26 de dezembro de 2017

Capítulo 10

Ford atirou-se contra a porta do escritório do editor-chefe, agachou-se, enrolado como uma bola, enquanto a porta cedia novamente.
Rolou rapidamente pelo chão até o sofisticado sofá de couro cinza e fixou a sua base operacional estratégica atrás dele. Esse, pelo menos, era o plano.
Infelizmente, o sofisticado sofá de couro cinza não estava lá.
Por que, perguntou-se Ford, enquanto dava cambalhotas no ar, cambaleava, se agachava e se atirava atrás da mesa de Harl para se proteger, as pessoas tinham aquela obsessão idiota de mudar a arrumação de seus escritórios a cada cinco minutos? Por que, por exemplo, trocar um sofá de couro cinza perfeitamente aproveitável, ainda que um pouco desbotado, por algo que mais parecia um pequeno tanque de guerra?
E quem era o sujeito grandão com um lançador de foguetes móvel apoiado no ombro? Algum membro da diretoria? Não podia ser. Estava na sala da diretoria. Pelo menos, na diretoria do Guia. De onde aqueles sujeitos da InfiniDim tinham vindo só Zarquon sabia. A julgar pela cor e textura de suas peles, que lembravam lesmas, não devia ser um lugar muito ensolarado. Estava tudo errado, pensou Ford. Pessoas ligadas ao Guia deviam vir de lugares ensolarados. Havia uma boa quantidade deles, na verdade, e todos pareciam estar com armamentos e escudos protetores mais pesados do que se esperava normalmente de executivos, mesmo no brutal mundo de negócios daqueles tempos.
Claro que quase tudo era apenas suposição. Estava supondo que aqueles sujeitos grandões, de pescoço largo e aparência de lesmas estavam de algum modo ligados à InfiniDim, mas era uma suposição bastante razoável e ele ficava contente com isso, uma vez que eles ostentavam emblemas em suas couraças onde se podia ler “Corporação InfiniDim”. Estava com uma incômoda suspeita, contudo, de que aquilo não era uma reunião de negócios. Também tinha a incômoda sensação de que aquelas criaturas lhe eram, de algum modo, familiares. Familiares de uma maneira nada familiar.
Bom, já estava no escritório há uns bons dois segundos e meio e achou que provavelmente fosse a hora de começar a fazer algo de construtivo. Podia tomar um refém. Era uma boa ideia.
Vann Harl estava em sua cadeira giratória, assustado, pálido e visivelmente abalado. Além da pancada na nuca, devia ter recebido alguma notícia ruim. Ford levantou-se num salto e correu para rendê-lo. Sob o pretexto de lhe aplicar uma boa e sólida chave de cotovelo, Ford conseguiu recolocar furtivamente o Ident-I-Fácil de volta no bolso interno do paletó de Harl.
Genial!
Acabara de fazer o que fora fazer.
Agora só precisava enrolar as pessoas para conseguir dar o fora.
— O.k. — começou ele. — Eu... — fez uma pausa.
O sujeito grandão com o lançador de foguetes virou-se na sua direção e apontou para ele, o que Ford não pôde deixar de considerar um gesto vastamente irresponsável.
— Eu... — recomeçou e, então, em um impulso repentino, decidiu se abaixar.
Um rugido ensurdecedor tomou conta do recinto, enquanto chamas saíam da parte de trás do lançador de foguetes e um foguete saía pela parte da frente.
O foguete passou direto por Ford e atingiu a enorme janela de vidro, que explodiu em uma chuva de milhares de cacos com a força da explosão. Grandes ondas de choque de barulho e pressão do ar reverberaram pelo recinto, sugando algumas cadeiras, um arquivo e Colin, o robô de segurança, para fora da janela.
Ahá! Então as janelas não eram totalmente à prova de foguetes, afinal, pensou Ford consigo mesmo. Alguém deveria conversar com outra pessoa sobre aquilo.
Desembaraçou-se de Harl e tentou descobrir para onde correr.
Estava cercado.
O sujeito grandão com o lançador de foguetes estava preparando a arma para um novo lançamento.
Ford não fazia a menor ideia de qual seria o seu próximo passo.
— Vejam bem — disse ele em uma voz severa. Não sabia ao certo aonde o fato de dizer coisas como “vejam bem” em uma voz severa iria levá-lo e não tinha tempo para descobrir. Que diabos, pensou, só se é jovem uma vez, e pulou pela janela. Aquilo manteria, no mínimo, o elemento surpresa a seu favor.

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Boa leitura :)