada que usaram ao projetar a ponte.
Zaphod esperava poder entrar sem ser visto.
Desanimado, apoiou-se novamente contra a parede e disse algumas palavras que deixaram sua outra cabeça bastante chocada.
Deu uma olhadela para o contorno rosado da porta e descobriu que, na escuridão do corredor, podia entrever o tênue Campo Sensor que se estendia para fora, pelo corredor, e avisava à porta quando havia alguém para quem ela deveria se abrir e para quem ela deveria fazer uma alegre e agradável observação.
Pressionou o corpo com força contra a parede e foi se esgueirando em direção à porta, encolhendo o peito o máximo possível para evitar contato com o perímetro muito, muito fracamente iluminado do campo. Segurou a respiração e parabenizou-se por ter passado os últimos dias jogado na cama, em vez de tentar resolver seus problemas sentimentais na sala de musculação da nave.
Percebeu, então, que teria que dizer algo.
Respirou rapidamente algumas vezes e depois falou tão rápido e tão baixo quanto pôde:
— Porta, se você estiver me ouvindo, diga que sim o mais baixo que puder.
O mais baixo que pôde, a porta murmurou:
— Posso ouvi-lo.
— Bom. Preste atenção. Daqui a pouco, vou pedir que se abra. Quando se abrir, não quero que diga que você ficou feliz com isso, certo?
— Certo.
— E também não quero que me diga que eu tornei uma simples porta muito feliz, ou que é um prazer abrir para mim e grande satisfação fechar de novo, com a consciência de um trabalho bem-feito, certo?
— Certo.
— E não quero que me diga para ter um bom dia, entendido?
— Entendido.
— Certo — disse Zaphod, tensionando o corpo —, abra, agora.
A porta abriu-se em silêncio. Zaphod passou através dela em silêncio. A porta se fechou silenciosamente atrás dele.
— Era assim que o senhor queria, senhor Beeblebrox? — disse a porta em voz alta.
— Quero que imaginem — disse Zaphod para o grupo de robôs brancos que se viraram naquele momento para olhar para ele — que estou segurando uma pistola Zapogun extremamente poderosa.
O silêncio que veio a seguir era intensamente frio e selvagem. Os robôs o examinaram com olhos hediondamente mortiços. Mantiveram-se imóveis. Havia algo intensamente macabro em sua aparência, especialmente para Zaphod, que nunca havia visto um deles antes, nem sabia nada a respeito. As Guerras de Krikkit pertenciam ao passado antigo da Galáxia, e Zaphod havia gasto a maioria de suas aulas de história antiga elaborando um plano para transar com a garota que ocupava o cibercubículo ao lado.
Uma vez que o computador responsável por suas aulas era parte integral desse plano, ele eventualmente teve todos os seus circuitos de história apagados e substituídos por um conjunto completamente diferente de ideias. Como resultado isso, o computador foi desmontado e enviado para um abrigo para Cibertrastes Degenerados. Ele foi seguido pela garota, que havia inadvertidamente se apaixonado pela pobre máquina, coisa que, por sua vez, resultou em (a) Zaphod nunca ter conseguido nada com ela e (b) ele ter deixado de estudar um período de história antiga que teria um valor inestimável para ele naquele momento.
Zaphod olhou, chocado, para os robôs.
Era impossível explicar a causa, mas seus corpos brancos de curvas perfeitas e reluzentes, pareciam ser a mais perfeita incorporação de uma malignidade calculada e eficaz. Desde seus olhos hediondamente mortiços até seus poderosos pés sem vida, eram claramente o produto perfeito de uma mente que simplesmente desejava matar. Zaphod engoliu em seco tomado pelo medo.
Eles estavam desmantelando parte da parede traseira da ponte e haviam forçado passagem através de alguns dos pontos internos vitais da nave. Em meio ao emaranhado de peças, Zaphod podia ver, com uma sensação ainda maior e mais profunda de choque, que estavam criando um túnel em direção ao próprio núcleo da nave, o coração do Gerador de Improbabilidade que havia sido misteriosamente criado a partir do nada, o Coração de Ouro em si.
O robô que estava mais próximo olhou pra ele de uma forma que sugeria que estava medindo cada minúscula partícula de seu corpo, sua mente e suas habilidades. Quando falou, aquilo que disse pareceu transmitir exatamente isso.
Antes de seguirmos para a parte do que ele realmente disse, vale a pena registrar aqui que Zaphod era o primeiro ser orgânico a ouvir uma dessas criaturas falar em mais de dez bilhões de anos. Se ele tivesse prestado mais atenção em suas aulas de história antiga e menos em seu corpo orgânico, sem dúvida teria ficado mais impressionado com essa honra.
A voz do robô era como seu corpo: fria, perfeita e sem vida. Quase chegava a ter um verniz de elegância. Soava tão antiga quanto era.
Ele disse:
— Você de fato está segurando uma pistola Zapogun em sua mão.
Inicialmente, Zaphod não entendeu bem o que ele quis dizer, mas então olhou para sua mão e ficou aliviado ao perceber que aquilo que encontrara montado em um suporte na parede de fato era o que ele pensava ser.
— Sim — respondeu em um tom de alívio desdenhoso, o que é bem difícil —, bem, eu não quis exigir muito de sua imaginação, robô. — Durante algum tempo ninguém disse nada e Zaphod compreendeu que os robôs obviamente não estavam ali para conversar. Essa parte ficaria por conta dele. — Por acaso notei que vocês estacionaram a nave de vocês — disse, apontando com uma de suas cabeças na direção adequada — dentro da minha.
Não havia como negar isso. Sem o menor respeito por qualquer tipo de comportamento dimensional, haviam simplesmente materializado sua nave precisamente onde queriam que ela ficasse. Isso significava que estava entrelaçada através da Coração de Ouro como se não fossem nada além de dois pentes.
Novamente não responderam nada, e Zaphod pensou que a conversa poderia ganhar um pouco de dinamismo se ele transformasse as suas falas em perguntas.
— ... não é verdade? — acrescentou.
— Sim — respondeu o robô.
— Ah. Certo — disse Zaphod. — Então o que vocês, meus chapas, estão fazendo por aqui?
Silêncio.
— Robôs — disse Zaphod —, o que vocês estão fazendo por aqui?
— Viemos — respondeu o robô — em busca da Trave de Ouro.
Zaphod assentiu. Sacudiu a arma, indicando que gostaria de informações.
O robô pareceu entender o gesto.
— A Trave de Ouro é parte da chave que buscamos — prosseguiu — para libertar nossos Mestres de Krikkit.
Zaphod assentiu novamente. Sacudiu a arma de novo.
— A Chave — prosseguiu o robô, indiferente — foi desintegrada no espaço e no tempo. A Trave de Ouro está embutida no dispositivo que impulsiona sua nave. Será usada para reconstituir a Chave. Nossos Mestres serão libertados. O Reajuste Universal irá continuar.
Zaphod assentiu mais uma vez.
— Do que você está falando? — perguntou.
A face totalmente inexpressiva do robô pareceu ser atravessada por um leve pesar. Ele parecia estar achando aquela conversa deprimente.
— Aniquilação — disse. — Procuramos a Chave — repetiu — e já temos o Pilar de Madeira, o Pilar de Aço e o Pilar de Acrílico. Mais um pouco e teremos o Pilar de Ouro...
— Não, não terão.
— Teremos — declarou o robô.
— Não terão não. Ele faz minha nave funcionar.
— Mais um pouco — repetiu o robô, pacientemente — e teremos o Pilar de Ouro...
— Não terão — disse Zaphod.
— E depois temos que ir — disse o robô, absolutamente sério — a uma festa.
— Ah — disse Zaphod, surpreso. — Posso ir também?
— Não — disse o robô. — Vamos atirar em você.
— É mesmo? — disse Zaphod, sacudindo sua arma.
— Sim — disse o robô, e atiraram nele.
Zaphod ficou tão surpreso que tiveram de atirar de novo antes que ele caísse.

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