7 de dezembro de 2017

Capítulo 11

O Vórtice de Perspectiva Total desenvolve sua imagem do Universo como um todo a partir do princípio da análise extrapolada da matéria.
Explicando — uma vez que cada pedaço de matéria no Universo está de alguma maneira afetado por todos os outros pedaços de matéria do Universo, é teoricamente possível extrapolar o todo da criação — cada sol, cada planeta, suas órbitas, sua composição e sua história econômica e social a partir de, digamos, um pedaço de pão-de-ló.
O homem que inventou o Vórtice de Perspectiva Total fez isso basicamente para irritar sua mulher. Trin Tragula — esse era o nome dele — era um sonhador, um pensador, um filósofo especulativo ou, como sua mulher o definiria, um idiota.
E ela o apoquentava incessantemente por causa do tempo completamente fora de propósito que ele dedicava a observar o espaço, ou a meditar sobre o mecanismo dos alfinetes de segurança, ou a fazer análises espectrográficas de pedaços de pão-de-ló.
— Tenha um pouco de senso de proporção! — dizia ela, às vezes trinta e oito vezes em um só dia.
E então ele construiu o Vórtice de Perspectiva Total — só para mostrar para ela. E numa ponta ele ligou a totalidade da realidade, extrapolada de um pedaço de pão-de-ló, e na outra ponta ligou sua esposa: de modo que quando pôs a máquina para funcionar ela viu num instante toda a infinidade da criação e viu-se a si mesma em relação a isso.
Para horror de Trin Tragula o choque aniquilou completamente seu cérebro; mas para sua satisfação ele se deu conta de que tinha provado conclusivamente que se a vida há de existir num Universo deste tamanho, uma coisa que ela não pode ter é senso de proporção.
A porta do Vórtice abriu-se.
Gargravarr observava de sua mente sem corpo. Tinha gostado de Zaphod Beeblebrox de um modo bastante estranho. Era claramente um homem de muitas qualidades, mesmo sendo más em sua maioria.
Esperava que ele tombasse para fora, como todos.
Em vez disso, ele saiu andando.
— Oi! — disse ele.
— Beeblebrox... — arfou a mente de Gargravarr, maravilhada.
— Será que eu posso beber alguma coisa, por favor? — disse Zaphod.
— Você... você... esteve no Vórtice? — gaguejou Gargravarr.
— Você me viu, cara.
— E estava funcionando?
— Claro que estava.
— E você viu toda a infinidade da criação?
— Claro. Realmente, um lugar muito arrumado, sabe?
A mente de Gargravarr girava atordoada. Se seu corpo estivesse com ela, teria caído sentado de boca aberta.
— E você se viu — disse Gargravarr — em relação a tudo?
— Ah, vi, vi.
— Mas... o que você sentiu?
Zaphod deu de ombros, presunçosamente.
— Só vi o que sempre soube o tempo todo. Sou realmente um grande sujeito. Não disse, baby, eu sou Zaphod Beeblebrox!
Seu olhar passou pela maquinaria que fazia funcionar o Vórtice e parou subitamente, sobressaltado. Respirou pesadamente.
— Ei — disse —, aquilo é mesmo um pedaço de pão-de-ló?
Arrancou o pedaço de bolo dos sensores a que estava ligado.
— Se eu te dissesse o quanto eu estava precisando disso — falou vorazmente —, eu não teria tempo de comer.
Comeu.

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Boa leitura :)