17 de dezembro de 2017

Capítulo 10

No terceiro bipe será uma hora... trinta e dois minutos... e vinte segundos.
— Bipe... bipe... bipe.
Ford Prefect sufocou um risinho de satisfação diabólica, percebeu que não tinha motivo para sufocá-lo e deu uma gargalhada bem alta, uma gargalhada perversa.
Alterou o sinal de entrada da Subeta Net para o sistema de som da nave e a estranha voz, um tanto afetada, cantarolou com extraordinária clareza na cabine.
— No terceiro bipe será uma hora... trinta e dois minutos... e trinta segundos.
— Bipe... bipe... bipe.
Ele aumentou um pouco o volume enquanto observava atentamente uma tabela de números que se alteravam rapidamente na tela do computador da nave. Considerando-se quanto tempo aquilo deveria durar, a questão do consumo de energia era importante. Não queria um assassinato pesando em sua consciência.
— No terceiro bipe será uma hora... trinta e dois minutos. — e quarenta segundos.
— Bipe... bipe... bipe.
Olhou em volta da pequena nave. Andou pelo pequeno corredor.
— No terceiro bipe...
Meteu a cabeça dentro do pequeno e funcional banheiro de aço cintilante.
— ...será...
Ouvia-se bem lá de dentro.
Verificou o minúsculo dormitório.
— uma hora... trinta e dois minutos...
O som estava um pouco abafado. Havia uma toalha sobre um dos alto-falantes. Ele tirou a toalha.
— ...e cinquenta segundos.
Agora, sim.
Checou o compartimento de cargas e não ficou nem um pouco satisfeito com o som.
Havia muita tralha encaixotada no caminho. Deu um passo para trás e esperou a porta se fechar sozinha. Forçou um painel de controle que estava fechado e apertou o botão de eliminação de carga. Não sabia como não tinha pensado nisso antes. Ouviu um turbilhão de ar acompanhado por alguns ruídos surdos que se transformou rapidamente em silêncio. Após uma pausa, um leve sibilar pôde ser ouvido novamente.
Parou.
Esperou a luzinha verde aparecer e então abriu novamente a porta do compartimento de carga, agora vazio.
— uma hora... trinta e três minutos... e cinquenta segundos.
Ótimo.
— Bipe... bipe... bipe.
Foi fazer então uma última verificação minuciosa na câmara de animação suspensa de emergência, que era onde estava especificamente interessado que a voz fosse ouvida.
— No terceiro bipe será uma hora... e trinta e quatro... em ponto.
Sentiu um calafrio ao espreitar, através da superfície incrivelmente congelada, a forma imprecisa da criatura lá dentro. Um dia, sabe-se lá quando, ela acordaria e, quando acordasse saberia as horas. Não seria exatamente a hora local, é verdade mas fazer o quê?
Verificou duas vezes a tela do computador sobre a cama de resfriamento, diminuiu as luzes e verificou novamente.
— No terceiro bipe será...
Saiu na ponta dos pés e voltou para a cabine de controle
— ...uma hora... trinta e quatro minutos... e vinte segundos.
A voz soava tão clara como se estivesse em um telefone em Londres, coisa que não estava, nem de longe.
Contemplou a noite escura. A estrela do tamanho de uma migalha brilhante de biscoito que conseguia ver lá longe era Zondostina ou, como era conhecida no mundo de onde vinha a voz afetada e cantarolante, Zeta de Plêiades.
A brilhante curva alaranjada que preenchia mais da metade da área visível era o gigante planeta gasoso Sesefras Magna, onde as naves de guerra xaxisianas atracavam e, logo acima do seu horizonte, via-se uma pequena lua azulada, Epun.
— No terceiro bipe será...
Durante vinte minutos ele ficou sentado, olhando enquanto a distância entre a nave e Epun diminuía, e o computador da nave arredondava e massageava os números que a aproximariam da órbita em torno da pequena lua, depois transformariam aquilo em uma órbita permanente, aprisionando e mantendo a nave ali, em perpétua obscuridade.
— uma hora... cinquenta e nove minutos...
O seu plano inicial tinha sido o de desligar todas as sinalizações e emissões de radiação externas da nave para deixá-la o mais invisível possível, a não ser que você estivesse olhando diretamente para ela, mas então teve uma outra ideia e e achou que era muito melhor. A nave agora emitiria um único feixe contínuo, tão fino quanto um lápis, transmitindo o sinal de tempo recebido para o planeta de onde o sinal se origina
O sinal levaria uns quatrocentos anos para chegar lá à velocidade da luz mas certamente causaria uma boa comoção quando finalmente chegasse.
— Bipe... bipe... bipe.
Riu baixinho.
Não gostava de pensar que era uma dessas pessoas que riem baixinho ou seguram o riso, mas tinha de admitir que estava rindo baixinho e segurando o riso sem parar havia mais de meia hora.
— No terceiro bipe...
A nave estava agora quase perfeitamente alinhada em sua órbita perpétua ao redor de uma lua pouco conhecida e jamais visitada. Quase perfeito.
Faltava só uma coisa. Acionou novamente no computador a simulação do lançamento da cápsula de fuga da nave, estimando ações, reações, forças tangenciais e toda aquela poesia matemática do movimento e viu que estava tudo o.k.
Antes de sair, apagou as luzes.
Quando a sua minúscula navezinha de fuga partiu zunindo no início de sua viagem de três dias até a estação espacial de Porto Sesefron, acompanhou por alguns segundos um longo feixe de radiação, fino como um lápis, que estava começando uma viagem muito mais longa.
No terceiro bipe serão duas horas... treze minutos... e cinquenta segundos.
Ele riu baixinho, segurando o riso. Gostaria de ter rido bem alto, mas não tinha espaço.
— Bipe... bipe... bipe.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!