14 de dezembro de 2017

Capítulo 10

O corpo de Arthur Dent girou.
O Universo se estilhaçou em um milhão de fragmentos reluzentes em volta dele e cada um dos cacos girou silenciosamente pelo vazio, refletindo em sua superfície prateada um único e causticante holocausto de fogo e destruição.
E então a escuridão por trás do Universo explodiu, e cada pedaço de escuridão era a furiosa fumaça do inferno.
E por trás da escuridão por trás do Universo irrompeu o vazio, e por trás do vazio por trás da escuridão por trás do Universo estilhaçado surgiu enfim a sombria figura de um homem imenso proferindo imensas palavras.
— Essas, então — disse a figura, sentada em uma cadeira imensamente confortável —, foram as Guerras de Krikkit, a maior devastação que já tomou conta de nossa Galáxia. O que vocês acabaram de vivenciar...
Slartibartfast passou flutuando e gesticulando.
— É só um documentário — gritou. — Essa não é a parte legal. Mil desculpas, estou procurando o botão de rewind...
— ... foi aquilo que bilhões de bilhões de inocentes...
— Em hipótese alguma — gritou Slartibartfast, flutuando para o outro lado e mexendo furiosamente na coisa que ele havia enfiado na parede da Sala de Ilusões Informacionais e que continuava enfiada lá — aceitem comprar o que quer que seja agora.
— ... pessoas, criaturas, seres semelhantes a vocês...
A trilha sonora cresceu. Também a música era imensa com acordes imensos. E por trás do homem, lentamente, três altos pilares começaram a emergir da névoa imensamente turbilhonante.
— ... vivenciaram ou, na maioria dos casos, não foram capazes de vivenciar até o fim. Pensem nisso, meus amigos. Não devemos nunca nos esquecer – e em breve irei sugerir uma forma de nos ajudar a lembrar para sempre disso – de que antes das Guerras de Krikkit a Galáxia era um lugar precioso e maravilhoso, uma Galáxia feliz!
A esta altura, a música estava transbordando de imensidão.
— Uma Galáxia feliz, meus amigos, representada pelo símbolo do Portal de Wikkit!
Os três pilares destacavam-se em primeiro plano agora, três pilares com duas traves colocadas horizontalmente sobre eles de uma forma que parecia estupendamente familiar para o cérebro aturdido de Arthur.
— Os três Pilares — disse triunfalmente o homem. — O Pilar de Aço, que representava a Força e o Poder da Galáxia!
Refletores foram acionados e dançavam loucamente para cima e para baixo do pilar da esquerda, claramente feito de aço ou algo muito parecido com aço. A música tonitruou estrondosamente.
— O Pilar de Acrílico — anunciou o homem — representando as forças da Ciência e da Razão na Galáxia.
Outros refletores se projetaram exoticamente sobre o pilar transparente à direita, gerando padrões deslumbrantes dentro dele e gerando também um súbito e inexplicável desejo de tomar sorvete no estômago de Arthur.
— E — bradou a voz — o Pilar de Madeira, representando... — nesse ponto sua voz tornou-se suavemente rouca e cheia de sentimento — as forças da Natureza e da Espiritualidade.
A luzes focaram o pilar central. A música ascendeu destemidamente ao reino da completa indescritibilidade.
— Entre elas estão apoiadas — retumbou a voz, próxima do auge — a Trave Dourada da Prosperidade e a Trave Prateada da paz!
Agora a estrutura inteira estava inundada por luzes deslumbrantes, e a música havia, felizmente, ultrapassado em muito os limites da compreensão. No topo dos três pilares estavam assentadas as duas traves lindamente reluzentes. Parecia haver garotas sentadas nelas, ou talvez fossem anjos. Anjos, contudo, geralmente são representados usando mais roupas.
Subitamente um silêncio dramático percorreu o que presumivelmente era o Cosmos, e as luzes diminuíram.
— Não há um único mundo — anunciou o homem, com voz de profundo conhecedor do assunto —, um único mundo civilizado em toda a Galáxia onde este símbolo não seja reverenciado até hoje. Mesmo nos planetas mais primitivos, ele persiste na memória coletiva. Foi isto que as forças de Krikkit destruíram e é isto que atualmente mantém seu planeta trancado até o fim da eternidade.
Com um floreio, o homem fez surgir em suas mãos um modelo do Portal de Wikkit. Era extremamente difícil ter uma noção de escala em meio àquele espetáculo extraordinário, mas o modelo parecia ter quase um metro de altura.
— Esta não é a chave original, é claro. Ela foi, como todos sabem, destruída, jogada nos turbilhonantes zéfiros do contínuo espaço-temporal e perdida para sempre. O que temos aqui é uma réplica minuciosa, feita à mão por hábeis artesãos, carinhosamente manufaturada usando antigos segredos para criar uma lembrança que vocês terão orgulho em guardar, uma lembrança em memória daqueles que caíram, um tributo à Galáxia – à nossa Galáxia – em defesa da qual deram suas vidas...
Slartibartfast flutuou novamente nesse ponto.
— Finalmente encontrei — disse. — Podemos passar todo esse lixo. Apenas não acenem, só isso.
— Agora, vamos inclinar nossas cabeças em pagamento — entoou a voz, antes de dizer tudo de novo, só que bem mais rápido e ao contrário.
As luzes dançaram, os pilares desapareceram, o homem tagarelou consigo mesmo retrocedendo no vazio e o Universo reconstruiu-se com um estalo em torno deles.
— Pegaram o sentido da coisa? — perguntou Slartibartfast.
— Estou estupefato — disse Arthur — e perplexo.
— Estava dormindo — disse Ford, que flutuou na frente deles naquele momento. — Perdi alguma coisa?
Encontraram-se mais uma vez cambaleando bem rapidamente na beira de um precipício aflitivamente alto. O vento varria seus rostos e percorria uma baía na qual os restos de uma das maiores e mais poderosas frotas de naves de guerra já reunidas na Galáxia estava velozmente se queimando de volta à existência. O céu era de uma cor rosa-acinzentada, passando depois para uma cor bastante peculiar e escurecendo até ficar azul e, finalmente, preto. Um turbilhão de fumaça subia com uma rapidez impressionante.
Os eventos agora retrocediam quase rápido demais para serem distinguidos e quando, pouco tempo depois, um imenso cruzador estelar afastou-se rapidamente deles, como se tivessem gritado “buuu”, só puderam reconhecê-lo porque haviam começado a assistir à projeção naquele ponto.
Agora as coisas passavam depressa demais, um borrão videotáctil que os sacudia e espanava através de séculos de história galáctica, girando, revirando, piscando. O único som era um pequeno sibilar trêmulo.
Periodicamente, em meio à crescente massa de eventos, podiam sentir catástrofes gigantescas, profundos horrores, choques cataclísmicos, todos eles sempre associados a algumas vagens recorrentes, as únicas imagens que surgiam claramente em meio à avalanche de história: um portal de wicket, uma bolinha vermelha e dura, robôs brancos e duros, além de uma outra coisa menos distinta, algo envolto em sombras e névoa.
Mas havia uma outra sensação que surgia claramente dessa estonteante passagem do tempo.
Assim como uma série de cliques, quando acelerados, perdem sua definição individual e, aos poucos, se tornam um tom uniforme e cada vez mais agudo, da mesma forma uma série de impressões individuais foi se transformando numa emoção prolongada que, ao mesmo tempo, não chegava a ser uma emoção. Se fosse uma emoção, era desprovida de qualquer emotividade. Era ódio, um ódio implacável. Era fria, não como o gelo, mas como uma parede. Era impessoal, não como um soco no meio de uma multidão é impessoal, mas como uma multa de estacionamento emitida por computador é impessoal. E era mortífera — novamente, não como uma bala ou uma faca, mas como uma parede de tijolos colocada no meio de uma autoestrada.
E, da mesma forma como um tom crescente irá mudar seu timbre e adquirir novos harmônicos conforme se torna mais agudo, assim também essa emoção não-emotiva pareceu crescer até tornar-se um grito insuportável, ainda que inaudível, e, subitamente, um grito de culpa e fracasso.
De repente, tudo parou.
Estavam de pé no topo de um monte numa tarde tranquila.
O sol estava se pondo.
Em volta deles o verde suave dos campos serpenteava gentilmente a perder de vista. Pássaros cantavam suas opiniões a respeito, que, no geral, pareciam ser boas. Um pouco mais ao longe podia-se ouvir o som de crianças brincando e, ainda mais ao longe que a aparente fonte deste som, podia-se ver, na primeira escuridão da noite, o contorno de uma pequena cidade. A cidade era formada por prédios baixos, feitos de pedra branca. Recortava o horizonte de forma suave.
O sol havia se posto quase totalmente.
Surgida do nada, uma música começou a tocar. Slartibartfast apertou um botão e ela parou.
Uma voz disse:
— Isso...
Slartibartfast apertou outro botão e a voz também parou.
— Eu mesmo vou lhes contar essa parte — disse, suavemente.
O lugar era pacífico. Arthur sentia-se feliz. Até mesmo Ford parecia alegre. Caminharam um pouco em direção à cidade. A Ilusão Informacional de grama era agradável e fofa sob seus pés, e a Ilusão Informacional de flores tinha uma fragrância doce.
Apenas Slartibartfast parecia estar apreensivo e aborrecido.
Ele parou e olhou para cima.
Arthur pensou subitamente que, como a parte onde estavam vinha no final, por assim dizer, ou, mais exatamente, no início de todo o horror que haviam acabado de presenciar de forma borrada, provavelmente algo profundamente desagradável estava para acontecer. Ficou transtornado ao pensar que algo de profundamente desagradável pudesse acontecer em um lugar tão idílico quanto aquele. Também olhou para cima. Não havia nada no céu.
— Eles não vão atacar aqui, vão? — disse. Sabia que estava apenas andando dentro de uma gravação, mas ainda assim ficou tenso.
— Nada vai atacar aqui — disse Slartibartfast com uma voz inesperadamente trêmula de emoção. — Foi aqui que tudo começou. Este é o lugar em si. O planeta Krikkit.
Olhou para o céu acima deles.
O céu, de um horizonte ao outro, de leste a oeste, de norte a sul, era total e completamente negro.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!